Serra assume direita. Dilma foge da esquerda

ESQUERDA DISSIMULADA E DIREITA ASSUMIDA FRENTE A FRENTE SEM DISFARCES. A campanha eleitoral em curso vai confirmando o genial Glauber Rocha, para quem a luta política é, essencialmente, luta ideológica. De um lado, a oposição com José Serra e Índio da Costa parte para as posições de direita; de outro, Dilma Rousseff e Michel Temer tentam manobrar posição entre os dois extremos, fugindo da caracterização ideológica. A ex-ministra resiste abrir-se à Idade Pompéia, mas não consegue fugir do seu passado, que, evidentemente, evoluiu para uma metamorfose estabelecida pela prática do poder democrático ao qual se submeteu. Por que não falar mais claro? Por que tanta dissimulação? Nessa segunda feira, em São Paulo, frente aos empresários paulistas, Serra rasgou o verbo, na tentativa de ideologizar geral a campanha eleitoral, jogando contra a onda nacionalista sul-americana: o governo Lula persegue uma política externa terrorista, na medida em que se identifica com as ações políticas extremistas das Farc, aliando-se, indisfarçadamente, com o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, acusado pelo presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, de dar guarida, em território venezuelano, às ações dos guerrilheiros colombianos, razão pela qual o primeiro rompeu diplomaticamente com o segundo. Ao mesmo tempo, o tucano, que vai dançando nas pesquisas espontâneas para sua adversária, alardeou o erro de o governo Lula ter, junto com a Turquia, movido o peão diplomático na tentativa de evitar as sanções comerciais contra o Irã, por este estar disposto a levar adiante o seu programa nuclear contra o qual reagem negativamente os Estados Unidos e a Europa, movendo-se contra essa iniciativa no Conselho de Segurança da ONU. Para Serra, ambos os movimentos diplomáticos, de um lado, maior simpatia lulista em relação a Chavez, comparando-se com Uribe, e, de outro, aproximação com o Irã de Ahmadinejad, cujo sonho de independência nuclear guardaria semelhança com as ações dos militares brasileiros, no tempo da ditadura, buscando mesmo objetivo, para firmar posição de independência frente aos Estados Unidos, representariam desastres políticos com os quais o Brasil não teria nada a ganhar. Será?

Jogo da simplificação

COMO FRACASSO, SE O MUNDO RECONHECEU O ESFORÇO DE UMA DIPLOMACIA INTERESSADA NA PAZ? Evidentemente, Serra simplifica demasiadamente as coisas, adotando posições maniqueístas, mecanicistas, na medida em que deixa de tecer considerações sobre as razões profundas que estão levando Uribe e Chavez a um confronto mais intenso. Não aprofunda o lado dual da realidade sul-americana. Busca o que lhe interessa, agora, do ponto de vista eleitoral. Se, de um lado, vê Chavez como aliado das Farc, de outro, não destaca que Uribe, em seus oito anos de governo, abriu a Colômbia à penetração das forças armadas dos Estados Unidos no continente sul-americano, tornando-se um enclave de Tio Sam, a pretexto de combater o mercado de drogas, quando, essencialmente, como destacam os próprios analistas independentes da Colômbia, razões relacionadas ao interesse norte-americano no petróleo, tanto da Colômbia, como da Venezuela, representariam as razões mais profundas do processo de intervenção imperialista, no compasso do avanço política nacionalista na América do Sul, desinteressante para Washington. Além do mais, por que Serra tão crítico da esquerda, não levanta a voz para falar algo do escândalo dos vazamentos das informações quanto às ações imperialistas dos Estados Unidos no Afeganistão, embora avance na crítica a Lula quanto a sua atuação na relação com o Irã? Já, em relação ao governo de Ahmadinejad, o tucano tenta, deliberadamente, confundir as coisas. O Brasil, segundo Serra, deveria, sim, aprofundar as relações comerciais com o Irã, mas não teria nenhuma razão para imiscuir nas questões políticas do Oriente Médio, um caldeirão fervente de razões conflitantes e explosivas. Fundamentalmente, no entanto, a diplomacia brasileira entrou em cena a pedido dos dois lados em confronto e, indiscutivelmente, ganhou notoriedade internacional, o que deixa a oposição ciumenta, pois, enquanto esteve no poder, o Itamaraty era de tirar os sapatos para entrar na terra de Tio Sam. O presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, em carta ao presidente Lula, havia lhe pedido apoio nas conversações com Ahmadinejad. Ao mesmo tempo, o comandante iraniano considerou positiva a intermediação brasileira. Esta, por sua vez, não se deu isoladamente. A diplomacia brasileira aliou-se à diplomacia turca, de grande influência no Oriente Médio, especialmente, junto a Israel, para buscar um intento de paz.

Guerra ou paz?

SARNEY: A ARTE DE ENQUADRAR A GUERRILHA NA DEMOCRACIA. O movimento não foi de guerra. Debaixo do ceticismo, tanto da Rússia, como da China, sem falar dos europeus, principalmente, Alemanha, França e Inglaterra, a ação diplomática Brasil-Turquia logrou relativo êxito, obtendo do Irã compromisso de desenvolver seu programa nuclear pacífico, mediante enriquecimento dos 100 quilos de urânio a 20% por cento. Aconteceu o que ninguém esperava, ou seja, sucesso diplomático Brasil-Turquia, prontamente, rechaçado pelos Estados Unidos, embora estes estimulassem a ação diplomática de dois reconhecidos aliados históricos. Se houver guerra por conta da reação americana de intensificar o bloqueio comercial contra o Irã, o culpado não seria o esforço diplomático realizado pelo Brasil e a Turquia. Pelo contrário. A oposição brasileira, que vai se escorregando nas pesquisas, tenta forçar a barra, sem cuidar de ver o movimento dialético da realidade, de pressões e contrapressões em curso, envolvendo interesses que se afirmam e se dissolvem, no contexto movediço da grande crise capitalista em marcha, que vai deixando os Estados Unidos sem chão, dadas as dificuldades para sustentarem economia de guerra bancada pela dívida pública interna, quando emerge perigo de violenta deflação. Serra, tanto na apreciação da questão do confronto entre Venezuela e Colômbia, a pretexto de tentar envolver o governo Lula com as Farc, alastrando essa relação, para ele daninha, relativamente, a Chavez, bem como sua avaliação do que considera fracasso da tentativa brasileira de evitar confronto Estados Unidos-Irã, leitura oposta à que os próprios editoriais da grande mídia europeia e americana fizeram, tenta cozinhar caldo grosso de confusão político-diplomática, para faturar eleitoralmente. Apela para o plano externo, visto que, no interno, as coisas não caminham bem para o ninho oposicionista. O resultado desse imbróglio vai sendo o de identificação de Serra com as posições de direita, algo histórico em relação a ele, tendo em vista, por exemplo, suas posições nesse sentido, desde a Constituição de 1988, quando confrontou as conquistas mais nobres dos trabalhadores relativamente às suas lutas ideológicas históricas.

Trabalhador chega ao poder

A REVOLUÇÃO ESTÁ INSERIDA NO CAPÍTULO QUINTO, NA BASE DO VOTO DEMOCRÁTICO, SENHORAS E SENHORES! Tais lutas, que, hoje, expressam-se na maior participação da classe trabalhadora no contexto da correlação de forças políticas, são vistas, enviezadamente, por Serra, como destacou na última semana, simplesmente, como avanço do sindicalismo pelego no plano político nacional. Ou seja, mais do que nunca, Serra vai vestindo o paletó de direitista. Dilma Rousseff, por sua vez, vai atuando, pelo menos nas duas últimas semanas, em que os ataques ideológicos oposicionistas começaram a intensificar-se, como se nada tivesse a ver com ela. Mas, tem. Historicamente, ligada aos movimentos de esquerda, integrante, no passado, das lutas guerrilheiras de resistência à ditadura, implantada com apoio dos Estados Unidos, na sua disposição de evitar, em 1964, com Jango Goulart, a continuação do nacionalismo varguista no poder nacional, a candidata governista, que conhece muito bem as Farc, tentou posicionar-se de vítima da direita e não como o que efetivamente é, ou seja, participante histórica dos movimentos de esquerda, que, no poder lulista, metamorfosearam-se, politicamente. Por que não encarar a verdade? Sim, o PT foi, no passado, radical; no governo, no entanto, moderou sua postura política; até abastardou-se, renegando seu passado, quando da implosão ética do partido, no episódio do mensalão. A fragilidade momentânea do governo Lula, quando os mensaleiros ficaram, excessivamente, expostos, não foi aproveitada pela oposição, que não reagiu pedindo impeachment, o que estaria dentro do jogo político democrático, como havia acontecido com o ex-presidente Fernando Collor. Comeram mosca. Agora, durante a campanha sucessória lulista, os oposicionistas tentam reaver o tempo perdido. Conseguirão? Do ponto de vista sociológico, o fato é que, no Brasil, a situação econômica, política e social distingue-se da maioria dos países sul-americanos, como, por exemplo, no caso da Colômbia, onde as relações capital-trabalho evoluíram-se, dialeticamente, no compasso da industrialização, mediada pela democracia, ao longo da Nova República. O governo Sarney, por exemplo, embora tenha sido fracasso econômico, graças à herança da dívida externa, agravada pela crise monetária desencadeada pelos Estados Unidos, no final dos anos de 1970, foi, por outro lado, sucesso político incontestável, que evitou, com a redemocratização, o que aconteceu na Colômbia, ou seja, a radicalização entre direita e esquerda, abrindo-se ao confronto guerreiro.

Evolução democrática

ESSE JOGO NÃO PASSA DE UM A UM, POIS O QUE INTERESSA É A INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA EM FAVOR DA QUAL AMBOS ESTÃO ALINHADOS, OU NÃO? As bases democráticas se assentaram e a luta política, bem ou mal, deslocou-se, no Brasil, para o interior dos partidos, no plano político parlamentar, enquanto as tensões que marcaram o período ditatorial foram ficando para trás, dissolvidas, lentamente, nas conquistas democráticas trabalhistas, no interior do capítulo quinto da Constituição, onde estão inscritos os avanços sociais, vistos pela direita, com viés conservador e reacionário, como potencializadores do déficit público. Mas, não é esse déficit que, agora, evita a bancarrota financeira nacional em meio à crise global, dadas as opções políticas distributivas assumidas pelo poder lulista que levaram os pelegos, assim acusados por Serra, ao poder, para dividi-lo em forma de melhor distribuição da renda nacional, fortalecendo o mercado interno, salvando , dessa forma, a própria burguesia? Enquanto na Colômbia, por falta do dissuasivo constitucional, as lutas foram para as ruas, com o exército abrindo guerra às guerrilhas, no Brasil, os guerrilheiros se deslocaram para dentro do Congresso. Direita e Esquerda, ali dentro, tiveram que conviver entre si, por bem ou por mal, ao longo do período neorrepublicano em meio ao neoliberalismo econômico monitorado pelo Consenso de Washington. Jarbas Passarinho chegou a ficar amigo de José Genoíno! Nesse sentido, os ímpetos radicais da esquerda, expressos, por exemplo, na ação política de outrora da guerrilheira Dilma Rousseff, foram se arrefecendo, moldados pelo fogo democrático contraditório. Nem por isso, os antigos integrantes da guerrilha perderam, consequentemente, o sentido de solidariedade relativamente às lutas políticas que continuaram sendo travadas na América do Sul, envolvidas pelas práticas revolucionárias desencadeadas, nos anos de 1960, pela revolução cubana, exportada pelo radicalismo fidelista e guevarista. Como a direita não foi inteiramente derrotada, nem a esquerda triunfou totalmente, não seria, então, lógico que o bom senso guerrilheiro seguisse o caminho da esquerda brasileira que se rendeu à democracia? Mas, a direita, na Colômbia, por exemplo, desarmou-se, ou, ao contrário, intensficiou seu reacionáriosmo? Por que Dilma não se abre, inteiramente, a essa pregação, demonstrando que a vida política é uma eterna mudança e a realidade brasileira é exemplo dela, expresso nela, agora, como candidata, em vez de ficar tentando posar de vítima, como se seu passado tivesse que ser renegado?

A luta continua

E AÍ RAINHA E STEDELI, VAMOS OU NÃO VAMOS TRANSFORMAR O MST EM PARTIDO POLÍTICO, TIRANDO-O DO ORÇAMENTO DA UNIÃO? Os guerrilheiros da Colômbia, como de outros países sul e centro americanos continuaram e continuam relacionando-se com os antigos guerrilheiros brasileiros, sem que isso, naturalmente, represente apoio incondicional à luta armada. Tanto que Hugo Chavez, que dá espaço para a guerrilha em território venezuelano, de acordo com as denúncias de Uribe, pede que os guerrilheiros renunciem à luta armada. Não seria essa a opção a ser aberta, também, por Lula e Dilma e toda a esquerda, levando os movimentos sociais radicais, como o MST, a se transformarem em partidos políticos, a fim de disputarem votos, em vez de viverem à custa do dinheiro do contribuinte, enquanto pregam o socialismo? Nesse sentido, Serra está com a razão. Que o MST continue pregando o socialismo, tudo bem. Mas, não com o recurso orçamentário. Não teria sido essa ajuda responsável em evitar que o MST descambasse para o narcotráfico, como ocorreu com as Farc, cercadas pelo Estado armado? De qualquer forma, que vá à luta, para eleger seus representantes no Congresso. Teria que abandonar a opção pelos fuzis e vestirem terno e gravata, brandindo a Constituição. O fato é que, metamorfoseados pela luta política, guerrilheiros de hoje e guerrilheiros de ontem sempre estiveram, estão e sempre estarão comprometidos com suas lutas contra a direita, embora, as posições relativas entre eles tenham se cambiado, historicamente, de acordo com a evolução política de cada país. Assim, se, dentro do Foro de São Paulo, as interlocuções entre as esquerdas sul-americanas prosseguiram e prosseguem, na elaboração das táticas e das estratégias da esquerda, na sua luta histórica contra a direita continental, incrustrada no poder, desde os tempos do descobrimento, não significa que tenha havido homogeneização das atuações no plano da prática política. A chegada, em 2002, de Lula ao poder abriu as possibilidades de a esquerda brasileira se organizar, no comando do Estado, da mesma forma que a direita, historicamente, armada até os dentes, se organizou, para comandar o poder político desde priscas eras. Do mesmo modo, também, viciou-se nas práticas predatórias, depois que afastou os brucutus, democraticamente, tirando-lhes o osso. Ou queriam continuar segurando-o de qualquer jeito? Teriam que dar o golpe. Mas, a Constituição de 1988 não deixou.

Santa Constituição de 1988

O MARXISTA QUE ABRIU A MÃO E A ALMA AO CAPITAL ESTRANGEIRO EM NOME DA DEMOCRACIA DE RESULTADOS OBSCUROS. Condicionada pelos limites do processo democrático, dados pelo texto constitucional, a esquerda levou, ao chegar ao poder, seu discurso para dentro do governo. Nele, com Lula, avançou-se, indiscutivelmente, o discurso social, que a direita chama, agora, de peleguismo, como faz Serra. Na verdade, porém, trata-se de conquistas econômicas e sociais que, nos últimos oito anos, traduziram-se em fortalecimento do mercado interno, como produto de melhor distribuição da renda, embora esta esteja, na fase atual, concentrada pela ação da bancocracia, que domina a taxa de juro, impondo custo elevado ao financiamento da dívida pública interna. Foram tais conquistas que evitaram que o país, na grande crise capitalista em curso, entrasse na depressão. Caso vigorassem as regras que prevaleceram até final da Era FHC, no plano econômico, em que inexistiam orientações políticas distributivas como razão de Estado, diante dos impasses econômicos expressos, sempre, na formação de elevados estoques internos, por conta da inexistência de consumo satisfatório, teriam sido necessárias medidas concentracionistas de sempre. Quais? Desvalorizações cambiais, para desovar os excedentes, cujas consequências, de um lado, seriam elevar as exportações, mediante desonerações fiscais, e, de outro, tensões hiperinflacionárias, tudo acompanhado de descapitalização do Estado por conta de redução relativa de arrecadação. As políticas sociais, ao contrário, ao elevarem o consumo interno, eliminaram os estoques, estabilizaram, relativamente, a inflação e, principalmente, aumentaram a arrecadação, traduzidas em aumento dos investimentos, que puxaram a demanda global. As contradições, evidentemente, estão presentes, na permanência de estrutura produtiva econômico-financeira que favorece os rentistas, historicamente. Elas , no entanto, apontam para sua superação dialética, quanto mais a orientação do poder se faça no rumo das mudanças políticas distributivas. O processo hstórico está em marca. Pode continuar ou ser interrompido pelas urnas.

Superação da contradição

GLAUBER: Ô DILMA, VAI OU NÃO VAI ENTRAR NA IDADE DE POMPÉIA? O estágio atual da sucessão presidencial expressa essa disputa. Dilma Rousseff, que saiu da guerrilha para o governo petista, abraçando linha nacionalista, promete cumprir sua jornada getulista-lulista, se vencer as eleições. Mas, nesse instante, em que desata a luta ideológica, ela não está suficientemente aparelhada de desprendimento político para apresentar-se ao eleitorado com a sua herança e sua metamorfose, para explicar à sociedade o processo de mudança histórica que ela mesma representa, para rechaçar as acusações da direita que vai ganhando , nitidamente, a cara de Serra. Faltou a Dilma passar pela escola de Ulisses-Sarney-Lula, para despreender-se, relaxar-se no jogo contraditório da política. O lance, portanto, é o de uma transformação histórica. A Era Lula vai terminando com o presidente operário, mas sua marca pode esticar-se com Dilma, e ela tem fisionomia própria: representa a continuidade da mudança do status político econômico colonial que predominou até que a classe trabalhadora, nos limites da Constituição de 1988, chegou ao poder e levou para dentro dele as conquistas inscritas no capítulo quinto da carta magna. O resto é blá-blá-blá. O pau ideológico , portanto, é inevitável, como destacou Glauber Rocha. Dilma Rousseff tem que entrar na Idade de Pompéia e explicar aos brasileiros e brasileiras sua metamorfose política. Por que não?