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Crise da ideologia utilitarista

Cesar Fonseca em 26/06/2010

O inconsciente betostefanelliano rebela-se, em forma de ironia fina, contra a crítica ao sistema capitalista em colapso, que se revela inútil, na atual bancarrota financeira global, dada a falência da essência que o sustenta, ou seja, a ideologia utilitarista, reagente ao novo, por estar ancorada na senilidade individualista, mecanicista, positivista, pessimista.

Roberto Reis Stefanelli, premiado repórter da TV Câmara por reportagens que realizou sobre a história recente brasileira, como a da trajetória do Plano Real, a do ano de 1968, pelo depoimento de Wladimir Palmeira, a da vida do ex-deputado e sociólogo Florestan Fernandes(Prêmio Herzog), entre outras, envia-me e-mail jocoso e irônico a propósito deste site:

“Fonsequinha, o negócio aqui[no www.independênciasulamericana.com.br]

é meio infanto-juvenil, né não?”.

Respondi-lhe que esticasse mais sua fina ironia e produzisse artigo para tornar o papo adulto, se esse fosse o caso. Afinal, o propósito é o debate, a polêmica, o confronto de idéias etc. Nada.

Nesse meio tempo, o repórter da TV Senado, Beto Almeida, cujo artigo “Fundação do jornalismo público, urgente”, circulando aqui nesse site, teria tido leitura do seu xará da TV Câmara seguida do comentário irônico-jocoso acima, destacou:

“César, o embate é sobre quem é infanto-juvenil e quem é senil”.

Como Stefanelli, por razões que desconheço, recusou a polêmica, até o momento – o espaço continua aberto – e, evidentemente, faz-se necessária a defesa das razões pelas quais www.indepenciasulamericana.com.br existe, considero que a questão a merecer maiores comentários é a que coloca, ideologicamente, Almeida: quem é infanto-juvenil e quem é senil.

A luta política, como disse Glauber Rocha, é, fundamentalmente, luta ideológica. Não há como fugir da entrada na Idade de Pompéia. O bilhete está na mão.

Marx escreveu “Manuscritos Econômicos Filosóficos” aos 17 anos. Há algo mais juvenil e, também, perene do que tal conteúdo genial, que faz filosoficamente a cabeça de quem o lê e entende?

A velha Igreja Católica já desenvolveu, há muito tempo, que o grande impasse da humanidade é a disputa entre o coletivo e o individual. O espírito coletivo desenvolve a solidariedade; o individual, o egocentrismo, o pessimismo, o isolacionismo hedonista etc.

Se se predomina o coletivo, o individual é massacrado, como nos regimes totalitários; se ocorre o contrário, emerge luta de classes sob democracia neoliberal comprada nos caixas dois eleitorais da vida sob aval dos advogados que, como diz Napoleão, servem para escrever a vitória do vencedor. O homem vira lobo do homem etc.

Qual a alternativa senão uma busca de aproximação? Ou o negócio é na base da ignorância, mesmo?

Sob o capitalismo, que é, historicamente, por enquanto, o vencedor da batalha ideológica contra o socialismo, no embate que se estica desde o século 19 e 20, entrando para o 21, o jogo, realmente, é bruto.

Mas, se o socialismo acabou, com a queda do  muro de Berlim, em 1989, conforme preconiza o determinismo histórico, mecanicista-positivista do pensamento neoliberal midiático, o que se poderia dizer do colapso unilateralista imperialista que se arde na especulação global capitalista, desde setembro de 2008?

Seria infanto-juvenil colocar em questão a utilidade do sistema que deixa de cumprir seus próprios pressupostos?

O mar vai virar sertão

Glauber Rocha foi assassinado pela ideologia utilitarista quando denunciou que a esquerda brasileira combatia o inimigo errado, Geisel, batendo palmas para Tio Sam, que mandara detonar o programa nacionalista nuclear brasileiro, enquanto pregava pacifismo jimmycarteano de direitos humanos carregado de hipocria expressa em dinamismo econômico sustentado por economia de guerra. Onde está o pacifismo de Tio Sam quando os morticínios imperialistas se estendem ao Afeganistão e ao Oriente Médio para aboconhar matérias primas que sustentam a fornalha industrial americana, detonadora do meio ambiente e da anarquia especulativa global? O infanto-juvenil criador do Cinenam Nova era o azimute do pensamento senil.

A população mundial, sob capitalismo, diz a ONU, atingiu os 6 bilhões de pessoas, das quais 2 bilhões sobrevivem com menos de dois dólares por dia.

Cerca de apenas 10 grandes grupos oligopólicos globais, segundo o Instituto Peel, manejam, para valer, os cordões do processo de sobreacumulação capitalista global.

A super-concentração é a regra geral. No Brasil, idem, apesar da onda redistributiva lulista, com valorização do salário mínimo e da opção pelos programas sociais, que distribuem 55 milhões de quilos de comida por dia, via Programa Bolsa Família. Ainda hoje, 510 anos depois de Cabral, cerca de 35 milhões de brasileiros passam fome.

A homogeneização econômico-social neoliberal equilibrista-esquizofrênica tenta encobrir o real: a luta de classes que está na base da grande contradição.

O sistema concentrador de renda e poupador de mão de obra é o suprassumo da injustiça social. Historicamente, ao ser implodido na especulação autodestrutiva, repeteco do crash de 1929, agora, em escala global, o sistema mostra sua negatividade essencial, que estava oculta, porém, latente.

Comprova, empiricamente, sua ineficiência em promover organização social e econômica sustentável sob visão individualista que nega a lógica do todo como um organismo dialético vivo em rítmo de mudança quantitativa e qualitavamente em que a verdade é a negatividade.

Não dá para esconder. O propósito desse site é isso aí, jogar aberto, na crítica dialética. Como as mentes senis são essencialmente positivistas, mecanicistas, pessimistas, individualistas, sentem a dialética como ela realmente é , ou seja, o azimute do pensamento neoliberal burguês, como destaca Marx.

Comprova-o, nesse instante, a crise global em marcha batida. Evidencia-se que o seu sistema ideológico, base de sua sustentação, ao qual se rende o pensamento ideologicamente organizado mecanicamente, fugitivo da sociologia do conhecimento, esfrangalha-se espetacularmente.

Seria infanto-juvenil encarar o monstro, para tentar mostrar suas contradições, especialmente, no momento em que elas se acirram, demonstrando o caos geral, impossível de ser escondido pela ideologia que lhe dá vida, calor e gordura, dado seu esgotamento epistemológico, real, concreto, moral e objetivo?

Ou seria mais honesto – certamente, mais conveniente – fazer como a grande mídia, tentar esconder a verdade debaixo do tapete, fingindo que o rei não está nu?

O monstro, expresso em economia de guerra, movida por emissões monetárias sem lastro, que, até agora, puxavam a demanda global, entrou ou não em estresse?

Vale ou não vale encarar a discussão sobre o tema candente que envolve a humanidade perdida em meios aos valores que deixam de ser úteis?

Encará-la significa ser infanto-juvenil? Mas, se dela fugir, não seria senil?

Desutilidade emergente

Super-homem Tio Sam Obama vê desmoronar o império da utilidade capitalista que ainda faz a cabeça dos senis que consideram infanto-juvenil o questionamento da desutilidade do capital que deixa de se reproduzir conforme as suas próprias leis da sobreacumulação, jogando a humanidade no beco sem saída provocado pelo egoismo unilateralista individualista egocentrista.

O fracasso do pensamento utilitarista leva à fuga pessimistas, individualistas, positivistas, mecanicistas. Tentam fugir do xeque-mate dado à essência ideológica do sistema capitalista em que a verdade se confunde com a utilidade.

Bate biela o utilitarismo, construção ideológica sutil do capitalismo inglês, no século 17, essencialmente, cínico, para ser consumido como utilidade natural, eterna, como se dada pela natureza e não como fruto do processo histórico social.

A comprovação fica por conta da grande crise que abala totalmente os países capitalistas cêntricos, de onde, historicamente, as crises partem, sempre empurradas para a periferia, como eterna fuga para frente.

A novidade, agora, é que o mecanismo dissuassivo das crises no centro do capitalismo quebrou e não tem substituto à altura.

Os limites, expressos na capacidade de endividamento dos governos, que garantiam a reprodução ampliada e continuada da sobreacumulação de capital, mediante desregulamentação geral especulativa, irresponsável foram alcançados.

Não há horizonte claro. Isso irrita os pessimistas que se auto-enclausuram sob a verdade eterna do capital, apoiada na ideologia utilitarista.

“Tudo que é útil, é verdadeiro, se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes).

No momento em que o Estado capitalista sinaliza não a utilidade, mas a desutilidade, já que não consegue, por meio da dívida pública interna, eternizar a reprodução ampliada do capital, deixa, evidentemente, de ser útil.

Discutir tal desutilidade historicamente alcançada é algo infanto-juvenil ou senil?

Por que Barack Obama, essa semana, manteve, nos Estados Unidos, a taxa de juro zero ou negativa? Quem tem cu tem medo.

Se a mantivesse positiva, quebraria o caixa de Tio Sam, claro. Por isso, está conseguindo impor ao Congresso a nova regulamentação do capital sob juro negativo.

O capital deixa de ser útil para a comunidade, que passa vê-lo como mentira. E a posição mentirosa não garante reeleição para o primeiro negro da história que chega ao poder na nação mais rica da terra.

Obama jogaria para dançar? Por que se aferrar na defesa do que deixa de ser útil, deixando, consequentemente, de ser verdade, como é o caso do capitalismo especulativo que puxava a economia global por meio de realidade virtual, irreal?

Por que não raciocinar com as armas da dialética, conquista histórico-social do ser humano, sobre tal desutilidade capitalista?

Os espíritos acomodados, senis, se inquietam, sentem o chão abrir-se sob os próprios pés. Porém, escravos da ideologia, não têm segurança, mas medo. Procuram espantá-lo, lançando mão da ironia barata.

É preciso encarar a Idade de Pompéia: a crise vira de ponta cabeça os valores que se julgavam eternos.

A emergência dos países integrantes do G-20, assim como a bancarrota dos integrantes do G-8, que ditavam, sob comando dos Estados Unidos, a visão unilateralista, individualista, imperialista da vida, entra em estresse justamente porque o utilitarismo dá seus suspiros perigosos, denotando senilidade.

Discutir o que se torna senil, ou seja, o colapso cultural, econômico e social do utilitarismo ideológico capitalista, é ser infanto-juvenil?

O medo do negativo apavora os conservadores senis. Resistem à dualidade do real concreto em movimento: positivo-negativo, singular-plural, masculino-feminino, yin-yang, claro-escuro etc – valer dizer, o movimento dialético do ser em si, por si e para sí, em eterno vir a ser, como destaca Hegel.

Ou seja, não há a verdade mecânica pronta e acabada, encerrada em fórmulas concebidas em laboratório que se eternizam, viram religião, enrijecendo o pensamento, tornando-o, crescentemente, individualista e, sobretudo, pessimista, descrente, reagente às mudanças, como se essas fossem estorvos radicais em erupção desnecessária.

Prisioneiro do abstrato

Carente de visão de totalidade, o individualista, diz Mannheim, é um ser cindido, porque reage contrariamente a sua própria gênese: a de se encontrar em situação herdada, com padrões de pensamento a ela apropriados, tentando reelaborar os modos de reação herdados, ou substituindo-os por outros, a fim de lidar mais adequadamente com os novos desafios surgidos das variações e mudanças em sua situação, para evitar situação de prisioneiro do abstrato

Lutam os pessimistas esquizofrênicos em favor de uma quimera: o mundo equilibrado sob a Lei de Say(circula no site artigo sobre o tema). O concreto, o real não é o equilíbrio, mas o permanente desequilíbrio. Como diz Tomio Kikuchi, o equilíbrio neurótico é doença. O desequilíbrio, a saúde.

Negam-se os pessimistas senis a encararem as contradições do real concreto em movimento, e o que emerge, por força das novas correlações políticas, torna-se incômodo.

A simples discussão dos desdobramentos da crise ideológica do utilitarismo que se mostra falido provoca, no estouro da bancarrota financeira global em marcha para o abismo,  repulsão nos acomodados conservadores, atados aos interesses que não são deles, mas que os dominam e os alienam.

Tornam-se prisioneiros de ciências que se desenvolvem no exterior da realidade sem , no entanto, dispor de capacidade para determiná-la – como são os casos das abstrações neoliberais para tentarem coordenar os movimentos da economia.

Situam-se longe do em si, o que os impedem de serem por si para si mesmos, como destaca Karl Mannheim, em “Ideologia e Utopia”.

As regras que estão caducando no compasso do colapso da ideologia utilitarista são as verdades sedimentadas nas mentes neoliberais que deixam de ser úteis. Viram mentiras e inutilidades.

Criticar tais regras e valores que se transformam em falsas regras e falsos valores, dada a sua desutilidade ideológica, torna-se fator inquietante para o pensamento mecanicista-positivista. Este se desestabiliza, quando submetido à lógica dialética da realidade em si, em movimento de eterna transformação, que ganha ares de ebulição quando as contradições explodem.

O momento mundial é isso ai: ebulição. Tudo que é sólido desmancha no ar. A volatilidade geral passa a ser a regra e a flexibilidade se impõe como conduta para a sobrevivência. Caso contrário, não se consegue embarcar na nova arca de Noé em meio ao turbilhão que ameaça os titanics supostamente seguros.

Quando os países capitalistas desenvolvidos, em processo de empobrecimento coletivo, relativo, começam, contraditoriamente, a defender o oposto do que costumavam pregar, algo, evidentemente, está errado.

Tentar expor tais contradições, no entanto, representa pecado mortal para os conservadores. Tal tentativa só pode ser fruto da infantilidade juvenil.

Agora vou me defendendo

A ironia egocêntrico-individualista-positivista-mecanicista vê o capitalismo como algo dado pela natureza e não como produto do movimento histórico-social em que a permanente atualiade é a mudança. Por isso, o genial Noel, não brincou: "Quem acha vice se perdendo".

Por estar livre dos constrangimentos mentais que as superestruturas jurídicas fixadas pelo capital sedimentam na cabeça conservadora, reacionária, positivista, mecanicista, a natureza juvenil torna-se estorvo, azimute puro.  Ela diz o absurdo: gente, o rei está nu. Aponta a face evidente e carcomida da desutilidade decadente.

A mente senil, obsessivamente, individualista, pessimista, eriça-se em face da incapacidade de a verdade que cultua dar resposta às demandas que a leva a exilar-se de si mesma em busca de resposta que imagina estar fora de si.

Irrita-se o senil com o fato de que, dominado pelo utilitarismo, está equivocado em si, sem condições de buscar por si a verdade para si. Depende de muletas que estão quebrando.

Sem norte ideológico, pois as âncoras deixam de existir, situam-se os individualistas-pessimistas-senis em mar alto, revolto, em barco furado, carentes de bússolas, de dialética, o azimute matador do pensamento senil burguês acomodado.

Este site tenta, modestamente, em razão das nossas limitações, ser esse azimute para bater na cabeça dos bem pensantes, sem arrogância, mas com certa piedade.

Afinal, repetindo Marx, que repetiu Hegel, nada mais triste do que o ser em si não agir por si  no ser outro em si mesmo, realizando-se nas possibilidades do coletivo, do solidário, da cooperação, da superação dialética no compasso da realidade dual que se põe como livro aberto a ser escrito e não como se o escrito já fosse dado.

Ítalo Svevo, genial romancista modernista italiano, em “Senilidade”, retrata a malaise européia, sua consciência infeliz, egoista, no final do século 19 e inicio do 20,  em que o capitalismo, em razão das suas contradições, expressas em crises deflacionárias destrutivas, ergue o espírito individualista, pessimista, exclusivista, mecanicista que se auto-enclausura, sendo corroído pelo egoísmo egocentrista.

Era véspera de grandes mudanças na Europa.  A discussão dos impasses incomodava extraordinariamente o espírito individualista burguês, acomodado, pessimista, niilista, que sentia, com temor, a emergência do que considerava espírito infanto-juvenil contestador.

Vingava a pregação de Marx de que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, sob impulso da inflação expressa nas emissões monetárias.

O poder estatal capitalista emissor, como demonstrou a história do século 20,  ficaria a cargo dos governos, após ter sido rompido o padrão-ouro, vigente até final do século 19,  como tradução do poder monárquivo, que viraria, no século 20, relíquia bárbara.

Agora, quem se transforma, no início do século 21, em relíquia barbara, no auge da crise financeira do poder emissor estatal,  é a própria moeda capitalista sem lastro que viera para substituir a moeda da monarquia.

O poder burguês que se impõe com sua moeda estatal inconversível entra em colapso por conta dos excessivos déficits.

Nesse ambiente , sem conhecer seus próprios limites, o individualista egoísta entra em xeque. Rende-se , por isso, à uma ciência que se desenvolve fora da realidade.

Passa, como a realidade econômico-especulativa-virtual em bancarrota está demonstrando, a ser dominado pelo abstrato, já que o concreto, essencialmente, crítico, dialético, expressão de azimute, o exaspera.

Não suporta a máxima hegeliana de que “tudo permanentemente muda, só não muda a lei do movimento segundo a qual tudo muda”.

Torna-se verdadeira farsa o equilibrismo esquizofrênico que a abstração constrói ao largo da realidade, para acomodar consciências infelizes, no contexto da bancarrota ideológica utilitarista senil, da qual os mecanicistas fogem, demonizando manifestações infanto-juvenis.

Fica exposta a hipocrisia das estruturas carcomidas pelo hábito da acomodação à abstração alienante.

Realmente, quem acha, como diz o grande Noel, acaba se perdendo.

Categoria: (Cultura, Política)

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