29 jan
2010Chavez vira Lenin em ação
Categoria: (Cultura) por Cesar Fonseca em 29-01-2010

- Chavez aprofunda o discurso socialista para vencer a crise econômico-financeira venezuelana decorrente da bancarrota global com a convicção de que a nova conjuntura internacional que fragiliza o capitalismo cêntrico, candidatando-o à condição de caloteiro, libere forças políticas renovadoras, impulsionadas pelo desemprego e pelas pregações políticas radicais que ele detona para fazer avançar as relações sociais frente às forças do capital em crise, sob controle do Estado.

As eleições parlamentares de setembro na Venezuela prometem ser agitadas em meio à crise econômico-financeira que o presidente Hugo Chavez enfrenta, racionando energia, por escassez de oferta e diminuição dos investimentos relativamente ao consumo que aumentou com a melhor distribuição da renda, e desvalorizando a moeda. Com isso, eleva a inflação, os juros e desestabiliza socialmente, enquanto fecha tevês privadas que viraram partidos políticos oposicionistas depois de 2005. Naquele ano, omitiram-se nas eleições parlamentares, entregando as 167 cadeiras da Assembléia Nacional às forças chavistas, agrupadas no Movimento da Quinta República. Configurou-se, na prática, emergência de partido único, à moda leninista. Não se pode descartar a violência em meio ao câmbio sob controle governamental que coloca o meio empresarial sob domínio oficial , especialmente, a mídia, que , para importar equipamentos, papel etc, necessita recorrer ao governo.
O erro dos oposicionistas em 2005 foi brutal: não compareceram à disputa democrática. O presidente Chavez, claro, aprofundou suas propostas de mudanças à esquerda, totalizando MAIORIA ABSOLUTA. Abriu-se espaço ao ABSOLUTISMO CONSTITUCIONAL DEMOCRÁTICO DE PARTIDO ÚNICO.
Os oposicionistas entregaram na bandeja a rapadura, ou seja, o que todo candidato a revolucionário pede: o poder total. Busca-o pelas armas, como a história demonstra. Chavez, cuja leitura política principal, nesse momento, conforme revelou, é o “Estado e a Revolução”, de Lenin, não precisou desse recurso. A oposição, rachada em suas forças tradicionais – AD , COPEI e outros – facilitou , isto é, deu-lhe o comando político absoluto.
O líder soviético escreveu o livro no pique das mudanças revolucionárias, em cima de partido revolucionário, pregando sua existência absoluta e sua utilização para centralizar totalmente o poder e realizar, pela violência política, na União Soviética, o que considera fundamental: submeter ao controle do Estado o crédito e o comércio exterior, em primeiro lugar, para dispor da moeda e das transações cambiais como alternativa para evitar especulações e perdas bruscas do poder de compra da população. Lenin fez isso, destruindo a democracia burguesa. Chavez faz a mesma coisa com a própria democracia, sem oposição, omissa ao processo democrático.
No momento, Chavez corre, justamente, o perigo de perder o controle sobre a moeda e, consequentemente, a inflação. Tenta jogar as reservas cambiais para sustentar um dólar valendo 4,3 bolivares, moeda venezuelana, mas, no mercado paralelo, as transações estão sendo realizadas com 6 a 7 bolívares. Buraco grande. Provavelmente , como especulam os bancos, a inflação, em 2010, pode chegar aos 45% ou a 50%, no ritmo do descontrole cambial, comendo solto no mercado negro.
Nesse contexto, a fuga de capitais se intensifica. As estatizações do petróleo, do cimento, do aço e serviços de utilidade pública, mais os confiscos de produção alimentícias junto aos grandes grupos econômicos multinacionais, como a Cargil, que domina oligopolicamente o comércio de arroz, e outros grandes varejistas como a rede franco-colombiana Exito Hipermercado, estimulam os capitalistas a tal fuga de dinheiro do País. Mas, aplicariam onde, se a taxa de juro internacional é negativa, configurando eutanásia internacional do rentista? Deixariam seus investimentos na América do Sul, a nova rica do mundo, para ir para os paraísos fiscais onde , com o juro negativo, o prejuízo seria certo? A moeda nacional oscila selvagemente nas relações reais, ao largo do artificialismo cambial governamental. O dólar de Tio Sam, abalado pela crise mundial, encontra forças, na especulação, para detonar o bolívar de Chavez .
Se o presidente jogar todas as reservas, atualmente, abaixo dos 30 bilhões de dólares, para salvar o bolívar contra o ataque do dólar, provavelmente, secará o pote de ouro venezuelano. Chegará a esse ponto?
Ao longo da semana, sob pressão oposicionista em protesto por fechamento de canais de televisão privados por resistirem à lei que determina sejam divulgados os discursos do presidente da República e diante de rachas internos dentro do governo, com debandada de auxiliares importantes, como o vice-presidente e o presidente do Banco Central, que toma conta da moeda, evidenciou radicalização. Chavez avisou, em contrapartida, que pode aprofundar a política socialista. Militares comandam a política cambial, não os economistas.
Fuga de capitais e inflação em alta, conjugados com queda do preço do petróleo e tensões entre oferta e demanda em uma conjuntura econômica sem base industrial auto-sustentável, tudo dependendo das importações, eis o desafio gigantesco que enfrenta presidente Hugo Chavez. Detentor do poder absoluto, conferido pela Assembléia Nacional, pode jogar o jogo leninista, montando em partido único , constitucionalmente representado no parlamento, que lhe conferiu apoio à aprovação de 49 decretos para governar absolutamente sem a oposição. As cordas estão esticadíssimas.
Sob o influxo leninista implícito na proposta revolucionária contida em “O Estado e a Revolução”, que faz a cabeça do titular venezuelano, poderia pintar a emergência da versão soviética na Venezuela, nos moldes em que se deu o golpe de Estado na burguesia russa, em 1917, rompendo com as instituições burguesas democráticas venezuelanas?
Na Venezuela, até que pode se conjecturar que o presidente Chavez, com o seu discurso bolivariano libertador, poderia pegar nas armas para mudar o contexto político, a fim de valer a sua pregação revolucionária ancorada em Bolívar, que caminha para o leninismo. Mas, não seria necessário. A oposição colaborou.
Oposição traiu o povo

- A pregação leninista requer avanço do Estado sobre o crédito e o comércio exterior para tentar organizar a produção e o consumo sob orientação socialista, pois, de acordo com o credo de Lenin, nas crises globais avançam as anarquias financeiras capitalistas que detonam o poder de compra popular em face das oscilações monetárias, propiciando, sob medo popular da falência, o avanço do discurso socialista internacional.

Os oposicionistas presentearam o presidente dando-lhe a Assembléia, o poder constitucional, como forma infantil de protesto contra a maneira com que Chavez passou, via democracia plebiscitária, a governar, depois de 2002, quando sofreu o golpe articulado por políticos e militares com ajuda da Casa Branca. Traíram as instituições democráticas ao renunciarem à disputa eleitoral em 2005. Criaram as condições para surgimento da democracia absolutista de partido único, inaugurando etapa história em que se poderia fazer revolução com consentimento da oposição ausente. Fragilizada e acuada pelas pressões populares, depois do golpe que manobrou, em 2002, para derrubar o presidente, fugiu do pau.
Pode se afirmar, então, como analistas venezuelanos relativamente isentos destacam, que a política na Venezuela se divide entre Antes de 2002 e Depois de 2002. Conseguindo avançar mediante consultas democráticas diretas à população, o presidente foi encantoando os oposicionistas, infringindo-lhes seguidas derrotas, até que decidiram que omitir poderia representar ato de resistência política ao avanço bolivariano chavista, chancelado nas urnas. Lascaram-se e, consequentemente, prejudicaram o processo democrático, na sua essência fundamental de estabelecer contrapesos político-partidários etc, ou seja, o jogo político burguês.
Nasceu o partido único ideológico chavista , graças aos oposicionistas. E o partido único, sem precisar chegar ao poder pelas armas, alcançou-o, absolutamente, pelo voto em Chavez, favorecido pela ausência da oposição no pleito.
Com o poder constitucional absoluto, o presidente Chavez se dispôs a acelerar as mudanças de forma mais radical. Tirou o poder das forças tradicionais, omissas no processo eleitoral. Repassou-o , com a ajuda do dinheiro farto do petróleo, às forças comunitárias, em forma de prioridade política ao combate às desigualdades sociais. Rompeu e enterrou os pactos de elite, vigentes desde o final dos anos de 1950 em diante. Liberou as forças do mandonismo político tradicional e instaurou nova ordem.
Nesse ambiente, os partidos políticos da oposição, sem trincheira na Assembléia, pois a ela se renunciou, burramente, transferiram-se para nova trincheira, a grande mídia. Esta, que apoiara o golpe contra Chavez em 2002, inconformada com a derrota eleitoral de 1998 e a mudança do discurso presidencial rumo à pregação socialista, joga como partido político direto por cima da própria oposição institucionalmente fracassada.
Guerra midiática

- A burguesia, que tentou o golpe constitucional contra Chavez, em 2002; que abandonou sua trincheira de luta, as eleições, em 2005, e, agora, guerreia pela mídia privada, que se transforma em partido político, tenta voltar à cena, mas suas forças estão desorganizadas e a Casa Branca sob Obama não é a Casa Branca sob W. Bush para sustentar os Pedro Carmona. Ou é?

Na Venezuela os partidos políticos oposicionistas são os meios de comunicação e os jornalistas, efetivamente, os políticos, depois que deixaram o parlamento na mão do presidente, sem resistências.
Se a oposição, sem representação na Assembléia, se retirou para as redações dos jornais, Chavez, naturalmente, buscou o oposto: criou sua própria redação. Tese e Antítese.
ALÔ, ALÔ, PRESIDENTE! Programa dominical estatal passou a ser a comunicação direta de Chavez com as massas. Atualmente, a comunicação estatal se expressa em 34 emissoras de TV, 500 estações de rádios comunitárias, jornais de circulação regional e nacional e agência de notícias. Oligopólio midiático estatal para enfrentar o oligopólio midiático privado, que atua como partido oposicionista no vácuo da sua ausência no parlamento. As massas jamais puderam dar seu recado. Pela mídia comunitária abundante, alavancam os movimentos sociais que atuam como ponta de lança da organização política socialista. Avança clara luta de classes.
Como os legisladores, no Congresso, são maioria absoluta constitucional chavista, eleita no rastro da omissão oposicionista, a legislação nascida dessa representação absolutista-unitária somente poderia ser forçosamente expressa em legislação unitária-absolutista. Ordem unida absoluta contra a oposição, alinhada na trincheira do poder midiático privado.
A legislação configurada pela maioria chavista encabrestou a mídia para dar espaço ao noticiário do presidente, que fala horas e horas para a população, dominicalmente. Resistir à palavra do presidente seria, portanto, resistir à lei, aprovada pela maioria governamental, já que a oposição, no parlamento, inexiste. Se não se obedece a lei, torna-se ilegal. A tribuna midiática privada virou ilegalidade no jogo do domínio político de partido único. Leva chumbo grosso.
Não há mediação política no País. Há, sim, radicalização total. De um lado, a mídia privada; do outro, a mídia estatal, que não pode ser chamada de mídia pública, na acepção da palavra, em meio ao contexto radicalizado, como demonstrou a competente reportagem do jornalista Cláudio Bojunga e do cinegrafista José Araripe Junior no Canal OI – Observatório da Imprensa, na TV Brasil, apresentado por Alberto Dines, sobre o perfil midiático venezuelano como tradução política fundamental da Venezuela, para além dos partidos.
Há frontalidade brutal, no momento em que se abre a campanha eleitoral parlamentar para as eleições de setembro. Governo e oposição estão entrincheirados em suas respectivas redações. Confronto psico-social explícito, agressivo, totalmente, incompatibilizado.
Com as paixões acesas, os oposicionistas, de um lado, tentam consertar a mancada histórica, fazendo campanha política pelos jornais e tevês, já que os partidos se desestruturam na ausência da prática democrática. Já os governistas, do outro lado, de posse de conquistas legais alcançadas por maioria parlamentar absolutista, tentam manter o absolutismo parlamentar de partido único que tem permitido avanço político que em outra conjuntura somente seria possível pelas armas. A radicalização chavista decorre da fuga burra da oposição à luta democrática.
Revolução constitucional

- As ruas esquentam os tamborins da política para disputar as eleições parlamentares em setembro; ganhará a oposição, que está desestruturada e desacreditada por ter abandonado a luta legislativa?; ou vencerão as forças chavistas, para aprofundar a proposta socialista, favorecida pela ampliação do poder estatal, tendo como ancora as reservas de mais de 500 milhões de barrista de petróleo, bombeadoras de programas sociais distributivistas?

O absolutismo democrático chavista é absolutamente legal, constitucional. A base dessa legalidade é a representação democrática governista, que trabalha sem ter a oposição como objeto de resistência no parlamento. A burguesia venezuelana renegou seu próprio instrumento de luta. Traiu o povo. Chora o leite derramado.
O que Lenin aprofundou, ou seja, a revolução do partido único CONTRA e SEM o parlamento, em 1917, instaurando o poder bolchevique, Chavez o faz COM o parlamento, constitucionalmente.
A tarefa de Chavez, portanto, está sendo a de aprofundar o domínio do partido único governista mediante legalidade constitucional. Quem deu o golpe: Chavez que ganhou a eleição ou a oposição que fugiu dela?
Depois do golpe de 2002, Chavez caminhou nesse sentido, no da oligopolização midiática, de forma paulatina, em nome do interesse público, porque tal interesse, naquele ano, foi rompido, pelo engajamento do oligopólio midiático privado nas fileiras do golpismo político explícito.
Até quando durará o absolutismo democrático Venezuelano? A crise econômica entrou em cena para ajudar a oposição. Ou não. Caso ocorra o que analistas internacionais proclamam, que a crise se aprofundará nos países ricos, ou seja, no centro do capitalismo, excessivamente, endividado, detonando desemprego e calotes gerais, as contradições poderão estourar no plano político global, abrindo novas eras de mudanças.
Pra frente ou para trás viriam as transformações? Democracia parlamentar fortalecida ou enfraquecida? Democracia direta? Socialismo? Ditadura?
Essencialmente, os oposicionistas venezuelanos – que lançaram mão do golpismo apoiado pelo governo americano – lutam para conquistar o poder, porque pretendem, naturalmente, dominar a fantástica riqueza expressa no petróleo, cujas reservas, na Venezuela, são para mais de 500 bilhões de barris, conforme vieram ao ar, recentemente, notícias alvissareiras.
O poder econômico conferido pelo petróleo daria oportunidade a Chavez, no governo, mediante absolutismo constitucional, sob partido único, continuar gastando para elevar a renda interna, que reduz o poder dos grupos dominantes, concentradores da renda nacional, avançando com as conquistas populares, rumo ao socialismo no embalo da leitura de “O Estado e a Revolução”.
Se os oposicionistas conseguirem barrar Chavez no Congresso, em setembro, as reformas radicalizadas se arrefeceriam?
Os rachas internos no governo nos últimos dias, indicando diminuição de poder de grupos rivais dentro da máquina governamental, para dar lugar a novos grupos e novos interesses chavistas, interessados em aprofundar as mudanças rumo a uma proposta socialista, indicam as dificuldades das manobras políticas absolutistas respaldadas democraticamente no parlamento.
Os desdobramentos, certamente, serão dados pelos próprios venezuelanos, que irão às urnas em setembro, se não houver algum golpe pelo caminho, envolvendo forças internas e externas, em contexto internacional de crise capitalista.
























