07 jan
2010Dilma, ex-guerrilheira, incomoda militares
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 07-01-2010

A condição de ex-guerrilheira estaria incomodando as forças armadas? Essa é a grande questão que está por trás da resistência dos militares à revisão da lei de anistia e do relatório da força aérea dando parecer contrário à decisão do presidente Lula de escolher a compra dos c aças franceses em nome do interesse estratégio nacionalista brasileiro na América do Sul, escanteando parceria com os Estados Unidos?
Esta cada vez mais cheirando à construção de golpismo fantasmagórico a combinação, durante as duas últimas semanas, da reação dos militares contra revisão da anistia com o relatório da Aeronáutica, desancando a opção do presidente Lula pela compra dos aviões franceses, classificados em terceiro lugar, relativamente, aos suecos, tidos como mais eficazes e mais baratos, e aos americanos, igualmente, apresentando melhor preço e igual eficácia. Como percebeu o senso agudo do jornalista Beto Almeida, as palavras que enchem os jornais não dizem, exatamente, a verdade sobre o assunto. Estariam por trás outras razões que não ousam, pelos seus articuladores, colocar a cabeça de fora. Não seria, no caso da discussão da revisão da lei de anistia, uma tentativa de inviabilizar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão do presidente Lula? Estariam parte dos militares resistentes a que se chegue ao poder uma ex-militante da luta armada resistente à ditadura? Estariam os comandantes militares reticentes de serem comandados, hierarquicamente, por uma presidente que, durante a ditadura, combateu-os de arma nas mãos? Dilma, por esse ângulo, escondido, freudianamente, nas avaliações emergentes na grande mídia, incomodaria ou não, acentuadamente, os homens das casernas? Se incomoda, estariam eles dispostos a formarem fileiras de resistências contra a possibilidade de ela chegar ao topo do poder nacional pelo voto popular soberano democrático, mediante apoio do presidente da República, como chegou no Chile, Michele Bachelett, resistente à ditadura, filha de um resistente à ditadura pinochetista?
Udenismo golpista à vista

Carlos Lacerda, gênio político carioca, golpista que mobilizou as forças armadas contra Getúlio Vargas e sua proposta nacionalista, é o protótipo do testa de ferro do capital externo, que sempre buscou mobilizar as forças anti-democráticas, para barrar o desenvolvimento nacional sustentável, apoiado nas forças internas, para rechaçar o poder externo intervencionista no país.
E o relatório da Força Aérea, tentando desqualificar a decisão do presidente Lula de comprar caças franceses, escanteando os americanos e os suecos, como interpretá-lo: apenas do ponto de vista técnico ou , eminentemente, político? Constituir-se-ia manobra militar oculta à opção presidencial, a fim de acertar tiros na ministra Dilma, numa jogada golpista, cuja essência seria construção de fantasma, na tentativa de dar uma volta ao passado em que as casernas decidiam politicamente os destinos do país? Ou, estimulados por forças do capital, representariam combinações de forças econômicas e políticas, interessadas em atrair os militares para chancelarem interesses obscuros, que já se manifestaram em diversas oportunidades na histórica brasileira contemporânea? O que foi o UDENISMO LACERDISTA , nos anos de 1950/60, senão movimentos estimulantes de golpes políticos contra a caminhada política nacionalista brasileira, resistente aos grupos políticos internos, aliados às forças do capital norte-americano, interessadas em eternizar o Brasil como instrumento de manipulação do grande capital, especialmente, depois da segunda guerra mundial, sob domínio do todo poderoso dólar? Estaria ou não em marcha um NEO-UDENISMO tupiniquim, insatisfeito com a tendência nacionalista do governo Lula, que seguirá adiante com Dilma Rousseff, vindo ela vencer a eleição presidencial de 2010?
Nacionalismo em marcha

O trio nacionalista brasileiro que enfrentou com sucesso a bancorrota financeira internacional assombra as forças externas, que, aliadas aos conservadores nacionais, sempre bateram às portas dos quarteis, para garantir seus interesses no comando do poder do Estado nacional.
No segundo mandato presidencial lulista ocorreu mudança quantitativa e qualitativa de rumo da política econômica que, se aprofundada, ainda mais, sob domínio político dilmista, aumentaria a insatisfação das forças do grande capital, que sempre correram aos quartéis brasileiros e sul-americanos, para defenderem seus interesses em nome do perigo de rompimento democrático por pregadores anti-democráticos, resistentes à ampla liberdade de ação do capital externo na América do Sul. Representadas, especialmente, pelo sistema financeiro e investidores internacionais, aliados das velhas forças nacionais retrógradas, elo dependente da poupança/dívida externa/eterna escravizadora, tais forças, que sempre buscaram atrair militares mediante discursos golpistas, estariam se arregimentando nesse sentido em ano eleitoral, para voltarem a controlar o aparelho de Estado do qual foram desalojadas pelo nacionalismo sul-americano emergente? A política econômica nacionalista colocada em prática por Lula criou fato político novo, que marca a economia política, no Brasil, com novas cores, a partir de 2006. Sob visão concernente ao nacionalismo pregado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, um dos teóricos do nacionalismo, em seu livro ”A economia política brasileira” (Polis/Vozes, 1984), e pela ministra Dilma Rousseff, defensora do aprofundamento da orientação econômica nacionalista em curso na Petrobrás, depois da descoberta do petróleo na área do pré-sal, as forças conservadoras estariam se reunindo em torno da candidatura do governador tucano paulista, José Serra, para jogarem contra a orientação nacionalista lulista-manteguista-dilmista?
Solução vira problema

Meirelles jogou no contra-ataque das forças nacionalistas no auge da crise global, sinalizando compromisso com as forças internacionais que buscaram e buscam sustentar a dominação externa pela poupança externa na disseminação da falsa crença de que o país não dispõe de poupança interna, o foi desmentido na medida em que Lula apostou no mercado interno e negou a falsa teorização dos credores.
Os conservadores aliados ao capital externo, no compasso do fortalecimento do mercado interno, que eliminou, mediante políticas sociais lulistas, o excedente produtivo nacional, estão sem chão, depois da grande crise global. Quando tal excedente interno se transformava em problema, por conta do crônico subconsumismo existente, a alternativa deles era pressionar o governo em favor de crescentes desvalorizações cambiais, para estimular exportações. Tal manobra produzia inflação. Mais inflação, menores os salários, maiores os custos empresariais, maior tensão na relação-capital trabalho. O arrocho salarial, produzido pelo diagnóstico conservador-reacionário de que a inflação brasileira decorria do excesso de demanda global, sendo necessário diminuir a pressão consumista – em meio ao subconsumismo crônico! – era a alternativa fundamental de política econômica. Como, por tal diagnóstico, salário é custo e não renda, tornava-se necessário cortar os custos, isto é, capar os salários para combater a inflação. Sem renda disponível para o consumo aumentava o subconsumismo que exigia, sobredesvalorizações cambiais. Resultado: pressão inflacionária, arrocho salarial. Ciclo destrutivo da poupança interna para se depender da poupança externa. Toda essa armação de política econômica emergia, naturalmente, como fruto do aumento do risco, cujo resultado sempre foi elevação dos juros, para combater as “pressões consumistas”, ideologicamente construídas nos laboratórios neoliberais. Com o fortalecimento do mercado interno, por conta das políticas sociais lulistas, não foram mais necessárias desvalorizações cambiais. Decorreu disso, maior valorização da moeda, ou seja, do poder de compra dos salários, reajustados acima da inflação, e dos miseráveis, nos quais o governo injetou, igualmente, maior potencial de compra. Os ganhos inflacionários dos bancos gerados pelo subconsumismo estão indo para o espaço. Consequentemente, a solução que requeria juros altos transformou-se, com a recuperação do mercado interno, em problema.
Diagnóstico furado

O presidente do BC argentino, neoliberal, tenta resistir à onda nacionalista do governo de Cristina Kirc hner, defensora da utilização das reservas cambiais para o desenvolvimento interno, algo incômodo aos interesses internacionais, contrários à tese de que a poupança interna se realiza com o fortalecimento do mercado interno.
Resultado: o combate à inflação se faz com mais e não com menos consumo. Neutralizou-se a possibilidade de ganhos crescentemente especulativos pela banca na sustentação de um diagnóstico antiinflacionário que perdeu utilidade. A manutenção de tal orientação econômica, a ser sustentada por Dilma Rousseff, vindo a ser vitoriosa, sinaliza menores ganhos para os especuladores, que sempre recorreram aos militares para fabricarem crises quando seus interesses são contrariados. O fortalecimento do consumo interno reduz o risco Brasil que exige, logicamente, menores juros, antes mantidos nas alturas, justamente, em nome do risco Brasil. Vale dizer, interesses profundamente contrariados. Se o risco cai, por que sustentar elevada taxa de juro, como insiste o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sintonizado com as forças do capital financeiro? Ele passa a correr perigo com a onda nacionalista sul-americana, que detona visão neoliberal, como está acontecendo na Argentina, com a presidente Cristina Kirchner pedindo a cabeça do presidente do Banco Central argentino, Martin Redrado. Emerge contexto que condena a sustentação dos absurdos ganhos financeiros dos bancos. A bancocracia contrariada sempre buscou motivações para golpes, quando seus interesses dançam. Como destacou o maior especulador do mundo, George Soros, os bancos estão sob tensão, porque acabaram as possibilidades de se manter a reprodução do capital sobreacumulado, que vinha se sustentando na super-especulação sob desregulamentação total, apoiada, disfarçadamente, pelos governos. Como o capital deixou de se reproduzir na produção, já que nela, as contradições capitalistas impedem a sobreacumulação capitalista – como já demonstrara a crise de 1929 – o horizonte do capital, bloqueada a sobre-especulação, está, completamente, turvo.
Ataque à parceria real-euro

A resistência não seria aos aviões franceses , mas à parceria França-Brasil, estratégica na América do Sul, incomodando os Estados Unidos, que sempre consideraram o continente sul-americano quintal de Tio Sam.
A aposta nacionalista de Lula-Mantega-Dilma, nesse sentido, incomoda, profundamente, as forças financeiras atordoadas pela crise. A correlação de forças políticas está sob inflexão histórica. Algo semelhante ocorreu no tempo de Getúlio Vargas, que jogou com o social para tentar evitar a dominação total do econômico, bancado pelas forças externas, aliadas aos conservadores internos. Os fatos, naquela ocasião, expressaram-se, agudamente, em forma de complôs militaristas, fomentados pelo poder do capital, manipulando a UDN lacerdista. Poderiam estar ocorrendo versões semelhantes em forma de tentativa de repeteco histórico, quando o nacionalismo ganha força no início do século 21 em toda a América do Sul? As forças externas estariam tentando manipular aliados internos para evitar que a opção estratégica do presidente Lula pela parceria com a França, isto é, com o euro, se concretizasse em prejuízo de parceria com os Estados Unidos, ou seja, com o dólar? Há, no caso, clara tentativa de mudança do eixo monetário por parte do governo Lula. Tal opção estratégica, que balança as estruturas internas, montadas por velhos aliados, fomentariam ou não fantasmas golpistas, para assustarem forças que buscam romper as velhas dependências colonialistas econômicas que predominaram durante o século 20, mas, agora, rompidas em face da grande crise capitalista americana?









