10 fev
2010Bolsa Família para o Haiti
Categoria: (Economia, Política) por Beto Almeida em 10-02-2010
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Em vez de mandar exércitos, por que não distribuir cartões de crédito de alimentação? Indo com ele às compras o povo estimularia, via consumo, a produção e o emprego no Haiti, como ficou comprovada a experiência no Brasil, dando sustentação ao processo macroeconômico nacional, erguendo a classe C, elevando-a de miserável à classe média. Representaria ponto de partida para a recuperação da nação destruída. Ficaria demonstrado o fato que realmente acontece quando sob o capitalismo a massa pode comer, promovendo o fenômeno da multiplicação ao se dar cabo do subconsumismo, responsável pela crônica insuficiência de demanda global que domina estruturalmente o sistema capitalista desde o seu nascimento. A ONU toparia na hora a jogada.
“Então por que que esta gente que tudo tem
não aprende a lição
com este povo que nada tem
mas…tem bom coração” (Zeca Pagodinho)
O presidente Lula , escolhido como o estadista do ano, poderia propor ao mundo a implantação de um programa Bolsa-Família Internacional para o Haiti. Se no Brasil o Bolsa-Família foi capaz de assegurar alimentação diária para 44 milhões de seres humanos que viviam , ou melhor, vegetavam dormindo e acordando com fome, como não será possível que algumas dezenas de países juntos , sobretudo os ricos, destinassem parte de seus recursos para assegurar a 10 milhões de haitianos que possam alimentar-se regularmente, enquanto o país é reconstruído?
É verdade que muitos países estão já repartindo parte de suas receitas com os haitianos. O Brasil aprovou recursos de 350 milhões de reais para a ilha caribenha. Cuba mandou para lá cerca de 60 médicos e já está montando o quinto hospital de campanha, com a ajuda dos países que formam a ALBA – Aliança Bolivariana dos Povos da América.
A Unasur estará reunindo-se por estes dias também para propor uma ação concreta de ajuda ao Haiti.
Mas, a diferença de um Programa Bolsa-Família Internacional é que daria regularidade, sustentação e promoveria o compromisso da comunidade internacional com a sorte daquele povo que já sofreu invasões militares tanto de franceses como de norte-americanos, que já teve seus recursos rapinados, que foi obrigado a pagar uma dívida escorchante com a França, que teve que suportar uma sanguinária ditadura apoiada pelos EUA e agora tem que reconstruir-se todo após o terremoto. É evidente que com uma pequena parcela do que estes países ricos gastam em armamentos, em cosméticos, em comida para cachorro, em alcool e guloseimas, já seria possível garantir o funcionamento de um Bolsa-Família no Haiti. O que deve ser indagado, com veemência, é se querem mesmo salvar o Haiti, como afirmam neste circo midiático que se formou ou se vão, uma vez mais, condenar o Haiti à morte?
No caso brasileiro, também é importante que além dos médicos, alimentos, medicamentos, veículos e maquinário para realização de obras de infra-estrutura, o Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro, os programas de reconstrução que Lula está direcionando para o Haiti incluíssem a proposta de Bolsa-Família Internacional. Isto porque não é difícil prever, lamentavelmente, que um país que já praticamente não tinha uma economia de pé, que teve sua agricultura destruída colonialismo, agora, após um terremoto deste porte, venha a sofrer também efeitos catastróficos da fome e da desnutrição. Sem contar, infelizmente, com alguma possibilidade grave de epidemias, como alertam já os profissionais de saúde.
Rádio Solidariedade
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A função consumo é que puxa a demanda. Os neoliberais sempre pregam a defesa do investimento na produção como pressuposto básico do desenvolvimento, mas como tal prioridade requer acumulação de capital, que desequilibra estruturalmente, o sistema, na tarefa da geração do lucro do investidor, o resultado acaba sendo, como a história tem demonstrado, crônica insuficiência de consumo, responsável por jogar o sistema na anarquia e nas guerras de conquistas, das quais o Haiti é , historicamente, vítima, embora tenha sido o primeiro país a decretar sua independência em 1804. Desde então a nação de negros passou a representar efeito demonstração de como não se deve viver em liberdade um povo que tem dignidade, tentando subjulgá-lo a ferro e fogo. Garantido o consumo, os haitianos seguirão adiante na construção do seu próprio destino, revertendo a desgraça em glória.
O Bolsa-Família, por meio do cadastramento das mães, permitiria salvar as crianças, a parte mais frágil de tudo isto, bem como os idosos e enfermos. O uso do rádio pode ser decisivo para orientar e dar informações de utilidade pública para toda uma população que hoje vive sob barracas, ao relento, sem endereço, sem instalações sanitárias, sem água, luz etc. Por isso, é positiva a idéia de algumas entidades sindicais e comunitárias brasileiras de coletar milhares de radinhos de pilha e doar ao Exército Brasileiro para distribuir entre os haitianos. Assim, os haitianos podem ser alcançados pela programação da Rádio ONU, por exemplo, ou outra que cumpra a função social e humanitária, rigorosamente obrigatórias. A depender de avaliação do Exército - consultas estão em curso - estas entidades poderiam também enviar transmissores de rádios comunitárias, desde que assegurado o seu funcionamento seguro e adequado, já que há ainda a atuação de grupos armados que organizam saques
Assim, caberia também ao governo pensar na instalação de um Ponto de Cultura do Minc por lá, tal como o já existente em Caracas. Assim, a solidariedade brasileira ao Haiti ganharia em qualidade com a participação popular, tal como está propondo o MST, disposto a enviar técnicos agrícolas, sementes, ferramentas. Vale lembrar que relatório da Fao indica que existe uma produção de feijão com risco de perda já que os haitianos tudo perderam, estão cuidando dos enfermos, não tem transporte, não há infra-estrutura para promover esta colheita. Quantas brigadas de solidariedade não se enviaram à Nicarágua e a Cuba para a colheita do café da cana. É hora de refazê-las. O movimento estudantil, os sindicatos, as universidades brasileiras também poderiam oferecer ajuda, seja coletando os radinhos, ou sementes, seja desenvolvendo programas técnicos adequados para a situação, seja por meio do envio de brigadas, que atuariam em coordenação com o Exército Brasileiro, conformando uma aliança cívico-militar que já atuou de forma muito positiva em nossa História, por exemplo, na Campanha “O Petróleo é Nosso”, que resultou na criação da Petrobrás.
Integração latino caribenha
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Se não fosse a decisão governamental de estimular os programas sociais , nos últimos 15 anos, no país, começando na Era FHC e se intensificando na Era Lula, a inflação teria tomado conta da economia. Matendo a fome dos miseráveis, tornou-se possível eliminar os excedentes internos, que exigiam desvalorizações cambiais, a fim de exportá-los por falta de consumo interno. Resultado: a função consumo atendida fortaleceu a moeda nacional e conteve as pressões inflacionárias, dando força à economia para suportar os reveses decorrentes da bancarrota global de 2008, que afundou o capitalismo especulativo. Os pobres salvaram os nobres.