De bandida a heroína no JN

Eis que de repente, não mais que de repente, como diria o poetinha Vinícius, ela de fera vira bela e se transforma no belo artístico superior ao belo natural, fazendo o poder midiático exercitar o mais fantástico puxa-saquismo jamais visto no panorama da comunicação. A essência contida na campanha eleitoral, transbordada em opiniões fortes que injetam o ânimo geral nas mulheres brasileiros, vira expectativa geral. O poder feminino entra em cena com tudo.

Aos pés da Santa Cruz, você se ajoelhou…. Não, não se trata do belo samba de Zé Gonçalves e Marino Pinto, na interpretação magistral de JG. William Bonner, apresentador do JN, nessa segunda, interpretrou Aos pés da Santa  Dilma. Ele e Fátima se ajoelharam e juraram um grande amor, mas cumprirão a jura?

O puxa-saquismo jornalístico global chegou ao auge no JN no dia seguinte ao da vitória da primeira presidente do Brasil. Bonner a recebeu de pé, extremamente cordial, como se buscasse conquistar uma cliente de altas proporcionalidades. Abriu-lhe os braços, estendeu-lhe as mãos e como extremo cortesão puxou-lhe a cadeira para o assento a fim de ser entrevistada diante dos milhões de telespectadores e telespectadoras. Mesuras, mesuras, mesuras.

De um lado, o poder global e sua representação em forma de Bonner. De outro, a nova presidente, a representação da maioria do povo brasileiro. Um poder à altura do outro poder, conversando em casa? “É –  como disse Bonner – um prazer a senhora vir à nossa casa. Consideramos como uma deferência”.

Em uma visita não se trata de jornalismo, mas de cordialidades….

A tentativa de informalidade total foi extremamente forçada como se estivesse o poder global recepcionando em um grande salão de festas e acontecimentos excepcionais um ser extra-terrestre. E mais, que esse ser extra-terrestre fosse apresentado ao público como alguém a quem o gesto de cordialidade global guardasse inteira receptividade do espírito cordial da entrevistada em igual proporção de identificação e deferência por estar ela pisando no palco do poder que tudo pode para formar a cabeça dos brasileiros.

Dilma teve o seu dia de raínha na Globo. Por essa razão, é quase uma questão de praxe que a classe política renda eternas deferências e  graças a esse poder. Tem sido assim. Continuará desse jeito com a primeira mulher presidente do Brasil?

O melhor governo, como diria Stanislaw Ponte Preta, é o próximo….

Como um lobo vestido de cordeiro, Bonner deu um beijinho simbólico nos pés da santa, que sofrera com as perguntas venenosas e ardilosas anteriormente dirigidas a ela por ele durante a campanha eleitoral, enquanto aliviava nos questionamentos o candidato da oposição, José Serra, levantando bolas para ele chutar.

No dia anterior, Dilma era tratada quase como uma bandida. Depois, da vitória virou heroína. Antes, a personagem era  vulgarizada na condição de ex-guerrilheira que combateu a ditadura militar, padrinha política, por sinal, da Rede Globo. Vendeu-se a imagem de um comportamento que não seria adequado como exemplo para a sociedade.

Obrigado pela deferência…

A construção da história real forçada pela necessidade de correção de uma visão distorcida, politicamente, construída, durante a campanha eleitoral, para dar conteúdo ao poder midiático global cuja essência não é investigar o poder, mas de tentar controlá-lo, enquanto se julga essencialmente infenso a qualquer controle para levar os governos aos rumos que mais lhe convier. Hoje, uma posição; amanhã, a negação do ontem. Dilma era o demônio guerrilheiro; hoje a heroína nacional.

Uma guerrilheira da liberdade recebeu, durante a campanha, a conotação de uma transgressora das leis. Fora tratada como que dotada de radicalismo inconstitucional que traria perigo para a Constituição, visto ser seu exemplo de guerrilheira incompatível com as instituições democráticas em vigor no país. Quis em determinado momento o poder global projetar no presente o passado manipulado para se faturar no futuro, que já começou na formação do novo governo.

Jamais havia sido tratada como rebelde por conta da reação patriótica contra a supressão da democracia. Antes, pelo contrário, teria sido uma transgressora marginal . Não seria, portanto, conveniente tê-la no comando político nacional.

Esforçaram-se os poderes midiáticos conservadores, ligados às forças econômicas e financeiras tradicionais, que sempre atuaram com o espírito de cúpula , no sentido de queimar a candidata ex-guerrilheira, apresentando-a como mau exemplo para as futuras gerações. Reconhecer seu papel histórico concreto e real seria plantar sementes de insubordinação social no espírito da juventude.

Conferiram uma imagem negativa para o passado de Dilma, durante a campanha eleitoral, como comprovaram as matérias publicadas pela Folha de São Paulo, que esteve, em 1964, ao lado dos ditadores que tocaram, segundo ela, uma ditabranda e não uma ditadura.

Pintaram-na de bagunceira, que teria assaltado, matado e trucidado. Os métodos guerrilheiros, pautados, na mentira como necessidade de sobrevivência, e na pouca transparência de ações determinadas por circunstâncas excepcionais, generalizaram-se como característica inata da personalidade da candidata que venceria a grande mídia. Não cuidaram das causas, mas da falsificação delas.

Bastou, no entanto, a vitória dilmista se consolidar, para o poder global virar-se pelo avesso e buscar contar a história da nova presidente não mais como uma bandida perigosa para as instituições democráticas, mas, justamente, o oposto, como verdadeira heroína, uma neo-Joana Darc, que entra para o panteão dando exemplo dignificante a ser ressaltado, certamente, nos livros educativos para o despertar da consciência nacional.

Estabelece-se, portanto, no ato da vitória de Dilma, uma reversão das escrituras sagradas da história, para demonstrar que jamais Dilma conspirou contra a democracia, mas, sim, lutou em favor dela para não vê-la morrer sob as botas dos ditadores.

Eu uso o poder

Sim, eu uso o poder. Eis a marca do tubarão da imprensa nacional que ergueu seu poder à sombra do regime militar ditatorial conferindo ao poder global a onipotência que julga dispor não apenas para noticiar mas principalmente controlar, a fim de exercitar o que considera liberdade de imprensa. Ser controlado, jamais. Seria tentativa de cercear sua atividade essencial.

O passado pintado pela grande mídia especulativa – que passa a fazer jornalismo puramente imaginativo, como verdade científica do imaginário jornalístico, a exemplo do comportamento anti-jornalístico da revista Veja, ao traçar perfil de Lula semelhante ao de Fidel Castro pela simples conclusão tirada de gestos aparentemente semelhantes apresentados pelos fotógrafos – bate de frente com um presente que o nega.

Trata-se do confronto entre o real e a distorção. Tentaram escrever a história maldita de Dilma como guerrilheira inconveniente à democrracia. Passam a ser obrigados a retratar a verdade que buscaram esconder como verdade democrática, a de se lutar pela afirmação da democracia.

Ao final , o cordeiro vestido de lobo perguntou à ovelha santa Joana Darc se ela manteria de pé a liberdade de imprensa, ou seja, a liberdade de constuir falsos fatos, como o de menosprezar as ações dos resistentes à ditadura, que a história ressaltaria como edificantes e não desestruturantes para a formação da consciência verdadeiramente democrática.

Para o poder global, faz-se indispensável que prevaleça os pressupostos inscritos no editorial da casa que foi expresso por William Waack, a propósito do que entende ser a liberdade de imprensa integral.

Diz ele ser ortodoxo e dogmaticamente radical contra qualquer tipo de controle do governo sobre a mídia, mas, inteiramente, a favor do controle da mídia sobre o governo. A mídia é uma grande indústria que terá que ser enquadrada num marco regulatório, pois, evidentemente, envolve-se no complexo da tecnologia de comunicação que precisará ser amplamente discutido para evitar a continuidade do oligopólio familiar midiático existente que Waack considera indispensável dispor do poder incontrastável de controlar o governo. Brincadeira de candidato a puxa saco permanente do poder midiático oligopolizado.

Falou em termos de poder. O chamado quarto poder, que vocaliza os interesses absolutamente conhecidos, na construção da história contemporánea capitalista, pode controlar, mas, jamais, ser controlado por outro poder.

Ocorre algo mais além do que essa formulação dogmática williamwaackiana a respeito do papel do jornalismo nas hostes do poder global. Ela guarda sintonia total com a famosa formulação maior proferida por Roberto Marinho, no auge do poder militar, quanto se transformou no porta-voz da didatura: “Sim, eu uso o poder”, como destaca, em seu livro “A história secreta da Rede Globo”, o jornalista Daniel Herz. A nova correlação de forças políticas que sai das urnas permitirá essa promulgação da liberdade total midiática sem respalto popular, mas, apenas, ancorada no capital?

Se o jogo da grande mídia, que se auto-intitula o quarto poder, é o de controlar o governo, tal controle, sabendo que a voz dela é a voz do capital, trata-se, essencialmente, de colocar o capital como o controlador das ações governamentais. Historicamente, a tradução desse controle é a manipulação do exercício do poder, de acordo com as vontades do quarto poder, o poder midiático.

A voz do dono

O apóstolo dogmático favorável ao controle do governo pela mídia é o inconsciente coletivo dos donos dela para manter as rédeas do estado com base na verdade do capital que expressa como empresa de informação, apresentada em seu caráter mecanicista partidário enquanto parte do todo com a visão parcial e não ampla, sem credibilidade, portanto, para ser imparcial, como, aliás, demonstrou na campanha eleitoral.

Waack, inteligente e articulado, durante a campanha eleitoral, em que a grande mídia exerceu a liberdade do capital, para inverter o conceito de patriotismo da guerrilheira Dilma, a fim de apresentá-lo como fator negativo e não positivo, emergiu como verdadeiro ideólogo dos interesses globais, para além do jornalismo investigativo.

Ao lado do jornalismo imaginativo de Veja, avançou, célere, o jornalismo de controle do poder governamental de Waack. Ou seja, algo que vai além da própria atribuição constitucional do poder legislativo e do poder judiciário relativamente ao poder executivo.

O legislativo legisla e fiscaliza; o judicário julga. Já o midiático, dogmaticamente, controla. E quem controla o controlador?

O dogmatismo, que, essencialmente, é religião, teria suas raízes fincadas, portanto, no abstrato, onde, naturalmente, as formulações religiosas dogmáticas tem o seu acabamento ideológico.

Como esperar da ausência do espírito crítico que confere característica ao poder dogmático abstrato a certeza de ser um honesto controlador que resiste a todo e qualquer controle como pressuposto de usa própria essência?

O poder global se autocandidata à falta de credibilidade quando diz que se serve – “em uso…”, como disse Marinho – do poder para alcançar a prática jornalística. Trata-se de uma formulação de função que essencialmente significa uma não-função.

A presidenta Dilma Rousseff, sem dúvida, deve ter saboreado o gosto de dispor do poder reservado aos vitoriosos da primeira hora. Eis possível armadilha para mostrar as conveniências de o lobo neste instante estar vestido de cordeirinho para clamar a liberdade de atuar sem ser desmascarado na sua construção da nova heroina nacional.

5 respostas para “De bandida a heroína no JN”

  1. òtimo e esclarecedor artigo. Parabéns e obrigada por colocar-nos a par de tantos fatos.
    MSilvaMello.

  2. Fantástica matéria!! Parabéns!!!
    O mais legal daquele dia no JN foi que a Dilma se portou com a elegância e fineza dos nobres e a generosidade dos humildes. Aí ela pode engolir todos os pretensos doutos da mídia global…
    Vamos divulgar esse texto

  3. grande texto, engraçado pois comentavamos isso, eu e minha mãe, ainda essa semana…abraços

  4. Interessante é podermos perceber que não importando o poder todos se colocam como consciência universal e falam em nome de um Deus, o deles é claro. Como diz o psicanalista e filósofo Norberto Keppe :”A doença é simplesmente a oposição ao bem, uma atitude contra a natureza divina. O ser humano não quer ser o que é (humano), caindo no não ser, que é o chamado mal. Devido à Teomania e Inversão, ele quer ser um deus criador, em lugar do verdadeiro, rejeitando sua natureza.” Como a verdadeira consciência universal permeia tudo e todos termina sempre fazendo acontecer aquilo que a humanidade precisa e necessita aprender. No momento teremos Dilma, vamos ver como Santa Dilma vai reagir às delícias do poder.

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