Crise mundial acelera privatização dilmista
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Lula trai aliados em Minas Gerais

Cesar Fonseca em 01/09/2010

- Lulinha, parece que vai dando certo aquela nossa combinação antiga de que algum dia nós dois estaremos juntos no Palácio do Planalto, quem sabe em 2014, heim, eu de vice na sua garupa, que cê acha? - A gente tem que combinar com os buzios, consultar o Tancredo, para nos ensinar como passar esse pessoal do PT e do PMDB de Minas para trás, já que eles nunca se entendem, é ou não é? Vamos aguardar, vamos aguardar. Até agora, as coisas sinalizam positivas pra nós,né não? E o Itamar, vai ajudar ou atrapalhar? - O Itamar, cê deixa comigo!

A bola já tinha sido cantada antes pelo grande comentarista político Mauro Santayanna, no Jornal do Brasil, que a incompetência e a ganância empresarial ajudaram a falir, para tristeza geral, ao sair de circulação, nessa semana. O que dizia Santayanna? Que a insistência do presidente Lula em empurrar goela abaixo a candidatura de Hélio Costa, do PMDB, ao Palácio da Liberdade, representaria uma afronta aos mineiros.

Estava em grande articulação as candidaturas dos petistas Fernando Pimentel e Patrus Ananias, enquanto Hélio Costa não alcançava consenso algum. A disputa prévia entre os representantes do PT foi vencida por Pimentel, que não levou. O Planalto entrou em cena, impondo a candidatura de Costa. O argumento lulista foi o de que o importante não era assegurar a vitória estadual do PT, mas uma aliança petista-peemedebista, para fortalecer a candidatura presidencial dilmista.

Santayanna, conhecedor da história, previu que a interferência de Lula na sucessão mineira geraria conflitos que estão no ar.

Sempre falei com o Aécio: esse PT mineiro é um saco de gatos. E o PMDB é pura esperteza sem estratégia.

Resultado: Hélio Costa, que os petistas não engolem, saiu na cabeça de chapa, com Ananias de vice, enquanto Pimentel foi sacrificado, para disputar o Senado contra duas competências políticas: o ex-governador Aécio Neves e ex-presidente Itamar Franco. A Patrus Ananias restou a vice governadoria na garupa do cavalo paraguaio Hélio Costa.

A indisposição intrínseca total da aliança PMDB-PT abriu espaço para o avanço do candidato de Aécio, Anastasia, e os mineiros passaram a fazer a combinação que, ao que tudo indica, conforme as pesquisas, lhes convém: em vez de PT-PMDB, para eleger Dilma, parecem, de acordo com as previsões estatísticas , preferir ficar com a candidata do presidente, mas acompanhada não da sua base política mineira peemedebista-petista, mas , sim, da base aecista-itamaratina.

Uma combinação que Mauro Santayanna previu em forma de rejeição mineira aos arranjos lulistas sem combinar com forças políticas das Gerais. Tentou uma intromissão indébita na terra de Tancredo, JK, Milton Campos, Itamar Franco etc. Ou o mistério ainda não foi desfeito ou é apenas segredo de polichinelo.

O PT mineiro vai de Dilma. O PMDB, idem. Mas, as forças dos dois partidos, em relação à disputa mineira, racharam-se. E o governador Aécio, nesse contexto, fatura.

Repete-se, desse modo, a mesma armação de 2006. Aécio cristianizou o candidato do PSDB, o paulista Geraldo Alckmin, fazendo corpo mole, enquanto Lula avançava em Minas em grande estilo, configurando a parceria que o prefeito de Salinas, José Antônio Prates, defendeu, o Lulécio – Lula + Aécio – , assim como pregou, agora, o Anastadilma ou o Dilmasia – Dilma(Lula) + Anastasia(Aécio).

Trapalhões mineiros

Não se entenderam Patrus, Hélio Costa e Pimentel. Sorriem para o fracasso, pois não souberam administrar os interesses, combinando estratégias comuns, porque estão intrinsicamente divididos pela desconfiança que domina a relação PT-PMDB nas Gerais. Sequer são filhotes de Tancredo. Puro trapalhões.

Lula, portanto, sacrificou o PT, não para permitir vitória do PMDB, mas, sim, repetir a parceria oculta, porém, latente, com o PSDB de Aécio, configurando o neo-Lulécio expresso na parceria Dilmasia, coordenada, agora, pelo prefeito Márcio Lacerda, do PSB, em grande estilo, lançando-a em 8 de setembro, jogando pá de cal no PMDB e no PT regional.

Destaque-se que o mesmo já havia acontecido nas últimas eleições municipais. Lacerda , socialista, integrante das forças governistas lulistas, deixou elas de lado, em Minas, para jogar com o PSDB de Aécio, derrotando o candidato do PMDB, Leonardo Quintão, aliado ao PT. Repete-se a dose em 2010.

Lula, nesse jogo , por baixo dos panos, com Aécio, que, eleito senador, será um dos líderes do Senado, na Era Dilma, se ela sair vitoriosa, derrota, aliado com o ex-governador mineiro, não, somente, o PT, mas, também, o PSDB nacional, enquanto fortalece o PSDB mineiro. O jogo frio de Aécio em relação a Serra tem seu contrapolo no jogo quente em relação a Lula.

Em Minas, Patrus-Hélio Costa-Pimentel, de um lado, dançam, como forças governistas; de outro, Serra, igualmente, samba, como força nacional oposicionista. Já, Aécio e Itamar, contraditoriamente, sendo forças governistas, no estado, transformam-se em governistas, também, no plano federal. Fogem, espetacularmente, da condição de oposicionistas.

A jogada mineira Dilma + Anastasia = Dilmasia passa a corresponder a um corpo político combinatório de forças:  governo-oposição x oposição-governo, tudo do mesmo lado, como reação à tentativa de Lula de interferir na sucessão mineira para eleger Hélio Costa à revelia do PT de Patrus e Pimentel.

Ou tudo já não estaria combinado no grande teatro misterioso das Gerais?

Coincidência histórica

- Eu ia ser o sucessor de FHC, se ele não tivesse me tirado do ministério. Afinal, a CPMF estava enchendo meu caixa de recursos para gastar e modernizar a saúde brasileira, enquanto tal instrumento, o imposto do cheque, sinalizava revolucionária reforma tributária. Só esqueci de levar em conta que os banqueiros não queriam tanta transparência que a CPMF dava para os seus ganhos trilhonários. Dancei. Mas, algum dia, ela vai voltar....

Por que Lula, em Minas, não apoiou o PT, mais, particularmente, o ex-ministro Patrus Ananias, que foi, no governo dele, o comandante do maior cabo eleitoral lulista, o Programa Bolsa Família, responsável por assegurar, praticamente, a possível vitória estrondosa de Dilma Rousseff?

Seria mamão com açucar para Patrus, nas Gerais, se fosse abençoado pelo titular do Planalto. Parece, no entanto, que o titular do Planalto, não queria dividir prestígio, em Minas,  com quem determinou comandar seu principal instrumento político popular-eleitoral.

Se Patrus faturasse em grande estilo o governo mineiro, como general do Bolsa Família, sua candidatura  à presidência da República, em 2014, poderia tornar-se irresistível.

Ocorreu, historicamente, com Patrus o mesmo que rolou em relação a Adib Jatene, ex-ministro da Saúde, no Governo FHC. Lembram, leitoras e leitores, quando Jatene, ganhou projeção nacional, na Era FHC, por ter sugerido o imposto do cheque – nome que ganhou a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira(CPMF) – , para garantir recursos suficientes à saúde?

Projeção nacional para Jatene. Tornara-se o cara. Tinha, então, condições de ser candidato à presidência. Levou rasteira espetacular dentro do PSDB. FHC jogou Serra no ministério, para ser o candidato sucessor tucano, e Jatene, frustrado, voltou para casa.

Comprovara-se, na prática, a excelência do imposto do cheque, para garantir recursos orçamentários capazes de dar cabo à grande indignidade que toma conta do setor de saúde no Brasil, demonstrando a que ponto a superacumulação da renda nacional jogou na sarjeta os pobres sem condições de acesso à oferta de bons médicos, bons hospitais, remédios baratos etc.

Jogo equivocado

A CPMF fortaleceu a saúde, FHC passou a perna em Jatene e escolheu Serra seu sucessor. Mas, Serra não lembrou de FHC na campanha, jogando-o para debaixo do tapete, em vez de enaltecer o imposto do cheque como a revolução tributária que iria modernizar as relações econômicas brasileiras. Preferiu dar ouvidos aos banqueiros que condenaram a renovação total do sistema tributário. Agora, novamente, Serra deixa de lado o patrimônio que o tornou conhecido no Brasil, enquanto ministro da Saúde de FHC, fortalecido pela CPMF. Entre a CPMF e os banqueiros, preferiu estes. Está dançando.

A CPMF, o imposto do cheque, ganhara notoriedade. Tanto é verdade que não se fala outra coisa, no momento, entre os petistas e peemedebista, senão que a CPMF, derrotada, no Senado, pelos tucanos, sob pressão dos banqueiros, deverá voltar, se Dilma ganhar as eleições.

Sobretudo, a CPMF sinalizou possibilidade concreta de verdadeira reforma tributária, amplamente, democrática. Se ela, com uma alíquota que chegou a 0,38% conseguia arrecadar 40 bilhões de reais, se alcançasse, por exemplo, 5%, eliminando todos os demais impostos, poderia assegurar sustentabilidade arrecadatória, na medida em que incorporaria o universo total da produção e, também, da não produção. Ou seja, até o narcotráfico entraria na dança, pagando impostos.

Além disso, eliminaria a sonegação e a econmia informal, reduziria os custos de manutenção da máquina tributária e diminuiria, substancialmente, a corrupção, além de dar transparência total ao sistema tributário.

Quem perderia? Os grandes empresários, banqueiros e narcotraficantes. Os dois primeros, porque lançam mão da elisão, para pagar menos ou, praticamente, nada. O terceiro, porque vive na clandestinidade. Com o imposto do cheque, a clandestinidade daria lugar à transparência total.

Enfim, a CPMF mexeu geral com o sentimento econômico e político nacional. Colocada em cena pelos tucanos, na Era FHC, foi, pelos tucanos, detonada, na Era Lula, que, sem maioria, no Senado, não conseguiu sustentá-la, razão pela qual o titular do Planalto, hoje, abomina a oposição senatorial que, não , apenas, detonou a CPMF, mas, igualmente, impediu aprovação do terceiro mandato lulista. Se não fosse a oposição, no Senado, o chavismo teria tomado conta da política nacional.

CPMF = Bolsa Família

- Vou batalhar de novo pela CPMF porque ela é a saída para a modernizaão geral do sistema que virou um inferno para as relações econômicas, tornando o país prisioneiro da falta de transparência. Se eu conseguir isso, saindo, agora, vitoriosa, poderei continuar mais quatro anos, atrapalhando a imaginação antecipada que já coloca, para 2014, a dobradinha Lula-Aécio. Conseguirei?

Mas, o que tem a ver a CPMF com a traição de Lula a Minas? Porque ela ganhou prestígio semelhante ao Bolsa Família, no sentido de ser capaz de impulsionar candidatura presidencial.

Não foi isso que aconteceu com José Serra, na disputa em 2002, com Lula, quando perdeu a parada?

FHC, depois de defenestrar Adib Jatene, tirou Serra do Ministério do Planejamento, para transferi-lo à pasta da Saúde. Ali, com o prestígio da CPMF, Serra ganhou as manchetes nacionais, e , graças a sua competência, notabilizou-se, levantando a bandeira dos genéricos e da defesa da quebra da patente do remédio importado que combate a AIDs.

Naquele momento histórico, a CPMF vivia dias de Bolsa Família em termos de conferir popularidade política. Por que, agora, na campanha eleitoral, Serra não levantou a bandeira da ressurreição da CPMF, se foi ela que o lançou nacionalmente?

Patrus é , na Era Lula, o repeteco de Jatene, na Era FHC. Assim como o ex-ministro de FHC levou flexada nas costas, da mesma forma, Patrus, na Era Lula, teve destino semelhante. Como o homem que, em nome de Lula, levara para frente o Bolsa Família, Patrus antevia futuro radioso, a partir, evidentemente, da escalada política a ser alcançada, primeiramente, no governo de Minas, depois, do Brasil.

O que aconteceu? Lula entrou em campo e melou o jogo. Impediu que o PT mineiro fosse cabeça de chapa na disputa pelo Palácio da Liberdade e colocou, na disputa, o cavalo paraguaio Hélio Costa, ministro das Comunicações, politicamente, desprestigiado, sem cancha suficiente para emocionar as Gerais, como demonstra o andar das pesquisas em que vai perdendo terreno para o adversário Anastasia, candidato do governador mineiro, Aécio Neves.

Categoria: (Política)

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