16 out
2011Manchete dominical global alienada
Cesar Fonseca em 16/10/2011

- Alienação total. A grande mídia anti-nacionalista brasileira tenta induzir subrepticiamente que gasto com o social é anti-investimento. Não entendeu nada até agora sobre a crise mundial. Não percebeu que o jogo não é cortar gastos para sobrar mais para os investimentos privados, mas, justamente, o contrário, trata-se de elevar os gastos e distribuir melhor a renda para se obter mais emprego, mais consumo, mais arrecadação, mais investimentos. Sem gastos sociais ampliados não haverá dinheiro para novos investimentos. É preciso assegurar o social para garatir o desenvolvimento econômico, já que investimento sem distribuição da renda representa crise de sobreacumulação e deflação. A manchete global reacionária representa equivoco aberrante. Ela reflete conteúdo que dá a entender que os investimentos ficam desprotegidos e prejudicados quanto mais se gasta com o social, quando a verdade é justamente o oposto.
O moralismo econômico e político neoliberal, apegado à pregação do equilibrismo orçamentário religioso como necessário à saúde da macroeconomia capitalista, para manter sob controle a inflação e estimular os investimentos, é, sobretudo, burro. Primeiro, porque equilibrio sob capitalismo é sonho de noite de verão. O sistema é, fundamentalmente, promotor do desequilíbrio. Sua principal função, para gerar lucro, é essa mesma, desequilibrar, a fim de elevar a taxa de retorno continuada e ampliada do capital. Quando essa reprodução ampliada não consegue mais ser realizada na produção, o capital descola dela e vai para a especulação, para fugir da deflação. Não é essa a expressão real da crise em curso em escala global, a partir da bancarrota financeiro-especulativa dos países ricos? Em segundo lugar, a ação compensatória do governo para conter esse desequilíbrio, dando dinheiro para quem fica excluído do sistema, para não morrer de fome, representa, essencialmente, a salvação do próprio sistema, cuja lógica é a de produzir crônica insuficiência de consumo que condena a si mesmo às crises deflacionárias, ou seja, à morte. Os programas sociais, segundo os neoliberais esquizofrênicos, representam custo, impedem, em contrapartida os investimentos etc. Tal afirmação não tem o menor sentido. Basta observar que cada R$ 1 gasto em comida pelo pobre que recebe o subsídio deixa no cofre do governo 40% de imposto. Se são R$ 114 bilhões os gastos governamentais totais anuais com os programas sociais, como destaca a alienada manchete de capa de O Globo, nesse domingo, o que o governo recebe de volta em forma de arrecadação é $ 45,6 bilhões! Com esse dinheiro cobre os investimentos da União de R$ 44 bilhões! Grande negócio: dar consumo aos pobres, para recolher tributo. Distribuir para arrecadar. Dar para receber. É dando que se recebe. Quem dá aos pobres empresta a Deus etc etc. Tudo na linha de São Francisco de Assis. É por isso que a arrecadação tem registrado recordes atrás de recordes, enquanto os neoliberais confundem esse movimento quantitativo com aumento de carga tributária. Santo aumento de arrecadação, pois é com ele que se obtém os recursos necessários para os investimentos indispensáveis em infraestrutura econômica. Por sua vez, essa infraestrutura em processo de construção expressa no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – sinaliza no médio e longo prazos relativo equilíbrio entre oferta e demanda, remédio capaz de combater pressões inflacionárias crônicas existentes no Brasil em decorrência da crônica fome dos miseráveis que antes atingiam quase 40 milhões de habitantes e que hoje estão comendo três pratos de comida por dia graças ao keynesianismo popular patrocinado pelos cofres públicos. Vale dizer, fonte inesgotável de arrecadação tributária. A cabeça da grande mídia brasileira tem sido martelada nos últimos trinta anos pela insistente “verdade” neoliberal segundo a qual gastos sociais são componentes do deficit público, que inibem os investimentos. Ocorre o contrário. Em vez de gasto, ao colocar dinheiro no bolso da mãe de família pobre para comprar comida para seus filhos, o governo concede renda disponível para o consumo que gera tributo, multiplicado, por sua vez, na circulação das mercadorias em suas diferentes etapas de realização no circuito econômico. Quando dona Maria tem seu poder de compra aquecido no cartão do Programa Bolsa Família e vai ao supermercado comprar uma lata de óleo de cozinha imediatamente tal movimento inicia processo de aquecimento econômico consequente. Se são 15 milhões de beneficiários do programa e cada família tem 5 membros que consomem cada qual, supostamente, 1 kilo de comida/dia, ao todo, tem-se 75 milhões de quilos/dia. A indústria tem que produzir, a agricultura é sinalizada para plantar, os agricultores acionam as montadoras, os caminhões para distribuir a comida seguem pelas estradas, abastecendo, gastando pneus, partes, peças e componentes, que agitam o comércio etc etc. Em todo esse movimento de circulação o governo , em cada etapa dela, abocanha 40% de imposto. Se ele dá 100 reais, arrecada, na hora, 40. Tem negócio mais rápido e melhor do que esse? Do consumidor para o comércio, 40%; do comércio para a indústria, 40%; da indústria para a agricultura, 40%; da agricultura para a distribuição, 40%. Ou seja, uma mercadoria, circulando quatro vezes na atividade produtiva, enche a burra governamental de forma espetacular.
Alienação neoliberal bancocrática

- Raul Velloso, economista especializado em contas públicas, só vê um lado da questão. Para ele, todos os gastos do governo com programas sociais significam deficits que impactam negativamente na economia. Visão meramente mecanicista. Não tem percepção do movimento dialético segundo o qual ao dar consumo o governo recebe arrecadação que aumenta os investimentos que move a economia, girando emprego, renda, consumo, arrecadação, investimento. O mecanicismo mental neoliberal vellosiano é a principal correia de transmissão ideológica desestruturante que faz a cabeça da grande mídia brasileira. Mesmo seus argumentos sendo relativizados na reportagem de O Globo pelos economistas Jorge Abrahão, do IPEA, e Marcelo Néri, da FVG, os editores deram preferência em carregar nas tintas sobre o argumento alienante do neoliberal, fazendo o jogo da bancocracia, que vê nos gastos com os programas sociais não o que eles realmente representam, ou seja, desenvolvimento com justiça social, sem os quais a inflação estaria caminhando para a hiperinflação. O Globo insiste em manter vivo os fantasmas neoliberais porta-vozes dos credores que temem a melhor distribuição da renda, que, efetivamente, remove os argumentos ideológicos segundo os quais mais salário mínimo significa prejuízo econômico. Sim, prejuízo para os bancos, mas lucro para a economia política.









