Privatização fracassa na educação

 

paulo-haddad está dando um basta à picaretagem educacional neoliberal que predominou na nova república, pautada na busca do lucro como objetivo e não na educação do povo como finaliidade

As estatísticas divulgadas pelo Ministério da Educação , na quinta feira da semana passada,  demonstram o fracasso da privatização da educação no Brasil.  Duas avaliações sobre a qualidade do ensino universitário, divulgadas pelo Ministério da Educação, demonstram o tremendo desastre. A primeira , avaliando os cursos, reprovou  588(36,4%) das 1.613 universidades submetidas a investigação qualificatória pelo Conceito Preliminar de Curso(CPC) e do Exame Nacinal de Desempenho dos Estudantes(Enade). A segunda, destinada a apurar grau de aprendizado do aluno, revelou notas péssimas. No Distrito Federal, em 149 amostras acompanhadas pelos técnicos do MEC, comprovou-se que entre a nota mínima , 1, e a nota máxima, 5, a média é 2.  No plano nacional, idem. Tragédia. A educação pública, da mesma forma,  não está nada boa das pernas, por falta de recursos orçamentários, na era em que a prioridade constitucional é cumprir com o pagamento dos juros da dívida pública interna, mas a nota média universitária está entre 2 e 3. Explícita condenação do governo quanto à preparação das cabeças brasileiras para tentar dar o grito de independência nacional expressa nas riquezas do pré-sal.
 
A educação, na era neoliberal, a partir dos anos de 1980, virou puro mercado financeiro. Arapuca especulativa. O empresário, nesse período, lança capital na circulação para comprar professores e instalações e joga propaganda para pegar alunos incautos, cobrando caro. Com a renda, aplica nos títulos do governo – a taxa selic, na Era FHC, chegou a 49%! – , triplicando o faturamento. As escolas particulares, sob neoliberalismo, viraram grandes negócios, para investidores em alta escala.
 
brizola - a nova republica neoliberal não topou a proposta política brizolista de educação integral, porque se tratava de dar educação parcila ao povo, para ele ser tolerante e não rebelde com a exploração nacional por meio da escravização da mente popularA finalidade das empresas educacionais, salvo honrosas exceções, não é, no período neoliberal, a educação, mas o lucro. Distorceu-se o objetivo, que é o de conferir educação de qualidade como finalidade número um. Algo semelhante ocorreu, igualmente, na política de comunicação governamental, em que a finalidade constituicional, voltada para a educação e a cultura, deu lugar à lucratividade como objetivo maior. Na onda especulativa, as empresas de educação triplicaram seus faturamentos. Empresários competentes criaram redes de educação, a exemplo de redes de supermercados, de lojas de tintas, de material de construção etc, sinalizando crescente oligopólio, impulsionado pela exuberância irracional especulativa global, até que tudo foi aos ares em outubro de 2008.
 
O capital norte-americano sentiu o faro do negócio-educação no Brasil. Empresários dos Estados Unidos estão chegando com seus dólares em desvalorização crescente, para tentarem comprar redes de educação, como destacou, no Dia do Soldado, em solenidade na Câmara, parlamentar nacionalista do PDT do Paraná, Wilson Picler. Empresário no setor educacional, confessou, da tribuna, que está insistentemente sendo assediado por investidores externos. Igual a ele, muitos.
 
Ressaltou que o investidor que dispuser de 20 bilhões de dólares – muitos desse porte existem – fará a cabeça da juventude brasileira para aliená-la. Esse é o preço, na avaliação dele, para que o capital externo compre o que já é fato, ou seja, que 70% do negócio educação estão em mãos do setor privado, oferecendo baixa qualidade e auferindo alta rentabilidade. O objetivo é o lucro, em primeiro lugar, para ser multiplicado na especulação; em segundo lugar, ou terceiro, a educação.
 
Os números do MEC demonstram a gravidade do assunto qualidade educacional no país onde a prioridade é pagar os juros da dívida, como determina o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b da Constituição. O resto é segundo ou terceiro plano. Contra isso, batalhou o ex-governador nacionalista do PDT, Leonel Brizola, que deixou poucos herdeiros. O senador brasiliense, Cristovam Buarque, é um deles, mas contra os banqueiros, que levam a parte do leão, no orçamento, em prejuízo da educação, pouco fala.

A universidade pública fugiu da danação especulativa, em parte. Talvez tenha sido essa sua salvação, na medida em que reitores não podem ter a liberdade de manipular o dinheiro como têm os empresários privados.  

 
 

Lógica estatal e lógica privada

 
 
 

wilson-picler pregou nacionalismo no campo educacional para resgatar a alienação que o ensino privado, que domina 70% da oferta de educação, dissemina na mente nacional

Seria essa a salvação da universidade pública, de estar livre das negociatas financeiras, que dominaram o cenário da educação como negócio na era neoliberal neorepublicana governada pelo Consenso de Washington, depois da grande crise monetária dos anos de 1980?

Em 1979, o governo americano elevara os juros , a prime-rate, de 5% para 17% ,  em nome do combate à inflação. Havia excesso de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares acumulados na praça global, desde o pós-segunda guerra mundial.

O excesso de moeda americana e seus derivativos globais  levaram à sua desvalorização. Imperialmente, o presidente do BC americano, Paul Volcker, puxou o custo do dinheiro. Os países ricos se arranjaram entre si. Já os pobres e esmolambados da América do Sul se lascaram.

Tiveram , por disporem de elevadas dívidas em dólares, que entrar na UTI financeira do FMI, sob supervisão do Consenso de Wahington, para preservarem a poupança dos banqueiros internacionais. Nesse período, avançaram as privatizações, sendo a da educação uma das de maior destaque.

Deu certo? As notas do MEC demonstram, agora, que não. A estratégia neoliberal, de conter os gastos públicos, para pagar juros, em prejuízo dos investimentos em educação, saúde, infra-estrutura etc, indutores da formação da consciência nacional, fracassou.

Faliu o  modelo educacional neoliberal, especulativo, cujo resultado são notas ruins de avaliação, que condenam o empreeendimento lucrativo em prejuízo do educativo.

A ação estatal , sob pressão social, tende a ampliar, no campo educacional, agora, em nome do interesse público, para superar o interesse particular.

As redes de educação privada se reproduziram sob orientação externa. O domínio do FMI e da orientação ideológico-monetarista do Consenso de Washington eram adequados à nova filosofia educacional, essencialmente, alienante. Tornara-se, pela educação, necessário convencer os brasileiros de sua própria incapacidade de fazer crescer o PIB potencial acima de 3%, sob risco de inflação permanente.. Questionar isso, pela consciência, não era do interesse de Tio Sam, preocupado com a renda dos banqueiros.

paulo-freire - o genial educador pernambucano trabalho sempre na marginalidade em favor da educação libertadora integral pública, mas não conseguiu universalizar sua proposta, porque a política reacionária conservadoria das elites impediram tal objetivoA orientação da economia política lulista de colocar em cena programas sociais para gerar consumo despertou o potencial do mercado interno. Mais consumo interno transformou-se na verdade que os conceitos externos ideologicamente construídos em laboratorio tentavam negar.
 
O sistema educacional perdera substância. Deixou de estar a serviço da consciência nacional em termos de auto-estima, como representam as pregações democráticas sociais de Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Cristovam Buarque, Brizola etc.
 
As produções educacionais e culturais em geral passaram a obedecer Washington, incutindo na cabeça do povo brasileiro o conceito de tolerância diante do destino construído matematicamente, para o destino da economia, sem perceber o que disse Hegel, de que a matemática é ciência que se realiza no exterior da realidade, não podendo, pois, determiná-la.
 
A educação neoliberal neorepublica brasileira nos anos de 1980 em diante cuidou da forma e não do conteúdo, para transformar os alunos em objetos e não em sujeitos, a fim de suportarem as agruras de uma oferta educacional deficiente como preço a ser pago pelos juros altos.
 

 
 

Vácuo de investimento público

 
 

joao-carlos-di-genio, dono da UNIP, que registra a pior nota do MEC para cursos superiores , dá a demonstração do fracasso neoliberal no campo educacional, por conta da predominação da visão do lucro no comando da educação e da cultura, indo na contramão do interesse público

Sem investimentos públicos na educação e na cultura, avançou o capital privado, focando, principalmente, cursos de custos baixos, como são os de humanidade, e lançando pouco dinheiro nas ciências e tecnologias, para formação do pensamento lógico-dedutivo da socidade, para ocupação das atividades intermediárias em geral. Como o governo ainda não investiu para valer em escolas técnicas, somente despertando, agora, para o assunto, ainda de forma lenta, aos empresários privados sobraram essa oferta deficiente, como complemento do ensino técnico, igualmente, insatisfatório.
 
As notas do Ministério da Educação demonstram que os investimentos privados não estão sendo úteis, do ponto de vista do interesse nacional, na formação de produtos humanos indispensáveis ao próprio capitalismo nacional. Trabalha-se a educação no Brasil na contramão do que rola na Europa e na Ásia, por exemplo, em que os investimentos estimulados pelo governo se voltam para atender 70% da formação técnica nacional de elevada qualidade, enquanto se estreitou o filtro universitário.
 
No Brasil, alargou-se o filtro universitário privado sem qualidade, nas águas da alienação educacional neoliberal, anti-nacional, enquanto estreitou-se a base, que , pela lógica, deve ser alargada pela oferta de formação educacional  de elevada qualidade. Edifício de base estreita, sem alicerce,  e parte superior larga, sem qualidade. Suicidio.

Tende a se agravar a situação da qualidade das escolas privadas, no ambiente da crise financeira internacional, que disseminou prejuízos e instabilidades globais, cujos efeitos estão ocultos e latentes, em processo de auto-destruição em marcha.

É nessa hora, segundo o deputado paranaense, que está chegando o capital externo na educação brasileira. Os grandes grupos cheios de dólares candidados às desvalorizações em face da instabilidade global, afetada pelos deficits dos Estados Unidos, desejam comprar esses ativos valiosos e dar um rítmo de oligopólio ao negócio empresarial educacional brasileiro. Ou seja, estão chegando os dólares podres para comprar/fazer a cabeça dos brasileiros.
 
darci ribeiro, adepto da linha brizolista, que tem origem em anisio teixeira, lutou até o fim pela educação integral em todo o país, o mais rapdiamente, possível, mas as elites resistiram até hoje a essa proposta que tira a cabeça nacional do colonialismo cultural ideológicoA Universidade Paulista(UNIP), por exemplo, do empresário João Carlos Di Gênio, empreendedor brilhante, tipo Daniel Dantas, ligado aos poderosos, desde a ditadura, matemático, mas, que, no plano educacional em matéria de qualidade, está deixando a desejar, conforme as notas do MEC, que a coloca, no DF, com nota 1, pode muito bem ser alvo de investidor externo ou , mesmo interno, que deseje qualificar o negócio na base do domínio oligopolista.
 
A lógica do oligopólio, cuja função é manter constante e em ascensão a taxa de lucro do negócio, toma conta do cenário educacional brasileiro. As disputas pelos mercados, na crise financeira, acirram-se , extraordinariamente, colocando em cena a mesma lei capitalista que está promovendo a concentração oligopóligica no setor financeiro, alimentício, mineral, petrolífero etc.
 
 

 
Oligopólios público X Oligopólio privado

 
 
 

anisio-teixeira trouxe experiência renovadora dos Estados Unidos, adaptável à realidade brasileira, na tentativa de implantar a escola integral, que Brizola tomaria pé 1982, mas as forças do atraso ven ceram, para manter a escolaridade como sinônimo não de libertação, mas de escravidão

O risco educacional para o investidor privado, na crise, aumenta. Consequentemente, quem paga o pato é a qualidade. Com a qualidade piorando, a questão que entra em cena é a do interesse público.
 
O governo, como agente público, tem, sob pressão social, que agir em nome do interesse público, quando o MEC divulga que a privatização da educação no Brasil fracassou.  Tal lógica, em face dos maus resultados apresentados pela escola privada, obriga o Estado brasileiro a agir relativamente à educação como agiu, no auge da crise financeira, para salvar a  produção e o consumo, a fim de evitar bancarrota nacional.
 
Maior volume de recursos para o ensino público, que, mesmo dispondo de recursos escassos, oferece qualidade educacional superior à ofertada  pelo setor privado, vai se tornando exigência social, que cairá no Congressso em forma de pressão popular. 
 
cristovam-buarque alimenta visão mecanicista da educação ao destacar que o dinheiro resolve, quando o que abre a mente é a política, como explicação para a comercializalização da educação sob neoliberalismo dominado pelo sistema financeiroO oligopólio empresarial educacional que emerge como resultado da bancarrota neoliberal, cuja ação passou a ferir interesse público, como demonstram as notas do MEC, terá que, dialeticamente, enfrentar, a partir de agora, o seu oposto, isto é, oligopólio educacional estatal. Este  avança em nome da preservação do interesse público sob pressão política.
 
A tese da privatização educacional oligopolizada produz a antítese estatização educacional oligopólica. Processo idêntico rola relativamente ao sistema financeiro, com o oligopólio bancário privado anti-social, cobrando os juros mais escorchantes do mundo, estimulando a oligopolização financeira estatal, em nome do interesse público.