Direito de Consumo, democracia nacionalista

Cesar Fonseca em 29/12/2009

Se Lula é o homem do ano(Le Monde) e um dos 50 mais famosos do mundo(Financial Times), Guido Mantega pode ser considerado o economista da década. Ambos fizeram a dobradinha anti-neoliberal que empinou o capitalismo nacionalista brasileiro, configurando o modelo democrático burguês, base da tese de mestrado do titular da Fazenda, na USP, para explicar porque a relação capital-trabalho no país, sob dependência da poupança externa, eternizava-se, sendo rompida, apenas,  pela opção ao fomento do consumo popular, na grande crise global, que comprovou dispor o país de potencial interno capaz de dar sustentação ao desenvolvimento com combate à inflação, gerando confiança internacional na economia brasileira.

Se Lula é o homem do ano(Le Monde) e um dos 50 mais famosos do mundo(Financial Times), Guido Mantega pode ser considerado o economista da década. Ambos fizeram a dobradinha anti-neoliberal que empinou o capitalismo nacionalista brasileiro, configurando o modelo democrático burguês, base da tese de mestrado do titular da Fazenda, na USP, para explicar porque a relação capital-trabalho no país, sob dependência da poupança externa, eternizava-se, sendo rompida, apenas, pela opção ao fomento do consumo popular, na grande crise global, que comprovou dispor o país de potencial interno capaz de dar sustentação ao desenvolvimento com combate à inflação, gerando confiança internacional na economia brasileira.

Produção é consumo, consumo é produção, como disse Marx, do mesmo modo que poupança interna é consumo interno e consumo interno, poupança interna. Por que existia inflação descontrolada no Brasil até Lula chegar ao poder para incrementar o consumo popular? Porque predominava a fome. Os excedentes internos jogavam os empresários no desespero. O subconsumismo interno levava-os, sofregamente, ao governo, para pedir recorrentes sobredesvalorizações cambiais. Moeda desvalorizada, para jogar o excedente no exterior, provocava pressão inflacionária. Com isso, os salários sofriam depressões. Salários deprimidos significavam mais fome, mais subconsumismo, mais excedente interno, mais desvalorização da moeda, mais inflação etc. Ciclo vicioso da fome, gerando pressão inflacionária. Tal quadro, evidentemente, impedia a formação de poupança interna. Buscava-se, então, poupança externa, via dívida externa. Mais uma vez o grande Marx: a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Num primeiro momento, diz ele, a poupança externa = dívida externa dinamiza a economia. Num segundo instante, gera insuficiência crônica de demanda global, porque o objetivo da poupança externa, irrigada para os países dependentes, não é o desenvolvimento, mas a super-exploração, o super lucro. Diante da insuficiência crônica de consumo, historicamente, construída pela poupança externa = dívida externa, elevava-se, evidentemente, o risco do tomador. Quando este pede mais dinheiro emprestado para tapar o buraco, o banqueiro, temeroso do risco, cobra juro composto, que dá mais lucro que explorar petróleo. Se o cliente vira risco, o juro sobe, claro. Deficits em contas correntes emergiam aos borbotões. Sempre foi assim, principalmente, quando pipocam crises, construídas pelas dívidas externas, que, por sua vez, são expressões de sobreacumulação de capital nos países ricos. Mais empréstimos, mais juros compostos, mais dependência externa.

Xodó da grande mídia, Henrique Meirelles tenta vender que a reação positiva da economia decorreu da ação do Banco Central, que, na grande crise, manteve juro alto, levando perigo constante às atividades produtivas, quando os demais governos capitalistas optaram pelo juro negativo, a fim de facilitar a ação do Estado, de modo a permitir-lhe intervir no processo econômico e salvar o capitalismo da catástrofe. Aqui, o goiano banqueiro, que quer ser vice na chapa de Dilma, fez o contrário, e ainda põe banca. É dose.

Xodó da grande mídia, Henrique Meirelles tenta vender que a reação positiva da economia decorreu da ação do Banco Central, que, na grande crise, manteve juro alto, levando perigo constante às atividades produtivas, quando os demais governos capitalistas optaram pelo juro negativo, a fim de facilitar a ação do Estado, de modo a permitir-lhe intervir no processo econômico e salvar o capitalismo da catástrofe. Aqui, o goiano banqueiro, que quer ser vice na chapa de Dilma, fez o contrário, e ainda põe banca. É dose.

Assim, os pregadores da máxima de que o país precisa de poupança, antes de consumir, para sobrar mais para investir, jogam, simplesmente, a favor dos credores. São os casos, por exemplo, dos notórios economistas bancocráticos, tipo Maílson da Nóbrega, Affonso Celso Pastore, Edmar Bacha, Pedro Malan, Gustavo Franco, Armínio Fraga, Henrique Meirelles, todos crias gordas da bancocracia, que se ampliou, extraordinariamente, no Brasil, ao longo da NRBN – Nova República Bancocrática Neoliberal, herdeira do espólio militar. Veio, agora, a grande crise de 2008 e eles ficaram, completamente, desarmados, porque os governos tiveram que partir para a eutanásia do rentista, instaurando o juro negativo, a fim de salvar o sistema capitalista. Caso mantido o juro positivo, os governos quebrariam e o socialismo ressuscitaria revigorado. Pregam, então, os adeptos da bancocracia que o perigo é o excesso de benemerência fiscal governamental, que está acumulando muitos déficits, razão pela qual anunciam crises futuras. Viraram os novos catastrofistas. Para desarmá-las, dizem, é preciso poupar. Como Freud – sempre esse cara genial – disse que as palavras servem para esconder o pensamento, é necessário ler o oposto do que estão dizendo, enchendo páginas e mais páginas de jornais, mentindo e tentando reverter  acontecimentos em favor dos seus patrões, os banqueiros.

 

Inversão da realidade

Autor de "A crise completa - a economia política do NÃO", Lauro Campos(1929-2003) , socialista marxista, professor de onze matérias de economia na UnB, maior crítico da Era FHC, como senador petista, que abandonou o PT por desencanto com a caminhada da agremiação para a corrupção política, serviu de norte para a ação nacionalista do presidente Lula, na grande crise, fazendo a política do NÃO sugerida pelo brilhante intelectual como contrapolo ao neoliberalismo.

Autor de "A crise completa - a economia política do NÃO", Lauro Campos(1929-2003) , socialista marxista, professor de onze matérias de economia na UnB, maior crítico da Era FHC, como senador petista, que abandonou o PT por desencanto com a caminhada da agremiação para a corrupção política, serviu de norte para a ação nacionalista do presidente Lula, na grande crise, fazendo a política do NÃO sugerida pelo brilhante intelectual como contrapolo ao neoliberalismo.

O que os notórios economistas bancocráticos, que fazem a cabeça da grande mídia, esquecem de dizer, quando tentam assustar o povo pregando que a inflação está chegando aí e que, portanto, é preciso prevenir-se, enxugando os gastos do governo, cortando aqui, ali, acolá , o diabo, para, evidentemente, sobrar mais dinheiro de modo a pagar juros escorchantes em forma de superávits primários crescentes, que, com o presidente Lula, passaram a descer a ladeira? Negam a explicação de que o aumento do consumo combate a inflação e que o que produz ela é o juro alto, repassado aos preços. Explicam o fenômeno inflacionário pelo avesso. Antes, sob subconsumismo, produziam-se excedentes internos que exigiam sobredesvalorizações cambiais recorrentes, expressas em inflação. O remédio receitado pela bancocracia era um só: arrocho salarial para combater o consumo, porque o diagnóstico dela era o de que a inflação decorria de excesso de demanda. O povo consumia demais. O purgante deflacionário caia no lombo do populacho para engordar os lucros bancários. Juros altos eram necessários em nome da necessidade de poupar para investir, enquanto o investimento, quando realizado, não gerava consumo correspondente, negando a furada Lei de Say. Por que voltar ao purgante anterior, sabendo que ele é um desastre? O presidente Lula está indo para a história e se transformando em mito político, simplesmente, porque inverteu a equação dos economistas empregados da bancocracia. Faz o que Lauro Campos descreve em “A crise completa – a economia política do NÃO” (Boitempo, 2002).

A crônica insuficiência de consumo, decorrente do arrocho salarial capitalista, é, segundo Marx, a mãe de todas as crises do sistema, que o levam, sob subconsumismo, a descolar-se da produção para a especulação, gerando bolhas e mais bolhas especulativas que, encavalando-se no tempo, criam as bases de destruição dele, transmudando-o de impulsionador das forças produtivas para detonador das forças destrutivas, na guerra.

A crônica insuficiência de consumo, decorrente do arrocho salarial capitalista, é, segundo Marx, a mãe de todas as crises do sistema, que o levam, sob subconsumismo, a descolar-se da produção para a especulação, gerando bolhas e mais bolhas especulativas que, encavalando-se no tempo, criam as bases de destruição dele, transmudando-o de impulsionador das forças produtivas para detonador das forças destrutivas, na guerra.

NÃO para o superavit primário elevado; NÃO para o arrocho salarial; NÃO para os juros escorchantes; NÃO para a sobredesvalorização cambial a fim de elevar as exportações à custa do empobrecimento produzido, cientificamente, pelo processo inflacionário construído pelo subconsumismo interno, gerado pela poupança externa = dependência externa-eterna etc, etc etc. Quando os bancocratas dizem SIM, para engordar banqueiro, deve-se contrapor o NÃO, para salvar o povo da fome. O titular do Planalto, ao garantir, com os programas sociais que promoveu, como o Programa Bolsa Família; como o reajuste real do salário mínimo, ainda, uma miséria; como a reposição para os servidores, capaz de garantir aos miseráveis três refeições diárias, assegurou às Dona Maria do POVÃO, parente de Dona Lidu, mãe dele, que saíra do submundo, em Pernambuco, para sobreviver no submundo,  em São Paulo, o consumo de 40 milhões de quilos de comida/dia, que circulam pelas estradas afora do país, renovando os estoques da indústria nacional, como destaca o empresário brasiliense Sebastião Gomes. Ah, dizem os economistas bancocráticos e seus porta-vozes, jornalistas de economia: ASSISTENCIALISMO! Desconsideram em suas análises que o consumo é, com o investimento, fator econômico essencial. Mecanicistas, só vêem um lado da realidade. Descartam que ela é dual, positivo-negativo, singular-plural, yin-yang, masculino-feminino, claro-escuro, dialética, interativa em processo de negação em que a negatividade é a realidade. Investimento não gera consumo correspondente, como imaginou Jean Baptiste Say, pai dos neoliberais, segundo o qual toda a oferta gera demanda correspondente. Marx gozou tal máxima econômica esotérica. Say teria razão, disse, se as mercadorias que vão para as prateleiras dos mercados fossem vendidas SEM lucro. Quem iria produzir? Quem renunciaria à liquidez, garantida pelo juro, para produzir 100 e vender por 100? Como SEM LUCRO O empresário não renuncia à liquidez e, portanto, não investe, porque não é burro, ao realizar lucro promove, sob capitalismo, insuficiência crônica de demanda. Quantas vezes é preciso repetir que empresário não está preocupado em gerar emprego, mas lucro? O gap entre o valor a mais que o trabalhador produz em forma de mercadoria e o valor a menos que recebe em forma de salário, mercadoria comprada pelo capital, diz o autor de O Capital, produz, de um lado, o excedente não consumido e, de outro, o salário não pago, roubado, a mais valia apropriada como lucro pelo capital. Trabalho é valor que se valoriza(Marx). Não consumido internamente, o estoque excedente precisa ser exportado para onde há consumo, mas, ao preço deprimido, pela dominação cambial, exercida pelas moedas dos países ricos na relação com as moedas dos países pobres, como destaca Keynes em entrevista a Santiago Fernandes, em “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”(Nordica, 1985). O autor de “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, entrevistado em 1944, durante a Conferência de Bretton Woods, por Santiago Fernandes, repórter do Jornal do Brasil e, na ocasião, economista estagiário do Banco do Brasil, na Universidade de Columbia, foi claro: os ricos botam preço cambial elevado para cotar as manufaturas que produzem, a fim de trocá-las por matérias primas cotadas por preço baixo, instaurando, historicamente, a deterioração nos termos de troca. A perda cambial, gerada pela moeda mais forte sobre a mais fraca, produz a dependência, que é socorrida pela poupança externa = dívida externa = instrumento de dominação internacional, impulsionando risco, juro alto e, consequentemente, mais dependência.

 

O jogo da dependência

 

 

Ex-presidente do Banco Central, consultor da bancocracia nacional e fazedor da cabeça da grande mídia, Affonso Celso Pastore, ideológo mecanicista, adepto da furada Lei de Say, prevê a volta da inflação, sem considerar que o combate a ela está sendo feito pela opção ao consumo como remédio contra o subconsumismo detonador das pressões inflacionárias de outrora. Reza no altar dos banqueiros, pregando juro para aumentar a poupança interna e  a dependência economicida externa-eterna.

Ex-presidente do Banco Central, consultor da bancocracia nacional e fazedor da cabeça da grande mídia, Affonso Celso Pastore, ideológo mecanicista, adepto da furada Lei de Say, prevê a volta da inflação, sem considerar que o combate a ela está sendo feito pela opção ao consumo como remédio contra o subconsumismo detonador das pressões inflacionárias de outrora. Reza no altar dos banqueiros, pregando juro para aumentar a poupança interna e a dependência economicida externa-eterna.

O que anda dizendo, por esses dias, o renomado economista Affonso Celso Pastore, bancocrático de carteirinha, respeitadíssimo pelos colunistas econômicos, que repetem seus argumentos como católicos praticantes? Que o excesso de consumo cria a armadilha da inflação. Por isso, acrescenta, é preciso poupar, o que significa, na linguagem dele, política monetária restritiva, ou seja, juro mais alto. Meirelles diz a mesma coisa. Ladainha bancocrática de uma nota só. Os banqueiros agradecem embevecidos. Mas, será que se cortar o consumo, que está sendo bombado pela política fiscal lulista-keynesiana, ocorreria o que pregam, isto é, o investimento, que geraria consumo correspondente, se fosse possível levar a sério o ideólogo deles, Jean Bapitiste Say? A história já comprovou que não. O argumento brandido outrora pelo FMI segundo o qual a inflação na periferia capitalista decorre do excesso de demanda foi detonada pela grande crise de 2008. A política econômica lulista de gerar consumo via fortalecimento do social frente ao econômico demonstrou que a inflação decorre não do excesso consumista, mas da fome. Matou a fome, mata-se/controla-se a inflação. Só que, para isso, é preciso dividir o bolo, capar o superávit primário.

Pai dos neoliberais, Jean Baptiste Say abraçou o esoterismo econômico ao dizer que toda a oferta gera demanda correspondente, produzindo equilíbrio macroeconômico eterno sob capitalismo, algo somente possível se os capitalistas renunciassem ao lucro. Impossível.

Pai dos neoliberais, Jean Baptiste Say abraçou o esoterismo econômico ao dizer que toda a oferta gera demanda correspondente, produzindo equilíbrio macroeconômico eterno sob capitalismo, algo somente possível se os capitalistas renunciassem ao lucro. Impossível.

Disso os economistas subordinados à bancocracia têm pavor. No fundo, a bancocracia quer é deflação, ou seja, sobra de mercadorias internamente, para exigir desvalorização, a fim de combatê-la com inflação, que reduz salários, que aumenta a insuficiência interna de consumo, que eleva o risco e, por tabela, o juro, para atrair a poupança externa = dependência externa-eterna. Se for mantida a política de sustentar o consumo interno, evidentemente, haverá poupança interna suficiente, porque MAIS CONSUMO = MAIS ARRECADAÇÃO = MAIS INVESTIMENTO PÚBLICO = MAIS POUPANÇA. Vale dizer, é furada a dicotomia poupança versus investimento. Configura-se, por fim, o que disse Marx, que produção é consumo, consumo é produção. A pregação dos economistas bancocráticos de que é preciso aumentar a poupança interna, daí ser necessário enxugar a política fiscal, capaz de levar os empresários a optar pelo investimento, não assegura, naturalmente, o investimento, porque mais investimento privado, necessariamente, não leva ao consumo correspondente. Consequentemente, não fortalece a arrecadação. Pelo contrário, diminui, já que emerge a crônica insuficiência de demanda global. Veja, agora, o que está acontecendo. A arrecadação, depois que o consumo lulista-keynesiano foi bombado, está subindo, embora haja capacidade instalada ociosa. Se não tivesse sido estimulado o consumo, mas, sim, o investimento, como prega a bancocracia, a classe produtiva estaria falida. Quem iria comprar máquinas novas, para colocar no lugar das que estão paradas, diante do consumo insuficiente? Não havendo, historicamente, correspondência na máxima jeanbaptistesayniana de que toda oferta = investimento gera consumo correspondente, mas, sim o seu contrário, isto é, insuficiência crônica de demanda/consumo, poupar mais, como prega a turma da bancocracia – Mailson, Pastore, Bacha, Franco, Malan, Armínio etc – seria suicídio econômico. O resultado não seria mais investimento, mas, sim, mais inflação. Estaria sendo reconstruída a armadilha anterior, dos excedentes internos, bomba inflacionária em potencial que bombeia juro. Se essa jogada fosse repetida, com os governos entrando em campo para salvar o capitalismo da catástrofe, as dívidas governamentais que escondem , dialeticamente, a inflação, iriam para o espaço. Ou seja, inflação exponencial, que levaria tudo de roldão. O prestígio do presidente do BC, ministro Henrique Meirelles, somente se sustenta pela mão dada a ele pela grande mídia, escrava da bancocracia.O jogo do capitalismo não é mais garantir, preferencialmente, o investimento, mas o consumo, equilibrando ambos, de forma equivalente, pois um não sobrevive sem o outro. Especialmente, ao governo, que precisa de arrecadação, é melhor negócio bombar o consumo, que dá resultado imediato no cofre do tesouro, do que o investimento, que , ao contrário, reduz os ingressos tributários, já que dependem de desonerações fiscais, recorrentemente.

 

Modelo Democrático Burguês

 

Os dois grandes economistas sustentaram polêmica sensacional por mais de 50 anos em torno da dicotomia eterna entre poupança e investimento para concluirem, no caso de Ricardo, que a lei do valor-trabalho é a produtora real da riqueza, e no caso de Malthus, que a insuficiência crônica de consumo sob o livre mercado requer o Estado como gastador de última instância para evitar que o sistema desemboque na deflação que destroi capital e trabalho.

Os dois grandes economistas sustentaram polêmica sensacional por mais de 50 anos em torno da dicotomia eterna entre poupança e investimento para concluirem, no caso de Ricardo, que a lei do valor-trabalho é a produtora real da riqueza, e no caso de Malthus, que a insuficiência crônica de consumo sob o livre mercado requer o Estado como gastador de última instância para evitar que o sistema desemboque na deflação que destroi capital e trabalho.

Poupança ou investimento? Trata-se de velha discussão. Ricardo e Malthus, na primeira metade do século 19, tiveram clássica discussão em torno do assunto. Os dois trocaram cartas, que ficaram famosas, durante cinqüenta anos. Malthus, gênio, percebeu, claramente, que a teoria dos rendimentos decrescentes, adaptada por Ricardo à agricultura, não seria jamais válida, se aplicada à indústria. Na agricultura, sim, os rendimentos são decrescentes, quanto mais se utilizam as terras menos férteis. Menos produtividade justificava redução de salários. Mas, na indústria, a produtividade, no compasso do desenvolvimento científico e tecnológico, em vez de decrescente, é altamente crescente. A adaptação da teoria ricardiana para a agricultura aplicada à indústria se torna tão somente ideologia para justificar redução de salários não mais em ambiente de baixa produtividade, mas de alta produtividade. A continuidade da lei dos rendimentos decrescentes na indústria, como forma de multiplicar os lucros do capital via arrocho salarial, ideologicamente construído pelos economistas neoclássicos, representaria, tão somente, segundo Malthus, aprofundamento da característica essencial do capitalismo, ou seja, a expansão da crônica insuficiência de consumo. A economia, para Malthus, seria, por isso, uma ciência lúgubre, triste, enriquece, de um lado, mas empobrece, de outro. E a pobreza crônica inviabiliza o sistema, levando-o à especulação e à deflação. A inflação seria a salvação. Caso contrário, os investimentos não se realizariam por conta do consumo crônico insuficiente, sabendo que o resultado é queda de preços. A inflação seria necessária para elevar relativamente os preços como medida capaz de justificar os investimentos. A economia, dessa forma, vira ciência da escassez. Quem renunciaria à liquidez, se os investimentos na produção não dessem retorno? Emerge a grande questão: quem provocaria a inflação, ou seja, a salvação do capital, se o mercado livre, pela livre competição, leva à deflação? A eficiência capitalista, bombada pela ciência e a tecnologia, que eleva a produtividade, é auto-suicida no ambiente da livre competição. Teria que aparecer o oposto da eficiência, isto é, a ineficiência, para equilibrar, dialeticamente, o sistema. Querer Estado enxuto, sob equilíbrio orçamentário, seria esquizofrenia pura. A tarefa caberia aos gastos do governo que elevariam a inflação, disfarçada de dívida pública, que cresce, de forma dialética, no lugar dela, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”.

Keynes abandonou seu guru neoclássico, equilibrista-marginalista, Alfred Marshall, para abraçar Malthus, pois concluiu que o livre mercado, levado ao extremo, sob padrão-ouro, seria o calvário e não a salvação do capitalismo, dependente, depois do crash de 29, dos recorrentes socorros estatais, mediante oferta de papel moeda, regulada pela autoridade monetária expressa nos bancos centrais. Deu certo enquanto a dívida interna teve fôlego para esconder a inflação, crescento no lugar dela.

Keynes abandonou seu guru neoclássico, equilibrista-marginalista, Alfred Marshall, para abraçar Malthus, pois concluiu que o livre mercado, levado ao extremo, sob padrão-ouro, seria o calvário e não a salvação do capitalismo, dependente, depois do crash de 29, dos recorrentes socorros estatais, mediante oferta de papel moeda, regulada pela autoridade monetária expressa nos bancos centrais. Deu certo enquanto a dívida interna teve fôlego para esconder a inflação, crescento no lugar dela.

Edmar Bacha, que escreve o prefácio do livro, diz que Lauro viu em 1958, na sua tese “Inflação, instrumento de controle econômico e social”, o que John Hicks escreveria 16 anos depois, em 1974, isto é, a bancarrota keynesiana estatal guerreira como ponto final do auge capitalista no século 20.  Malthus pregou a ineficiência estatal inflacionária para sustentar a eficiência privada deflacionária. Os pregadores do falso moralismo macroeconômico equilibrista são crentes católicos na moeda monárquica,  sobrevivente sob padrão ouro até final do século 19. Não entraram, ainda, na era da moeda burguesa que destruiu o rei e rompeu com o que Keynes denominou de “Relíquia bárbara”, ou seja, o ouro, substituído pelo papel moeda sem lastro, ancorado não nos metais, mas no papel moeda, garantidor das bombas atômicas e do poderio bélico-espacial. O Estado, com sua moeda, é capital. Os Estados Unidos consideram integrantes do Eixo do Mal todos aqueles que queiram desenvolver no limite o que os próprios Estados Unidos desenvolveram, ou seja, a indústria bélica e espacial como detonadora final das novidades tecnológicas que seriam transformadas em bens consumíveis para dar sobrevida à indústria de bens duráveis, carentes de consumo sustentável sob mercado livre, que levou ao crash de 1929. O consumo popular, no contexto da bancarrota capitalista, versão 2008, surge como o milagre capaz de sustentar o investimento e a reprodução do capital, depois que os gastos de guerra ameaçam explodir a sustentabilidade do sistema, rompida pelos déficits, combatidos, agora, pelo juro negativo. O Direito de Consumo transforma-se em salvação econômica, social e política, diz Sebastião Gomes. A redução da taxa de juro se impõe como imperativo categórico. O nacionalismo, que emerge na Era Lula, sob comando do ministro da Fazenda, Guido Mantega, autor de “A economia política brasileira”(Polis/Vozes, 1984) é a alternativa que o consumo interno cria para formar a poupança interna, sinalizando independência econômica. Rompe-se o ciclo da dependência, que, historicamente, impediu a relação-combinação capital-trabalho nacionais, enquanto o excedente interno, produzido pelo subconsumismo, levou os capitalistas brasileiros a renderem-se, dependentemente, aos sócios estrangeiros, bloqueando, historicamente, até agora, o modelo democrático burguês. A grande crise de 2008 abre espaço ao desenvolvimento do capitalismo nacionalista, impulsionado pela opção equilibrada entre o social e o econômico, mediados pelo Estado. Nesse contexto, pintaria verdadeira social democracia. Caso contrário, o socialismo atropelaria. Lula, instintivamente, tem razão, quando diz que 2010 será o ano da combinação da cautela com a ousadia. 

 

 

 

 

       

Categoria: (Economia, Política)

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