Grosseria inconsciente do falso elitismo

O filho de dona Canô sente mal diante dos toscos, dos analfabetos, do ser outro em si  mesmo, que revela o incômodo sartreano de que o inferno são os outros que precisam ser extirpados
O filho de dona Canô sente mal diante dos toscos, dos analfabetos, do ser outro em si mesmo, que revela o incômodo sartreano de que o inferno são os outros que precisam ser extirpados

Caetano Veloso, artista espetacular, projetou, freudianamente, sua essência – a grossura – sobre Lula , querendo colar ela nele, chamando o titular do Planalto de grosso, analfabeto, desmedido etc. Exagerou. Revelou consideração e ojeriza, amor e ódio pelo presidente, pois realçou o que considera o bem e o mal, inclusive, contrariou a insistência do repórter do Estadão sobre posições do artista, na tentativa buscar identificá-lo com os pregadores do estado mínimo, quando revelou horror a Margareth Thatcher e a Ronald Reagan, os conquistadores do Muro de Berlim, agora sob os escombros do capitalismo mergulhado em grande crise global. Qual a nova estética que essa pulsante derrocada capitalista, que fracassou em dar nova ordem sobre o socialismo soviético fracassado, abre ao espírito do poeta da tropicália? Não se soube. 

Freud saberia explicar a malaise que tomou conta do poeta da tropicália em cuidar da aparência para desviar da essência que revela o si mesmo, incômodo pulsante e latente
Freud saberia explicar a malaise que tomou conta do poeta da tropicália em cuidar da aparência para desviar da essência que revela o si mesmo, incômodo pulsante e latente

Preocupado em desopilar seu fígado em cima do presidente, perdeu a nobreza espiritual , para ler a confusão reinante. Situou-se como um ET, no exterior da realidade, algo a-histórico, fora do  lastro histórico social. Abstrato. Essência? Chato. Não teceu avaliações de conteúdo quanto à grossura presidencial. Ficou na aparência preguiçosa do incômodo produzido pela sonoridade do tom de voz – desafinado? – , solto, extrovertido, exagerado, do metalúrgico, que se tornou chefe de Estado em país da periferia capitalista sul-americana, historicamente, dependente da poupança externa, que a massacra. Marx destaca que a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Com a dívida vem o ponto de vista e a cultura do emprestador de dinheiro, do comprador das artes, na prática do mecenato.

  

Incômodos sul-americanos

   

 

 

 

 

 

 

 

A estética nacionalista repugna os estômagos formados pelo liberalismo cínico que busca confundir igualdade jurídica com injuustiça social para criar a realidade invertida das consciências adulteradas
A estética nacionalista repugna os estômagos formados pelo liberalismo cínico que busca confundir igualdade jurídica com injuustiça social para criar a realidade invertida das consciências adulteradas

Quem, na periferia, tentar desarticular essa dominação, como foram e são os casos dos governantes de visão nacionalista, Getúlio, Peron, Cardenas, Evo Morales, Chavez, Lula, Cristina, Rafael Correa, Fidel, Alvarado etc, são taxados pelos beneficiários do mecenato de toscos, esteticamente, repugnantes. Um coleguinha, que acompanhou Lula, em Londres, durante seu primeiro mandato(2003-2006), se disse envergonhado diante da extroversão lulista, chamando os comandantes de estados europeus e americanos como camaradas de bate-papo, em coletiva. “Falei, ontem, com o Blair”. “Pedi ao Bush”. “Comuniquei à Merkel”. “Conversei com o Sarkozy”. “Liguei pru Putin” etc. A intimidade expositiva do presidente na relação com os seus pares do primeiro mundo, sendo ele de terceiro mundo, cobriu de vergonha o ouvinte. Ego presidencial exacerbado? Sede de aparecer? Auto-afirmação além da conta?  Lula, na avaliação de Caetanto Veloso, não guarda seu lugar, invade os espaços, exacerba. Precisa ser chamada sua atenção pelos bons modos,  como diziam os senhores de escravos para aqueles pretos que não queriam obedecer as ordens sob coleiras no pescoço, ansiando pelo mundo de Zumbi dos Palmares. Fala pelos cotovelos. Incomoda , principalmente, os bons costumes adquiridos pela educação sofisticada da importação colonial, paga a juro alto, para esconder, por trás da farsa, sua própria brutalidade histórica. A verdade, como disse Trotski, é que os intelectuais, facilmente, comprados pelo dinheiro, não construiram, historicamente , na periferia do capitalismo, uma orientação honesta, capaz de constituir partidos políticos com os quais o pensamento evolucionista, libertador, revolucionário, se organizaria, mesclando e evoluindo no antagonismo de classe.

  

Nacionalistas analfabetos, toscos

   

 

 

 

 

 

 

 

Pensar sul-americana é expressar um primitivismo que repugna a sofisticação estética do capital que precisa dos seus porta-vozes para desacretidar e destruir a auto-estima da periferia capitalista, taxando-a de demodé
Pensar sul-americana é expressar um primitivismo que repugna a sofisticação estética do capital que precisa dos seus porta-vozes para desacretidar e destruir a auto-estima da periferia capitalista, taxando-a de demodé

A cooptação ideológica, principalmente, praticada  pelo liberalismo inglês, criador do espírito da propriedade privada, que estabelece a correlação segundo a qual a igualdade jurídica corresponde à desigualdade social, na tentativa de inverter a realidade, acaba fazendo a cabeça de pensadores e artistas honestos, convertendo-os em agentes sofisticados da cultura e dos modos importados. Cria-se, destaca Trotski, um gap entre o ideal e o real, para além do antagonismo de classe, deixando espaço para a emergência de lideranças extrovertidas, populares, populistas, que se lançam no vácuo das misérias políticas periféricas, subordinadas ao capital. O peronismo, o varguismo, como lembra Beto Almeida, é isso, a expressão da ausência dos partidos de esquerda, porque , na sua ânsia do ideal, condenam o real-nacional, como foi o caso do Partido Comunista Brasileiro, relativamente, a Getúlio. Essa impotência dos falsos intelectuais e artistas, decorrente da sua inadaptação ao nacional por ser internacional, na formação orgânico-dialética, subordina-os aos conceitos estéticos determinados pelo próprio capital, na evolução do seu processo de sobreacumulação,  ditando comportamentos, cujos resultados são lucros. Trata-se de organizar a divisão social combinada com o interesse da reprodução sobreacumulativa do capital, principalmente, no campo da cultura. Como a indústria cultural é transnacional, a visão nacional , reprodutora da cultura popular, incomoda as determinações do processo lucrativo cultural. As mentes mentem.  As rádios, as tevês, os comentaristas, todos precisam sintonizar-se com a estética dominante. No Governo Perón, transbordou-se a cultura popular; no de Getúlio, que tinha muita admiração pelo líder argentino, idém; os artistas iam ao Palácio. Gegê saia do serviço para ouvir Linda Batista nos cassinos. O que diziam os bens pensantes, os fernandos henriques cardosos, os caetanos velosos, a esquerda chic, sobre Gegê? Lacaio de Washington. O cara estava sendo bombardeado pelos jornais americanos, que orientam a linha editorial dos jornais sul-americanos da grande mídia, e a esquerda o considerava atrasado, ligado às raízes populares, abrindo espaço para o artista nacional.Vargas queria fazer da Rádio Nacional uma emissora internacional, com reprodução dos seus programas em todas as linguas. Queria internacionalizar o analfabetismo, os Lulas brasileiros com seus talentos. Chegou a ampliar pilotos em países do leste europeu. Almejava o que a tevê Globo está fazendo, isto é, ambientando o cenário internacional às suas novelas com conteúdo nacional, mas , diferentemente,  do que antevia Vargas, subordinado aos padrões estéticos de roliúde, como dizia Glauber Rocha. O grammy que Caetano Veloso ganhou é uma disseminação cultural multinacional global americana. Getúlio Vargas estava de olho nessas potencialidades culturais brasileiras, sabendo que a dominação cultural acompanha o desenvolvimento do capital. Queria, portanto, sob nacionalismo, globalizar a cultura brasileira. Afinal, não foi isso que Tio Sam fez com o cinema durante o século 20, ampliando o American way of life? O poder de roliúde não deixou  prosperar o sonho cultural nacionalista-getulista. Do mesmo jeito, Perón já prenunciava um esquema de comunicação sul-americano; em 1955, na conferência de Bandung, na Indonésia, pregou a TERCERA POSICION, equidistância, tanto do capitalismo como do comunismo, ficando longe da guerra fria, para pregar a construção do sul-americanismo.

  

Desintegrar para dominar 

  

 

 

 

 

 

 

 

A estética nacionalista precisa ser destruída pela orientação da estética construída pelo capital que busca o lucro e o consumismo para homogeneizar consciências destituídas de energia auto-confiante, evolucionista
A estética nacionalista precisa ser destruída pela orientação da estética construída pelo capital que busca o lucro e o consumismo para homogeneizar consciências destituídas de energia auto-confiante, evolucionista

A TELESUR, criada pelo presidente Hugo Chavez, da Venezuela, visa a universalização sul-americana da pregação peronista.  A cidade do cinema em Caracas, conforme relatou reportagem do caderno cultural do Valor Econômico, movimenta os artistas de toda a América do Sul. Energia cultural sul-americana em efervecencia total.  Busca-se a construção da estética artistico-ideológica continental, para além dos estúdios de roliúde, das informações da CNN, da pasteurização ideológico-consumista-grammymista, que amaciam o pensamento dos artistas desejosos de que sobre si se eternize o spotlight narcísico, individualista, elitista. Essa vertende do padrão cultural em desenvolvimento, que acompanha a mudança dos ventos políticos na América Latina, levanta a implicância dos conservadores, cuja ojeriza pelo nacionalismo cultural-econômico-político-social reproduz o padrão de desenvolvimento econômico dependente de poupança externa. FHC aprofundou os estudos sobre a raiz da dependencia da América Latina, mas se rendeu a essa dependência, arriando seu pensamento às determinações do capital para o comportamento das elites, subordinada a ele, no plano cultural, político, econômico e social. Henfil , certa vez, disse que deixou de confiar em FHC porque durante as campanhas pelas diretas já em 1984 o sociólogo marxista se recusava a pisar com seu sapato lustrado no barro das ruas das periferias para levar o recado da democracia. Elitista, falso democrata, FHC, identificador das raízes da dependência, desenvolveu ojeriza total aos politicamente resistentes à dependência, como são os casos de Lula, Peron. Veste, agora, uma toga udenista lacerdista, como destaca o sociólogo Emir Sader.  Caetano Velosso vai nessa linha, no plano político, sentido mal estar na extroversão política de um herdeiro da escravatura, feito metalúrgico, no regime do trabalho assalariado, feito presidente. Nem Caetano nem FHC se mostram à altura da sua inteligência para evoluir do plano da aparência, em relação a Lula, para o plano da essência.

  

Aparência e essência

  

 

 

 

 

 

A estética do capital é o poder da moeda do rico sobre o pobre para estabelecer a verdade ditada de fora para dentro pelo capital cuja lógica é a sobreacumulação e subsersão cultural total
A estética do capital é o poder da moeda do rico sobre o pobre para estabelecer a verdade ditada de fora para dentro pelo capital cuja lógica é a sobreacumulação e subsersão cultural total

Aparentemente, Lula é isso aí: tosco, analfabeto, repugnante, como , igualmente, tosco, repugnante é Hugo Chavez, esse crioulo cafuzo beiçudo, cabelo enrolado, como destacou, outro dia, um colunista da Veja etc. Estridentes, falam demais. Essencialmente, no entanto, Lula como Chavez tentam, a duras penas, reverter uma situação histórica brutal para os povos da periferia capitalista. Principalmente, a partir do final do século 19, os capitalistas europeus decidiram intensificar a exploração sobre as colônias, para que pudessem distribuir melhor a renda entre os trabalhadores europeus que estavam adquirindo forte consciência política. Durante todo o século 20, o Brasil foi fornecedor de mais valia para o trabalhador americano , enviando matérias primas baratas, revertidas em produtos manufaturados, vendidos ao câmbio favorecido, na periferia. Keynes, em Bretton Woods, em 1944, disse ao repórter do Jornal do Brasil e economista do Banco do Brasil, Santiago Fernandes, que a periferia era explorada pelo capitalismo cêntrico por intermédio do câmbio… e das artes, da cultura. A moeda do país rico cobra senhoriagem sobre a do país pobre. Resistir a essa tendência imposta pelo capital, ao longo de todo o século  20, por parte de governos nacionalistas, mereceu o mais eficaz dos remédios, a compra da consciência dos intelectuais , que operam na grande mídia, para desmerecer a posição da resistência nacionalista, inviabilizando a sua materialização por intermédio de partidos fortes e correntes artísticas fortes e determinadas. O vácuo é isso aí, os populistas, identificados com a massa, perigo para a elite que considera tal identificação analfabetismo congênito. A arma dos sofisticados é a tentativa perene de desacreditar do próprio potencial nacional, colocando em cena mitologias estéticas importadas. Acaba-se com o mito do Saci, para que predomine o do halloween. De que modo? Dizendo, por exemplo, que o Saci fede, porque vive no mato etc. Como o padrão roliudiano é o da limpeza aparente para esconder a essência suja da economia de guerra que sustenta o capitalismo, o padrão lulista , analfabeto, tosco, sujo, anti-estético é politicamente incorreto. Substantivamente, Lula e Chavez revertem, com suas políticas nacionalistas, anti-estéticas, perante o pensamento neoliberal, que prega a lipoaspiração total do Estado, a condição subordinativa da periferia. Causam horror quando resolvem marchar como representante de categoria social historicamente excluída do padrão elitista de desenvolvimento, bancado pela dívida externa. Permitem com seu nacionalismo que os excluídos consumam. O capitalismo depende do consumo, mas, na periferia, contraditoriamente, o aumento do consumo das massas, que fortalece o mercado interno, energiza a moeda nacional, diminui a inflação e infla a auto-estima popular, incomoda as elites. O aumento do poder de compra, pela opção governamental em favor da valorização dos salários, eleva a demanda da indústria dos ricos, mas contraria os bem pensantes. Chegam à mesa deles outros modos, outra estética, rústica, de um pessoal analfabeto, que não sabe falar, que não se enxerga…. O baiano, filho de dona Canô, se sente mal…. Solta o inconsciente, grosso, se traindo, conferindo a verdade de Freud de que as palavras servem para esconder o pensamento.