03 out
2009BC valoriza moeda podre
Categoria: (Economia) por Cesar Fonseca. Sebastiao Gomes em 03-10-2009

O Banco Central está tentando convencer a sociedade brasileira que o câmbio, no Brasil, é flutuante. Se , realmente, fosse, o dólar estaria custando R$ 1,00 e não R$ 1,77, ou até R$ 0,80, e os brasileiros estariam dando as cartas para comprarem mercadorias em dólar, porque teria moeda valorizada para negociar com moeda desvalorizada. Isso só não acontece porque o BC faz o contrário do que prega. Ou seja, está entrando no mercado para comprar dólar, a fim de acumular reservas , candidatas à desvalorização, tesouro desvalorizado, para sustentar o preço da moeda americana, que cai no mundo interno, menos no Brasil. Aqui, a muralha do BC protege Tio Sam. Na prática, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está dando valor a maior à poupança externa, que está chegando no Brasil aos borbotões, tentando comprar ativos valorizados com moeda desvalorizada, tendente a virar papel de parede, moeda podre, se os deficits americanos continuarem na escalada em que se encontram, para salvar os bancos privados, totalmente, falidos. O grande perigo, como destacou o FMI, no último relatório global, divulgado durante a semana, é possível colapso do sistema financeiro.
A situação bancária internacional, alertou, vunerabilizou-se, porque está com seu potencial de empréstimo bichado por títulos tóxicos, de um lado, e, por outro, pela propenção à poupança da população super-endividada no crédito direto ao consumidor, ameaçada pelo desemprego. Os investidores internacionais, nesse contexto, deslocam suas reservas financeiras em dólares, que se desvalorizam na taxa de juro negativa, para o Brasil e America do Sul. Potencialmente, ricos em matérias primas e base industrial disposta a competir, América do Sul e Brasil tornam-se a melhor atração. Os detentores de dólares, cujo lastro é ficção, depois que o consumo americano entrou em estresse geral, tentam buscar lastro para essa moeda candidata à desvalorização nos ativos reais, onde possam ser encontrados mundo afora. Na verdade, rola uma corrida global contra o dólar. O BC vai contra essa corrida, valorizando moeda desvalorizada. Obama deve gritar: viva Meirelles!
Situação privilegiada

O Brasil, depois do G-20, em Pittsburgh, no contexto global de bancarrota financeira, da qual se safou, por enquanto, está, com sua imensa potencialidade, na situação privilegiada daquele que possui bastante dinheiro no bolso para comprar imóveis num mercado com excesso de ofertas. Pode botar preço na sua mercadoria, alvo das atenções gerais. Sobram casas, sobram dólares. O Banco Central, se fosse coerente com seu discurso, deixaria o câmbio flutuar. O negócio do câmbio flutuante é que ele flutua, costuma dizer o presidente Lula, repetindo o que achou o máximo em Palocci autor da definição. Mas, Palocci, como Meirelles, fazem o jogo das aparências. As mercadorias brasileiras, se o dólar fosse realmente flutuante ganharia valor extraordinário em relação ao dólar e, consequentemente, exerceria esse poder cambial, invertendo o jogo atual. O BC, ao contrário, tem medo de afirmar, para valer, a força cambial brasileira. Com o bolso cheio de tesouro desvalorizado, está comprando caro o que poderia comprar barato. Se é pra fazer reservas, capazes de dar segurança ao Brasil pelos próximos 20 anos, o melhor , agora, seria o câmbio flutuante.
O real compraria dólar a R$ 0,50, dada a valorização adquirida pelas mercadorias frente a eventual excesso de dólar, impondo deterioração nos termos de troca. Poderia ser acumulada uma reserva não de 250 bilhões de dólares, como a atual, mas de 1 trilhão. Seria caminhar inversamente em relação aos chineses que buscam desovar 2 trilhões de dólares que acumularam ao longo dos últimos 20 anos, ralizando superavit comercial com EUA mediante moeda desvalorizada. O preço do dólar tende a despencar, se entrar o que o mercado prevê, nesse segundo semestre, ou seja, uma quantia fantástica de 25 bilhões de dólares, conforme destacou o jornal Valor Econômica, sexta, 02.10. Ao intervir no mercado, para evitar o despencar da moeda americana, o presidente d BC evita que o Brasil desperte para o que está realmente acontecendo com o dólar e, consequentemente, tome mais precaução em relação a ele, valorizando suas mercadorias,
Nacionalismo atrai investidores

O enriquecimento relativo do Brasil, cujo mercado interno resisitiu à crise, em comparação aos países desenvolvidos, mergulhados na bancarrota financeira, ganhou maior detaque, ainda, com a posição nacionalista governamental de dar novo curso legal à exploração do petróleo, contribuindo, dessa forma, para atrair mais dólares às fronteiras nacionais. O nacionalismo econômico a ser desdobrado na exploração petrolífera, com o aumento da demanda estatal para empresas brasileiras atenderem as empresas petrolíferas que investirem no pré-sal representa poderoso atrativo de capital externo. No setor de alimentos, idem. Grandes empresários internacionais, que dançaram no neoliberalismo especulativo, partiram para a compra de largas extensões territoriais na região oeste do país, para abastecer o mercado internacional de grãos. As apostas dos especuladores se voltam para os ativos reais. Os fundos de investimntos internacionais deixam de lado os ativos fixos, que se reproduziam nas taxas de juros especulativas, e optam pelos ativos variáveis. No Brasil, essa onda toma conta . Os fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica, da Petrobrás, da Vale do Rio Doce etc já reservam parcelas crescentes de suas aplicações financeiras no capital das empresas, para explorar aquilo de Warren Buffet, o mega-especulador americano, passou a chamar de novas fronteiras do capitalismo , com destaque para o Brasil e América do Sul. Ou seja, a avalanche de dólares, caso seja aplicada, para valer, a teoria do câmbio flutuante, permitirá aos produtores brasileiros ancorarem suas cotações de mercadorias não mais no dólar, mas no real.
Como destacou o economista José Roberto Mendonça de Barros, vai se tornando imperativo categórico, para os fundos de investimentos, possuirem , nos seus portfólios, crescente parcela de suas reservas aplicadas em real. Tal tendência, por sua vez, aprofundaria, como consequência, o movimento iniciado entre os países integrantes do BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – de realizarem transações comerciais entre si nas moedas respectivas dos quatro países. A China já está fazendo isso na Argentina. Propôs o mesmo, também, no Brasil, mas as condições que colocaram ao BNDES foram rechaçadas, segundo o economista Carlos Lessa, ex-presidente do banco, o que não impedirá retomada de novas negociações, quanto mais a desvalorização do dólar avançar. A disposição do Banco Central de intervir no mercado, para valorizar o dólar , impedindo a escalada do aumento do valor relativo da moeda brasileira em relação à norte-americana, trabalha contra a pretensão do BRIC. A estratégia do Banco Central de acumular tesouro que se desvaloriza está chegando em ponto explosivo.
Dólar valorizado, déficit elevado
A estratégia do BC de acumular tesouro que se desvaloriza está chegando em ponto limite, porque ela implica em aumento do déficit público. O governo, quanto mais o câmbio flutuante não faz efeito, mais se torna obrigado a salvar os exportadores e agricultores, mediante concessões fiscais. A continuidade da entrada da moeda americana sob manobra pró-valorização pelo BC, eleva o endividamento e sufoca financeiramente o Estado, bloqueando seus investimentos. Ao mesmo tempo, o Palácio do Planalto, se não acelerar o socorro aos exportadores, terá que enfrentar, no Congresso, reação , igualmente, ascendente, da base política dos agricultores, ameaçados pela política monetária na qual o real atua como objeto e não como sujeito da economia política. A crise mundial, ao mudar o perfil do Brasil no cenário global, cria nova situação. Chegou a hora da onça beber água. O real que se valoriza está na mesma posição que o dólar esteve, na segunda guerra mundial, diante da libra esterlina. Enquanto esta perdia força, o dólar ganhava potência. Agora, o dólar vira libra esterlina dadas as novas circunstâncias globais. O real está diante de moeda relativamente fraca. Os deficits americanos estão diminuindo fortemente o valor do dólar. Na m edida em que o BC intervém para sustentar o dólar, ajuda a financiar o deficit americano à custa do aumento do déficit brasileiro. O câmbio flutuante,cuja sobrevivência subsiste apenas no discurso e na crença abstrata dos analistas, é a representação econômica que permite seja vendida falsa verdade, a de que o real está se sobrevalorizando, quando o que ocorre, por obra do BC, é o oposto, a valorização do dólar. As palavras, como destacou Freud, servem para esconder o pensamento e a realidade.
A realidade é a submergencia do dólar. Meirelles parece que ainda não pegou a jogada keynesiana segundo a qual a moeda, na economia monetária, é, sob o capitalismo, a única variável econômica VERDADEIRAMENTE independente. É ela que desperta o espírito animal do empresário, que o faz ver, antecipadamente, a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro. O titular do BC não age com pensamento dialético, que vê a moeda como poder, mas, apenas, como valor de troca, ou seja, pensamento mecânico, ultrapassado. A economia brasileira, como diria Glauber Rocha, excelente analista político, além de genial cineasta, está diante do seu destino. Entra na Idade de Pompéia. Potente cavalo, deveria libertar-se dos arreios, para fazer valer sua força. A moeda não é valorímetro, medida de valor, somente. É muito mais que isso. O câmbio, segundo Keynes disse ao repórter do JB e economista do Banco do Brasil, Santiago Fernandes, em 1944, em Bretton Woods, é a manobra que permite a moeda emitida por país rico impor senhoriagem – juros compostos – à moeda do país pobre. Marx foi mais direto: o câmbio gera a dívida externa , que é instrumento de dominação internacional. O real vai reagir diante do dólar enfraquecido ou correr da raia? O chamado da história entra em cena.









