28 out
2009Bolha atômica de dólar pode explodir
Cesar Fonseca em 28/10/2009

Se o governo interfere na economia para tentar fazê-la funcionar em meio à grande crise global que detonou o setor privado sob impacto especulativo, por que não tem coragem de interferir, também, nos bancos, que administram a mercadoria mais importante da economia, o dinheiro, sob concessão estatal? Concessão? Por que não regime de partilha para os bancos, como se cogita para o petróleo?
O presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, é o retrato da própria perplexidade em que vive a economia, tanto nacional como global.Demonstrou, em seu primeiro encontro com a bancada do PMDB, nessa terça, 27, como novo integrante do partido, estar incerto quanto ao desenrolar dos acontecimentos e revelou preocupação com o que considera o maior perigo, ou seja, a possibilidade de bolhas de crédito especulativo que se formam – e estão formadas, potencialmente – no mercado financeiro em meio ao dólar em desvalorização global, candidato a virar moeda podre e deixar de ser equivalente geral das trocas internacionais, dadas as desconfianças gerais que levanta, abrindo espaço para entrada em cena de comércio com cesta de moedas, para a qual o BC, segundo ele, já se prepara. O rebote da crise, concordou, pode acontecer, por conta das bolhas, embora essa possibilidade, no momento, pareça improvável, mas não descarável, ao mesmo tempo em que ressalta ser impossível prever qualquer cenário. Adotou a mesma postura do presidente do BC americano, Ben Bernamke.

Meirelles serviu um prato indigesto aos seus novos correligionários, apavorados com o estrago do dólar na economia nacional
Não há horizontes claros. Flexado por indagações atônitas dos peemdebistas relativamente ao câmbio, que reflete perigo da bolha atômica de dólar, no cenário nacional e internacional, trabalhou menos com a politica do que com os gráficos. Tentou, sob pressão dos parlamentares favoráveis à quarentena de entrada de dólar no pais, apaziguar os espíritos peemedebistas inquietos quanto ao comportamento da economia, da evolução da moeda americana, dos prejuízos que a valorização cambial provoca na exportação, acompanhada de perda de rentabilidade dos produtos industrializados, embora as commodities estejam acompanhando, para cima e para baixo, as verdinhas de Tio Sam, sem muita euforia. As respostas de Meirelles se desdobram em cogitações e possibilidades em meio a uma lenta recuperação do crédito sob juro escorchante em meio à conjuntura deteriorada. Disse que a incerteza é geral, admitiu estudar medidas para segurar o câmbio, liberando-o e possivielmente aumentando atrativos para fundos de investimentos aplicarem no exterior etc. Jogou água fria nos pessimistas, ressaltando que a economia brasileira está relativamente segura com o acumulo de quase 250 bilhões de dólares de reservas, para enfrentar fugas eventuais de capitais, se o barco ameaçar afundar. Alerta máximo é , segundo ele, a palavra de ordem. Ao mesmo tempo, o titular do BC cai em contradição sobre a real segurança das reservas cambiais disponíveis, visto que elas são investidas em títulos da dívida pública de países que dispõem de graus de investimentos, mas que, igualmente, estão sujeitos, como são os casos dos Estados Unidos e da Europa, de uma recaída especulativa. Ou seja, não há segurança, também, para as reservas em dólares, já que quem detém eles procura deles se desfazer, aplicando em outros ativos. Diante dos balanços contábeis negativos dos bancos abarrotados de créditos tóxicos que precisarão ser corrigidos em seus buracos, mediante emissão monetária dos governos, cujos reflexos são mais instabilidades dos mercados financeiros relativamente aos deficits públicos em expansão , o quadro geral fica ainda mais negro do que a asa da graúna. Meirelles alterna sorriso largo e senho bruscamente fechado.
Assalto geral ao povo

Lula, em cenário de inflação sob contróle, que sugere juro mais baixos, vê o roubo campear no sistema financeiro em cima do povo , mas não fala grosso com a Febraban , como falou com a Vale do Rio Doce, levando a empresa a uma mudança de estratégia, para enfrentar a crise, enquanto os bancos agem para aprofundar as incertezas gerais, como se a concessão pública para emprestar, dada pelo Estado, fosse propriedade privada, sem compromisso público. Até quando?
O destino das reservas brasileiras, na qual Meirelles tanto aposta, é incerto, como a economia, pois sequer representa garantia governamental para enfrentar os absurdos juros internos ao consumidor, que o presidente Lula considerou, ontem, assalto ao bolso dos brasileiros, assunto que, por sua vez, não chama a atenção do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, tão atento e indignado contra os SEM TERRA, em suas ações ilegais de invasão da propriedade produtiva. E a invasão da propriedade do consumo do trabalhador em forma de salário destinado às compras à crédito, sujeito ao assalto dos juros escorchantes? Meirelles não abordou o assunto, embora os peemdebistas tenham indagado a ele sobre os juros altos. Estes, disse, subirão e descerão de acordo com as circunstâncias. Raciociniou como se fosse assessorista de elevador. Ou seja, o monte de reservas é um ativo sobre o qual Meirelles não conhece o futuro em meio às incertezas gerais. Por que não aplicá-las, internamente, indagaram os peemedebistas, em nome do desenvolvimento? Meirelles destacou que, sendo reservas do país, caso aplicadas internamente, perderia o conceito de reservas(!?). Por isso, sua aplicação se faz no exterior, em título de governo com grau de investimento. Ou seja, puro ROLANDO LERO. As garantias brasileiras – ativos que valorizam – não seriam maiores do que as garantias estrangeiras, em processo de desvalorização, para dar maior segurança às reservas cambiais, se expressas em investimentos em infra-estrutura e educação, os dois setores que Meirelles disse representarem o foco do progresso nacional, de agora em diante, como desafio para vencer a crise? Sobre a valorização do real, assegurou que não é verdade o destaque oposicionista de que as indústrias estão correndo perigo de serem sucateadas, porque o mercado interno, com a elevação do consumo , graças aos investimentos sociais do governo, tem sido alternativa satisfatória. Ou seja, é o mercado interno, por enquanto, que evita a explosão da bolha atômica dolarizada, que o aumento das reservas contribui para tornar ainda mais instável, enquanto falta real para investir em educação, saúde e infra-estrutura, para dar sustentatibilidade ao desenvolvimento nacional. O peso da pressão peemedebista aumentou quando parlamentares destacaram que os produtores do agronegócio, embora os gráficos apresentados por Meirelles demonstrassem correlação satisfatória entre evolução dos preços das matérias primas – alimentos, energia, minérios etc - e a moeda americana, já acumulam prejuízos superiores a 7 bilhões de dólares. Tal fato, destacaram, exigirão que os parlamentares, em 2010, coloquem no orçamento verbas suplementares para socorrer agricultores, o que poderá exigir repasses dos recursos acumulados pelo BC. As reservas cobririam esse preju?
Contradições explícitas

As indecisões sobre o comportamento da economia sob dólar barato que lança perigos de inadimplência geral, com a desorganização do setor exportador, deixa Temer cabrero diante do mais novo integrante do PMDB, o presidente do BC, que não levou tranquilidade aos peemedebistas
O raciocínio técnico meirelliano não bateu com o pragmatismo peemedebista. Enquanto aquele articula divisão entre política fiscal e monetária, como se fosse instrumentos mecânicos atuando isoladamente, estanques, estes vêem a prática do dia a dia do agricultor que terá que fechar o buraco do prejuízo. Enquanto , no mercado internacional, uma saca de soja está sendo negociada a 20 dólares, cerca de 35 reais, o custo de produção do agricultor alcança quase 40 reais. Ou seja, os agricultores estão, com a política cambial meirelliana, pagando para trabalhar. O novo integrante do PMDB bate de frente com os interesses dos seus correligionários. Qual seria a contribuição de Henrique Meirelles ao PMDB, segundo indagação dos representantes peemedebistas, que vocalizam o desespero cambial do agronegócio, se a política cambial comandada pelo titular do BC é incompatível com a base eleitoral que os peemdebistas buscam cultivar? Tornou-se incompatível a ação técnica de Meirelles na condução do BC, quando ela tem de ser confrontada com a ação política que os peemedebistas cobram do Banco Central, para permtir ganhos de lucratividade dos agricultores os quais o PMDB tenta conquistar, para se manterem bem no poder, depois de 2010. O titular do BC, nesse contexto, pareceria mais com a genial criação de Péricles, o famoso AMIGO DA ONÇA. Percebeu que com suas tergiversações , ancoradas em gráficos demonstrativos das oscilações selvagens dos preços das mercadorias, de um lado, e do dólar, de outro, dificilmente, conquistará, no plano eleitoral, o coração dos agricultores e industriais, lançadores de indagações desesperadas sobre a possibilidade de a política cambial levar à quebra dos exportadores. O orçamento do tesouro 2010 terá que contemplar esse buraco, para evitar quebradeira em ano eleitoral.
Moratória municipal à vista

O colapso financeiro das prefeituras, que pode levar a uma moratória municipal, deixa o PMDB preocupado com os juros altos meirelianos e leva o partido a uma nova estratégia de partilha do petróleo para sossegar as bases políticas, predispostas a ir para a oposição, se esta prometer ampla renegociação do endividamento crônico dos municipios em meio à bancarrota hiperinflacionária em marcha
Quem cobriria o prejuízo entre a política cambial, que sobrevaloriza o real frente ao dólar, cujo montante, na avaliação dos parlamentares, alcançará quase 8 bilhões de dólares em 2010? As lideranças do PMDB, no Congresso, nesse momento, estão sob pressão total, tanto dos exportadores, como dos prefeitos, que, no último fim de semana, reuniram , em todo o país, para anunciar que estão quebrados. De um lado, os exportadores agrícolas, amargam prejuízos com a política cambial; de outro, os prefeitos, desesperam-se com seus caixas vazios decorrentes de redução de arrecadação, que os impedem de pagar seus débitos com o INSS e, por isso, os incapacitam de realizar convênios com órgãos governamentais, graças ao bloqueio imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Meirelles, nesse contexto, está sem condições de dar contribuição efetiva à base peemedebista, que se prepara para articular com o PT a candidatura de Dilma Rousseff. Como o dinheiro ambicionado do pré-sal não é para agora, fato que minimiza, como tentativa de acalmar os prefeitos, a decisão amplamente federativa de dividir os bônus petrolíferos, conforme articula o deputado Henrique Alves(PMDB-RN), a ansiedade geral dos peemedebistas se amplia diante de Henrique Meirelles, cujos prognósticos para o futuro imediato são algo sólido que se desmancha no ar, dadas as incertezas gerais. O perigo da bolha atômica, portanto, está no centro das preocupações de Meirelles, embora tente vender otimismo. Por isso, destacou o novo integrante perplexo do PMDB, na Câmara, está em curso propostas de negociação comercial que se realizaria ao largo do dólar. O BC trabalha o assunto. Por exemplo, o real brasileiro seria trocado por yuan chinês, por peso argentino ou peso uruguaio ou rublo russo etc. A fuga do dólar abre espaço para o comércio do real ao largo do dólar com outras moedas. Meirelles deixou no ar que a moeda americana tende a dar espaço a outras moedas concorrentes, para que se rompa a atual divisão internacional do trabalho sob dólar, a fim evitar o avanço do inevitável em marcha, isto é, a hiperinflação global.