Nacionalismo eleitoral feminista-dilmista

Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 20-02-2010

No embalo do nacionalismo internacionalista brasileiro, Dilma encabeça o PT na sucessão, para buscar com os aliados, a concordância com seu programa de governo. Este avança para uma posição de equidistância entre os extremos, em que predomina o Estado na tarefa de conjugar harmonicamente, em nome do interesse nacional, as relações capital-trabalho no cenário nacional desfrutando de prestígio global. Tarefa de mãe para coordenar a ação dos filhos em suas posições controversas?

Os petistas estão em estado de excitação total com o discurso nacionalista de campanha eleitoral de sua candidata, ministra Dilma Roussef, da Casa Civil. Estado-Trabalho-Capital, esse é o tripé do programa econômico-social, com o qual ela pretende ganhar a disputa eleitoral com o governador José Serra, de São Paulo, virtual candidato dos tucanos. A jogada estatal salvacionista, adotada pelo presidente Lula, no auge da crise financeira internacional, em 2008-2009, deu certo e pautou o futuro, culminando como proposta de continuidade no Congresso do PT, para lançar a ministra, no momento em que o partido completa trinta anos.

A participação do Estado para alavancar a produção e o consumo, a fim de dispor de arrecadação tributária, de modo a alavancar os investimentos, tornou-se o norte do programa de governo da candidata de Lula. O mestre e a discípula, alinhados num projeto nacional-internacional-muldimensional, que visa inserir o Brasil no cenário global em contradição total consigo mesmo, no plano capitalista, com grandes chances de despontar como terceira ou quarta potência mundial,  no século 21, lá pelos 2050. Grande meta a ser conquistada por uma série de pequenas metas, entre elas o programa nacionalista de governo petista.
O confronto entre EUA-CHINA, de um lado, e a derrocada da Europa, de outro, demonstram que o vácuo de poder mundial pode ser ocupado por quem adotou posição estratégica nacionalista no comando do Estado nacional, como foi o caso lulista. Tal estratégia transformou, inclusive, em líder global o presidente brasileiro, considerado como tal na última reunião do Fórum Econômico Mundial. Tendo obtido o máximo de honraria, o presidente se auto-impôs como parte fundamental para a solução da crise.
Nesse ambiente, o Estado nacional lulista, que é a base do programa econômico-social petista-dilmista, joga com a parceria entre o setor produtivo – capital/trabalho – e o setor estatal, para dar condições capazes de permitir ao potencial econômico-financeiro nacional, abrir espaços em meio à bancarrota financeira européia e americana.

A parceria privada-estatal, cantada em prosa e verso no Congresso do PT,  começou com o governo jogando nos programas sociais, que geraram consumo suficiente para dinamizar o mercado interno e valorizar a moeda, transformando-a em instrumento de combate à inflação e de garantia do consumidor. Lula não deixou os bancos pequenos que financiam o consumidor quebrarem, jogando o sistema financeiro estatal – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES - em socorro deles. Fortaleceu, com isso, a indústria e o comércio.
Com o aumento da arrecadação, decorrente do consumo das classes pobres, como arma para gerar a produção, o governo jogou sua segunda cartada: a de usar o poder estatal para formar oligopólios estatais-privados nos setores chaves da infra-estrutura nacional, com projeção do negócio no plano internacional. Novamente, os bancos estatais entraram em campo.Executaram a missão de dinamizar o consumo, a produção e agora o financiamento das parcerias econômico-financeira estatais-privadas, enquanto os grandes bancos privados, na retaguarda, preferiram comprar títulos do governo, para faturarem nos juros. Os lucros dos bancos em 2009 foi superior a 20%. Lucro jurista.

O discurso fundamental da ministra Dilma Rousseff, que poderá ser a primeira mulher presidente do Brasil, ancora-se na nova lógica determinada pela crise que impõe o novo tripé econômico-social em ação: Estado-Trabalho-Capital. O Congresso do PT, nascido no berço operário popular em meio ao sincretismo religioso, puxado pela Igreja Católica, para dar colorido de socialismo cristão à proposta dos trabalhadores sindicalizados, prepara-se para dar novo passo no plano desenvolvimentista, mas sob comando do Estado. O nome do jogo é CO-GESTÃO. O governo domina a metade do negócio e garante o direito de opinar sobre o rumo do empreendimento. Jogada de Sócrates: a metade é maior que o todo. Quem tem tudo, tem todos contra si; quem tem a metade, tem todos a favor de si, destacou o gênio grego.

O jogo estratégico petista-dilmista socratiano culmina com a Consolidação das Leis Socias. Mais uma vêz, o espectro nacionalista getulista está por trás do programa de governo dilmista-petista-lulista. Se foi Getúlio que criou as leis de consolidação do trabalho, Lula e Dilma a complementariam com a consolidação das leis sociais. O perfil do neo-nacionalismo dilmista seria o neo-desenvolvimentismo com viés social e não meramente econômico. Dilma Rousseff  Lula da Silva Vargas.


PMDB engolirá prato pronto?


Qual dos dois será o vice de Dilma? Michel Temer é a expressão do poder paulista, que visa manter a influência no plano federativo, a partir da transformação de São Paulo numa praça financeira internacional. Meirelles, um homem da banca nacional e internacional. Ambos terão que engolir o nacionalismo dilmista ou influenciarão para atenuar seus excessos petistas que assustam os banqueiros?

O jogo nacionalista do PT, que Dilma abraça, coloca o PMDB em situação de alianhamento ou de dúvida? Essa será a nova etapa da relação PT-PMDB, para formação da chapa presidencial. Os peemedebistas cotados para serem vice de Dilma, como são os casos do presidente da Câmara, deputado Michel Temer, e do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, são pedras no sapato do programa nacionalista petista-dilmista, que se apresenta para conduzir a campanha eleitoral. Michel Temer é pura ambiguidade. Ele se alinha ideologicamente tanto com o PT como com o PSDB. Assim como alinhou-se a Lula, foi, igualmente, alinhado ao governador de São Paulo, José Serra, virtual candidato dos tucanos. O PMDB , essencialmente, é isso aí. O peso da aristrocracia empresarial e financeira está por trás da sustentação objetiva de Temer. E esse peso não concorda, totalmente, com o nacionalismo petista dirigista em curso.

Da mesma forma, o titular do BC não está aí para fortalecer o oligopólio financeiro estatal para tocar, no plano nacional e global, o dirigismo nacionalista petista-dilmista, sendo ele um homem oriundo do oligopólio financeiro nacional e internacional, imposto pelo tesouro dos Estados Unidos ao governo Lula.

Temer disse, ao ser consagrado presidente do PMDB, na semana retrazada, que não aceitaria comida pronta. O desejo do partido é a CO-GESTÃO política como complemento da CO-GESTÃO econômica, no ambiente da coalizão governamental. Do contrário…

Por sua vez, o ministro Henrique Merelles foi incumbido por Temer de preparar um programa de governo como contribuição do PMDB ao programa econômico do governo da coalizão. Ou seja, tem que ser uma coisa mista, não pode ser apenas uma vitamina de mamão misturado com mamão.

Certamente, o congresso do PT, com todo o seu corolário nacionalista-internacionalista, com base na parceria Estado-Trabalho-Capital, dará todo o conteúdo em forma de arma política para o governador José Serra analisar e estabelecer o seu discurso. Seria ele o oposto ou uma mistura de uma coisa e outra?

O jornal espanhol El País concluiu que seja Dilma Rousseff, seja José Serra, o vencedor das eleições terá sido Lula, porque nem um nem outra mexerão na essência básica da estratégia econômica nacional brasileira que visa o cenário nacional e internacional em crise, no qual a posição brasileira é proporcionalmente vantajosa.


Pragmatismo virtuoso viciado



Ressurreição total? O ex-ministro da Casa Civil, ex-deputado José Dirceu, defenestrado pelo Mensalão do PT, que se transformou em lobista nacional, se prepara para avançar no plano internacional, com a expansão do nacionalismo internacionalista dilmista. Terá papel fundamental no comando do PT, para fazer valer o programa partidário, no contexto político em que não terá mais a presença orgânica de Lula, caso a ministra seja vencedora, para impor sua personalidade feminina no comando do Estado?

Essa visão de grandeza da Era Lula não elimina, por outro lado, as misérias que ela carrega. O caso do Mensalão do PT está sendo transformando pelos petistas em tentativa dos adversários de fazer terrorismo político. Cinismo, fuga para frente.

A falta de ética, que abriu oportunidades para o avanço da corrupção, no rastro dos caixas dois eleitorais, acabou se transformando aos olhares pragmáticos dos estrategistas petistas em algo natural do processo. Corre o mesmo risco dos que destacam que o sistema capitalista é eterno, por serem naturais as leis que o movem, quando essas leis estão falidas, como demonstram a grande crise mundial. Por que as leis da corrupção também não faliriam, como já estão caindo de podre, como ocorre no Distrito Federal?

O mensalão do PT é a  própria “ética” petista que está por trás do episódio que abalou historicamente a honrorabilidade do Partido dos Trabalhadores, tornando-o comum a todos os demais partidos. Os petistas passaram a enxergar virtude onde reina o vício. Pragmatismo puro virtuoso viciado.

O PT é o mesmo em matéria política eleitoral a todos os demais partidos, desde que o presidente Lula, em Paris, durante o auge da crise do Mensalão, destacou que o caixa dois é prática generalizada da política nacional, e por ser genérico torna-se eticamente válido. Ou seja, cinismo utilitarista, que é a base fundamental do capitalismo. Inverteu-se, portanto, o conceito de ética.

Mas, o tema ética, a não ser no Distrito Federal, e olhe lá, poderá não ter peso, porque a economia estará indo bem, estando o Brasil despontando positivamente, no cenário global, ou pode ser uma surpresa?

Os petistas, ao tentarem caricaturizar o Mensalão do PT, para que não seja confundido com o Mensalão do DEM, demonstram, indiretamente, que temem a exploração do assunto.