16 out
2010Brasil conservador
Ruy Fabiano em 16/10/2010

A questão religiosa, o aborto e, também, o homossexualismo tomaram conta da campanha eleitoral no segundo turno, passando por cima das questões econômicas, por meio das quais Dilma Rousseff pretendia pontificar, brandindo os excelentes resultados obtidos pelo Governo Lula, na economia, quando teve a ousadia de convocar a sociedade para enfrentar, por meio do consumo, estimulado por ações governamentais proativas, a grande crise global, alcançando tento extraordinário, que elevou o nome do Brasil à condição de emergente de sucesso. Mas eis que a infantilidade e a arrogância governistas se expõem em temas subjetivos por meio de um presunçoso programa de direitos humanos que imaginou estar o Brasil na vanguarda do comportamento social, ombreando com as sociedades avançadas. Ilusão. Ao contrário, como se verifica pela predominância do obscurantismo religioso na campanha eleitoral, o buraco é mais embaixo. Massacradas por uma estrutura econômica e social, ainda marcada pelo colonialismo, as mentes , em geral, são, extremamente, conservadoras e ligadas a um passado de misérias e submissões humanas, que a história, ainda, não superou. A oposição, explorando o assunto, na base da baixaria, porque eleição é um vale tudo eleitoral, escanteou a agenda que lhe desfavorecia, os temas econômicos, para abraçar outra, a obscurantista, que está lhe dando um excelente telhado, na utilização intensa da nova arma política, a internet. Belo artigo de Fabiano.(César Fonseca)

A questão religiosa, o aborto e, também, o homossexualismo tomaram conta da campanha eleitoral no segundo turno, passando por cima das questões econômicas, por meio das quais Dilma Rousseff pretendia pontificar, brandindo os excelentes resultados obtidos pelo Governo Lula, na economia, quando teve a ousadia de convocar a sociedade para enfrentar, por meio do consumo, estimulado por ações governamentais proativas, a grande crise global, alcançando tento extraordinário, que elevou o nome do Brasil à condição de emergente de sucesso. Mas eis que a infantilidade e a arrogância governistas se expõem em temas subjetivos por meio de um presunçoso programa de direitos humanos que imaginou estar o Brasil na vanguarda do comportamento social, ombreando com as sociedades avançadas. Ilusão. Ao contrário, como se verifica pela predominância do obscurantismo religioso na campanha eleitoral, o buraco é mais embaixo. Massacradas por uma estrutura econômica e social, ainda marcada pelo colonialismo, as mentes , em geral, são, extremamente, conservadoras e ligadas a um passado de misérias e submissões humanas, que a história, ainda, não superou. A oposição, explorando o assunto, na base da baixaria, porque eleição é um vale tudo eleitoral, escanteou a agenda que lhe desfavorecia, os temas econômicos, para abraçar outra, a obscurantista, que está lhe dando um excelente telhado, na utilização intensa da nova arma política, a internet. Belo artigo de Fabiano.(César Fonseca)
A pauta ideal de campanha não é a que partidos e candidatos estabelecem, mas a que o eleitor escolhe. Nesta eleição, prevalece, até aqui, acima de todos os temas, a chamada agenda religiosa.
Parcela ponderável (e respeitável) de analistas e cientistas políticos a considera uma agenda obscurantista. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, a chamou de “medieval”.
Em eleição, porém, discute-se para – e não com – o eleitor. Ele é o dono da jogada. Nenhum dos candidatos anteviu o afunilamento dos debates convergindo para um tema como o do aborto. Não era causa de ninguém, nem para defesa, nem para combate.
Mesmo a maior beneficiária da discussão, Marina Silva, do PV, sobre quem desembocaram os votos religiosos do primeiro turno, explorou a questão. Evitou-a sempre que abordada. É contra, mas convocaria um plebiscito para resolvê-la. Foi tudo o que disse, preocupada em afrontar a parcela progressista de seu eleitorado.
Chega-se ao segundo turno com o tema ainda pulsando, indiferentemente aos protestos de intelectuais e artistas. O que há, no entanto, por trás dele? Por que se tornou tão relevante saber se o candidato crê ou não em Deus, aprova ou não o casamento gay? Nenhum tema que brota espontaneamente da sociedade é irrelevante ou desprezível. Serve, quando nada, para mostrar seu perfil, inclinações, tendências e valores, até então ocultos.
E aí constata-se que não é apenas no campo econômico que há disparidades profundas entre as classes sociais no Brasil. Também no campo dos valores e do pensamento. Aborto, casamento gay e outros itens da agenda comportamental da esquerda, que o PT expressa melhor que qualquer outro partido no Brasil, esbarram no perfil conservador da maioria da população brasileira.
Esse o dado novo da campanha. Os partidos jamais o discutiram, atendo-se a temas econômicos, políticos, corporativos e ideológicos. Eis o que brota de toda essa discussão: a descoberta de que a maioria da população brasileira, sobretudo suas camadas média e baixa (mas não apenas), é conservadora.
Não referenda a agenda comportamental da vanguarda intelectual universitária. Ouve mais o padre e o pastor que o político, o sociólogo, o artista ou o intelectual. E foi de púlpitos e templos, na contramão do que vige em academias, palcos e tribunas, que começou a reviravolta da campanha.
Antes, prevalecia o discurso distributivista do PT, que o PSDB, mesmo invocando precedência em ações como o Bolsa Família, não conseguia superar. Dilma nadava de braçada.
Eis que alguns religiosos começaram a fuçar o programa de governo do PT e alguns documentos do governo Lula. Já havia antecedentes de protesto, que remontavam à edição do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), no final de 2008, que provocou um manifesto da CNBB em janeiro de 2009.
Lá, além da liberação do aborto, constava a proibição de símbolos religiosos em locais públicos. O governo, porém, recuara e o assunto parecia encerrado. Não estava. O PT o fez ressurgir ao inseri-lo no primeiro programa de governo de Dilma, registrado no TSE e rubricado pela candidata. Nova reação, novo recuo. Mas já era tarde.
Recomendações para que não se votasse no PT começaram a pipocar em templos e prelazias, país afora. Descobriu-se também que o PT expulsara dois deputados anti-abortistas. E que patrocina um projeto de lei (122), em tramitação no Senado, que criminaliza a pregação religiosa contra o homossexualismo.
Em busca de reduzir o prejuízo, Dilma passou a frequentar igrejas, comungar, rezar, pedir socorro a pastores e bispos aliados e a desdizer tudo o que sempre dissera, ao tempo em que nem desconfiava que isso lhe traria problemas.

Ruy Fabiano traça enxuto e competente retrato atual da alma nacional em artigo publicado nesse sábado no Jornal da Comunidade
Serra não precisou fazer nada. Como seu partido e ele próprio jamais se ocuparam desse tipo de questão – e como sempre declinou sua condição de católico, contrário ao aborto -, não precisou lutar contra suas próprias declarações. É agora beneficiário único de uma situação igualmente inesperada. Inesperada mas não irrelevante.

Ruy Fabiano traça enxuto e competente retrato atual da alma nacional em artigo publicado nesse sábado no Jornal da Comunidade










Meu caro Ruy Fabiano: matou a pau, beleza de artigo! E, olha: acho difícil que o tema saia da manchete até o dia da eleição… Apareça hora dessas lá na tv câmara para um café. Abraços saudosos. PJ