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Lula joga pá de cal sobre Octávio-Arruda

Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 18-02-2010

O presidente decidiu não deixar os governantes corruptos do Distrito Federal passarem na catraca de acesso à liberdade para que entrem definitivamente no ostracismo, abrindo passagem para renovação política no Distrito Federal por meio da pressão popular que vai mudando a posição da Câmara Legislativa, de objeto do governo para sujeito do processo político, a fim de limpar a sujeira do mensalão do DEM, a fim de que não seja ultrapassada pela opinião pública, disposta a apoiar a intervenção no DF pelo Supremo Tribunal Federal, se a bandalheira não for removida.

Depois de enrolar o vice na quarta, o presidente pode receber ele na quinta, mas para ter a informação da renúncia, já que não sobrou outra alternativa para o substituto de Arruda, destronado pela justiça. O presidente decidiu não deixar os governantes corruptos do Distrito Federal passarem na catraca de acesso à liberdade para que entrem definitivamente no ostracismo, abrindo oportunidade para renovação política no Distrito Federal por meio da pressão popular que vai mudando a posição da Câmara Legislativa, de objeto do governo para sujeito do processo político, a fim de limpar a sujeira do mensalão do DEM. Caso contrário, seria ultrapassada pela opinião pública, disposta a apoiar a intervenção no DF pelo Supremo Tribunal Federal, se a bandalheira não for removida.

Ao negar receber o vice-governador Paulo Octávio nessa quarta feira de cinzas para dar-lhe uma força, o presidente Lula jogou o governo do DF, definitivamente, onde já está: no abismo. Por que o titular do governo federal iria receber o personagem, numa hora terrível para os integrantes do DEM, se os próprios democratas estão divididos sobre se expulsam ou não o vice-governador? Casa de ferreiro, espeto de pau. Na prática, o presidente fez com a dupla governista o que o Pacotão havia feito com ela na avenida: destronou-a. Lula poderia ser mal interpretado pela opinião pública. Mais uma vez seria acusado de passar a mão na cabeça da corrupção. Ele fez isso com os petistas que participaram do mensalão. Colheu o sabor amargo do gesto. Os seus principais assessores, dentre eles, na ocasião, o ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu, merecera da parte do chefe do governo condescendência total, mesmo depois das acusações escandalosas feitas pelo ex-deputado Roberto Jefferson, do PTB-RJ, escancarando as práticas corruptas da administração petista aparelhada. Na verdade, as mesmas acusações de que agora padecem Arruda-Octávio vieram ao ar, no tempo do mensalão. Só que os petistas tiveram a sorte de não ter figurões flagrados pela TV, salvo funcionário de terceiro escalão dos Correios, pego com a mão na botija. Sem imagens, mas, apenas, mediante acusações, mesmo que fortes, não foi possível pegar os elementos corruptos petistas. Ainda, assim, dançaram figuras históricas do partido, como Delúbio Soares, o próprio Dirceu, Sílvio Pereira, etc. Dançaram, mas estão de novo atuando na campanha eleitoral em curso, livres, leves e soltos, para enganar a galera na arquibancada.

O que se esperava do presidente da República, nessa hora grave, não veio nada, ou seja, um depoimento dele, no café da manhã semanal, no programa de rádio, condenando a corrupção e pregando, como lenitivo, a reforma política, no rastro da possibilidade de o Supremo Tribunal Federal, sob recomendação da Procuradoria Geral da República, decretar intervenção no GDF.

O impeachment já é absolutamente certo. Os deputados distritais perceberam que se vacilarem em não tomar decisão nesse sentido serão varridos politicamente do mapa. Sem o respaldo do seu partido, do presidente da República e da Câmara Legislativa, Paulo Octávio e José Roberto Arruda podem se considerar peças do passado político brasiliense. Sobrevivem como zumbis, mortos vivos, atazanando a consciencia geral da sociedade brasiliense. Terão que renunciar para não serem cassados.

A justiça brasileira introduz novo paradigma em ano eleitoral. Faz história e deixa no ar que não apenas os governantes do DF foram e estão sendo punidos, mas, igualmente, no plano federativo, todos os demais governadores poderão dançar, se entrarem na fria em que estão Arruda-Octávio. Certamente, a justiça eleitoral vai jogar mais duro, a partir do episódio brasiliense escandaloso, e não estaria fora de cogitações que haja maior rigor com as viagens eleitorais que o presidente da República e sua candidata, ministra Dilma Rousseff, fazem pelo país, antecipando, claramente, a campanha política, entrando em confronto direto com a legislação.

A condescendência dos juízes com a peregrinação político-eleitoral de Lula-Dilma deve ser rompida, depois desse carnaval histórico, no DF, em que o Pacotão fez a revolução da alegria, levando o povo para as ruas em clara atitude de protesto, não com bandeiras politicamente agressivas, mas com muita ironia e sarcasmo, revelando que as festas carnavalescas são, também, motivos para explosões revolucionárias pacíficas. Jamais houve no DF passeata política com tamanha dimensão.  

 

Revolução pela alegria   

 

Alegria revolucionária. O carnaval brasiliense colocou a ética na campanha eleitoral 2010 e impôs ao presidente da República a cautela necessária para não receber em palácio os acusados de corrupção que enojaram a sociedade brasiliense. O Pacotão voltou aos seus grandes dias, derrubando o governo na base do sarcasmo, contribuindo, decisivamente, para dar consequência às decisões do judiciário para detonar o executivo corrompido pela ladroagem geral.

Alegria revolucionária. O carnaval brasiliense colocou a ética na campanha eleitoral 2010 e impôs ao presidente da República a cautela necessária para não receber em palácio os acusados de corrupção que enojaram a sociedade brasiliense. O Pacotão voltou aos seus grandes dias, derrubando o governo na base do sarcasmo, contribuindo, decisivamente, para dar consequência às decisões do judiciário para detonar o executivo corrompido pela ladroagem geral.

Imagine se em vez da alegria na avenida carnavalesca ocorresse um protesto contra o governo Arruda por aquela multidão que acompanhou o sensacional Pacotão no domingo e na terça de carnaval!

Poderia ter pintado uma carnificina política diante da reação da polícia em plena capital da República. A indisposição do governo Arruda para o diálogo já tinha sido dada anteriormente. Os jovens saíram às ruas e foram recebidos a patadas de cavalos e pauladas gerais. Grande violência em meio a uma passeada pacífica. Haveria, possivelmente, o dobro de violência para tentar evitar a saída de tanta gente nas ruas para protestarem, em face de circunstâncias outras.

Mas, era carnaval.

A massa alegre foi , livre, fazer o seu protesto estético cultural. Detonou geral. O Pacotão representou o símbolo da alegria revolucionária. Em vez de gritos de revolta, cantigas carnavalescas altamente satíricas. Carnaval e política representam mistura histórica, como destacou Moacyr Scliar, no Correio Braziliense, na terça gorda. Em brilhante texto, relata o desenvolvimento desse fenômeno cultural em que a política se transforma em alvo das gozações , deboches e elogios à classe política durante os carnavais.

A sociedade brasiliense já estava de saco cheio. Houve quem dissesse que a paciência dos brasilienses toranara-se excessiva, acomodada. Não. Ao contrário,  estava, apenas, esperando a melhor hora de manifestar seu inconformismo.

A prisão do governador Arruda e ascensão grotesta do vice Paulo Octávio, como alguém que ao tomar posse cumpriu seu próprio aprisionamento, encaixou como uma luva na satisfação popular.

As pessoas foram em massa às ruas. Diziam que o Pacotão estava, aos 32 anos de existência e convivência com a sátira mostrando sinais de cansaço, falência de material.

O problema era a eletricidade política que estava faltando. Quando nasceu, era o momento crítico da ditadura militar que estava buscando cercear todas as manifestações de liberdade expressando-se no fortalecimento da oposição nas eleições. Momento altamente eletrizante.

Pacotes de abril , contendo restrições à livre manifestação política, sob as ordens do NADA A DECLARAR  do ministro da Justiça, Armando Falcão, falecido às vésperas do carnaval 2010, estimularam o nascimento do Pacotão. Sucesso total: “Geisel, vocês nos atolou; o Figueiredo, também, vai atolar. Ai Atolá…”

A Nova República neoliberal foi sempre motivação extraordinária para o Pacotão, em cada carnaval, mas o ímpeto inicial, detonado pela violenta crise contra a liberdade, com os pacotaços militares, havia arrefecido.

A corrupção neorepublicana, emanada da dominação estrangeira, pelo Consenso de Washington, representou inesgotável fonte de sátiras pacoteiras.

Outros blocos apareceram e aos poucos o Pacotão foi perdendo sua hegemonia, mas nunca deixou de sair, deixando seu recado ácido para todos os transgressores da ética e da moralidade públicas.  

 

Ética entra na campaha   

 

Se a cúpula do DEM deixou os seus cavaleiros do apocalipse no DF na chuva, por que o presidente Lula iria lançar a corda de salvação para os afogados na corrupção, correndo o risco de ser enforcado politicamente com ela? Os aliados de Arruda-PO fogem deles como o diabo da cruz. A ética, graças à Procuradoria Geral da República, entrou na sucessão brasiliense, podendo espalhar essa boa nova para o país como efeito demonstração, se o STF decretar a intervenção no DF, abrindo espaço para reforma política.

Se a cúpula do DEM deixou os seus cavaleiros do apocalipse no DF na chuva, por que o presidente Lula iria lançar a corda de salvação para os afogados na corrupção, correndo o risco de ser enforcado politicamente com ela? Os aliados de Arruda-PO fogem deles como o diabo da cruz. A ética, graças à Procuradoria Geral da República, entrou na sucessão brasiliense, podendo espalhar essa boa nova para o país como efeito demonstração, se o STF decretar a intervenção no DF, abrindo espaço para reforma política.

Não havia ainda tido a oportunidade única de viver a emoção de sair na avenida no calor da prisão de um manda-chuva , ocorrida pela primeira vez na história do país. Um governador não conseguia obter habeas corpus sequer para passar o carnaval em casa.

Tinha pintado certo entorpecimento. Imaginavam-se os políticos que de tanto corromperem e serem corrompidos, com a condescendência do Judiciário, ao longo da Nova República, jamais teriam negada decisão favorável aos seus interesses , ancorados no poder, quanto mais em momento em que a capital da República seria homenageada por uma escola de samba no sambódromo carioca, onde o governador do DF estaria representando as honrarias da cidade.

Foi um susto geral e o grito de carnaval ecoou como novidade histórica sensacional. A revolução explodiu.

O povo, que estava em casa, acabrunhado com vergonha, decepcionado, até, consigo mesmo, pois não se via nenhuma manifestação de repúdio, por conta da falta total de escrúpulos dos governantes, aliviou-se geral ao saber da prisão.

E os tamboris estrilaram na avenida como se, simbolicamente, numa guerra, os soldados do bem soltassem bala nos soldados do mal, detonando-os todos. Foi uma batalha carnavalesca, onde o combustível dos guerreiros, evidentemente, foi a cerveja gelada, levada, ao longo do desfile do Pacotão, pelos vendedores em busca dos faturamentos extras nesses momentos de extroversão popular extraordinária.

O grito carnavalesco teve uma moral implícita. Assim como a justiça resolveu agir contra a sacanagem geral dos políticos no trato com o dinheiro público, a revolução pela alegria represntou a exigência da ética nas relações políticas.

O extravasamento social carvanavalesco representou um BASTA. O papel político fundamental do Pacotão representou, sobretudo, a introdução da nova ordem popular.

A ética, embora desdenhada em tempo em que predominam espertezas, em que o valor do dinheiro ultrapassa todas as fronteiras do possível e do impossível, entra na sucessão política com toda a altivez e a dignidade da sociedade brasiliense em pleno carnaval.

A revolução não produziu sangue, mas vergonha.

O país pode ser contaminado por esse novo paradigma, cuja tradução está sendo escrita por novo comportamento da justiça diante da classe política?