Guerra cambial desata luta ideológica

O desafio está lançado pela grande crise monetária em curso. Ou a América do Sul se une para defender suas riquezas, ameaçadas pela jogada monetária imperialista americana, ou continua agindo sob mentalidade colonialista, dirigida por discursos de fora para dentro, mantendo-a prisioneira das forças externas. Por que não dar o grito de independência econômica JÁ?

José Serra perdeu a guerra eleitoral, mas pode ter ganhado a paz, quando, durante o segundo turno, pregou união nacional para governar. É disso, realmente, que se trata, agora, para enfrentar a monumental crise do dólar que está em marcha, altamente, destrutiva. As democracias sul-americanas ainda são muito frágeis para suportar ataques monetários. Eles desorganizam a vida da sociedade. União nacional  é o jogo para evitar a desagregação geral. Eis o dilema: lançar forte o discurso socialista, para tentar derrubar o capitalismo, ou obedecer as divisões que as últimas eleições na América do Sul recomendam. Na Venezuela, a oposição cresceu; no Brasil, os estados mais ricos, ainda, estão, vamos dizer assim, nas mãos da burguesia. Os explorados, os nordestinos, no Nordeste, e os nordestinos, que estão fora do Nordeste, ganharam a maioria, mas a luta continua; na Argentina, ano passado, Cristina Kirchner perdeu maioria no parlamento. A América Central, por sua vez, vai de mal a pior, pois depende da saúde econômica americana para sobreviver. Cuba está jogando com a propriedade privada. O socialismo de estado puro, com partido único, dançou. Resta o nacionalismo público privado, que Lula tocou e Dilma promete continuar, como, também, tocam Hugo Chavez e Cristina Kirchner. Ou seja, nada revolucionário, mas evolucionário. A crise monetária, porém, cria situações revolucionárias e abre possibilidades antes não conhecidas, reanimando o espírito socialista.  Lênin, por exemplo, destacou que as crises monetárias são os principais combustíveis do movimento socialista internacional. Keynes, que estava em Moscou, em 1921, quando o líder soviético fazia essas pregações revolucionárias, voltou apressado para Londres. Recomendou a lorde George que imediatamente fosse desvalorizada a libra, igualzinho, ao que Barack Obama está fazendo nesse momento, ou seja, desvalorizando o dólar, para tentar salvá-lo. Keynes não foi ouvido por George e dançou na eleição, abrindo espaço para o Partido Trabalhista inglês. O fato é que Lênin tem razão. As moedas em desastre deixam de ser segurança. A grande crise de 2008 vai levando elas ao colapso. A guerra monetária global é a expressão acabada da bancarrota financeira americana. Tio Sam detonou, com a desvalorização mais acelerada do dólar, a terceira guerra mundial em marcha. Sai de baixo.

Entorpecimento popular

Hjalmar Schacht – ao lado de Hitler – viu com antecedência a ascensão do monstro nazi-fascistas nas águas da crise monetária dos anos de 1930 cujas consequências foram a segunda guerra mundial. Os perigos e a derrocada final do marco alemão são semelhantes aos que, agora, enfrentam o dólar sob Barack Obama, depois de reinar absoluto, imperialista, desde o final da segunda guerra mundial.

O povo ainda está meio besta diante da catástrofe, mas é , exatamente, isso que ocorre. As famílias, nas crises monetárias, sentem a sensação viva da queda do seu poder de compra. Daí a escutar líderes carismáticos é um pulo. Hitler nasceu nessa. O povo alemão, com a derrocada do marco, na década de 20, perdeu a referência do dinheiro, que foi jogado em excesso no mercado. Repeteco com o dólar, nesse instante. Ele jorra, agora, como, nos anos de 1920/30, ocorria com a moeda alemã. A dívida pública acabou explodindo. Como duvidar de que algo semelhante venha a repetir com o dólar? Nessa hora, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças de Hitler, em “Setenta e seis anos de minhas vida”, ocorre o estouro da boiada. O Danatbank estourou na Austria em 1932, por conta da guerra monetária , detonada pela crise de 1929. Os acontecimentos antecipados por Lenin entraram , como vulcões, em erupções, levando tudo de roldão. Tripliquem ou quadrupliquem o problema da década de 30, para se perceber o tamanho da bancarrota americana, que deixou Tio Sam falido, a partir de setembro de 2008. O jogo é de cachorro grande.

Muralha monetária

Os Estados Unidos querem compreensão do mundo para a jogada monetária salvacionista imperialista que estão promovendo. Seria, segundo Washington, o preço que todos passariam a pagar para garantir a recuperação americana, que, ao final, seria positiva para todo mundo. Mas, quem vai acreditar nessa miragem, Mister Obama?

Os países sul-americanos, nesse contexto, não se aguentam sozinhos. O individualismo econômico, principalmente, na periferia capitalista, tem pés de barro. Os sul-americanos terão que fazer o que já começam a realizar os países asiáticos, para tentarem, conjuntamente, se salvarem: a muralha monetária, como destacaram autoridades chinesas. Do contrário, não suportarão. Será a morte. A cartada de Tio Sam em desespero é loucura total. Veneno de cobra contra veneno de cobra. Homeopatia econômica global, depois que a alopatia entrou em colapso. O que valerão 600 bilhões diante de um PIB de 15 trilhões. Serão, certamente, necessárias mais injeções de dinheiro. Aguaceiro monetário. Como enxugá-lo? Com o juro zero ou negativo americano? Impossível. Exportando a moeda podre? Os russos concordarão. É o tema do G-20. A União Sul-Americana das Nações terá que entrar em campo para tentar conter Tio Sam que enlouqueceu. Por que não criar o Banco do Sul? Cada um dos treze sócios sul-americanos colocaria  20 bilhões, faz-se um caixa. Qual a garantia dessa moeda? A riqueza sul-americana, matérias primas, moeda valorizada, indispensáveis à manufatura global. O Banco Sul-Americano reciclaria dólares podres, para transformá-los, internamente, não em reservas, mas em investimento em patrimônio real. É o que fazem os chineses, detentores de grandes reservas em dólares, ameaçadas. Daí a pregação da muralha monetária. Se as reservas cambiais brasileiras de mais de 300 bilhões de dólares forem investidas na infra-estrutura nacional, em vez de candidatarem-se a desaparecer na sobredesvalorização em marcha da moeda americana, o Brasil seria ou não nova potência econômica, atuando, coordenadamente, com os sul-americanos, no ambiente do parlamento sul-americano, para ações consequentes às mudanças de clima econômico e político potencialmente explosivos que estão em marcha? O jogo do Itamarati no Governo Dilma tem de ser o de aprofundar as diretrizes da contrução sul-americana, para ancorar o discurso sul-americano na formulação do novo modelo monetário internacional. Na era do pós-dólar, a América do Sul terá que apitar forte.

PT-PMDB-PSDB

Aécio Neves vem com o peso de Minas Gerais, expressando o ponto de convergência política, para buscar uma unidade nacional, com Dilma, a fim de salvar o real da guerra monetária detonada por Washington, para salvar o dólar?

Nesse sentido, haverá, internamente, necessidade de maior unidade no discurso político, porque está em cena , como prioridade um, o problema nacional em sintonia total com o problema internacional. As contradições explodiram no plano das relações internacionais, em total descordenação, depois da jogada monetária agressiva americada nessa semana. Quando essas contradições globais se expressam como explosão das contradições nacionais que se exteriorizam, encavalando tudo, o barco, como destacou Marx, vira. Emerge era revolucionária. As crises monetárias são parteiras de revoluções. A tentativa unilateralista americana para se salvar do incèndio, incendiando, em contrapartida, os demais atores na cena global, é uma tese que já está produzindo antítese, cuja expressão são corridas monetarias competitivas. Se um desvaloriza, por que o outro continuará valorizado, se , nessa condição, não conseguirá vender sua mercadoria? A corrida cambial desvalorizativa poderá , portanto, produzir a síntese , como produto do choque entre a tese e a antítese: unidade política interna para brigar externamente pelo novo sistema monetário internacional. A presidente Dilma terá, portanto, que fazer o discurso que Serra pregou, da união nacional. Sozinha ou apenas com a sua base pode não dar conta do recado. Se seu governo derrapar, a oposição cresce, como, por exemplo, cresceu no governo Obama, levando-o à derrota eleitoral nessa semana. O jogo do senador Aécio Neves, destacando, desde já, que não fará com Dilma o que o PT fez com Fernando Henrique Cardoso, é o discurso mineiro da conciliação nacional velha de guerra. Mas, por ser velha, seria descartável ? Ou o velho discurso se renova no tempo, em meio às mudanças nas correlações de força? Se o real entrar em parafuso, por conta da crise monetária, Aécio não seria descartável por Dilma. Pintaria aliança extraordinária salvacionista PT-PMDB-PSDB? Afinal, se a moeda nacional vigente nasceu com Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, floresceu com Lula e corre perigo com Dilma, qual o interesse da oposição em destruir sua criação? Ovelha desgarrada, como diz o velho ditado, vira comida de onça quando a situação está preta, caso presente.

Nova cesta monetária

Jean Baptiste Colbert detonou guerras monetárias na época de Luíz XIV para deslocar os concorrentes espanhões, belgas e ingleses, a fim de buscar o predomínio internacional francês, na luta pela hegemonia mundial contra a Inglaterra, a raínha dos mares. O panorama no século 21 é , guardadas as proporções vigentes no século 18, a mesma, com as moedas brigando entre si, quando não há um equivalente ou se há não funciona, como é o caso do dólar, no momento

Provavelmente, não mais do que cinco moedas marcariam a nova cena pós-era do dólar. O dólar continuaria forte, mas não hegemônico; o euro seria mantido como fruto da força européia; a Ásia disporia do yen japonês e do yuan chinês, para se tornarem parceiros, como voz asiática; a Oceania , que já tem o dólar australiano como equivalente nas trocas internacionais, lutaria, pois a hora é de luta, para ter sua voz forte, e os árabes, que têm a riqueza do petróleo em mãos, batalhariam, também, para entrar no grupo forte. E a América do Sul, que dispõe das moedas mais fortes, suas matérias primas, fundamentais para sustentar a manufatura global, ficaria calada, subordinada, como, historicamente, se portou, ou vai aprofundar a defesa nacionalista, que leva a um câmbio nacionalista continental? Uma cesta de moeda é o discurso que ganhará força em Seul, na reunião do G-20, para tentar fugir do perigo da guerra monetária. Colbert, ministro de Luís XIV, conhece o assunto. Escreveu carta ao rei dizendo que havia promovido guerra monetária contra a Espanha e a Bélgica. Vangloriou-se de ter saído vitorioso e anunciou que a nova vítima seria a Inglaterra. “A dívida pública é o nervo vital da guerra”, disse. O que faz Obama , senão ativar esse nervo? A América do Sul, nova rica do mundo, que tem a faca e o queijo em suas mãos, vai encarar ou fugir do pau nessa briga de titãs?