26 ago
2010Grande mídia teme verdade e futuro
Cesar Fonseca em 26/08/2010

- As forças nacionalistas que impulsionam a candidatura Dilma Rousseff, em todo o território nacional, sintonizando-se com a pregação lulista de combater a inflação com valorização dos salários e dos programas sociais, para tocar consumo, que aumenta arrecadação, que eleva os investimentos, que puxam a demanda global, exigirão, igualmente, uma nova orientação à comunicação, que está dominada por falsos diagnósticos ideológicos que mentem para a população sobre as causas verdadeiras que originam a inflação brasileira.

É sabido e comprovado que a grande mídia, brasileira e sul-americana, mentiu, deslavadamente, em relação ao diagnóstico verdadeiro da inflação para o povo brasileiro e sul-americano.
Seguiu ela os mandamentos dos credores. Para estes, que sempre mandaram na economia nacional, utilizando como gendarme o FMI, por exemplo, como aconteceu durante a Nova República neoliberal, a inflação decorria do excesso de demanda, razão pela qual teria que cortar despesas como salários e investimentos, para sobrar mais recursos para pagamento dos serviços da dívida.
Salário é custo. Se aumenta o salário, aumenta o custo. Se aumenta o custo, aumenta a inflação. Portanto, pau nos salários. Essa é a lógica econômico-ideológica neoliberal.
Jamais raciona que salário é renda. Se é renda aumenta o consumo. Se aumenta o consumo, aumenta a arrecadação. Se aumenta a arrecadação, aumenta investimento, que dinamiza a demanda global, etc.
Marx sempre disse que trabalho é valor que se valoriza. Valor que se desvaloriza , segundo ele, é a dívida pública interna.
No Brasil, durante o neoliberalismo neorrepublicano, a situação se inverteu. A dívida passou a ser valor que se valoriza, e o trabalho, valor que se desvaloriza. Tudo em nome do combate à inflação.
O jogo da mentira

ESSE LIVRO É SENSACIONAL. Quem disseminou essa verdade falsa? A grande mídia, cuja cabeça, feita pelo diagnóstico ditado pelos credores, transformou-se no instrumento fundamental do capital para devastar as economias periféricas. Algo inverso do que ocorre nos países capitalistas cêntricos, onde o diagnóstico da inflação obedece à correlação das forças políticas, expressa em melhor distribuição da renda nacional, materializada, politicamente, em social-democracia. Como, no Brasil e na América do Sul em geral, predomina, até hoje, o diagnóstico de que aumento de salário gera inflação, o resultado econômico tem sido, invariavelmente, um só: subconsumismo. Sob subconsumismo crônico, erguiam-se os excedentes inconsumíveis que exigiam moeda fragilizada para desovar estoques na exportação à custa de instabilidade cambial crônica, justificadora de juro alto em nome do elevado risco país, acompanhado, naturalmente, de tensões inflacionárias. Como os empresários, diante do subconsumismo crônico, tinham – têm – que repassar os juros altos produzidos pelo risco para os preços, a inflação, tensionada pela fragilidade cambial, subia. Qual a causa oculta e latente da inflação? Os juros altos decorrentes do falso diagnóstico da inflação ou o subconsumismo popular, vendido pela grande mídia como inversão ideológica em forma de excesso de demanda?
Orientação nacionalista

O salário do consumidor sempre foi sacrificado em nome do falso diagnóstico para a inflação brasileira ditado pelos credores cujo resultado final era o enforcamento inapelável , produzindo excessiva concentração de renda, que, por sua vez, multiplicava os enforcados, e assim por diante
Bastou uma orientação nacionalista tomar conta do poder, como foi o caso do presidente Lula, atuando, ainda, de forma a compatibilizar a força do capital financeiro com a do capital produtivo, apostando no consumo, para que as tensões inflacionárias reduzissem.
Claro, se os excedentes, com a valorização dos salários e a expansão dos programas sociais, passaram a ser consumidos internamente, não se faz necessário desvalorizar brutalmente a moeda para atender os exportadores, custe o que custar, como acontecia, anteriormente.
Sem a desvalorização cambial forçada, não há estoques sobrando, nem arrecadação tributária caindo por conta de renúncias fiscais capazes de sustentar a taxa de lucro dos empresários na exportação.
Afinal, fora sempre a moeda fraca inflacionária e as desonerações tributárias que obrigavam o governo a elevar a carga tributária para compensar as renúncias, a fim de pagar à banca.
Constituia-se, dessa forma, conjugação de fatores negativos que pesavam para baixo as avaliações dos credores sobre o comportamento negativo da economia, tudo, naturalmente, produto da luta de classes, que os neoliberais insistem em dizer que não existe mais.
Como não, se por meio da financeirização econômica global escravizavam as economias periféricas, até que veio o grande crash de setembro de 2009 e tudo foi ou está indo para os ares?
Mudança de jogo

OS QUE COMANDAM AS REDAÇÕES ESTÃO DESSINTONIZADOS COM A REALIDADE. E o diagnóstico da inflação, por que não mudou com a mudança da orientação governamental de ataque a ela? Porque não há pensamento independente na grande mídia. Lula, numa linha de passe futebolístico, jogou consumo contra a inflação. Ataque contra defesa. Resultado: a economia vai, relativamente, bem, se comparada com o panorama internacional, o desenvolvimento bombeia PIB de 6%, 7% ao ano e a inflação está cadente. Falta, agora, acabar com o peso exagerado dos juros, que evita maiores quedas inflacionárias, onera a dívida do governo e das famílias e bloqueia os investimentos, para conferir maior sustentabilidade à economia. As opções que a sociedade brasileira poderá fazer, caso as forças nacionalistas ganhem maior espaço político, no Congresso Nacional, contrariarão, certamente, o diagnóstico dos credores para a alta de preços no Brasil. Se mediante mais consumo fica comprovado que aumento dos salários não é custo, mas renda, as novas forças políticas a dominarem o Congresso tenderiam a forçar mudanças no diagnóstico da inflação que produz a taxa de juro mais alta do mundo. Ou não? A grande mídia, nesse período histórico, não fez mea culpa, não promove nenhuma autocrítica. Se o combate à inflação não foi possível mediante subconsumismo, mas, com a recuperação do consumo, impulsionado pela valorização do valor que se valoriza, o trabalho, por que não mudar o falso diagnóstico que persiste ideologicamente nos comandantes das redações? O ministro Franklin Martins, ao apontar que o jornalismo insuficiente praticado no Brasil, tem como comandantes diretores de redação dessintonizados com a realidade nacional, virou demônio para os capitães da grande mídia e, naturalmente, os tubarões financeiros. O fato é que o povo está indo para um lado, a grande mídia, com seu falso diagnóstico, para outro.
Mídia anti-neoliberal

Atuando na base do oligopólio, os bancos grandes privados fugiram do compromisso com os consumidores, na grande crise, preferindo o sanguessuguismo jurista em cima da dívida do governo, enquanto para o povo sobrou a agiotagem generalizada hoje monitorada pelas compras no cartão de crédito, expressando a nova escravidão moderna em pleno século 21
A onda nacionalista em marcha na América do Sul assusta os capitães da mídia, porque os governos eleitos com o discurso sintonizado no nacionalismo econômico precisam atender os eleitores e não a grande mídia.
O poder midiático, ao se ancorar em ideologias mentirosas, perde utilidade. Contradiz o critério principal do próprio sistema capitalista, ancorado na ideologia utilitarista: “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes).
Insistir que a inflação decorre do excesso de demanda, sendo necessário arrocho nos gastos públicos que valorizam os salários, tanto da iniciativa privada como dos servidores públicos, a partir do aumento do consumo que sustenta arrecadação ascendente e investimentos, idem, é insistir na mentira, na falsidade.
Tal argumento é construído ideologicamente para resistir à necessária solução para combater a inflação que é o aprofundamento da distribuição da riqueza.
Esta ainda se encontra excessivamente concentrada, bastando observar os números do faturamento dos setores da economia.
Os bancos, com os juros escorchantes, faturaram quase 15 bilhões de reais no primeiro semestre de 2010. O segundo setor que mais faturou foi o do petróleo, em torno de 8 bilhões de reais. O terceiro maior faturamento foi o de mineração, perto de 1,5 bilhão de reais.
Como os bancos realizam sua fantástica taxa de lucro? Em cima de valor que não se valoriza, a dívida, enquanto os faturamentos menores se realizam na produção e no consumo que dependem do valor que se valoriza, ou seja, o trabalho humano, desvalorizado pelo desbalanceamento provocado pela agiotagem financeira nacional.
Seriam ou não esses desbalanceamentos nas taxas de lucros o principal fator de resistência à efetiva queda dos preços?
A voz da justiça

NATURALMENTE, OS JUÍZES CAIRAM NA REAL, MESMO QUE TARDE. A justiça entendeu o problema: acaba de decretar que os bancos precisarão devolver o que foi tirado dos trabalhadores pelos planos de estabilização do governo, que beneficiaram, apenas, os credores do Estado nacional, rendido ao neoliberalismo financeiro neorepublicano. São mais de 180 bilhões de reais que deixaram de ser devolvidos ao povo, ou melhor, que foram embolsados pelos bancos. Não teria a inflação sido fruto dessa acumulação excessiva de riqueza? Editorial recente do jornal do Valor Econômico, a bíblia dos banqueiros, reconheceu, surpreendentemente, que a valorização do salário mínimo melhorou a sustentabilidade da economia. Insustentabilidade, portanto, decorre da desvalorização dos salários fomentados pela desvalorização da moeda que é destruída pela dívida, fruto da recorrência à poupança externa, que, como disse Marx, é instrumento de dominação internacional, desde sempre, para compensar, destrutivamente, a carência de poupana interna, fruto do subconsumismo. O orgulho, a prepotência e a dependência dos conceitos ideológicos falidos, espalhados pelo ponto de vista do capital, que está baqueado na grande crise capitalista, são os principais fatores que levam a grande mídia a um descrédito popular, dado que sua verdade é pura mentira. Se não é útil, não atende o preceito básico do capitalismo que é a utilidade.
O exemplo de Getúlio

VOZ NACIONALISTA SUL-AMERICANA. Getúlio Vargas tinha visão larga sobre comunicação nacionalista. A Rádio Nacional viveu seus tempos de glória, fazendo a cabeça do povo com a voz do povo , espraiando-se pelo mundo; e financiou imprensa nacionalista para rivalizar com a sua adversária, ligada ao capital externo. Por que pode existir esta e não aquela? Nascem , agora, as tevês sindicais. Por que não, se o ponto de vista do trabalhador jamais mereceu atenção do poder midiático cuja cabeça está no exterior da realidade brasileira?
O diagnóstico ideológico construído pelo capital, para explicar a inflação, continua dominando as mentes mecanicistas, pesarosas em aceitar novo diagnóstico alternativo, segundo o qual o combate à inflação decorre da melhor distribuição da renda nacional, mediante valorização dos rendimentos dos trabalhadores e servidores.
O grande medo do poder midiático, que pensa com a cabeça de fora para dentro, é o de que o avanço do nacionalismo econômico passe a apoiar uma mídia nacionalista.
Getúlio Vargas fez isso, quando colocou o Banco do Brasil para financiar a Última Hora, jornal popular, editado por Samuel Wainer. Seria pecado? O poder midiático, como se verifica nesses dias, tem pavor dessa possibilidade.
Mas, não é a própria grande mídia que está dependurada, econômica e financeiramente, nos bancos estatais, principalmente, o BNDES?
E não são os empresários que, agora, defendem a nacionalização do crédito, ao pregarem a existência, não apenas de um, mas de TRÊS BNDES, como destacou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo(FIESP), Benjamin Steinbruch?
A classe produtiva – empresários e trabalhadores – tende a ser destruída, caso a filosofia jurista bancocrática continue no próximo governo, sustentando as taxas de juros reais mais altas do planeta terra.
Esse é o grande receio da grande mídia, de nascer uma mídia nacionalista que pense criticamente em relação à sobreacumulação de capital financeiro nos bancos oligopolizados, enquanto a produção e o consumo permanecem escravizados à agiotagem jurista.
Los Hermanos assombram

CELSO FURTADO PROFETIZOU QUE O NACIONALISMO ECONÔMICO SUL-AMERICANO GANHARIA FORÇA NA ARGENTINA, ESPRAIANDO POR TODA A AMÉRICA DO SUL. A decisão da presidente Cristina Kirchner, da Argentina, de nacionalizar a produção de papel, enche de pavor os capitães da grande mídia, rendida ao pensamento utilitarista que deixa de ser útil ao ficar amarrada em falsos diagnósticos estabelecidos pelo capital em crise. Primeiro, o poder midiático apoiou ditaduras; ficou forte no continente sul-americano. Depois que as ditaduras se foram, caiu no colo dos banqueiros, embora não tenha tirado a boca firme da teta do BNDES. O avanço nacionalista, sintonizado com as maiorias que estão elegendo os novos governos, obrigará a um reposicionamento midiático. Caso contrário, os meios de comunicação sob orientação do capital externo por meio de cabeças nacionais, perderão leitores e as benesses que dispõem hoje dos empréstimos subsidiados dos bancos estatais virarão fumaça. É a roda da história em marcha. O próximo governo cairá no conto do vigário bancocrático divulgado pela grande mídia de que se faz necessário conter os ganhos salariais dos trabalhadores dos setores privados e dos servidores do Estado para sustentar o privilégio bancocrático num ambiente congressual que poderá estar dominado por nova correlação de forças, possivelmente, sob Governo Dilma, se se materializarem os números das pesquisas eleitorais? Quem vai atirar nos eleitores e eleitoras mais pobres que estão até viajando de avião?









