Bradesco, na crise, não acreditou na Vale

Lula não engoliu o argumento anti-nacionalista de tesouraria neoliberal de Agnelli para justificar o esfriamento dos investimentos da Vale, quando o titular do Planalto atuava em sentido diametralmente oposto. Chocaram-se ,irreversivelmente.
Lula não engoliu o argumento anti-nacionalista de tesouraria neoliberal de Agnelli para justificar o esfriamento dos investimentos da Vale, quando o titular do Planalto atuava em sentido diametralmente oposto. Chocaram-se ,irreversivelmente.

Está em cena choque de gigantes na economia. De um lado, o Estado, sob governo intervencionista lulista; de outro, o Bradesco, o segundo maior banco privado brasileiro, que preside a Companhia Vale do Rio Doce, a maior mineradora do mundo, da qual fazem parte bancos públicos e fundos de pensão estatais(Previ, Petrus, Funcep etc). No centro da discussão, o presidente da Vale, Roger Agnelli. Trata-se de mera aparência, de tentativa de personalizar o embate econômico gigantesco, que pode alterar os rumos da empresa e da economia sob orientação estatal como remédio para a crise desatada pela bancarrota financeira internacional. O Palácio do Planalto considera que o Bradesco, patrão de Agnelli, cruzou os braços na crise. Recusou a colocar a empresa no ataque. Cortou investimentos e demitiu trabalhadores. Ao mesmo tempo, critica a empresa que apostou nos investimentos externos, para aliar-se a grandes empresas internacionais de mineração, enquanto não privilegiou os investimentos internos, agregando valor ao minério em forma de siderúrgicas avançadas, como as que existem nos países desenvolvidos. Se a Petrobrás ganhou excelência internacional, por que as siderúrgicas, não? Essa é a indagação maior no Planalto. O choque entre a orientação dada por Lula aos bancos públicos e empresas estatais e a seguida pelo Bradesco, no contexto da crise econômico-financeira, tornou-se irreversível. De um lado, o presidente pediu aceleração; de outro, o Bradesco praticou o oposto, a desaceleração, puxando o freio em nome do risco dado pelo esfriamento econômico global. Depois de violentas pressões, o Bradesco arriou. Prometeu elevar os investimentos em 12 bilhões de dólares. Cumprirá?
 

Herdeiro da visão estratégia do pai, criador da Vale do Rio Doce, Eike Batista é o preferido para substitutir, na Vale, a visão bancocrácia bradescoana, incompatível com o espírito empreendedor voltado para o mercado interno em face da desaceleração global
Herdeiro da visão estratégia do pai, criador da Vale do Rio Doce, Eike Batista é o preferido para substitutir, na Vale, a visão bancocrácia bradescoana, incompatível com o espírito empreendedor voltado para o mercado interno em face da desaceleração global

O medo do risco foi maior que a vontade de empreender. O Bradesco cumpriu a pregação de Roberto Campos. O ministro do Planejamento do governo Castello Branco(1964), senador e deputado do PDS do Mato Grosso do Sul, nos anos de 1980-90,, diretor do Unibanco, conhecia a alma dos banqueiros. São todos, segundo ele,  covardes. Quando vêem o risco pela frente, fogem. O presidente Lula comprovou essa verdade robertocampista, vivida por Bobie Fields. A alma usurária predomina em profundidade, na crise, disse o profundo conhecedor dos meandros financeiros nacionais e internacionais. O capital é covarde, sentenciou. A crise comprovou a fuga dos bancos contra o risco. Nos Estados Unidos, fugiram para o colo do governo; no Brasil, idem, fugiram para os títulos do governo, para os juros reais mais altos do mundo. Não acreditaram, para valer, na primeira hora da crise, na potencialidade econômica nacional. Esta se afirmou sem o concurso dos banqueiros privados, que fugiram do risco Brasil, agora, considerado lucro Brasil. Quando Lula, no auge da bancarrota financeira, sem crédito para as exportações e para as importações, bem como para o mercado interno, convocou os bancos privados para a cooperação, não acreditaram no lucro Brasil. Preferiram dobrar as apostas no risco Brasil. Dentro da Vale do Rio Doce, o Bradesco, igualmente, deu no pé. Desativou o setor produtivo mineral voltado para as exportações e não buscou compensação nas apostas internas. Simplesmente, agiu como tesoureiro. Cortou gastos e demitiu pessoal.

 
“O capital é covarde”
 
 

 

Se FHC tivesse escutado o conselho de Bob Fields, profundo conhecedor da alma bancocrática, não teria privatizado a Vale do Rio Doce e impedido ela de atuar no plano desenvolvimentista nacional, jogando, apenas, com o pensamento jurista, de puro agiota
Se FHC tivesse escutado o conselho de Bob Fields, profundo conhecedor da alma bancocrática, não teria privatizado a Vale do Rio Doce e impedido ela de atuar no plano desenvolvimentista nacional, jogando, apenas, com o pensamento jurista, de puro agiota

O Bradesco jogou diretamente contra a estratégia de Lula. Da mesma forma, os demais grandes bancos, que, no país, atuam na base do oligopólio, reforçaram suas apostas no risco. Tal teoria sustenta juros reais absurdos no crediário, quando o país, aos olhos dos investidores estrangeiros, deixa de ser risco e passa a ser lucro certo. O que fizeram os banqueiros na hora dramática? Debandaram. O governo recomendou aos grandes bancos oligopolizados que socorressem , com dinheiro do compulsório, a custo zero, os pequenos bancos. Era crucial o apoio deles à estratégia governamental, de tentar segurar a demanda global, a fim de evitar mergulho da economia no abismo. Correram, simplesmente. O Planalto teve que comprar maioria das ações dos pequenos bancos encalacrados na crise do crédito em sua fase bárbara. Desse modo, manteve o crediário aos bens duráveis – automóveis, eletroeletrônicos, eletroomésticos etc – , por intermédio dos bancos públicos. Além disso, reduziu impostos, renunciando à parte de receita da arrecadação. Há oito meses, o Tesoruo amarga ingressos tributários inferiores aos registrados no ano passado, em nome da sustentação da taxa de lucro dos industriais. Os bancos privados, ao contrário, fugiram para os títulos públicos, esperando a onda de risco passar. Covardia pura, diria Roberto Campos. Apostaram que a grande crise levaria a uma alta da taxa de juro, ainda mais elevada do que a vigente anteriormente à bancarrota financeira. Se não fosse a benemerência governamental, os banqueiros brasileiros teriam falido.

FHC bancocratizou o pensamento empresarial dentro da Vale , invertendo o espírito empreendedor para o espirito entosourador, totalmente, inadequado em face da grande crise global
FHC bancocratizou o pensamento empresarial dentro da Vale , invertendo o espírito empreendedor para o espirito entosourador, totalmente, inadequado em face da grande crise global

Os governos dos países ricos, diante da crise do crédito e da demanda, jogaram a taxa de juro para zero ou negativo. Eutanásia do rentista. Se o governo Lula tivesse seguido o exemplo dos governantes do primeiro mundo, a banca privada teria dançado. A dívida pública cairia com os juros negativos e eles sairiam gritando que seria calote. A realidade demonstrou o óbvio: enquanto o governo reuniu esforços extraordinários para sustentar a demanda global via política fiscal, o sistema financeiro segurou os juros nas alturas absurdas e apostou na oligopolização, para tentar destruir os bancos menores, aos quais recusaram a ajudar, a pedido governamental. A crise jogou os grandes bancos na retranca. O Bradesco atuou com o espírito do usurário e não do empreendedor, no comando da maior mineradora do mundo. Desconheceu o chamado do acionista forte, o presidente da República, comandante das empresas, dos fundos e dos bancos públicos integrantes da razão social da Vale do Rio Doce. Por isso, o titular do Planalto estimula o empresário Eike Batista, grande investidor em petróleo e mineração, a comprar a parte do Bradesco, a fim de tirar a visão de tesouraria do negócio. Filho de Eliezer Batista, criador da Vale do Rio Doce, dotado de visão segundo a qual a Vale exerceria papel geoestratégico-econômico-financeiro-político na integração sul-americana, a partir do Brasil, Eike deseja dar consequência prática à estratégia paterna, por acreditar nela. Lula quer essa visão pragmática no comando da empresa.  Dominado pelo puro espírito de tesoureiro-usurário , o Bradesco, representado por Agnelli, bateu de frente com Lula, vestido da representação de empreendedor estatal em do interesse público. Na prática, o Bradesco, aos olhos do Planalto, atuou contra o interesse público.
 
 

Estratégia nacionalista militarista
 

 

No tempo de Delfim, as estatais eram as garantias dos bancos, porque puxavam a economia; no tempo de Lula, é o consumo interno, bancado pelos bancos públicos, porque a banca privada fugiu do pau na hora H
No tempo de Delfim, as estatais eram as garantias dos bancos, porque puxavam a economia; no tempo de Lula, é o consumo interno, bancado pelos bancos públicos, porque a banca privada fugiu do pau na hora H

Lula estivesse no comando da Vale, no auge da crise, teria feito o que o Bradesco, representado por Agneli, não fez: elevaria os investimentos e sustentaria a taxa de emprego. Seguiria a estratégia nacionalista militarista dos anos de 1980, no auge da crise financeira, quando o dólar desvalorizado levou os Estados Unidos a aumentarem a taxa de juros absurdamente de 5% para 17%, em 1979, quebrando a periferia capitalista. Naquele momento, o ministro Delfim Netto, com visão nacionalista, mandou as empresas estatais levantarem dinheiro no mercado internacional, para fechar déficits em contas correntes. Evitou debacle do balanço de pagamentos e manteve a economia funcionando. As empresas, gerando receitas, representaram as garantias nacionais efetivas em forma de lastro à moeda nacional. Vale dizer, a mesma receita que Lula segue, de lançar mão dos bancos públicos para sustentar o crédito e o dinamismo relativo das indústrias, em ambiente de esfriamento econômico geral. O país conheceu a si mesmo, a sua força, entendeu que tem condições de ir adiante. Por que ter medo, se o dólar tem que pagar, agora, um plus para o real? Os exemplos apareceram durante a semana.

O espírito animal de Peres é o que Lula quer relativamente ao enfrentamento da crise e não o espírito covarde que foge para o rentismo e eleva a taxa de poupança e desemprego, que paralisa o país, jogo jogado pelo Bradesco e grandes bancos privados no auge da bancarrota financeira global
O espírito animal de Peres é o que Lula quer relativamente ao enfrentamento da crise e não o espírito covarde que foge para o rentismo e eleva a taxa de poupança e desemprego, que paralisa o país, jogo jogado pelo Bradesco e grandes bancos privados no auge da bancarrota financeira global

O maior produtor mundial de carnes, o grupo brasileiro Friboi(JBS) já está pedindo aumento de preço em dólar. Ou seja, está colocando preço na sua mercadoria. Por que pautar ela por uma moeda que não tem garantia, que desce todo o dia, sendo salva, apenas, pelo BC? Vai esperar que a meoda americana caia a R$ 0,50? O grupo Friboi, simplesmente, aumentou o preço em dólar e os importares pagaram para ver. Precisam das mercadorias.  Mudou, no cenário de desvalorização acelerada do dólar, a correlação de forças no plano das trocas cambiais. Os minérios da Vale do Rio Doce valorizam mais que os dólares que se desvalorizam. A desvalorização do dólar, na crise, consiste na sua rendição às mercadorias que valorizam mais do que ele, dada a ausência de garantia da moeda americana, emitida sem lastro real. O preço é dado pela moeda mais forte, como disse Keynes. Se o dólar se desvaloriza, no momento em que a economia reage, elevando os preços das mercadorias, o empresário esperaria  a moeda americana  completar seu ciclo de queda até entrar no prejuízo total? Burrice. Certamente, exigirá mais moeda desvaloriza para vender seu produto valorizado.O Bradesco não acompanhou o raciocínio. Ficou na retranca, pois sua especialidade não é a comercialização de bens e serviços, que se valorizam, na crise, mas de moeda, o dólar, que se desvaloriza. Acovardou-se, cumpriu a maldição de Roberto Campos.