Colapso da reprodução capitalista

Cesar Fonseca em 02/02/2010

As representações fantasiosas que o capital criou ao longo do século 20 para preencher o imaginário inconsciente dos povos dos países ricos, pobres e remediados, como os onipotentes gerais, estão, na grande crise, mostrando o seu oposto, o fracasso. Obama tenta reviver o mito do homem aranha para tentar salvar a pátria do capitalismo, mas os déficits explodiram e os banqueiros, que estão quebrados, no colo do Estado, encontram-se entre a fogueira e o abismo. Quem vai tirá-los da UTI, se o homem aranha está recebendo transfusão de sangue à beira do túmulo?

As representações fantasiosas que o capital criou ao longo do século 20 para preencher o imaginário inconsciente dos povos dos países ricos, pobres e remediados, como os onipotentes gerais, estão, na grande crise, mostrando o seu oposto, o fracasso. Obama tenta reviver o mito do homem aranha para tentar salvar a pátria do capitalismo, mas os déficits explodiram e os banqueiros, que estão quebrados, no colo do Estado, encontram-se entre a fogueira e o abismo. Quem vai tirá-los da UTI, se o homem aranha está recebendo transfusão de sangue à beira do túmulo?

O grande gargalo do capitalismo, no momento em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, veste a fantasia do HOMEM ARANHA – para tentar salvar o povo do ataque dos banqueiros, sanguessugas da era moderna, no tempo da moeda virtual, sem lastro, livre, leve e solta, auto-multiplicadora – é conseguir outra forma de reprodução  do capital, para que o barco não afunde de vez.

A bancarrota financeira demonstrou que a reprodução na especulação encontrou os seus limites. O capital sobreacumulado em mais de 600 trilhões, em escala global, por conta dos derivativos que intoxicaram geral a circulação capitalista,não teria mais como se reproduzir na produção, no consumo, no trabalho medido pelo tempo, ou seja, pela forma tradicional de geração de riqueza.

Se os banqueiros, liberados pelos governos, os verdadeiros inflacionistas do capital, criaram a genial forma de produzir dinheiro sem o concurso do trabalho, multiplicando-o ao largo da produção, do emprego e do consumo, ou seja, do próprio modo de produção capitalista, na esfera da financeirização do capital, como seria possível, sem uma implosão, geral retornar ao útero materno do sistema, para busc ar a sua reprodução nas relações sociais conflitivas entre capital e trabalho que já haviam sido implodidas em 1929?

A atual crise é um encavalamento geral de crise, do capital comercial, do capital industrial e do capital financeiro. Cada qual , sendo parte de um todo orgânico em movimento, compõe o universal bichado, estilhaçado pelos déficits públicos.

A antevisão leninista do fracasso da financeirização econômica global que emergiu no início do século 20, com a união dos grandes bancos com os grandes conglomerados econômicos, para dominar o mundo, via guerras coloniais de conquistas, evidencia-se de forma cristalinha na grande crise global, que põe termo à reprodução capitalista ampliada na especulação e abre espaço para a crítica socialista em favor da reorganização da produção e do consumo pela centralização estatal do crédito, como já se verifica na China, misto de ditadura política com d emocracia econômica, ampliando nova etapa histórica global, no rastro da decadência americana e européia.

A antevisão leninista do fracasso da financeirização econômica global que emergiu no início do século 20, com a união dos grandes bancos com os grandes conglomerados econômicos, para dominar o mundo, via guerras coloniais de conquistas, evidencia-se de forma cristalinha na grande crise global, que põe termo à reprodução capitalista ampliada na especulação e abre espaço para a crítica socialista em favor da reorganização da produção e do consumo pela centralização estatal do crédito, como já se verifica na China, misto de ditadura política com d emocracia econômica, ampliando nova etapa histórica global, no rastro da decadência americana e européia.

A alternativa que se criou para tirar o capitalismo do crash de 29 não serve mais. A financeirização econômica global, tocada pela característica essencial do sistema descrito por Lenin, de forma genial, em “O imperialismo, fase superior do capitalismo”, 1917, leitura atualíssima, em que a circulação global do capital passa a ser tocada pelos oligopólios, sustentados pelos bancos , que, por sua vez, rolam as dívidas dos governos, que, com seus gastos, puxam a demanda global, na economia de guerra, depois do segundo grande conflito mundial, do qual o dólar saiu como moeda equivalente geral das trocas globais, é uma página da história, virada em 2008.

A fragilidade da economia dos países ricos, Estados Unidos, Europa e Japão, diante de déficits monumentais, indica que a forma de reprodução do capital via endividamento público, que cresceu, dialeticamente, no lugar da inflação, pode, no ambiente de tensão global, produzir processo inflacionário exponencial. A crise de 29 decorreu da deflação exponencial. A de 2008 pode ser expressa pelo oposto,  inflação exponencial. A inflação entrou em cena para salvar o capital sobreacumulado em crise em 29. Ali, o mecanismo de reprodução esgotara. Fora necessário, como disse Keynes, romper com o padrão ouro, a relíquia bárbara, para abrir espaço ao papel moeda inconversível emitido sem lastro pelos governos. Agora, em 2008, a solução virou problema. Emerge a negação da negação. 

Negação da negação

A bancarrota está expressa nos números. Depois de perder impulso para dinamizar as forças produtivas, o capitalismo perde pique, também, para dinamizar as forças destrutivas, que estava oxigenando geral a economia mundial ao longo de todo o século 20. Com os governos ricos impossibilitados de bombar seus deficits, o que resta é o perigo iminente de corridas especulativas contra as moedas, que, segundo Lenin, são favoráveis à impulsão do movimento socialista internacional.

Marx já tinha visto o negócio em 1865. Sob contradições insanáveis, o capitalismo, segundo ele, desenvolveria as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra, bombada pela moeda-papel, como fizeram os Estados Unidos.

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – salvo em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua própria força”, escreveu Keynes em 1944, no New Republic, conforme destaca Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, prefaciado por Edmar Bacha.

Ou seja, o âmago da macroeconomia capitalista, depois que o capitalismo entra na senilidade,  é a guerra, isto é, as forças destrutivas, para tirar do atoleiro as forças produtivas, que foram para o vinagre no crash de 29.

Na guerra, a moeda não é mais a do século 19, a moeda ouro, mas a moeda estatal, virtual, deslastreada. A burguesia, então, eliminara a moeda monárquica que os reis controlavam para explorar os burgueses, via equilibrismo orçamentário, ancorado na economia clássica.

Com a guerra, bancada pela moeda estatal, a burguesia domina o poder estatal, emitindo sua própria moeda. Por que teria que subordinar-se aos controles anteriormente determinados pelo padrão-ouro, se havia destronado a m oeda monárquica equilibrista?

O Estado é capital. Os governos contratam os bancos sob regime de concessão para fazerem circular o dinheiro que ele emite. Com uma mão, joga dinheiro na circulação; com a outra, joga papel, para enxugar parte da circulação monetária, para evitar enchente inflacionária. O mecanismo funcional durante todo o século 20. Entrou em crise a partir dos anos de 1970. Implodiu, finalmente, na primeira década do século 21, em 2008. O buraco negro está aberto. A Grécia está sendo tragada. Outros – Portugal, Espanha, Irlanda etc -  estão na fila. Até quando a moeda européia garantirá os falidos graças aos esforços dos não-falidos, ainda – Alemanha, França, Inglaterra, Itália etc?

Os exércitos imperialistas de Roma marcharam com o dinheiro de Crasso, o banqueiro romano famoso. O imperialista Tio Sam marcharia, no século 20, também, comandando a NOVA ROMA, com o dinheiro de Rockfeller, Morgan etc, assim como, no século 19, o imperialismo inglês marchou com a grana de Rothschild, Baring etc, como destaca Anthony Sampson, em  “Os credores do mundo – Os banqueiros internacionais que financiam a dívida externa”(Record, 1981).

O fôlego capitalista keynesiano-malthusiano seria diretamente proporcional à capacidade de endividamento dos governos. As bolhas financeiras que levaram à crise bombástica de 2008, centenas de vezes mais potentes que a crise de 1929, demonstraram o limite dessa capacidade. Sobretudo, demonstrou não ser ela infinita, mas , perfeitamente, finita.

O colapso da moeda estatal viria , segundo Marx, com a implosão dos deficits para sustentar o desenvolvimento das forças destrutivas, depois que as forças produtivas deixassem, como deixou a partir da crise de 1929, de dinamizar o capitalismo. A bancarrota de 2008 segue o corolário descrito pelo autor de O Capital com tanta riqueza de detalhe que evidencia o relaxo geral de como as forças do capital não se precaveram contra sua própria derrocada. O egoísmo não tem limites.

O colapso da moeda estatal viria , segundo Marx, com a implosão dos deficits para sustentar o desenvolvimento das forças destrutivas, depois que as forças produtivas deixassem, como deixou a partir da crise de 1929, de dinamizar o capitalismo. A bancarrota de 2008 segue o corolário descrito pelo autor de O Capital com tanta riqueza de detalhe que evidencia o relaxo geral de como as forças do capital não se precaveram contra sua própria derrocada. O egoísmo não tem limites.

O colosso americano, depois de dinamizar as forças destrutivas, na guerra, perde o fôlego para continuar rodando a máquina de fazer dinheiro, para ser o instrumento de dinamização e reprodução ampliada do capital, durante o decorrer do século 21. O grito do velho leão sem dentes foi dado por Barack Obama no discurso da União, semana passada, quando disse que os Estados Unidos não aceitarão o segundo lugar no concerto das nações. Mas, na reunião de Davos, os chineses, credores de Tio Sam, esnobaram o titular da Casa Branca.

O freio de Obama nos bancos é, na prática, uma tarefa de pegar bode expiatório> Os banqueiros nada mais fizeram do que praticar a ginástica de reciclar a montanha de dinheiro que o governo emitia em forma de títulos para monetizar a indústria bélica e espacial, isto é, desenvolver as forças destrutivas, para sustentar as forças produtivas, visto que estas, sob capitalismo tradicional do lassair faire, deixou de acumular capital, entrando na onda deflacionária. Ao contrário, passou a destruir, via deflação, o capital e o emprego.

Não haveria, sob o domínio das forças produtivas em colapso, como segurar o socialismo em face da bancarrota capitalista de 1929. Em Moscou, Keynes, em 1919, assombrou-se quando ouviu Lenin dizer que a decadência deflacionária que destrói as moedas representa maior fator de propaganda para o avanço do socialismo internacional. Destacou a pregação leninista como sutiliza de gênio.

O colapso das forças produtivas, portanto, a história já mostrou, como descreveu, genialmente, o autor de O Capital. O que se vê, agora, no pós-2008, é a destruição das forças destrutivas. A negação é negada. 

Inflação e deflação

Pode pintar com o dólar o que ocorreu com o marco alemão na República de Weimar, se os deficits explodirem geral, levando a uma desvalorização monetária que jogaria o capitalismo no buraco, abrindo espaço para ressurreição do socialismo ou do fascismo em meio às taxas de desemprego que avançam incontrolavelmente?

Pode pintar com o dólar o que ocorreu com o marco alemão na República de Weimar, se os deficits explodirem geral, levando a uma desvalorização monetária que jogaria o capitalismo no buraco, abrindo espaço para ressurreição do socialismo ou do fascismo em meio às taxas de desemprego que avançam incontrolavelmente?

A relação capital-trabalho, sob regime de busca de lucro, como a histórica demonstrou, produziu, largamente, contradição insanável. De um lado, gerou sobreacumulação de capital,  de outro, insuficiência crônica de demanda de manda . Emergiu gap histórico social entre produção e consumo em que o consumo não se realiza totalmente na produção. Afinal, o valor que o assalariado produz com o seu trabalho em forma de mercadoria é sempre inferior ao valor que recebe em forma de salário. A totalidade do primeiro valor não é destruída pela totalidade do segundo valor. Sobra mercadoria, avolumam-se os excedentes. A tendência natural do sistema é caminhar-se, resolutamente, como disse Malthus, para a deflação.

Keynes disse que a crise de 1929, substancialmente, decorreu da sobreacumulação de capital nos Estados Unidos e na Inglaterra. As forças produtivas, quanto mais se desenvolvem, no compasso da ciência e da tecnologia, mais insuficiência crônica relativa de consumo global produz, sinalizando impossibilidade de realização da produção no consumo.

Por isso é que o presidente Lula faz sucesso. Bastou ele reduz um pouco essa insuficiência consumista, para abrir um véu  capaz de desmentir a falsidade ideológica neoliberal da qual os banqueiros brasileiros, nesse instante, lançam mão , a de que a inflação decorre do excesso de demanda, quando se verificou , justamente,  o contrário, na grande crise.

O aumento relativo do consumo valorizou a moeda e baixou a inflação. Não é o excesso de consumo, mas a escassez relativa dele que destrói as forças produtivas.

A implosão dos deficits públicos é o sinal da decadência da solução keynesiana que funcionou para dinamizar a economia de guerra mas que com o excessivo endividamento estatal em todo o mundo, implodido na grande crise de 2008, deixa de ser funcional. A solução virou problema. Tudo que é sólido desmancha no ar.

A implosão dos deficits públicos é o sinal da decadência da solução keynesiana que funcionou para dinamizar a economia de guerra mas que com o excessivo endividamento estatal em todo o mundo, implodido na grande crise de 2008, deixa de ser funcional. A solução virou problema. Tudo que é sólido desmancha no ar.

Marx concluiu o óbvio, que quando as relações sociais estreitas estabelecidas pela produção entram em choque com as forças produtivas, largas, bombadas pelo avanço científico e tecnológico, responsável por ampliar exponencialmente a produtividade,  abrem-se tempos revolucionários etc. O desemprego nos Estados Unidos e na Europa, que apontam para estagnação econômica nos próximos dez anos, é o germe dos novos movimentos revolucionários, agora, emergentes no capitalismo cêntrico, já que na periferia, a situação , embora ruim, não é explosiva, por obra dos gastos governamentais em programas sociais, para diminuir a pressão decorrente da insuficiência consumista, como solução para o próprio capital.

O dilema que a decisão de Barack Obama cria é o de saber se o freio à reprodução do capital na escala financeira abre espaço para que a reprodução em larga escala, necessária ao montante de  capital sobreacumulado , na esfera global, seja possível na produção.  

Certamente, sob as relações sociais capitalistas é impossível, como demonstrou a crise de 1929. O que se verifica na grande crise de 2008 é a deflação não mais da produção, da economia real, mas da destruição, da economia irreal, virtual. Os déficits governamentais que alavancaram a inflação escondida nas dívidas para tirar o capitalismo da crise, agora, se expressam em tensões deflacionárias e inflacionárias ao mesmo tempo.

Categoria: (Economia)

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