24 set
2009Palocci não acredita no Brasil
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 24-09-2009

O deputado federal Antônio Palocci(PT-SP), ex-ministro da Fazenda, que se safou de cassação política no Supremo Tribunal Federal. para ganhar fôlego e se transformar no relator do projeto de lei do governo que cria o fundo social com dinheiro do pré-sal, parece não acreditar no potencial econômico do país. Tem medo de que o excesso de dinheiro a ser levantado pela riqueza do ouro negro depositado a dez mil metros de profundidade venha criar problemas inflacionários, se for investido no Brasil, gerando complicações cambiais, via sobrevalorização da moeda nacional. Subordina-se a uma lógica quantitativa, enquanto renuncia às possibilidades da política. A sede de investimento que grassa na economia, carente de infra-estrutura – estradas, portos, plataformas petrolíferas etc – , não seria, portanto, mitigada, se depender de Palocci. Seu desejo é o de que a grana seja jogada no exterior. Dessa forma, não haveria excesso de moeda em circulação, na economia nacional, cujas consequências seriam inflação. O governo teria que lançar mão de emissão de papéis, para enxugar o excesso de oferta monetária, para impedir enchente inflacionária. Elevaria, consequentemente, a dívida pública, que teria que crescer, dialeticamente, no lugar da inflação. Tudo, então, dependeria do fôlego do governo de ser capaz de enxugar dinheiro para conter alta dos preços, se a inflação, com o excesso de riqueza do petróleo, retornasse. Estando tal fôlego curto, devido ao excesso de dívidas contraídas para dinamizar a produção e o consumo afetados pela escassez de crédito, maior volume de dívida sinalizaria perigo para os credores, que elevariam os juros etc. Vale dizer, a inflação não emergiria por falta de dinheiro, que contribuiria para elevar o juro, obrigando os empresários a repassarem os custos aos preços; ao contrário, os preços subiriam porque haveria excesso de oferta de dinheiro, que obrigaria o governo a elevar a dívida pública , cujas consequências seriam elevação dos jurosm como antídoto ao risco.
Complexo de inferioridade

Palocci raciocina com o excesso de riqueza para construir inflação futura com dinheiro do petróleo do pré-sal, de modo a desviar a riqueza nacional, não para construir a infra-estrutura no país, fato que mudaria a dinâmica dos preços relativos, mas realizar essa proeza no exterior. Complexo de inferioridade. Além do mais, o deputado de Ribeiro Preto, que está com sua reputação moral parcialmente recuperada e parcialmente bichada, tem em mente situação estático-mecanicista quanto às mudanças que o dinheiro do petróleo produziria no país, especialmente, se o presidente Lula e seus sucessores, seja a oposição, seja a situação, continuarem proposta dele de utilizar a nova riqueza para distribuir a renda nacional, fomentando educação, pesquisa em ciência e tecnologia, alterando, consequentemente, os salários relativos. A elevação da remuneração média decorrente do incremento da riqueza que se promete distribuir contribuiria para alterar o perfil do modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obra. Se haverá aumento da renda interna, consequentemente, do consumo, a estrutura produtiva e ocupacional brasileira, historicamente, dependente da poupança externa, voltada para as exportações, teria sua dinâmica interna invertida, no compasso da orientação nacionalista-dirigista-redistributivista lulista. Ou seja, o jogo seria dado pela economia política e não pela política econômica. O mercado interno ganharia maior dimensão, consequentemente, exigiria maiores investimentos em infra-estrutura que, necessáriamente, evitariam pressões inflacionárias, se a renda interna fosse fortalecida com a elevação proporcional do poder de compra dos salários. A menos que Palocci não leve em consideração que o petróleo do pré-sal não trará distribuição da renda. Seria mantida a lógica do modelo concentrador de capital e promotor de exclusão social, bombador de crônica insuficiência de demanda global, cujos resultados seriam a continuidade o status quo vigente, ou seja, fragilidade cambial, dada pela inflação, por conta da fragilidade do mercado interno. Os estoque se acumulariam e exigiriam desvalorizações cambiais, como antigamente, para serem exportados. Não é o caso presente em processo de mudança histórica, com o fortalecimento do mercado interno. O quadro , com o petróleo elevando a renda interna, mudaria de figura. Seriam abertas novas expectativas e perspectivas para o aumento do rendimento interno , que contribuiria para minimizar desníveis econômicos estruturais. Palocci, no entanto, analisa a conjuntura para formar seu raciocínio macroeconômico, ancorado na subordinação histórica do modelo de desenvolvimento ao capital externo.
Medo da abundância holandesa

Tremendo contrasenso a lógica palocciana de jogar o dinheiro do fundo social no exterior e não no Brasil, com medo de pintar maldição holandesa – abundância de riqueza – em território nacional, quando, do ponto de vista do investidor externo, o panorama se descortina de outro modo, isto, pelo avesso da racionalização de Palocci. Os grandes investidores estão , isto sim, é com medo de investirem seus fundos nos países ricos, onde a crise financeira se instalou no reinado do juro negativo e da fuga do consumo pela sociedade excessivamente endividada no crediário. O megaespeculador americano Warren Buffett dá a demonstração cabal da nova tendência. Sua recomendação essencial aos milhares de investidores no seu fundo de investimentos é para que se desloquem da Europa e dos Estados Unidos, principalmente, para a América do Sul, para que não tenham que enfrentar fuga de acionistas, já que o retorno do capital investido não virá mais da especulação, mas da produção, desde que haja maior distribuição de renda interna. Como, segundo ele, na Europa e nos Estados Unidos, a oportunidade de investimentos torna-se, na grande crise financeira, escassa, pois , afinal, os dois continentes, estão, do ponto de vista da infra-estrutura, prontos, dispensando novos investimentos, restaria apostar na infra-estrutura que precisa ser construída nas novas fronteiras do capitalismo, que estão na América do Sul, especialmente, no Brasil. Se resolvessem os investidores europeus e americanos seguirem a recomendação de Palocci, de não investir-acreditar no Brasil os recursos do pré-sal, mas na Europa e nos Estados Unidos, ou na China e na Ásia em geral, para fugir da vaca holandesa, ou seja, da pressão inflacionária, concluiriam que o ex-ministro e deputado petista teria endoidado. Quer que os empresários europeus e americanos comprem máquinas novas para colocar no lugar das que estão paralisadas, por falta de crédito e consumo, no primeiro mundo, onde o dinheiro do pré-sal, na avaliação palocciana se alojaria. Irracionalidade.
Prisioneiro do pensamento mecanicista
Como objeto, crente na política econômica , e não como sujeito, que comanda a economica política, Palocci é, congenitamente, prisioneiro da ideologia neoliberal, do pensamento industrial que norteou a industrialização brasileira, especialmente, a paulista, a partir dos anos de 1950 em diante. Essa industrialização, realizada à custa de poupança externa, de um lado, e, de outro, de sistema tributário, que obrigou transferência de renda dos estados mais pobres para os mais ricos, de modo que criasse mercado consumidor para os bens duráveis em geral, nas regiões sul e sudeste, esgotou suas potencialidades. O que a movia, capital externo, encalacrou-se na grande crise financeira, pois os investidores fugiram justamente da insuficiência de consumo produzida pelo modelo concentrador para a especulação financeira desenfreada. E o sistema tributário virou um monstrengo concentrador de renda. Essa superestrutura produtiva dependente requer, agora, que o dólar se desvaloriza , de rápida distribuição de renda. O dinheiro do petróleo seria induzir a isso, mas, conforme a cabeça de Palocci, ocorreria o oposto. Como os problemas do capitalismo, agora, não estão relacionados à escassez de produção, mas de consumo, o nome do jogo passaria a ser distribuição da riqueza, mediante modernização do sistema político e econômico, tarefa para qual o dinheiro do petróleo teria papel fundamental, principalmente, se for seguida a recomendação do presidente Lula. Com visão estreita, o parlamentar de São Paulo, não percebeu , ao que parece, a lógica do pensamento que o presidente Lula coloca em marcha, visualizando a libertação nacional da dependência externa, e não o aprofundamento da falta de independência, embora esteja com o bolso cheio de dinheiro para gastar. Palocci precisa de reciclagem macroeconômica, pois está prisioneiro do pensamento mecanicista neoliberal, quando o momento requer o pensamento dialético, que entende que produção é consumo e consumo é produção, como destacou Marx. No compasso do pensamento de Palocci, o dinheiro do petróleo, indo para o exterior, e não para o interior do B rasil, preservaria a correlação de forças entre capital e trabalho, onde a insuficiência de consumo faz preponderar a produção sobre o consumo, levando a economia para perigosa destruturração deflacionária. Inviabiliza o próprio jogo político econômico lulista que visa dinamizar a economia mediante fortalecimento do consumo interno, algo que contribuiu para fortalecer o real e o poder de paridade de compra do país em termos de PIB, no fogo da grande crise.





















A ação oligopólica da JBS é isso aí. A fusão JBS-Bertin, no Brasil, levou à fusão JBS-Bertin-Pilgrim’s americana. Empreendimento global sob comando nacional, cujo poder financeiro tem como lastro emprestimos do BNDES, banco estatal. Juntou-se a maior produtora mundial de proteina animal(JBS), Grupo Friboi, com a segunda maior produtora do país, a Bertin, e a maior dos Estados Unidos, a Pilgrim’s. É esse tipo de jogo que, segundo Luciano Coutinho, ideólogo do desenvolvimentismo, prega para novas ações das agências estatais, impulsionando o capital nacional no cenário global. Os chineses enxergam longe.

Não sendo Serra de direita, o que descarta ataques petistas nesse sentido, para tentar desestabilizá-lo, caso seja candidato tucano, e sendo, como Dilma Rousseff, Marina Silva e Heloísa Helena, candidato democrata, como destacou Lula ao Valor Econômico, restaria aos petistas, do ponto de vista ideológico, atacar Serra como centrista. E olhe lá.
A sobreacumulação de capital , de um lado, e o aumento da exclusão social , de outro, produzem escassez de consumo, que , por sua vez, inviabilizava a saúde sustentável da produção.
O inconsciente político do presidente Lula está no presidente Getúlio Vargas. Vargas promoveu a Consolidação das Leis do Trabalho(CLT). Garantiu dignidade ao trabalhor, contraditoriamente, na ditadura. Lula, agora, na democracia, quer a Consolidação das Leis Sociais, como adiantou em entrevista ao jornal Valor Econõmica, na quinta, 17. Vargas criou um mundo para o capital industrial reproduzir-se politicamente equilibrado com vantagem evidente para o capital em relação ao trabalho, em um tempo de grave crise econômica, pois se vivia sob estragos provocados pelo crash de 1929. Lula, agora, diante dos estragos devastadores da crise de 2008, tenta complementar Vargas com a equiparação do social ao econômico. A cartada política lulista, expressa na CLS, que complementa a CLT varguista, representa proposta de conquista social em plena campanha eleitoral que gera nova correlação de forças políticas no país, em nome da salvação do capitalismo nacional. Ela complementa, por sua vez, o consumo como fator principal de dinamismo para a produção – e não o inverso – via crédito ofertado por bancos estatais. Chegou a estatizar um banco pequeno, o Votorantim, especializado em crédito para bens duráveis, como forma de agir, estatalmente, no crediário, para incrementar a produção.
