Consumo do pobre é salvação do rico

A salvação do Haiti pela fraternidade universal aponta que será também por meio da solidariedade global que a economia mundial encontrará saída para o seu impasse, caracterizado pela sobreacumulação de capital, configurando tendência de que não está mais no capitalismo a solução do problema do capital, mas numa organização social que coordene o desenvolvimento, de modo a evitar a escalada deflacionária destrutiva em marcha, apontando para uma haitização econômica generalizada, caso não haja bom senso internacional no contexto de novo multilateralismo.

A salvação do Haiti pela fraternidade universal aponta que será também por meio da solidariedade global que a economia mundial encontrará saída para o seu impasse, caracterizado pela sobreacumulação de capital, configurando tendência de que não está mais no capitalismo a solução do problema do capital, mas numa organização social que coordene o desenvolvimento, de modo a evitar a escalada deflacionária destrutiva em marcha, apontando para uma haitização econômica generalizada, caso não haja bom senso internacional no contexto de novo multilateralismo.

Politicamente, o assunto dessa segunda-feira, se não fosse o desastre monstruoso do Haiti, teria, obrigatoriamente, de ser a vitória do direitista  Sebástian Pinera, no Chile, desbancando  a centro-esquerda de Eduardo Frei, candidato apoiado pela presidente Michelle Bachelet. A primeira vista, os analistas destacam que a derrota governista decorreu da divisão de suas próprias forças. Estas racharam em três candidaturas. Mas, por que se dividiram? Certamente, depois de 20 anos de exercício de poder, a sociedade resolveu buscar alternativa, para evitar congelamento de mando político, sempre carregado de vícios. A democracia é isso. Mas, o importante é que Pinera destacou que governará buscando apoio daqueles a quem derrotou e ressaltou, ao ser saudado por Bachelet, que buscará, sempre que possível, os conselhos dela, para administrar o país. Algo novo, portanto, impossível de acontecer no calor das rivalidades registradas nos anos anteriores, quando as chamas da ditadura de Pinochet inviabilizavam a possibilidade de que houvesse diálogo entre os adversários. Mas, deixemos de lado esse assunto, importante, sim, porém, menor diante da tragédia haitiana, que mobiliza o mundo atormentado pela bancarrota capitalista.

O Haiti queima corações e mentes globais e mobiliza-os para reconstrução solidária do país em meio ao caos, sinalizando que o resultado dessa empreitada ditará fraternidade universal entre os povos nos momentos de desespero, dor e angústia, quem sabe, conscientizando a todos de que já se faz necessária união não apenas para atacar as catástrofes naturais, mas, igualmente, os desastres econômicos, decorrentes da bancarrota do capitalismo, agora, de joelhos diante do Estado, já quase sem fôlego para dar conta do recado, de sustentar, via endividamento, problemas cruciais em expansão, por enquanto, incontroláveis. 

Novo diálogo sulamericano  

A vitória de Pinera e seu discurso de que recorrerá aos adversários para ajudá-lo a governar representam superação histórica de recentes disputas entre duas forças antagônicas que se digladiaram no Chile, depois da ditadura Pinochet, sinalizando novo tempo de diálogo, que contribui, por sua vez, para fixar novos horizontes para a convivência democrática universal, sensibiizada, nesses dias, com o desastre monumental do Haiti.

A vitória de Pinera e seu discurso de que recorrerá aos adversários para ajudá-lo a governar representam superação histórica de recentes disputas entre duas forças antagônicas que se digladiaram no Chile, depois da ditadura Pinochet, sinalizando novo tempo de diálogo, que contribui, por sua vez, para fixar novos horizontes para a convivência democrática universal, sensibiizada, nesses dias, com o desastre monumental do Haiti.

A mobilização global pelo Haiti, intensificada, destacadamente, pelos Estados Unidos, cujo presidente Barack Obama, negro, certamente, está, profundamente, tocado pela tragédia dos seus irmãos de cor, emerge como desafio incrível, no sentido de que pode estar sendo escrito novo capítulo da humanidade em que se desenha máxima de que a salvação dos ricos, em desespero econômico, pode estar na ajuda aos pobres, em dramática luta pela sobrevivência. Na prática, o que se verifica são paradoxos brutais. Os países, economicamente, poderosos, como os Estados Unidos, Japão e os europeus, depois de alcançarem tudo em forma de bem estar material, vêem-se frente a uma reação econômica distencionista da sociedade, expressa em cansaço consumista. As análises dos especialistas estão repletas desse dissídio pessimista. Já os países pobres, como os latino-americanos e os africanos, aos quais tudo faltam, descobrem suas forças por meio de políticas voltadas para o consumo interno, via incremento de políticas sociais, responsáveis por abrir novos caminhos ao mesmo tempo em que o capitalismo vive suas contradições insolúveis.    

Solução para união interna 

Obama tem no Haiti o fio de Ariadne para tentar conter dentro dos próprios Estados Unidos a resistência a sua política de união nacional, que pode ser sensibilizada pela ação em favor dos haitianos como efeito demonstração, ao mesmo tempo que pode abrir espaço para os capitais empoçados nos Estados Unidos a se voltarem para os investimentos em infra-estrutura, tanto na nação destroçada, mas, igualmente, nas demais nações pobres, como alternativa para a bancarrota financeira interna.

Obama tem no Haiti o fio de Ariadne para tentar conter dentro dos próprios Estados Unidos a resistência a sua política de união nacional, que pode ser sensibilizada pela ação em favor dos haitianos como efeito demonstração, ao mesmo tempo que pode abrir espaço para os capitais empoçados nos Estados Unidos a se voltarem para os investimentos em infra-estrutura, tanto na nação destroçada, mas, igualmente, nas demais nações pobres, como alternativa para a bancarrota financeira interna.

Ameaçados de se sucumbirem, de um lado, pelo excesso de liquidez financeira , que joga as taxas de juros no chão, e, de outro, pela fuga do consumismo, especialmente, por conta do  endividamento excessivo das famílias, ameaçadas pelo desemprego, despontando como principal desastre social, que sinaliza tensões políticas inevitáveis, os países ricos precisarão de algo mais do qual sempre fugiram, ou seja, da necessidade de buscar nos pobres, fortalecendo seu poder de compra, a saída deles. A corrida solidária em massa dos poderosos, tomados pelo espírito humanitário em face da tragédia haitiana, dispondo-se a ajudar os mais destituídos da terra, por processo histórico de espoliação econômica colonial, pode, ao mesmo tempo, significar solução para que tal gesto seja contínuo, igualmente, em tempos normais, não somente para salvar os pobres, alimentando-os, livrando-os da fome, da morte e dos desastres naturais, mas, da mesma forma, conferindo-lhes a necessária infra-estrutura, indispensável como propulsora de condições capazes de gerar produção, consumo e arrecadação aos governos para tocar os investimentos públicos, a fim de consolidar mercados internos. Construídos estes, a produção estagnada nos países ricos teria canais de escoamento. 

 Falência da economia de guerra  

Não há mais espaço para o unilateralismo que levou o mundo à economia de guerra como motor para a acumulação capitalista cujo resultado foi desenvolvimento insustentável em ritmo de bolhas especulativas até a implosão final a demandar, a partir de agora, cooperação internacional, assim como no Haiti a humanidade, sob o impacto do horror, impulsiona-se à fraternidade universal. Os desastres da economia capitalista requerem o mesmo tipo de comportamento salvacionista, sob pena de a economia mundial se transformar num GRANDE HAITI. Ou seja, uma tarefa para o G-20.

Não há mais espaço para o unilateralismo que levou o mundo à economia de guerra como motor para a acumulação capitalista cujo resultado foi desenvolvimento insustentável em ritmo de bolhas especulativas até a implosão final a demandar, a partir de agora, cooperação internacional, assim como no Haiti a humanidade, sob o impacto do horror, impulsiona-se à fraternidade universal. Os desastres da economia capitalista requerem o mesmo tipo de comportamento salvacionista, sob pena de a economia mundial se transformar num GRANDE HAITI. Ou seja, uma tarefa para o G-20.

Vale dizer, são dessas iniciativas que dependem o capital sobreacumulado nos países ricos para não se sucumbirem na deflação, já que seus mercados internos estão monetariamente aguados , enquanto o comércio internacional, na ausência da cooperação econômica global, pode entrar em crise de guerra protecionista, cujas conseqüências, como a história demonstra, sobejamente, são mais expansões armamentistas como estratégia de conquista de espaços, desembocando em novas e mais intensas guerras. Felizmente, com a grande crise global em marcha, o fôlego financeiro dos governos ricos, especialmente, o dos Estados Unidos, para intensificar gastos em produção bélica e espacial – estratégia que puxou o capitalismo americano depois da segunda guerra mundial -, está curto. Caso os americanos intensificassem a economia de guerra keynesiana, em face dos excessos de déficits que já enfrentam, sofreriam, certamente,  corrida contra o dólar, atacado por processo de intensa desvalorização.

Configura-se, portanto, conjuntura internacional que não favorece a expansão guerreira  unilateral dos americanos, sem fôlego para ampliar, ainda mais, o endividamento público. O perigo que já ronda as finanças americanas, abaladas pela bancarrota financeira global, que a desregulamentação bancária especulativa, facilitada pelo próprio governo de Washington e dos governos europeus, aprofundou, aponta para déficits correspondentes a 150% do PIB. Não haveria gás, por parte de Tio Sam, para agüentar a continuidade de tal rojão. Em 1944, o déficit americano, com a expansão da economia de guerra, chegou aos 140% do PIB, mas, então, a capacidade de os Estados Unidos se endividarem, mediante emissão de dólares sem lastro, era outra; passados mais de 60 anos, o fôlego do Estado Industrial Militar não é mais aquela brastemp.  

Coordenação global 

O Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, está na obrigação de coordenar, desde já, plano internacional de reconstrução não apenas do Haiti, mas, igualmente, do mundo capitalista em colapso, pois as alternativas nacionalistas em marcha apontam para novos desastres iminentes, impulsionados pela visão equivocada de que a continuidade da acumulação lucrativa do capital, como religião universal, seja a solução, tendo o protecionismo como horizonte visível. Ou seja , terremotos destruidores.

O Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, está na obrigação de coordenar, desde já, plano internacional de reconstrução não apenas do Haiti, mas, igualmente, do mundo capitalista em colapso, pois as alternativas nacionalistas em marcha apontam para novos desastres iminentes, impulsionados pela visão equivocada de que a continuidade da acumulação lucrativa do capital, como religião universal, seja a solução, tendo o protecionismo como horizonte visível. Ou seja , terremotos destruidores.

Sabendo que foi o fôlego guerreiro keynesiano de Tio Sam o motor que impulsionou o capitalismo mundial, depois da segunda guerra, realizando, de um lado, déficit comercial e fiscal, para puxar a demanda global, e, de outro, superávit financeiro, graças ao poder de emitir moeda deslastreada, capaz de assegurar senhoriagem vantajosa em forma de juros compostos, mas que tal fôlego já acabou, restando avaria por todos os lados, restaria a busca de outra estratégia internacional por parte dos americanos. A opção pela economia de guerra não seria mais solução, mas, fundamentalmente, problema, expresso na possibilidade de corridas destruidoras contra o dólar, algo já em marcha. Assim, se não há mais possibilidade de alavancar a guerra como dinamizadora da reprodução capitalista; se, igualmente, tal reprodução não pode mais ser realizada especulativamente, dada a bancarrota em marcha, decorrente, justamente, do excesso de especulação com o capital sobreacumulado; se as forças do consumo dos países ricos estão baleadas pelo excesso de endividamento, bloqueadas pela avareza dos bancos, em falência, para continuar o jogo especulativo do crédito, restaria, como alternativa, ampliar o consumo não mais dos ricos, mas dos pobres.

Alimentar os pobres, a juro baixo, seria a salvação dos ricos. Reconstruir, não apenas o Haiti, mas toda a periferia capitalista miserável, para que ela pudesse integrar-se à economia global por meio do consumo, capaz de dar dignidade a uma ampla faixa populacional global que vive na miséria, vai se desenhando como saída alternativa para os ricos, que não têm onde remunerar seus capitais sobreacumulados nos países ricos, onde a taxa de juro está negativa, configurando eutanásia do rentista. O problema que se colocaria, de agora, em diante seria outro: o mundo agüentaria a expansão consumista, de modo a dar sustentação à reprodução capitalista com lucro suficiente, na escala necessária para evitar a deflação? Ou haveria necessidade de uma coordenação global do desenvolvimento econômico, via ONU, para limitar a ganância capitalista, de modo a evitar desastre ambiental inevitável, se a exploração, visando o lucro, prevalecesse sobre todas as coisas, como tem acontecido até agora?