03 fev
2010Dilma-Ciro une Norte-Nordeste ao Sul-Sudeste
Categoria: (Política) por Cesar Fonseca em 03-02-2010

A utilidade de Ciro para ajudar Dilma a chegar ao Planalto pode se dar tanto com ele disputando o Planalto, como demonstrou a pesquisa Sensus, como disputando a vice ao lado dela, pois poderia, nessa condição, arrebanhar os nordestinos que estão no Nordeste e Norte, como os que estão no Sul e Sudeste, algo que nem o deputado Michel Temer nem o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, homens de gabinete, sem cheiro de povo, poderiam fazer, como peemedebistas. Nem por isso o PMDB deixaria de mandar no poder, como a realidade sob Lula-Alencar demonstra.
O presidente Lula adquiriu, depois de oito anos de poder, ampliando os programas sociais, que salvaram o capitalismo nacional da bancarrota, ao garantirem aos capitalistas consumo interno suficiente, para combater a histórica insuficiência crônica de demanda nacional, a capacidade de unir o país em torno da unanimidade popular lulista. Se fosse candidato para disputar terceiro mandato, seria, claramente, imbatível. Mas, como, constitucionalmente, não pode, a candidata que deseja ungir precisaria repetir sua façanha, isto é, unir o país como ele uniu, conferindo-lhe mais de 80% de popularidade. Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, nascida em Minas Gerais, mas com sua vida desenvolvida no Rio Grande do Sul, tem capacidade de unir o Norte-Nordeste ao Sul-Sudeste, para repetir a glória política lulista, sem que tenha enfrentado em sua vida as urnas? Claramente, difícil. Como ela iria alcançar esse objetivo, que é fundamental, para que possa chegar à vitória?
O deputado Michel Temer, PMDB, SP, teria bala para ser aquele com quem ela garantiria a união geográfico-político-eleitoral-nacional, sabendo que, conforme ele mesmo disse em entrevista ao Valor Econômico, não é político para sair atrás de voto, sujando o sapato, para agregar valor? O temor dos petistas quanto a isso é compreensível. Temer é o homem da academia política, das articulações de gabinete, sem cheiro de povo. Seria candidato paulista que não tem pé no Nordeste, que requer representante na chapa presidencial, inquestionavelmente. Não foi isso que Lula representou, saindo de São Paulo, para empolgar os nordestinos no próprio Nordeste, por ser de lá? Uniu o país sendo paulista de adoção e nordestino de nascimento. O titular da Câmara, com sua fleugma de diplomata internacional, que nunca subiu no lombo de um jeque seria o personagem ideal para atrair os nordestinos, unindo, simbolicamente, na chapa de Dilma o Brasil do Sul e Sudeste ao Brasil do Norte e Nordeste? Ou vice não tem importância nenhuma?
Tirando Temer e colocando no lugar dele o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, PMDB, Goiás, é possível promover a união nacional da qual Dilma precisa para chegar lá? Meirelles, pelo que se nota na sua agenda, não teria ido nunca,enquanto presidente do Banco Central, ao Piauí, ao Maranhão, à Paraíba etc. Já nas grandes praças internacionais está sempre presente, dado o cargo que ocupa. Tornou-se presidente do Banco Internacional de Compensações, o famoso BIS, meio falido nesse tempo de crise, sem precisar ir ao Nordeste nem no Norte, pois nesses dois lugares não necessitaria pedir votos. Conseguiu com votos de gabinente ascender-se a esse posto espetacular, como homem de confiança da banca internacional. Portanto, dificilmente, Meirelles seria o homem capaz de agregar valor a Dilma como fator de união geográfico-política no território nacional, sendo ele homem mais do mundo do que de Goiás, onde , ainda, não conseguiu unidade para sair candidato ao governo estadual, embora tenha articulado nesse sentido, como destacam os noticiários da imprensa goiana.
Se nem Temer nem Meirelles, como representantes do PMDB, agregariam valor a Dilma, eleitoralmente, falando, por serem expressões de cúpulas políticas, sem cheiro de povo, ambientando-se no mundo das articulações dos bastidores, tanto no plano nacional, Temer, como no internacional, Meirelles, quem, como aliado forte da base governista, teria condições de exercer o papel de peão na relação Norte-Nordeste com Sul-Sudeste, de modo a se tornar o agregador geral de valor a Dilma, com o bastião do presidente Lula comandando a orquestra eleitoral? Evidencia-se que são dois candidatos fracos como agregadores , o que configura inexistência dentro do PMDB de um nome nacional forte, que uniria o partido. Há Roberto Requião, governador nacionalista do Paraná, mas sequer une o partido. O deputado Ciro Gomes, PSB, Ceará, que tem pé no Nordeste e em São Paulo, poderia estar nesse páreo? A história da campanha eleitoral de 2010 estaria sendo escrita nesse sentido ou não?
Vejamos. Lula induziu Ciro a largar o Nordeste para tentar fazê-lo candidato ao governo de São Paulo. Ou à presidência, para enfraquecer Serra? Paulista de nascimento e nordestino por adoção – ou seja, trajetória oposta à de Lula – , filho de pais do Nordeste, fez carreira na antiga Arena militarista conservadora, para depois galgar outras agremiações centristas e de centro-esquerda, fazendo discurso anti-neoliberal, na contra-corrente da dominação neoliberal neorepublicana, herdeira das dívidas deixadas pelos militares, que se afogaram na grande crise monetária dos anos de 1980. Chegou, depois de idas e vindas, nas quais conquistou o posto de governador do Ceará, destacando-se como geração renovadora, que removeu o poder dos velhos coronéis, ao prestígio político que o credenciou a transformar os olhares de Lula na possibilidade de fazê-lo governador de São Paulo. Ou presidente? Ciro teria pretensões maiores, ou seja, galgar à presidência da República. O titular do Planalto navegou nas pretensões de Ciro, para o bem e para o mal, acabando por levá-lo a transferir seu título eleitoral do Ceará para São Paulo. Pulo no abismo ou no imponderável?
A missão cirista, do ponto de vista lulista, seria disputar o Palácio dos Bandeirantes, desgastando o governador José Serra, a fim de abrir espaço para Dilma. Mas, Ciro tinha outra idéia. Sairia candidato ao Planalto para levar a eleição ao segundo turno, detonando Serra. As pesquisas eleitorais indicam a utilidade do seu pensamento estratégio para fragilizar Serra, mas, nesse rítmo, o Planalto teme que ele divida as forças governistas, fazendo repetir, no Brasil, o que acaba de acontecer no Chile. Lá, com as forças oficiais rachadas, a oposição levou. Levaria no Brasil? Ciro, apertado pelas forças governistas a desistir da candidatura presidencial, como não quer Lula, para que abrace a candidatura estadual, como deseja o titular do Planalto, joga na sua teimosia. O filósofo Tomio Kikuchi destaca que santos são os cabeças verdadeiramente duras, que insistem em suas possibilidades, conscientes de que na individualidade se encontra o universal e vice-versa. São Ciro?
O fato é que o candidato do PSB se abre para as amplas possibilidades. Demonstra, segundo as pesquisas, dispor de voto e, igualmente, significa nome que atrai tanto os nordestinos que estão no Nordeste, como os nordestinos que estão no Sul e Sudeste, especialmente, em São Paulo. Nessa condição especial, representaria, com vantagem, a companhia que Dilma necessitaria para unir política e geograficamente o país como consenso representativo das forças governistas em busca da união almejada pela coalizão governamental. Mas, e o PMDB, que quer a vice-presidência, para mandar no poder? Convenhamos, seria indispensável aos peemedebistas dispor da vice para, realmente, mandar no poder?
A realidade atual, sob Lula, demonstra, claramente, ser dispensável. O vice de Lula, José Alencar Gomes da Silva, não é do PMDB e nem por isso o PMDB deixou de mandar, e mandar muito. Não se faz nada no país sem o PMDB. Precisaria que o partido alcançasse a vice-presidência, para que essa evidência acontecesse? Evidentemente, a história está demonstrando que não. Se o PMDB continuar, por exemplo, dando as cartas no Congresso, na Câmara e no Senado, como rola , hoje, em que a parte conservadora peemedebista reina, o poder continuaria, claro, com o PMDB. Haveria possibilidade, com o novo governo Dilma, se eleita, de governabilidade efetiva sem os peemedebistas no comando do legislativo, salvo se não conquistarem maioria parlamentar? Claramente, não.
Dessa forma, aos próprios peemedebistas interessariam que o vice de Dilma viesse a agregar valor político-eleitoral a ela, para que as bases do partido alcançasse sucesso nas urnas. Alcançariam com Temer? Com Meirelles? Sendo Ciro Gomes homem do Nordeste, que pode empolgar tanto os nordestinos que lá estão como os que vieram de lá para o Sul e Sudeste, com destaque para São Paulo, as chances de agregação de valor político eleitoral seriam, teoricamente, maiores. Certamente Ciro, se vice de Dilma, não seria, apenas, um candidato do Sul-Sudeste na chapa de uma sulista, mas um nordestino que, nascido no sul, traria o Norte e o Nordeste para uma composição geral em favor das forças governistas.
Como ele não quer saber de candidatura ao governo de São Paulo, porque os petistas, principalmente, estão barrando-o, dados os interesses em jogo, e insiste em sair candidato ao Palácio do Planalto, conferindo utilidade à candidatura de Dilma, no sentido de garanti-la ao segundo turno, destronando Serra, que, sem ele, poderia faturar no primeiro turno, como demonstrou pesquisa Sensus, a possibilidade de o presidente Lula emplacar a união das forças governisas, evitando duas candidaturas, para dar caráter plebiscitário ao pleito, somente ocorreria se levasse a Ciro a proposta da vice.
O PMDB chiaria, exigiria poder etc, mas poderia concordar, principalmente, se , nas próximas pesquisas, Dilma continuar subindo, sem que haja força impulsionadora do PMDB para isso. Afinal, sem dispor de candidato popular, com amplo trânsito nacional, mas de coronèis, manchados pela pecha da corrupção, que pesa, negativamente, o pmdb mandaria sem precisar nem da presidência nem da vice-presidência, como evidencia a realidade sob Lula-Alencar.