Blecaute apaga Dilma e Lobão

Lobão e Dilma deixaram Lula em saia justa, porque os argumentos deles de rechassarem a culpa do apagão pela insuficiência de investimentos esbarram, justamente, nos argumentos opostos dos técnicos e especialistas que apontaram falhas técnicas e operacionais cuja superação exige novos investimentos que não foram, ainda, realizados.
Lobão e Dilma deixaram Lula em saia justa, porque os argumentos deles de rechassarem a culpa do apagão pela insuficiência de investimentos esbarram, justamente, nos argumentos opostos dos técnicos e especialistas que apontaram falhas técnicas e operacionais cuja superação exige novos investimentos que não foram, ainda, realizados.

A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, ex-comandante da política do setor elétrico, antes de o presidente Lula mirar nela sua candidata à presidência da República, e o ministro das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), sofreram, na terça , 11, e quarta, 12, noite-dia do apagão energético, tremendo apagão político. Choque político-energético que abalou a relação PT-PMDB dentro da coalizão governamental, abrindo espaço para a oposição, sem discurso, faturar.
A candidata presidencial levou mais de 24 horas para apresentar-se ao público, ela, que, ultimamente, está fazendo tudo para aparecer, a fim de subir na pesquisa eleitoral. Inicialmente, os petistas destacaram que ela não tinha que falar porque o assunto é da área do ministro Édson Lobão, que a subsituiu no cargo, destronando o PT da direção do Ministério. Diante do estrago político, plenamente, explorado pelos oposicionistas, a ministra apareceu. Se apareceu depois, por que não antes? Na hora de faturar, o marketing presidencial coloca ela para ficar sob o spotlight político. Mas, se é para se queimar, mesmo cuidando de uma obrigação pública dela, tentaram escondê-la. Ou seja, medo da verdade.
A titular da Casa Civil surgiu para falar, apenas, trivialmente, que o sistema nacional de energia elétrica não está livre de apagões. Negou falta de investimentos, mas foi desmentida pelas declarações dos técnicos de que o sistema carece de aperfeiçoamento técnico que requer investimentos crescentes em ciência e tecnologia em escala permanente, o que não está sendo feito.
Apenas 38% dos recursos orçamentários destinados à energia, segundo informações do Conselho Nacional de Política Energética(CNPE), foram realizados esse ano. O restante teve que ser contigenciado. Uma parte destinou ao pagamento dos juros da dívida pública aos bancos ; outra, para bancar desonerações fiscais para as empresas industriais enfrentarem a crise internacional, a fim de manterem o nível de emprego, sustentar arrecadação tributária cadente e,consequentemente, evitar colapso do capitalismo nacional.
Já o ministro Lobão desastrou geral, dividindo o governo. Culpou Itaipu pelo desastre, enquanto Itapu repudiou o ataque ministerial de fuga de responsabilidade.  O titular das Minas e Energia, afilhado do ex-presidente Geisel, seu padrinho político no Maranhão a contra gosto do senador José Sarney, que teve de engolir, na ocasião, 1979, a dose política geiseliana ditatorial, pode ser o mais prejudicado na jogada do apagão, que escureceu o país em 18 estados da federação, atingindo mais de 60  milhões de brasileiros.
A queda, por conta de raios, trovoadas e tempestades, de cinco linhas  de transmissão que puxam a geração de Itaipu , na altura de Itaberá, onde ela confluem, representa prejuízo, ainda, incalculável, mas que apontam para estimativas da ordem de R$ 80 bilhões. Ou seja, valor correspondente à arrecadação dupla da extinta CPMF, que, antes, abastecia os cofres da Previdência Social, atualmente, sucateada e falida com o esvaziamento do SUS. Desastre financeiro.
Quem vai pagar a conta? O contribuinte, que está, ao longo dos últimos cinco anos, suportando, sacrificadamente, reajustes no valor da tarifa superiores ao da inflação, principalmente, depois que o sistema foi privatizado, nos anos de 1990,  como aconteceu na Argentina, a partir da neoliberal Era Meném. A forma politicamente desastrada com que o governo manejou o episódio totalmente impopular do apagão, que fez o país relembrar do apagão e do racionamento na Era FHC, demonstrou medo oficial de falar a verdade.
 

Sugestão não acatada 

Luz para todos! Luz para a paz! Luz que requer investimentos que faltaram. Luz que sinaliza dores do crescimento e não fracasso do desaquecimento. Por que não assumi-las, reconhecendo que se trata de crítica positiva a uma característica deficitária da política governamental, que tem pontos positivos e negativos? Faltou sinceridade e desprendimento lulista
Luz para todos! Luz para a paz! Luz que requer investimentos que faltaram. Luz que sinaliza dores do crescimento e não fracasso do desaquecimento. Por que não assumi-las, reconhecendo que se trata de crítica positiva a uma característica deficitária da política governamental, que tem pontos positivos e negativos? Faltou sinceridade e desprendimento lulista

Quem deu a dica para o presidente Lula formular argumentação lógica, falando a verdade para a sociedade, foi o presidente de Israel, Simon Peres, experiente político, curtido nas horas dramáticas das guerras, mas o presidente não pegou. No momento em que a repórter Mônica Carvalho,  TV Globo, na entrevista dos dois presidentes, depois de solenidade no Planalto, deixou de perguntar sobre a relação Brasil-Israel, desculpando, para indagar do presidente Lula o que tinha a dizer sobre o apagão, o chefe do governo embaralhou-se. Não conseguiu pegar a sugestão de Simon.
Luz para todos, foi o que o presidente israelense pediu, com humor, ancorando-se na formulação da paz, para ressaltar o programa presidencial lulista – “Luz para todos”” – , que eleva a taxa de consumo de eletricidade no país e exige investimentos cada vez maiores, o que , segundo o governador de São Paulo, José Serra, não ocorreu. Peres sugeriu que os investimentos lulistas na oferta de energia ganharam ressonância internacional,  servindo, portanto, de analogia à iluminação das mentes em prol de roteiro para a paz no Oriente Médio. 
O titular do Planalto, que tem os méritos de aumentar o consumo interno de energia, por meio dos investimentos sociais, responsáveis por elevar a demanda econômica dos mais pobres, não disse o óbvio: faltaram investimentos, porque o jogo desenvolvimentista governamental exige elevados investimentos em setores que puxam a demanda geral e exigem constantes aperfeiçoamentos técnicos e operacionais.
Ou seja, os problemas gerados a partir da opção do governo pelo soc ial, relativamente, ao econômico, dando força mais para o consumo do que para a produção, especialmente, agora, durante a grande crise global, são, simultaneamente, positivos e negativos. Positivos, porque atendem expectativas da sociedade pela divisão mais justa da renda nacional; negativo, porque essa demanda está sendo atendida, insatisfatoriamente, por falta de investimentos. A reclamação da oposição foi, portanto, justa.
O orçamento para os investimentos no setor de energia , a fim de alavancar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), menina político-eleitoral dos olhos de Dilma-Lula, está atrasado. Somente 38% foram aplicados. Certamente, o governo contingenciou parte dos recursos para pagar os juros da dívida pública interna e para bancar exoneração fiscal para as indústrias de bens duráveis, a fim de salvá-las do precipío aberto pela crise financeira internacional.
A escassez de investimentos no setor elétrico foi confirmada pela convocação apressada do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, para que acelere aprovação de licença ambiental para investimentos da ordem de R$ 400 milhões, empacados sob critérios ambientalistas, em relação às hidrelétricas de Belo Monte e Jirau, na Amazõnia. Tentou-se criar fato fictício para apagar fato real.
 

Medo da verdade

 

O relato dos problemas técnicos feito pelo presidente da Eletrobrás denotou necessidade de modernização tecnológica preventiva que implica investimentos que não estão sendo feitos, dando razão aos oposicionistas, como o governador de São Paulo, José Serra, à administração comandada pelo senador Edson Lobão.
O relato dos problemas técnicos feito pelo presidente da Eletrobrás denotou necessidade de modernização tecnológica preventiva que implica investimentos que não estão sendo feitos, dando razão aos oposicionistas, como o governador de São Paulo, José Serra, à administração comandada pelo senador Edson Lobão.

A ministra Dilma Rousseff desdenhou das críticas relativas aos investimentos, para reconhecer, tardiamente, que o sistema elétrico não está imune a apagões. A tergiversação governamental, com a ministra , de um lado, e o ministro, de outro, gerou desconfianças generalizadas quanto à credibilidade governamental  e abriu polêmica, porque técnicos e especialistas do setor energético apontaram falhas técnicas cuja reparação requer investimentos. Fica, dessa forma, comprovada a insuficiência dos investimentos negada pelo governo.
Para o presidente da Eletrobrás, José Antônio Muniz, o sistema ONS – Operador Nacional de Segurança – que compõe o ERAC – Esquema Regional de Alívio de Carga – falhou. Os escalões intermediários nas subestações não se desligaram escalonadamente mas abruptamente, derrubando as linhas. Se tivessem funcionado os rellés, que modulam a tensão, desligando as subestações mais atingidas com a queda dela, ao mesmo tempo em que preserva as demais, para evitar o efeito dominó, como , efetivametne, ocorreu, o prejuízo não teria sido tão grande, admitiu Muniz. Ou seja, os problemas técnicos terão que ser sanados com modernização e novos investimentos.
Pintou demora na entrada em operação do sistema de proteção – o ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. Se demorou é porque precisa ser melhorado tecnologicamente, o que implica novos investimentos. O rompimento da proteção do sistema que isola falhas e barra efeito cascata da queda da produção de Itaipu e colapso nas linhas de transmissão de Furnas significa necessidade de trocar o sistema de proteção, que implica novos investimentos.
O curto circuito em 3 das 5 linhas de transmissão anulou o ONS e o ERAC. Ou seja, o sistema não foi isolado da linha de Itaipu,  impondo, portanto, sacrifícios generalizados, quando poderiam ser localizados e, facilmente, superados. O não isolamento do sistema corresponde, igualmente, à necessidade de novos investimentos.
Para onde seguem as explicações técnicas vê-se impecilhos que somente serão removidos por mais investimentos operacionais – pessoal qualificado – e técnicos – modernização tecnológica em elevada escala. Sem essa condição, poderão ocorrer novos desperdícios de recursos públicos investidos nas empresas estatais.
Poderiam ser desperdiçados algo em torno de 6.000 megawats de potencia. Foram jogados fora mais de 18.000, no contexto de uma produção nacional de aproximadamente 60.000 megawats, perto de 30%. . Prejuízo total, que terá que ser reparados com novos investimentos.
O governador José Serra reclamou que não foram seguidas pelo governo federal recomendações que deu relativamente a adotar para São Paulo central de controle da distribuição de energia, para dar maior segurança ao maior parque industrial da América do Sul e à maior metrópole sul-americana, vendida no apagão. Faltaram, segundo Serra, investimentos.
A convocação extraordinária do ministro Carlos Minc, pelo presidente Lula, para acelerar licenças ambientais, capazes de acelerar investimentos que estão parados é mea culpa presidencial diante do apagão e da razão oposicionista de questionar o nível de investimento no setor.
 

Marketing desastrado

O senador e o presidente deverão, rapidamente, buscar um entendimento de cúpula para tentar contornar as desavenças produzidas pelo apagão na relação PT-PMDB, no comando do setor estatal de energia, que padece de investimentos e pode detonar novas notícias desagradáveis, graças às explicações dos especializadas quanto à vulnerabilidade técnica do ONS
O senador e o presidente deverão, rapidamente, buscar um entendimento de cúpula para tentar contornar as desavenças produzidas pelo apagão na relação PT-PMDB, no comando do setor estatal de energia, que padece de investimentos e pode detonar novas notícias desagradáveis, graças às explicações dos especializadas quanto à vulnerabilidade técnica do ONS

Os argumentos governamentais centraram a culpa pelo apagão nos raios, nas tempestades, nas oscilações climáticas em geral, de forma sincronizada, como samba de uma nota só. A restrição de técnicos do INPI o CNPE ao argumento para culpar a natureza e não os homens pelo desastre coloca em cena a possibilidade de que o governo teria mentido, desde a primeira hora, em vez de falar, cabalmente, a verdade, com laudos técnicos etc.
O governo teve medo da sua própria verdade. Os investimentos estão faltando porque o país está se desenvolvendo. Isso amplia o gap entre o investimento e o consumo. Dor do crescimento. Seria pior o inverso. A argumentação governamental, no entanto, soou como se tivesse algo a esconder na explicação do apagão.
O marketing governamental se perdeu completamente. Descumpriu, conforme destaca a professora de História do Brasil, da Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte, Hermínia Laura, o mandamento número um da relação governo-comunidade: falar com clareza e sinceridade. Ficou um chove-não-molha interminável.
Medroso em enfrentar o problema com total clareza , o sumiço marqueteiro da ministra caiu em descrédito e revelou faceta ministerial que sinaliza insegurança. Se não era para aparecer, por que apareceu? Se era para aparecer, por que apareceu tão tarde? Teria sido influenciada pela cautela excessiva dos marqueteiros, empenhados em construir  frase de efeito furada,, a de que o país não está livre dos apagões?
O titular do Planalto não se abriu para falar das dores do crescimento, porque ficou acostumado a apenas fazer propaganda favorável das alegrias do crescimento.  Não hora de enfrentar a realidade das dores incômodas, o marketing pulou para trás, preocupado com repercussões político-eleitorais.
Ficou fraturada , dentro do governo, a relação PT-PMDB, que dividem, conflitivamente, o poder no Ministério das Minas e Energia. O poder energético nacional, atrativo ao capital internacional em relação ao pré-sal, sobre o qual o PMDB quer ter mais influência que o PT, no jogo da partilha da riqueza, demonstra estar sob tensões políticas produzidas pelos representantes das duas correntes em confronto.
De um lado, o presidente do Congresso, senador José Sarney, que dá lastro político ao senador ministro Edson Lobão; de outro, a ministra Dilma, que apoia os petistas, que comandam as empresas estatais e os fundos de pensão delas. Os interesses estão à flor da pele, especialmente, porque os fundos de pensão, por nova legislação, poderão ampliar suas aplicações em ações, levantando cobiças fortes e influentes.
Ao longo da próxima semana, certamente, os caciques políticos, Lula e Sarney, deverão articular-se , a fim de evitar prolongamentos das discórdias internas. Se elas persistirem, darão espaço crescente para a oposição.