Extroversão social-sexual pede paz e não guerra

O capital deixa de se reproduzir na guerra por conta dos deficits excessivos americanos, levando a era obamista a um novo tempo de estresse capitalista guerreiro que exige o seu contrário, a paz. Genial decisão da Academia Real da Suécia

O capital deixa de se reproduzir na guerra por conta dos deficits excessivos americanos, levando a era obamista a um novo tempo de estresse capitalista guerreiro que exige o seu contrário, a paz. Genial decisão da Academia Real da Suécia

O prêmio Nobel da Paz para o presidente Barack Obama, que fará caridade franciscana com o dinheiro, 1,4 milhão de dólares, da láurea espetacular, expõe o perfil do novo mundo capitalista em transição – para o socialismo? – , embora os neoliberais resistam em sair do século 19. O capitalismo no século 21 nunca será mais como antes. O primeiro sintona é o cansaço, simplesmente, porque o dinheiro da classe média rica, que puxava a demanda global, junto com a economia de guerra, bancada pela demanda estatal, evaporou. No hay plata.  As dívidas estão acumuladas e precisarão ser pagas. Entre continuar o consumismo exacerbado e segurar os gastos , porque os bancos não dão mais crédito para comprar a prazo, nas condições anteriores, de estímulo excessivo ao endividamento, a classe média rendeu-se à realidade. Tem que lamber as feridas. As notícias em voga são as de que pintam novos comportamentos. Outros estarão em marcha, no compasso da bancarrota financeira, cujos desdobramentos desestabilizadores, que  podem acontecer a qualquer momento, lançam a humanidade na perplexidade. Sentimento de desengano e disposição para mudar. Tudo que é sólido desmancha no ar, como destacaram Marx e Engels.

Os mais destacados dos comportamentos, nos novos tempos abertos pelas bancarrotas, são as extroversões sociais em todas as suas variedades artísticas, sentimento mais próximo do belo artístico hegeliano, da pretensão de se sobrepor à própria natureza como forma de engrandecê-la. Trata-se de desenvolvimento de sentimento que não combina com a agressiviade capitalista guerreira, auto-destruidora, em permanente sofreguidão pela busca da maximização lucrativa. Para Keynes, no final do século 20 e início do 21, haveria em grau elevado a extroversão sexual potencializada para além da que ele praticou para contestar a era vitoriana, sexualmente, castratora, que matou Oscar Wilde.

O grande economista inglês, homossexual, genial, tinha no seu dinamismo espiritual a convivência intrínseca da sensibilidade feminina e da dureza masculina, interativas, dentro de si, em grau de elevada competição, extrovertidamente proativas, tanto no campo da economia, como no das artes e da filosofia, como destaca Lauro Campos, um dos maiores conhecedores de Keynes, em “A crise da ideologia keynesiana”, um clássico da economia política.

A extroversão sexual, no final do século 20, emergiria, segundo o autor de “Teoria Geral do Juro, do Emprego e da Moeda”, por conta da supressão da necessidade de fingir. Fingir relativamente às instituições, aos falsos moralismos, à estruturação auto-destrutiva capitalista etc. “Precisamos fingir para nós mesmos, por mais cem anos, que tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”. Por deixar de ser útil, em matéria, por exemplo, de geração de emprego, o capitalismo, em crise, apoiado na economia de guerra, deixa, igualmente, de ser verdade. Se a guerra não é a verdade que se vende em forma de paz, a paz não poderá ser alcançada com guerra. A busca de Obama para uma acomodação anti-guerreira global desata as forças reprimidas da sociedade e assusta meio mundo. Grande momento histórico.

 

 

Fim do falso moralismo

 

 

O genial e cínico economista inglês sabia que era necessário mentir para promover a acumulação capitalista no século 20 com moeda ficitícia cuja durabilidade dependeria da capacidade de endividamento dos governos que não seria eterna
O genial e cínico economista inglês sabia que era necessário mentir para promover a acumulação capitalista no século 20 com moeda ficitícia cuja durabilidade dependeria da capacidade de endividamento dos governos que não seria eterna

Estaria o estresse capitalista afastado do perigo de guerras? Que dirão os generais do Pentágono quando for colocada na mesa, pelo G-20, a proposta da cesta de moedas, que obrigaria os EUA realizarem superavit primário? Unilateralismo ou  multilateralismo? Não dá mais para o capitalismo mentir e ficar por isso mesmo. Por isso a libertação humana da necessidade de fingir, no auge do estresse do capital, abriria, como visualizou Keynes,  as fronteiras artísticas postas pela verdade. Esta, no entanto, destacou, teria que ficar de quarentena ainda durante todo o século 20.

Mentir foi o que o guru de Keynes, Malthus, negou-se a fazer e se deu mal, caindo no ostracismo e no esquecimento no seu tempo, final do século 18 e início do 19. A economia é uma ciência perigosa, disse Keynes, na mesma linha de Guimarães Rosa , para quem viver é muito perigoso. O keynesianismo repetiria no século 20 o malthusianismo do século 19, mas sem expor a verdade.

Por exemplo: o papel do governo no capitalismo. Ele precisa ser, COMPLETAMENTE, dissipador, consideravam os dois grandes economistas, como fator de salvação do sistema capitalista. Se o setor privado tem que primar pela eficiência, para elevar a produtividade e o lucro, que gera o subconsumismo, a sua salvação estaria no seu oposto, na INEFICIÊNCIA governamental expressa em seus gastos necessariamente dissipadores. Os colunistas se escandalizam.

Enquanto o setor privado cuida de diminuir custos para maximizar lucros, o governo tem que maximizar gastos para elevar os lucros do setor privado, por meio da DISSIPAÇÃO. Jogo dialético dos contrários.  Dessa forma, o capitalismo, no estresses das crises de sobreacumujlação, geraria consumo sem elevar a produção, evitando a falência dos capitalistas, que não suportam o livre mercado.  Malthus, gênio autêntico.

A crueza da realidade expressa no pensamento límpido de Malthus, em Princípios da Economia Política, choca os falsos moralistas, que pregam controle dos gastos públicos, para estimular o setor privado, ou seja, o contrário do que é preciso para manter o sistema capitalista vivo. Malthus não fingiu, embora não se tenha notícia de que era homossexual, mas, sim, padre, casado, com filhos. Já Keynes teve que mentir nos estertores do final da era vitoriana inglesa, dominada pelo supramassumo ideológico capitalista, o Utilitarismo, sofisticação do cinismo inglês.

A ideologia utilitarista inglesa, que se espalhou pelo mundo, seguindo o rastro aberto pela libra esterlina, no século 19, e prosseguiu, no século 20, com os primos,  com a ascensão americana, alavancada pelo dólar, vitorioso na segunda guerra mundial, requer, essencialmente, o fingimento, a mentira, a enganação, o disfarce.

Trata-se de mentir que o sistema leva à paz e não à guerra, quando, na verdade, a guerra é o âmago da economia política capitalista, como Keynes ressaltou, em 1936, em artigo no New Republic, destacado por Lauro Campos: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”.

 

 

Verdade mentirosa desmascarada pela crise

 

 

Malthus considerava essencial que o governo realizasse gastos improdutivos para salvar o sistema capitalista produtivo que tende ao subconsumismo sob capitalismo
Malthus considerava essencial que o governo realizasse gastos improdutivos para salvar o sistema capitalista produtivo que tende ao subconsumismo sob capitalismo

Como acreditar na paz, se o âmago do sistema é a guerra? A mentira dá as cartas.

Era o recado keynesiano para o presidente Roosevelt superar o desastre econômico decorrente do crash de 1929, que se estendeu até 1943. A economia de guerra se transforma em solução para reprodução do capital, que havia entrado em crise total na economia de mercado sob padrão-ouro.

A guerra é o caminho para a paz econômica sob o capitalismo. Que  o digam os deficits. Em 1944, o deficit público americano alcançara 144% do PIB. O economista inglês , quando destacou a economia de guerra como essencial, lembrava dos efeitos positivos da primeira guerra mundial, em 1914,  para a economia inglesa. Depois da guerra, a paz trouxe a desorganização econômica, porque a demanda e a oferta, sob livre mercado, sem os gastos de guerra, para gerar consumo sem aumento de produção, no mercado de bens e serviços, levaria o sistema ao colapso, como ocorreu em 1929.

Era preciso continuar fingindo que a paz representa o objetivo da humanidade dominada pelo capital. Toda uma estrutura ideológica utilitarista se construiu em torno das atividades produtivas para justificar a necessidade de um esquizofrênico equilibrismo sob capitalismo quando a essência do capital é o desequilíbrio, que exige guerra como salvação da autodestruição.

Uma humanidade com o pensamento invertido pela ideologia do capital foi levada aos desastres econômicos, porque, evidentemente, o capitalismo é construção de economia de desastres, como destaca o economista canadense Naomi Klein.  Ele exige a mentira como fator útil para que se creia na sua perenidade histórica, evitando que seja visto como fenômeno histórico-social, a exemplo das diversas fases do desenvolvimento histórico mundial. “Tudo munda, só não muda a lei do movimento segundo a qual tudo muda”(Hegel).

Os estouros orçamentários, para sustentar a economia de guerra, foram se acumulando nos últimos 50 anos do pós-segunda guerra mundial. Quanto mais elevados, mais tensões guerreiras foram criando. Ao mesmo tempo, porém, foram dando sinais de que a capacidade de Tio Sam de endividar-se para fazer a reprodução do capital na guerra teria  limites. Estes seriam dados, em algum momento, pelo sistema financeiro.

O capitalismo, no século 20, vestiu  a representação mentirosa da falsa sustentatibilidade da economia monetária. A inflação seria a solução, mas ela não poderia aparecer, teria que ser uma verdade falsificada. A representação da mentira econômica inflacionária , no século 20, seria a dívida pública interna, que cresceria , dialeticamente, no lugar da inflação. Constituiria a dívida em bombeamento e sucção monetários, até que chegasse ao limite da implosão. O século 20 acabaria em outubro de 2009.

 

 

Acabou gás de Tio Sam

 

 

Eisenhower, em seu último discurso, vaticinou desastres para o Estado Industrial Militar Norte-Americano, dependente das dívidas públicas, para impor ordem no mundo. Até quando? Morreu sem saber que o limite seria alcançado na bancarrota financeira em 2009, para eleger Obama Prêmio Nobel da Paz
Eisenhower, em seu último discurso, vaticinou desastres para o Estado Industrial Militar Norte-Americano, dependente das dívidas públicas, para impor ordem no mundo. Até quando? Morreu sem saber que o limite seria alcançado na bancarrota financeira em 2009, para eleger Obama Prêmio Nobel da Paz

A verdade está à mão, clara. Por isso, como previu Keynes, não seria mais possível ou necessário fingir. A extroversão social, dada pelo conhecimento da evolução dialética dos fatos, em meio às contradições do sistema, que prepara para si mesmo as armadilhas que o detonam, ganha espaço no compasso do estresse dos deficits. Estes não aguentam mais guerras, estão arriando. O presidente Eisenhower, em 1960, destacou que uma das maiores preocupações suas era o desdobramento dos efeitos do ESTADO INDUSTRIAL MILITAR DOS ESTADOS UNIDOS, bancado pela inflação, ganhando autonomia imperial no mundo. 

Os doutores do Nobel tinham tentado, na década de 1970, contribuir com antecipação do fim da  economia de guerra, quando concederam ao presidente Jimmy Carter, o Nobel da Paz. Naquele momento, os americanos, ameaçados pela desvalorização do dólar, graças aos excessos de deficits decorrentes da sustentação da guerra fria e da guerra do Vietnan, para salvar o capitalismo da ameaça comunista, sonharam com a paz. Mas, os falcões da guerra, no Pentágono e na CIA,  tinham, como X-MEN, a força. O gás de Tio Sam foi reposto pela desvinculação do dólar relativamente ao ouro. A moeda flutuou, deu um beiço geral na praça e iniciou etapa econômica em que a riqueza passaria a ser gerada, pura e simplesmente, na moeda, na especulação.

O consumismo ganhou oxigenação extraordinária, bem como os orçamentos inflacionários do Pentágono puderam continuar bancando economia de guerra. Fundamentalmente,  os investimentos governamentais completamente dissipadores, dinamizando  produção bélico-espacial, contribuiam, contraditoriamente, para o desenvolvimento da vanguarda científica e tecnológica. Esta, posteriormente, seria absorvida como insumos para  produção de bens duráveis de consumo de massa, no crediário, estimulando especulação desenfreada etc. O último estágio de desenvolvimento do capital, como disse Marx, é a guerra que produz inovações tecnológicas que viram mercadorias que levam os homens à guerra.

 

 

Guerrear ou relaxar e gozar?

 

 

Marta iniciou a discussão sobre os comportamentos sexuais extrovertidos bem antes da crise para sinalizar os novos tempos que Keynes antevira no estresse geral da libra esterlina e da era vitoriana
Marta iniciou a discussão sobre os comportamentos sexuais extrovertidos bem antes da crise para sinalizar os novos tempos que Keynes antevira no estresse geral da libra esterlina e da era vitoriana

O gás guerreiro-inflacionário de Tio Sam, em 2008,  esgotou-se, finalmente. Não consegue mais bancar o jogo da economia de guerra, em meio à bancarrota financeira, que empobreceu a sociedade e quebrou os bancos. O perigo de guerra agora não é externa mas interna, panela de pressão que fará explodir contradições capazes, inclusive, de ameaçar a vida do novo prêmio Nobel. Racismos, nazismo, fascismos são produtos que a crise gera.

Contraditoriamente, no cenário de ressaca total, de incerteza e vulnerabilidade, inverte-se a onda consumista e guerreira para dar lugar à onda da poupança e da paz, por absoluta falta de dinheiro. Emerge a filosofia martasuplicista do relaxa e goza.

A extroversão social total será dada, portanto, pelo empobrecimento relativo da sociedade nos países ricos diante do estresse consumista, que ameaça a natureza e a estabilidade econômica ambiental.

O inimigo maior dos governos não estará fora, mas dentro do país, no processo de mudança e de adaptação do enriquecimento relativo para o empobrecimento relativo geral em nome da economia global sustentável. Nada mais anti-guerra.

Em tal contexto, dado pela falência americana, afogada nos déficits, perde pique a economia de guerra. Abre-se espaço à necessidade de novas negociações no contexto do pensamento humanista.

Barack Obam é o homem escolhido pela história para dar início a essa nova fase. Negro, brilhante, coloca em xeque o pensamento conservador. Sua chegada ao poder é mais importante do que a chegada do homem à lua.

As minorias e maiorias excluídas botam as mangas de fora, põem-se no centro dos acontecimentos. Se estão no centro, por que continuarão a aceitar a pressão que sofriam quando se encontravam na periferia?

A extroversão dada pelo empobrecimento econômico relativo global, por sua vez, surge diante da necessidade de organização do econômico pela visão social.

O capitalismo, com seu utilitarismo, deixa de ser útil. Se perde a utilidade, deixa de ser verdade.  Saravá.