27 out
2009Porta-voz do entreguismo sul-americano
Cesar Fonseca em 27/10/2009
O ex-ministro deu vexame na comissão do Senado e foi surpreendido pelo inconsciente em ato falho quando destacou que o pré-sal é um mal para o Brasil, desculpando-se em seguida que queria dizer o regime de partilha que combate, assim como à ideia nacionalista de agregar valor ao produto nacional. Até os conservadores ficaram de cabelo em pé com o realismo maior que o rei do entreguismo nacional
O ex-ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, deu aula de entreguismo nacional em depoimento na comissão do Senado que analisa os projetos de lei do governo para a exploração econômica do pré-sal sob critérios nacionalistas. Seus argumentos são notoriamente conhecidos. Consultor da banca privada, advoga em causa própria. Ou seja, dos bancos. Qualquer iniciativa voltada para defender a economia interna, p0r meio de fortalecimento das forças produtivas nacionais em comparação à competição externa, ele bombardeia. É, para ele, fruto do passado 1 – essa idéia de fortalecer a indústria nacional; 2 – essa mania de querer industrializar o minério, que não está sendo explorado por quem detém minas importantes, como a de fosfato, para dar independência ao país no campo fundamental dos fertilizantes(Se se pode importar barato, porque explorar internamente o que teria custo alto?) ; 3 -esse jeito nacional deteriorado de ser, de bradar o petróleo é nosso em forma de expansão das refinarias, para deslocar os concorrentes internacionais; 4 – essa tentação homofóbica de industrializar todo o agronegócio no país, de modo a dar maior qualidade ao produto nacional, em vez de exportar o café in natura para ser industrializado na Alemanha ou na Itália; 5 – essa, enfim, onda nacionalista de querer ”agregar valor” em tudo. Para Mailson isso é peronismo puro. Exatamente, o que a presidente Cristina Kirchner tenta fazer nesse momento, em plena crise mundial, ou seja, resgatar a indústria argentina do sucateamento neoliberal radical, que começou com Maritinez de Hoz, durante a ditadura, estendendo-se até o neorepublicano neoliberal Carlos Meném. Mailson tem horror a Perón, que influenciou, decisivamente, Getúlio Vargas, no Brasil, e que, em 1955, na Conferência de Bandung, na Indonésia, ganhou as manchetes mundiais, quando defendeu a TERCERA POSICION, nem capitalismo nem socialismo, mas, sulamericanismo. Getúlio, como reconhece em suas memórias, lamentou não ter podido estreitar-se mais com o líder argentino por incompreensões das elites políticas dos dois países, cujos interprétes são os Mailson da Nóbrega.
Demonização do nacionalismo

Delfim considera essencial política industrial para agregar valor ao produto nacional, nacionalismo, enquanto Mailson defende o contrário, a desvalorização crescente do dólar para abrir mercado brasileiro às importações que destroem a industria nacional. Ou seja, entreguismo
É isso aí. Mailson, a voz dos bancos, que querem trazer para o Brasil os dólares em desvalorização, para valorizar o real e desovar os estoques de bens duráveis das indústrias européias e americanas, encalhadas na crise do crédito global, mediante aumento das importações, choca-se, frontalmente, com Peron. Não , apenas, com Peron, mas, também, com Delfim Netto,por exemplo. Nessa terça feira, 27, o ex-ministro do Planejamento, ex-deputado federal, colunista econômico, internacionalmente, influente, por sua posições nacionalistas equilibradas para dar lugar ao espaço público-privado, defende posição que contrastra com o entreguismo mailsoniano. Como Peron e Cristina Kirchner, Delfim prega a necessidade de política industrial, de agregação de valor ao produto nacional. Isso é, segundo Mailson, coisa velha, década de 1940. Ele se apega à forma , não ao espírito. Alienado. Sarcasticamente, mas desempenhando péssimo papel na apresentação das suas idéias, na Comissão, perante os senadores da República, o ex-ministro que deixou inflação de 80% ao mês como herança aos brasileiros e brasileiras, chama, agora, de “Fetiche”, essa mania de defesa da agregação de valor ao produto brasileiro. Não leu Keynes que diz ser a agregação de valor às matérias primas que determina a deteriração nos termos de troca imposta pelas moedas dos países ricos em relação às dos países pobres. Mailson, que vê, alienadamente, a moeda como algo neutro, é dominado pelo fetiche da mercadoria sem lastro, os dólares que está defendendo tenham trânsito livre nas fronteiras nacionais, para arrombar a indústria e ampliar o desemprego. Ele vê fetiche no oposto da posição da classe à qual se subordina. Foi péssimo na Comissão de Economia. Revelou-se despreparado, mas, ideologicamente, armado. Quando confrontado pelo representante da Petrobrás, que destacou ter sido o regime de monopólio que garantiu a auto-sustentação da produção e do consumo de petróleo no país e não a liberação da exploração pelo regime de concessões, na Era FHC, preferiu tergiversar. Tentou fazer crer que os investidores estão prejudicados, quando, mais uma vez confrontado, não soube debater sobre a indiferença que representa, para o investidor, seja o regime de partilha, seja de concessão, sendo que o primeiro corresponde a uma ação político e estratégica nacional e não , meramente, uma ação comercial.
Fetichismo do fetiche

O Canadá, em matéria de desenvolvimento equilibrado em país rico, não é lá essa brastemp, para servir de exemplo ao Brasil, como tentou ditar Mailson, como mostra Daniela Chiaretti
Mailson, fetiche do fetiche, foi bastante superficial. Cantou loas às commodities. O Canadá, por exemplo, destacou, prioriza as commodities e não a agregação de valor às comodities, transformando-as em produtos industrializados. Agrega, sim, valor, não ao produto , mas o modo de extraí-lo. Vale dizer, o ex-ministro contenta com pouco. Não honra a Paraíba. Foi lembrar, como exemplo de país desenvolvido, que privilegia as commodities e não a agregação de valor a elas, logo o Canadá, que está investindo em energia nuclear para extrair petroleo betuminoso! Detona o meio ambiente com agregação de valor tecnológico, como demonstra a bela reportagem de Daniela Chiaretti, do Valor Econômico, segunda, 26, escrevendo das altamente poluentes minas canadenses de Wood Buffalo um texto espetacular. Aula de jornalismo. Ou seja, Mailson está mal posicionado. Corresponde à vanguarda do atraso total. Quer que a ponta de lança avançada do valor agregado seja utilizado para agregar valor ao que é primário como solução mais adequada para as opções nacionais. Usar energia nuclear para produzir CO2 capaz de destruir a natureza, eis a essência de Mailson! Será que o Canadá renunciaria à opção pela agregação de valor, se tivesse disponível para si potencial econômico como o brasileiro, que segura o país na crise mundial? Ou atenderia aos conselhos, para ater-se às commodities, de Mailson da Nóbrega, a voz do entreguismo? Brincadeira. A posição de Nóbrega é claríssima: tentar salvar o capital europeu e americano que se encalacrou na crise global, perdendo valor e deixando de ser referência monetária global. Para tanto, prega política econômica monetária de abertura total para a livre movimentação do capital financeiro na bolsa e na renda fixa, bem como na promoção das importações, que absorveria excedentes do primeiro mundo, tudo sob o argumento de que isso eleva a produtividade, reduz os custos e os juros e combate a inflação, de modo a manter sob equilibrio esquizofrênico a relação dívida/PIB.
Bombardeio ao Banco do Sul

O ato falho freudiano-mailsoniano é a expressão da essência do ex-ministro em sua cruzada contra o fortalecimendo do Estado em meio à crise global que detonou o capitalismo financeiro internacional, exposto a chuvas e trovoadas, tentando convencer que dois mais dois são cinco.
Voz da dependência sul-americana, Mailson não aprendeu a lição de Marx segundo a qual a poupança externa – caminhando para a desvalorização relativa na crise global - é instrumento de dominação internacional. Num primeiro momento, dinamiza; como produz insuficiência crônica relativa de demanda global, no processo de acumulação de capital, gera, num segundo momento, dívida e juros compostos que se auto-determinam, estabelecendo o discurso do banqueiro na economia financeiramente dependente. Os sul-americanos tentam lutar contra essa dependencia, criando moeda sul-americana e banco sul-americano, como fizeram os europeus, depois da guerra. Mailson vê nisso coisa velha, 1940. Bombardeia, mas sem argumentos consistentes, especialmente, quando tenta detonar bancos públicos, elevação da demanda estatal para puxar a demanda global, ao mesmo tempo que brada pelo contrário, ou seja, a fixação das livres regras para que os bancos nacionais e estrangeiros possam intermediar, sem limites, a montanha de dólar global pós crise, espalhando ela na praça sul-americana a rodo. Quer a raposa tomando conta do galinheiro. O nacionalismo sul-americano , para Mailson , é anti-histórico. Ele raciocina com a cabeça de fora da história, pois vê o capitalismo como algo dado pela natureza e não pelo desenvolvimento histórico e social. Não cobra juros sobre o desastre provocado pelos bancos na grande crise global. Vê perigo, isso sim, na independencia econômico-financeira sul-americana. Não foi à toa que cometeu ato falho ao dizer, no Senado, que o pré-sal é um mal para o Brasil. Questionado pelo senador petista paulista Eduardo Suplicy, embaraçou-se. Freud explica.










