Dólar bloqueia integração sul-americana

A incapacidade da Unasul de se reunir para discutir intensamente a crise de desagregação econômica sul-americana provocada pela enchente de dólar na América do Sul demonstra a divisão e a falta de pulso suficiente para alavancar a  moeda sul-americana.

A incapacidade da Unasul de se reunir para discutir intensamente a crise de desagregação econômica sul-americana provocada pela enchente de dólar na América do Sul demonstra a divisão e a falta de pulso suficiente para alavancar a moeda sul-americana.

O aumento ultra-especulativo de 100% na entrada de moeda americana na economia brasileira, de 3,2 bilhões de dólares, em setembro, para quase 7 bilhões de dólares, em outubro, representa movimento que coloca em risco a economia nacional e sua consequente integração sustentável com a América do Sul. O que aparentemente seria positivo, essencialmente, pode tornar-se negativo. Muito dólar, ao elevar a cotação do real, favorece importações, que deslocam a indústria nacional e lançam os empresários no pessimismo quanto a realizar novos investimentos. Ao mesmo tempo, a enxurrada monetária dolarizada em processo de desvalorização acirra a competição entre os países sul-americanos inundados de dólares e de mercadorias importadas, algo que fomenta fechamentos internos, como o que está acontecendo na Argentina, para avançar com programas de substituição de importações, cujas consequências, para os produtos brasileiros, deslocados pelo dólar barato, seriam bancarrota de preços e empregos, candidatos a ir aos ares. A enchente de moeda americana na economia funciona, na prática, como um pé de cabra enfiado pelos países desenvolvidos, que estão com suas economias paralisadas pela bancarrota financeira. Como não têm expectativas de crescimento do PIB, nos próximos dois ou três anos, quando tentarão sobreviver com taxa de juro negativa, bancada pelos governos para evitar destruição de patrimônios industriais em escala considerável, os governantes dos países desenvolvidos estimulam a corrida dos dólares disponíveis para as praças emergentes, especulando com as moedas deles. Valorizam-nas, artificialmente.  Assim, tais moedas  comprariam as mercadorias dos países ricos encalacradas por falta de crédito. Num primeiro momento, o movimento importador de mercadorias diminuiria a pressão inflacionária dentro dos países emergentes, mas, em contrapartida, o consumo de importados elevaria a dívida pública interna, sinalizando taxa de juro elevada futura. Viria, dessa forma, instabilidade, num segundo momento. Como os detentores de dólares estão precificando-os no mercado futuro, praticamente, determinando, desde já, uma paridade cambial, totalmente, artificial, em relação às moedas locais, como ocorre com o real, haveria perigo de estouro cambial. O dólar criou contexto em que desintegra, em vez ajudar a integrar economicamente a América do Sul.

 

 

Guerra comercial inevitável

 

 

Nakano cita a lição de Marx ao ressaltar que o baixo crescimento dos países capitalistas desenvolvidos levam-nos a especular com as moedas dos países em desenvolvimento em busca de desvalorizações competitivas para livrarem dos seus estoques internos, candidatos à deflação e à destruição do capital cêntrio. A periferia, então, paga o pato.
Nakano cita a lição de Marx ao ressaltar que o baixo crescimento dos países capitalistas desenvolvidos levam-nos a especular com as moedas dos países em desenvolvimento em busca de desvalorizações competitivas para livrarem dos seus estoques internos, candidatos à deflação e à destruição do capital cêntrio. A periferia, então, paga o pato.

Como destacou bem o economista Yoshiaki Nakano, no jornal Valor Econômico, na terça, 19, abre-se horizontes de grande concorrência, ou melhor, de guerra comercial, expressa em movimento de desvalorização das moedas, em busca de conquista de espaço para colocação de mercadorias na disputa acirrada pelo consumidor no espaço global. Marx destaca que a contradição derradeira do capitalismo se dá na generalização do comércio mundial, onde desaguam os excedentes nacionais em escala contraditória incontrolável em processo de encavalamento-encaixotamento geral. Como a tendência capitalista, no plano nacional, é de acumulação de capital , geradora de excedentes internos, que precisam ser exportados, no momento em que se generaliza a crise de estoques, por conta da especulação no crédito, como aconteceu na presente bancarrota financeira mundial, todos tentam se salvar com seus excedentes, liquidando-os no mercado internacional. As moedas entram em processo de desvalorização competitiva selvagem. No pós guerra isso aconteceu na Europa e representou um dos maiores empecilhos à União Econômica Européia. Foram necessários mais de 40 a nos de negociação, em contexto em que o comércio internacional transitou da libra esterlina inglesa, que deixou de ser referência global, como foi, efetivamente, durante todo o século 19, para dar lugar ao dólar, todo poderoso vencedor do conflito bélico. No entanto, no ambiente atual, em que as  trocas globais se realizam por intermédio do dólar e da superestrutura jurídica sob direito positivo, ocorre, com a perda de confiança na moeda americana fragilizada pelos deficits dos Estados Unidos, acumulados nos últimos 50 anos de pós-guerra, perplexidade global no meio empresarial. As atividades produtivas passam a ser comandadas pela  teoria do direito  e das relações jurídicas que sustentam o dólar e não pelas relações reais que determinam o esvaziamento geral da moeda de Tio Sam. As mercadorias tentam ganhar vida própria, mas não conseguem se libertar do regime monetário pelo qual é cotada, subordinando-se as suas determinações pelas relações jurídicas descoladas da realidade.

 

 

Realidade se descola do dólar

 

 

As mercadorias que vão para o porto para serem exportadas podem ter seus preços descolados do dólar, porque estão valorizando mais que a moeda americana, que se desvaloriza para deslocar os concorrentes no mercado internacional, confiigurando guerra comercial em marcha
As mercadorias que vão para o porto para serem exportadas podem ter seus preços descolados do dólar, porque estão valorizando mais que a moeda americana, que se desvaloriza para deslocar os concorrentes no mercado internacional, confiigurando guerra comercial em marcha

O jogo monetário, baseado em contratos fixados a partir das referências monetárias que se exaurem, ganha complexidade e nervosismo, na medida em que a desconfiança na moeda equivalente geral das relações de troca aumenta. A realidade tenta, dessa forma, se descolar do que considera irreal, ou seja, o preço de uma moeda desvalorizada para cotar mercadoria que tem lastro real. Enquanto o dólar perdeu seu lastro, na bancarrota financeira, as mercadorias que são cotadas pela moeda americana, tem, igualmente, seu destino marcado pela instabilidade monetária, mesmo que ocorra sua valorização. Os empresários buscam, por isso, se livrar da companhia incômoda. Tal fato ganha dimensão extraordinária, no Brasil, quando a perspectiva da economia brasileira desperta interesse dos investidores que lançam mão dos dólares acumulados em desvalorização para tentar trocá-lo por ativos reais, como a moeda brasileira, cujo lastro é forte, dado pela poten cialidade econômica brasileira, na qual todos, no momento, apostam. As commodities realizam novo movimento de preços. Soja, minérios, alimentos etc têm seus preços descolados da moeda americana, de forma paulatina. Representa resistência contra perigo de perda de lucratividade. As mercadorias são valorizadas; a moeda que medeia sua comercialização registra o oposto, desvalorização. Nessa conjuntura, a integração econômica sul-americana, abalada pela especulação, sai da tela das cogitações políticas e econômicas internas. Trata-se de salve-se quem puder. Como se trata de relações, no âmbito sul-americano, de economias dependentes, historicamente, da poupança externa, expressa em dólar, a estruturação econômico-financeira, que interessa aos grupos dominantes, resiste ao discurso favorável à moeda sul-americana. alentada pelos líderes políticos da América do Sul. Verifica-se o oposto, tentativa louca dos especuladores, de precificarem o dólar em sua cotação atual para referência futura, quando o futuro do dólar, segundo os analistas mais confiáveis, é mais negro do que a asa da graúna. Na prática, os banqueiros estão empurrando o que têm de dólares acumulados no Banco Central, levantando a bandeira de que o importante é que os BCs acumulem reservas em moeda americana. Fica cada vez mais distante, nesse ambiente, a integração econômica sul-americana.