03 nov
2009Economia à la Asimov
Eduardo Starosta em 03/11/2009

No espaço, os terrestres mais poderosos lançam mão da dívida pública para alavancar a produção bélica e espacial em busca de mercadorias que estão escassas na terra, como a água, por exemplo, a fim de que continuem impondo seu domínio, administrando a escassêz, via aumento de preços, sobre os pobres, na base do porrete, como sempre aconteceu na história da humanidade
Uma das grandes frustrações que tenho é não ter lido algum romance inteiro de Isaac Asimov – o papa da ficção científica. Até o final do ano pretendo não deixar essa lacuna em branco. Mas os contos e trechos que tive oportunidade de ler do citado autor foram realmente provocantes. Ele consegue fazer com que a mente fervilhe de imagens de um universo que o senso comum não admite.
Se alguém sair falando que Asimov fala de coisas reais, é provável que seja taxado de louco, lunático, ou outro predicado do mesmo sentido.
Mas vamos voltar um pouco no tempo, mais exatamente para 1870, quando Júlio Verne publicou Vinte Mil Léguas Submarinas. Naquela época, os leitores também tinham suas mentes provocadas por um mundo futurista, aparentemente, nada palpável.
O problema é que ao cabo de algumas décadas, o submarino virou realidade, assim como a metralhadora, a volta ao mundo em um balão, a viagem a lua e outras imaginações do escritor francês.
Voltando, então a Asimov, será que suas idéias de impérios galácticos, robôs com sonhos e sentimentos, dentre outras previsões, são tão absurdas assim?

O limite é o ilimitado e vice-versa. O grande professor encantou o mundo com as suas teorias apoiadas na idéia de que o universo é um bicho em expansáo, gerando alternativas no rítmo do seu movimento eterno de renovação, elevando a imaginação para produzir incansavelmente a si mesma num eterno retorno que se repousa em permanente turbilhão.
Pelo que se sabe, a robótica – mesmo que ainda esteja atualmente engatinhando – vem registrando notáveis avanços em termos de locomoção de robôs e, em conjunto com a informática, está tendo sucesso em desenvolver crescentes níveis de raciocínio abstrato em máquinas.
Mas falar em viagens intergalácticas, naves fantásticas e seres de outros mundos seria um certo exagero. Será?
Bem, sempre surgem fatos novos na ciência. Há algumas horas a NASA divulgou a descoberta de um planeta em outro sistema solar da Via Láctea que contém água, metano e dióxido de carbono. Em outras palavras, esses são os requisitos químicos para a criação de moléculas mais complexas, o que é quase sinônimo de vida. E mais: esse tal de HD 209458b (nome um tanto quanto inóspito para um astro tão importante) é o segundo planeta encontrado com tais características.
De acordo com os cientistas, se eles (os dois planetas) não fossem gigantes gasosos, seria bem provável que alguns bichinhos e plantas estivessem passeando por lá. Mas o importante é que o padrão da receita básica da vida se repetiu, o que torna a situação um tanto quanto comum.
Agora só falta aprimorar a lente dos telescópios para conseguir perceber planetas rochosos (para ter uma idéia, em um planeta gasoso, tipo Júpiter, cabem mais de 2000 terras). Já se sabe que são milhares em nossa vizinhança astronômica – cerca de 200 anos-luz da terra – e é elevadíssima a probabilidade de que pelo menos algumas dezenas deles tenham a sopa básica da criação da vida.
Ficção e realidade se beijam

Os elementos básicos da vida em HD estimulam as formulações filosóficas, econômicas e utilitaristas, para potencializar investimentos elevados que se realizam em busca de retorno lucrativo-estratégico de dominação, pois essa é a essência do capital sem lastro que Tio Sam emite para expandir seu mundo financeiro movedor da imaginação econômica lucrativa sideral
Nem vamos entrar na questão a respeito de que tipo de bicho podem vir a morar em lugares tão distantes. Se eles não torcerem para a seleção argentina, já são aptos a serem respeitados.
Agora, sem brincadeira, não é apenas por curiosidade científica que os EUA, a União Européia, Rússia, China e outros países gastam centenas de bilhões de dólares por ano em pesquisas espaciais. Se estão investindo na descoberta de vida fora da nossa terrinha, é porque o conhecimento adquirido em tais prospecções seguramente tem algum significado econômico.
Um cara mais chato, nesse momento, pensaria que a maior velocidade possível de se atingir é a da luz. Então, para ir e voltar de HD 209458b demoraria 300 anos, sem os astronautas terem sequer o direito de parar para tomar um cafezinho em alguma padaria espacial.
Deixo aos físicos a atribuição de responder essa questão. Mas eles mesmos dizem que o universo é curvo e prevêem uma coisa parecida com buracos de minhoca, onde se poderia, em tese, atalhar distâncias espaciais.
Aos aventureiros, sugiro desenvolver uma espaçonave com motor total-flex (se dentro do Brasil encontramos tanto combustível estranho, imagina no universo…).
Mas para os que preferem ficar com os pés mais no chão indago: por que será que a pesquisa espacial de novos corpos celestes se intensificou tanto nos últimos anos? Qual o interesse prático nisso?
Bem, acho que a resposta não é muito difícil. Vejamos os principais produtos que tendem a ser irremediavelmente escassos no nosso planeta, de acordo com o atual estágio da civilização humana: 1) energia; 2) água; 3) conhecimento, especialmente em produção otimizada de alimentos, habitação, locomoção e comunicação.
A energia é a questão mais fundamental; é indissociável do conceito de desenvolvimento. Desde a década de 70 o mundo tem a plena certeza disso, com a primeira crise do petróleo.
O problema é que o recurso em questão – na forma como é predominantemente obtido na atualidade – além de ser caro (barateou em função da crise global) gera impactos ambientais já perceptíveis, podendo tornar o planeta inabitável em algumas décadas, segundo o que já foi declarado pelas principais lideranças mundiais.
Festa no céu, inferno na terra

Se o mundo é energia e a mente é insaciável para conhecer a sua origem, sob o capitalismo, essa busca se faz através da guerra, onde os sonhos de domínio imperial são livres, necessariamente, desperdiçadamente, inflacionários, para que os gastos do governo insuflem essa insaciedade global pelo novo, alavancando os lucros na terra pelo desenvolvimento tecnológico. O negócio é construir novidades para os terráqueos consumirem até explodirem.
As soluções renováveis, tipo biodiesel, parecem ser um paliativo transitório: ocupam muita área agrícola (que poderia ser destinada à alimentação ou reflorestamento), além de gerar sua própria poluição (são considerados combustíveis limpos por um conceito amplo de balanço ambiental – quando o insumo é planta, produz oxigênio, ganhando créditos para gerar gás carbônico no tanque dos carros).
A energia eólica é “tudo de bom”, mas aparentemente fraquinha para suprir as necessidades geometricamente crescentes da humanidade; as atuais indústrias nucleares (fissão) apresentam riscos radiativos; a fusão nuclear ainda é uma incógnita – só será testada em aproximadamente 6 ou 10 anos.
Enfim, nos momentos em que a economia mundial não está bombando, o consumo energético do planeta aumenta a uma razão média de 5% ao ano (mesmo com programas de eficiência energética). Isso significa que a cada 14 anos a produção tende a dobrar.
Hoje a capacidade instalada do mundo gira em torno de 16 mil megatoneladas de petróleo (equivalência que abrange todos os tipos de gerações) e deverá voltar a crescer a partir do ano que vem, com o provável abrandamento da crise global.
O esgotamento das reservas não renováveis (mesmo com descobertas de petróleo tipo pré-sal) e seu dano ambiental na escala atual estão obrigando os países mais dependentes de energia a extrapolar as fronteiras do planeta.
Experiências de captação da energia solar por espelhos orbitais estão em fase adiantada. Mas é lógico que isso – mesmo sendo um total sucesso – em algum tempo, não será mais suficiente.
Cotidiano de santos e loucos

Os japoneses, com sua fantástica capacidade de miniaturizar a tecnologia, foram os mais rápidos , na terra, para transformar em produto manufaturado - e faturar superavits comerciais fantásticos - as criações científico-literárias de Asimov, que, na imaginação, tornou o espaço sideral via de encontros da felicidade e da frustração retumbantes.
Imagina daqui a 100 anos, por exemplo: o consumo, de acordo com os padrões atuais, deverá estar beirando 2 milhões de megatoneladas de equivalência petróleo, o que é energia para valer.
A solução: sair do planeta em busca de outras fontes. E se isso não for feito, provavelmente a terra estará com sérios problemas habitacionais em função da falta de sustentabilidade ambiental (a não ser que a população humana diminua drasticamente, o que é algo menos razoável do que pensar em expandir as fronteiras da vida).
Entramos, então, no problema da água. O aquecimento global (por causa da geração energética) está aumentando áreas desertificadas e, juntamente com o avanço da geração de efluentes, diminuindo a quantidade de água potável por habitante. As tecnologias de dessalinização do mar (que também já apresenta níveis importantes de contaminação) não se mostraram eficazes em grande escala.
Sem mais delongas, a água também tem grandes chances de virar produto de importação espacial (descobriram indícios de água em marte e há algumas semanas jogaram sonda contra uma cratera lunar para ver se há H2O no solo do satélite). Minérios também fazem parte do jogo.
É tudo uma questão de viabilidade econômica: redução de custos operacionais; escala de produção e logística.
A questão da água pode parecer meio banal no Brasil. Mas hoje mesmo o presidente vizinho, Hugo Chaves, pediu aos venezuelanos para que não tomem banho por mais de 3 minutos ao dia (oportunidade de exportar desodorantes?); na África, dezenas de milhões de pessoas tiram sua água de beber da lama, por meio de canudos com filtros improvisados.
Finalmente, entramos na questão do conhecimento. Vários dos avanços necessários para dar sustentabilidade humana ainda não são sequer sonhados fora dos livros de ficção à la Asimov. Mas em qualquer contexto, nosso padrão de vida inclui 4 condições necessárias, quais sejam: como nos alimentamos; moramos; locomovemos; e nos comunicamos. O resto são produtos e serviços secundários, também importantes, mas não essenciais para viabilizar a sobrevivência.
Eternidade de possibilidade positiva-negativa
- Asimov está na base da inspiração da convivência planetária que leva o governo americano a desenhar as possibilidades futuras em laboratório como estratégia para dominar o espaço global como consequência da concepção do modelo de desen volvimento capitalista que tem na guerra a motivação permanente para as inovações, descobertas, patentes , dominações….
Os norte-americanos, dentro dessa lógica, estão fazendo interessantes experiências de simulação de sobrevivência de pequenas comunidades em redomas de vidro isoladas, para avaliar as necessidades em lugares como Marte. Evidentemente, o governo daquele país não está fazendo isso é simplesmente para jogar no lixo bilhões de dólares. É conhecimento com claros objetivos de aplicabilidade.
Em resumo, está ficando cada vez mais evidente que a economia desse nosso mundinho vai ter que extrapolar suas próprias fronteiras em um tempo que não pode mais ser chamado de longuíssimo prazo.
Há algum tempo alguns cientistas de ponta se reuniram para avaliar o sentido da vida. A conclusão deles foi interessante: se o universo está em expansão acelerada, é porque ele produz energia. E para equilibrar tal superávit, a função da vida, sob ótica universal, seria simplesmente gastar essa energia.
E isso é o que a humanidade está fazendo. Mas a forma de gasto atual é crescentemente ineficaz, devendo ser aprimorada. Daí a necessidade de transcende as fronteiras planetárias.
Se pensarmos nas nossas origens tribais, isso não passa de mais um salto de desbravamento de fronteiras, que sempre foi viabilizado pelo conjunto básico dos quatro elementos associa ao conhecimento que citei antes: alimentação; habitação; locomoção; e comunicação.
Olhando por essa ótica a coisa fica mais palpável; depende apenas de um aumento de visão de escala. Afinal, os países que tem esses elementos atualmente equacionados de forma razoável, são, hoje, classificados como desenvolvidos.
Não custa lembrar: o fato gerador desse tipo de sucesso é a aplicação de conhecimento adquirido, normalmente via processo educacional. E as conseqüências são melhores condições de acesso a bens serviços e relacionamentos que realmente dão o sabor especial a vida.
Sendo assim, a essência do futuro, mesmo transcendendo a esfera planetária, é a mesma do presente e do passado, havendo apenas variações de formas e escalas de produção e consumo.
Em resumo, o universo previsto por Asimov não é tão diferente do nosso e fica parecendo cada vez menos fantasioso. Tanto isso é verdade, que até o desenho dos Jetsons ( desenho animado de família do futuro, criado pelos estúdios de Hanna Barbera) virou, em certos aspectos, algo retrô: o videofone já é acessível; e andar em esteiras rolantes se tornou tecnologia banal… os Flinstones (família da idade da pedra), por outro lado, ficaram bem mais divertidos.









