Serra acelerou taxação do dólar

Serra acelerou decisão de Guido Mantega para evitar desgastes maiores à candidatura da ministra Dilma Rousseff, caso o desemprego avançasse no ritmo do dólar barato disparado pelo ministro Henrique Meirelles. Economia entra na sucessão

Serra acelerou decisão de Guido Mantega para evitar desgastes maiores à candidatura da ministra Dilma Rousseff, caso o desemprego avançasse no ritmo do dólar barato disparado pelo ministro Henrique Meirelles. Economia entra na sucessão

O presidente Lula e sua candidata ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, cairam na real. Perceberam, subitamente, que estavam fazendo propaganda para a candidatura do PSDB, seja a do governador José Serra, de São Paulo, seja a do de Minas Gerais, Aécio Neves, ao manter a política monetária-cambial conduzida pelo presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. Ao sustentar o dólar muito baixo, o BC eleva a dívida pública, o risco cambial e hiperinflacionário e, consequentemente, os juros. Ao mesmo tempo, destroi os empregos. A indústria nacional frente ao dólar em processo de desvalorização irreversível, pelo menos enquanto durar a crise global, teria que demitir, pois não suportaria a concorrência dos produtos importados. Os trabalhadores demitidos e suas respectivas famílias, bem como toda a cadeia produtiva dependente das empresas de ponta na exportação, onde abriga a classe média, votariam maciçamente na oposição. O desemprego destruiria a armação estratégico-eleitoral do presidente Lula, que, nessa terça feira, à noite, fechou negociação com o PMDB, para fazer a dobradinha PT-PMDB , nos 27 estados da Federação. Os peemedebistas, historicamente, oportunistas, poderiam pular para o oposição, rachando a montagem política presidencial. O governador José Serra detonou o titular do BC, no mesmo momento em que o titular do Planalto e a tiular candidata da Casa Civil faziam campanha eleitoral nas águas do Rio São Francisco, sob protestos do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

 

 

Perigo eleitoral

 

 

A dupla que poderá representar a coligação governamental sofreria duro golpe com o dólar barato especulativo detonando os empregos ao inviabilizar a competitividade da indústria nacional
A dupla que poderá representar a coligação governamental sofreria duro golpe com o dólar barato especulativo detonando os empregos ao inviabilizar a competitividade da indústria nacional

Igualmente, em campanha eleitoral, como o presidente,  mas sem a censura de Gilmar Mendes – dois pesos, duas medidas – , Serra visualizou os milhares de desempregados que o dólar barato produziria, se mantido o jogo do BC, nos próximos meses, e foi ao ataque. Alertou que pode vir muito desemprego e juro alto por aí, caso o BC continue na linha ultra-liberal, deixando o dólar entrar a rodo. Serra demonstrou que estará na linha de frente para atacar as contradições da política econômica e monetária da equipe governamental, durante a campanha. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não teve outra alternativa, senão responder politicamente o desafio econômico e político colocado pelo excesso de moeda americana em franca desvalorização na praça brasileira, tensionando geral a economia, em véspera de campanha política, que promete ser acirrada. Mantega, autor de “Economia política brasileira”, adepto de Getúlio Vargas e do nacional-desenvolvimentismo, base da sua tese de mestrado, jogou politicamente no contrataque. O titular do Banco Central ficou calado, não porque não sabia da decisão, visto que Mantega destacou que Meirelles acompanhou todo o desenrolar do processo de decisão que culminou com a taxação de 2% na entrada de dólar para a bolsa e para a especulação em renda fixa e variável.

 

 

Entre BC e PMDB

 

 

 

A cabeça de Meirelles rolaria se continuasse o dólar baixo detonando a taxa de desemprego que bombaria a candidatura da oposição em 2010
A cabeça de Meirelles rolaria se continuasse o dólar baixo detonando a taxa de desemprego que bombaria a candidatura da oposição em 2010

O silêncio de Meirelles, no primeiro momento, expressa sua mais profunda contradição. Política e economia misturam na sua cabeça.  Ele é candidato, pelo PMDB, ao Senado, por Goiás, podendo, também, disputar a governança, se conseguir articular politicamente no Estado, o que não é certo. Passaria por cima do cacique, prefeito Iris Resende, candidato a candidato a governador, cometendo irrazoabilidade política, o que não parece razoável supor. Como integrante do PMDB, que acertou com o PT a aliança para 2010, Meirelles, peemedebista, se justificaria perante os líderes do partido, oferecendo sua própria cabeça, se mantivesse política monetária que bomba a candidatura adversária. Tornou-se completamente incompatível a relação de Meirelles dentro do BC neoliberal, visto que a direção do banco se encontra dividida, conforme relatou o repórter Alex Ribeiro, do Valor Econômico, nesta quarta feira. Pode ser, também, que a política, com Meirelles, tenha chegado ao BC, colocando o dedo do PMDB na condução da política monetária, submetida à orientação não de política econômica, mas de economia política. Tudo está mudando no comando da economia em processo de enfrentamento da crise global, cujos desdobramentos ninguém sabe, no instante em que o presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Ben Benanke, alerta que a crise financeira está oculta e latente. Parece a ameaça da bomba atômica sob poder do Irã, alardeado por Israel, que pode contratacar, jogando, preventivamente, suas bombas nas bases nucleares iranianas, abrindo a terceira guerra mundial.  O quadro favorece a política e não a economia, como fator de decisão econômica, especialmente, porque é a demanda estatal que determina o ritmo das atividades produtivas em cenário de crise internacional, onde a orientação do mercado naufragou-se econômica e politicamente. O jogo político cambial entrou na dança sucessória. Como os problemas do presidente Lula estão ligados não à escassez de dinheiro , mas ao excesso dele, as manobras para tentar passar por cima do perigo cambial-eleitoral se abrem amplas e compridas.