A desvalorização do dólar, que atingiu R$ 1,80, e a valorização da bolsa, alcançando os 60 mil pontos, nessa quarta, 16, representam jogos combinados, que sinalizam avanço do protecionismo mundial, no contexto da crise deflacionária, cujas consequências, especialmente, nos países capitalistas periféricos, como o caso brasileiro, dependentes de poupança externa, para se desenvolverem, impulsionam movimentos políticos favoráveis à maior distribuição da renda nacional e abrangentes reformas políticas.
Ambas, por sua vez, decorrem das novas correlações de forças produzidas pelo movimento quantitativo e qualitativo de transformação econômica e política, responsáveis por sinalizar empobrecimento relativo dos países capitalistas ricos,que estavam dinamizando suas economias na base da especulação com moedas ficitícias, e enriquecimento relativo dos países emergentes, a exemplo do Brasil, detentores de matérias primas essenciais à manufatura global e de espaço para novos investimentos, a fim de dar vazão aos capitais sobreacumulados no capitalismo cêntrico, canditados a sofrerem quedas em suas taxas de lucro, graças à insuficiência de oportunidades onde se sobreacumulam.

O jogo bruto do comércio internacional significa, simplesmente, que todos os países estão se preparando para jogar seus excedentes internos no espaço econômico global. Nos Estados Unidos, maiores consumidores do mundo, cujo consumo está em queda, porque a sociedade está superendividada, depois da grande crise, cuja duração ainda é incognita, podendo esticar, embora de forma menos atenuada do que no momento de maior pânico, como ocorreu há um ano, o fato evidente é o excesso de excedentes. Estes, historicamente, no grande país, sempre eram consumidos internamente, graças à divisão internacional do trabalho que ocorrera depois da segunda guerra mundial, em que o dólar despontou como equivalente geral nas relações de troca globais, desbancando a libra inglesa.
Os grandes deficits americanos representavam a saúde econômica do capitalismo, porque tinham como contrapartida , em favor dos Estados Unidos, os superavits financeiros, decorrentes da senhoriagem obtida com o dólar todo-poderoso. Déficit comercial, de um lado; superavit financeiro, de outro. A compensação era amplamente vantajosa para os americanos.O resultado correspondia a vantagens comparativas dadas pelo poder da moeda americana nas trocas cambiais. Europa e Ásia, grandes exportadores, realizavam suas produções no consumo dos Estados Unidos, que, por sua vez, evitavam estouros inflacionários, mediante grandes investimentos públicos em guerras, bancando mais deficits, com ampliação da produção bélica e espacial(não-mercadorias), gerando demanda sem aumentar oferta. Evitavam, desse modo, queda de preços nos setores de bens duráveis, que provocaria deflação, como ocorreu em 1929,
Remédio getulista para falência keynesiana
Ou seja, tudo dependia do jogo keynesiano, expresso no aumento da dívida pública americana. Com uma mão, Tio Sam jogava , barbaramente, dinheiro na circulação, para ativar a produção; com a outra, lançava títulos da dívida pública, para enxugar parte da liquidez monetária, a fim de evitar enchente inflacionária. A dívida crescia, dialeticamente, no lugar da inflação. Do pós-guerra até a década de 1970, os Estados Unidos trabalharam com o dólar-ouro; depois dos anos 70 em diante, com elevação dos deficits, acumulados com a guerra fria, guerra do Vietnam, corrida bélica e espacial etc, gastos que ameçavam a saúde da moeda, desatrelaram o dólar do ouro. A moeda flutuou.
Iniciava o tempo da especulação sem limites. Dos anos de 1970 a 2009, ocorreram as bolhas especulativas intermitentes, até que em 2008, com a desregulamentação total do mercado especulativo, em que as rendas capazes de bancar o consumo eram produzidas em cima da moeda fictícia, tudo foi aos ares. O dólar não aguentou. Os países exportadores para o mercado americano, principalmente, os europeus e asiáticos, lotados de moeda americana, ficaram com o grande mico na mão. Eles, que trabalharam ao longo desses anos, com moeda desvalorizada, para ganhar em cima do dólar forte, valorizado, viveram tempos de grande bonança. Onde jogarão os excedentes, se o mercado americano , como destacou o presidente Barack Obama, não será mais a fonte de consumo capaz de puxar a demanda global, na esc ala anterior, senão abrindo guerras comerciais, que, por sua vez, estimularão protecionismos renitentes, enquanto serão forçados a fortalecerem o mercado interno, possível, somente, via distribuição mais acelerada da renda nacional?

A visão do presidente Lula de acelerar a consolidação das leis sociais, como destaca em entrevista aos repórteres Claudia Safatle, Maria Cristina Fernandes, Cristiano Romero e Raymundo Costa, do jornal Valor Econômico, nessa quinta feira, 17, que fortaleceria o direito de consumo, pregado, neste site, pelo octogenário empresário brasiliense, Sebastião Gomes, do setor de alimentação, criador do Programa Nossa Sopa, no DF, caminha na direção de fortalecer a estrutura produtiva e ocupacional brasileira, não mais priorizando a produção, que não gera consumo correspondente, mas, ao contrário, fortalecendo os programas sociais, que permitem os mais pobres a ampliar sua capacidade consumista.
Sem o consumo o governo não terá como elevar a arrecadação e aumentar os investimentos públicas, necessários ao atendimento das demandas da sociedade.
Protecionismo destrutivo em marcha
Com o estouro financeiro derradeiro das finanças americanas, expresso na debacle do mercado imobiliário, a era do dólar forte acabou. Sem poderem bancar moeda valorizada, para realizar a produção do mundo no consumo americano, os Estados Unidos, superendividados em maiores proporções, ainda, depois do estouro, já que tiveram que elevar, mais perigosamente, o deficit público para a casa dos 13% do PIB, assustando geral, vêem o que não gostariam de ver, ou seja, o enfraquecimento do dólar, o perigo de que ocorra com ele o que ocorreu, nos anos de 1920, com o marco alemão, isto é, hiperinflação.
A queda do dólar frente ao real, caindo para R$ 1,80 – podendo despencar mais, se o Banco Central não continuar comprando as verdinhas, acumulando reservas candidatas à desvalorização – , demonstra, agora, que os Estados Unidos não podem mais continuar sustentanto, como outrora, deficites acumulados. Têm que realizar superavits comerciais, para compensar o fim da capacidade de produzirem superavits financeiros, senhoriagem valorizativa. Caso contrário, entrarão em buraqueiras de deficits em contas correntes. Seria o fim.
Os aliados comerciais, não podendo mais se sustentarem naquilo que acabou, ou seja, na divisão internacional do trabalho, inaugurada com o dólar todo poderoso, depois da segunda guerra mundial, a partir de Bretton Woods, somente, podem sobreviver, de agora em diante, com a combinação de distribuição da renda , para permitirem aumento do consumo interno, ou partirem violentamente para a guerra comercial.

Os chineses reagiram , prontamente, nessa semana, à ação do governo americano de impor sobretaxas sobre os pneus produzidos na China. O mesmo se repete em diversas outras mercadorias. Em nível mais modesto, na América do Sul, Brasil e Argentina travam, também, sua guerra comercial, correndo riscos de inviabilizarem a união sul-americana, ameaçada pelas políticas de segurança continental, como se evidenciou na reunião da Unasul.
As disputas comerciais, no andar da carruagem da desvalorização do dólar, tenderiam a disseminar-se. O protecionismo vai se configurando como alternativa nas relações de troca, combinando com pressões políticas internas. Estas, sem que haja melhor distribuição da renda nacional, poderiam disseminar-se em tensões políticas a desembocarem em guerras civis, quanto mais se acumularem excedentes produtivos que não encontrem canais de desovas nas exportações. Os governos teriam que desvalorizar suas moedas. Se todos caminharem nesse sentido, haveria carnificinas comerciais e total desarranjo monetário. Aceleraria, consequentemente, a superação do dólar como equivalente geral das trocas comerciais globais. Os movimentos dos países em partir para arranjos comerciais com suas próprias moedas sinalizam essa nova possibilidade.
Os excedentes, que sempre procuraram o mercado internacional, para serem desovados, com esse mercado mais enxugado, terão que ser consumidos internamente. O aumento do consumo interno, por sua vez, somente ocorreria com ampla distribuição da riqueza. Por outro lado, melhor distribuição da riqueza, especialmente, nos países capitalistas periféricos, representa rompimento de estruturas políticas que impedem alterações nos modelos de desenvolvimento econômico poupadores de mão de obra e concentradores de renda. Uma nova libertação da escravatura se põe em marcha no compasso da grande crise deflacionária.
Capitalismo mais humano ou revolução
Os governos, nesse contexto, estarão diante das pressões econômicas e políticas cada vez mais acentuadas por parte das classes sociais economicamente antagônicas. De um lado, o capital, como ocorreu, ao longo dos últimos meses, continuaria a pedir ao governo, diante da queda da produção, exoneração fiscal e vantagens creditícias, de modo a sustentar sua taxa de lucro. De outro, o trabalho solicitaria proteção contra o desemprego.
O fôlego do governo, para bancar deficits fiscais via desoneração de impostos – como está ocorrendo, quando a carga tributária recua 1 ponto percentual em 12 meses – , tenderia a esgotar-se rapidamente, porque os empresários, em face da redução do nível de atividade, não investiriam, para elevar o consumo e, consequentemente, a arrecadação. E mesmo que investissem, os investimentos não gerariam consumo correspondente, de modo a garantir ingressos tributários capazes de permitir novos gastos públicos para atender as demandas sociais.

Restariam aos governos bombarem o consumo para produzir arrecadação e não a produção, incapaz de gerar efeito semelhante. Do contrário, os excedentes acumulariam, se houvessem investimentos sem o rspectivo consumo correspondente. E por que haveria aumento da produção de excedentes, via novos investimentos, se o consumo interno dos países da periferia capitalista padecem de crônica insuficiência relativa de demanda histórica?
A solução, portanto, não poderia ser estímulo dos governos à produção, em ambiente em que a simples capacidade instalada, se impulsionada, produziria excesso de oferta sem consumo correspondente, incapaz, portanto, de produzir arrecadação consequente. Dançariam os governos, em ambiente democrático.
O novo premier japonês, Yukio Hatoyama, deu o tom do novo rumo dos acontecimentos, ao destacar que precisa ser praticado “capitalismo humanizado”, ou seja, distribuir as benesses não apenas para o capital, produção, mas, principalmente, para o trabalho, o consumo. É este que vai diminuir o excedente interno que não encontra mais, na era do dólar desvalorizado, espaço para desova. Se não desovar, emerge a deflação. Com deflação, ocorre a destruição não apenas do trabalho, mas, principalmente, do capital.
Resumindo: dólar em queda impõe distribuição da renda ou revolução social.