25 set
2009Ensaio geral de governo mundial
Cesar Fonseca em 25/09/2009
A crise política em Honduras , a reunião da ONU em Nova York e o encontro do G-20 em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos, durante a semana, demonstram , à larga, que os conflitos políticos, econômicos e sociais, expressos em escala global, de forma mais intensa, depois da bancarrota financeira internacional, levando de roldão as economias americana e européia, contaminando geral os demais países, conduzem o esforço dos líderes mundias em torno de consensos, para acomodar antagonismos ideológicos. Trata-se de acelerar entendimentos, para superar dissensos, como forma de salvação da humanidade, pois todos estão no mesmo barco, à deriva. A Organização das Nações Unidas vai se destacando como o centro internacional de articulação, cujas consequências são a formulação de governo global, de modo a conduzir o multilateralismo, depois que o unilateralismo norte-americano foi aos ares.
Lula, Chavez e Amorim articularam juntos?

Em Honduras, a controvertida chegada do presidente deposto Manuel Zelaya ao país, entrando, com mais de 300 correliginários, na embaixada brasileira, depois de períplo de 15 horas, plenamente, sob conhecimento do presidente da Venezuela, Hugo C havez, que emprestou avião para deslocamento até Nicarágua e El Salvador, desatou negociações globais antes inimaginável, no ambiente da ONU, onde, durante o ocorrido, os integrantes discutiam a questão ambiental.
O governo hondurenho golpista de Roberto Micheletti ficou perdido. Foi pego de surpresa pela armação, que, como se cogita, teria sido realizada com conhecimento não apenas do presidente Chavez, mas, também, do presidente Lula, que negou, peremptoriamente, tal acusação, embora tenha adotado comportamento laxista, de modo a permitir Zelaya, de dentro da embaixada, articular politicamente com seus aliados, a fim de levar adiante sua proposta de diálogo. Se o presidente Lula jogou estrategicamente com Chavez não se sabe e seria pura especulação, mas as evidências do conforto e liberdade de Zelaya, no território brasileiro, dentro de Honduras, causou mal estar. As pressões, nesse sentido, serviram para o titular do Planalto recomendar ao presidente deposto hondurenho que não fizesse do lugar onde se encontra palanque político, para tentar voltar ao poder. Debalde. Zelaya se mostrou em casa.
Não teria sido, entretanto, o jogo , possivelmente, armado entre Chavez e Lula, o determinante, para balançar Micheletti, mas sim a coordenação dos governantes, que se encontravam na ONU, quando Zelaya entrou na embaixada, na terça, 22. Unanimemente, condenaram o golpe, exigiram a volta do presidente constitucionalmente eleito ao poder e bateram palmas para a ação diplomática humanitária brasileira de permitir a Zelaya abrigar-se na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, como registrou o editorial do jornal El País.
O que antes estava difícil de ocorrer, ou seja, a flexibilização política dos golpistas, depois da entrada do presidente deposto na embaixada, passou a desenvolver-se por força de intensas pressões, que, naturalmente, se desenrolarão ao longo desse final de semana. Micheletti, que acusou Zelaya de tentar golpe na Constituição, fixando, por plebiscito novo mandato presidencial, à moda venezuelana e colombiana, não poderia resistir brutalmente, porque haverá eleições em 29 de novembro no país, e democracia eleitoral não combina com porrete. O pleito , no entanto, não está, totalmente, seguro, podendo o calendário eleitoral sofrer acidente de percurso, a menos que a política vença a força, por intermédio da OEA ou da ONU.
EUA se rendem à ONU

Desarmamento nuclear, paz e segurança, meio ambiente e economia global foram os temas que emergiram forte, na reunião da Organização das Nações Unidas, na quarta, 23, com todos os integrantes demonstrando o novo espírito da entidade como protagonista político dos novos acontecimentos e dos novos rumos que a humanidade, perdida na crise econômica, busca para evitar novo confronto ou terceira guerra mundial. O presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, ao ressaltar que o unilateralismo político americano já era, dando lugar ao novo contexto do multilateralismo, demonstra que esgotou o poderio de Tio Sam de ditar a ordem dos acontecimentos, pois o poder do dólar bichou e os deficits americanos não suportam mais puxar a demanda econômica global, sob pena de implosão do império.
O discurso obamista enterra de vez a arrogância americana, expressa na Era Bush, que chegou a classificar a ONU como desnecessária, na vã esperança de que o poder financeiro dos Estados Unidos seria eterno. As oscilações do dólar, que deixa no ar sua impossibilidade de continuar sendo, por mais tempo, a moeda equivalente universal nas relações de trocas internacionais, levou Tio Sam a moderar seu discurso de dominação internacional. A economia de guerra, que puxou o poderio imperial americano, depois da segunda guerra mundial, mediante o super-dólar, esgotou suas possibilidades de ampliação ad infinitum, em face da impossibilidade do tesouro americano continuar se endividando, na escala em que se deu logo depois da bancarrota financeira, em outubro do ano passado.
Baleado financeiramente, o governo Obama põe fim ao ímpeto armamentista. Com isso, flexibilizou posição radicalizada do seu principal adversário , ao longo do século 20, a Rússia, condescendente com as políticas armamentistas dos países do golfo pérsico, para se defenderem de Israel, armado pelos EUA, como são os casos do Irã, determinado a alcançar a bomba atômica, e da Coréia do Norte, que, depois que detonou armas nucleares, passou a merecer mais respeito do império americano.
A política de paz e segurança, anunciada por Obama, acompanha, por sua vez, a proposta global de política de meio ambiente, voltada para redução de 25% das emissões de carbono sobre o limite alcançado em 1990, sob pena de levar o mundo ao desequilíbrio ecológico. O fim ou o princípio do fim da economia de guerra , bem com a bancarrota econômic a global , decorrente, por sua vez, do colapso econômico guerreiro desestabilzador da sustentabilidade ambiental, contribuem, paulatinamente, por sua vez, de forma decisiva, para um novo olhar da humanidade sobre seu próprio comportamento.
O individualismo e o super-consumismo, que levaram a economia ou foram levados por ela, para o buraco, na busca do lucro, abrem-se a um novo paradigma. A era do não-consumismo, do aumento da poupança, já que as famílias, nos países ricos, estão endividadas em excesso, contribui, fortemente, para aliviar a pressão sobre a terra, que estava sendo sucateada pelo lucro a qualquer custo. Nesse sentido, a estrutura produtiva e ocupacional, espalhada, globalmente, para consumir os insumos naturais, de forma irracional, tem que buscar outra alternativa, especialmente, no campo energético.
Daí os cientistas, economistas, políticos, sociólogos , antropólogos etc destacarem que a nova fronteira industrial se abre para as energias alternativas, sendo a principal delas a energia solar, que, no Brasil, tem grande futuro, com destaca o físico nacionalista Bautista Vidal, um dos criadores do Proálcool, na década de 1970. O governo americano promete, nos próximos dez anos, investir na mudança da base energética, justamente, no momento, em que as reservas petrolíferas brasileiras do pré-sal criam o ambiente de otimismo e de poder na Era Lula.
Novo poder econômico global

O G-8 foi, historicamente, ultrapassado na grande crise financeira global. Os países outrora ricos e todo-poderosos – Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Japão, Canadá, Itália e Rússia – continuam fortes, mas o seu clube deixou de ser representativo para dar as cartas no Fundo Monetário Internacional. Transformaram-se de poder absoluto em poder absolutamente relativo. A bancarrota financeira, que destruiu o sistema financeiro, tornando-o refém dos governos, sob pena de irem aos ares, fez emergir novos sócios, para ampliar novo poder, o G-20, no âmbito do qual se destacam, agora, a China, o Brasil, a Índia e a Rússia, que ficava como prima pobre do G-8, fazendo figuração.
Nesse final de semana, em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos, os novos líderes mundiais vão se sentar para debater pauta imensa, mas cujo tema central é o de colocar freio e regulamentação no sistema financeiro internacional. O laxismo excessivo dos países ricos, relativamente ao comportamento dos bancos, representou a causa principal da desestruturação econômica global.
O capital sobreacumulado, que, sob capitalismo, encontrara seus limites na produção e no consumo, havia passado das medidas, para continuar a sobreacumulação, graças à condescendência dos governos dos países ricos, permitindo a especulação desenfreada e irracional. Agiram irresponsavelmente. Agora, são obrigados a abrirem espaço, nas instituições que criaram, como o FMI e Banco Mundial, porque seu poder financeiro esgotou-se na era especulativa. São obrigados a darem passagem aos emergentes. Brasil, Índia, China e Rússia, detentores de novo poder financeiro, também, darão as cartas, sendo a principal delas a reivindicação de mandarem mais no FMI, em termos proporcionais, na medida em que os mais ricos passem a mandar, proporcionalmente, menos.
Vai dar certo? Se continuar o status quo vigente até antes da crise, a receita é novo fracasso, pois os bancos estão quebrados. Se houver abertura nova para os emergentes, a correlação de forças obrigará aos países ricos a se submeterem às mesmas orientações que antes recomendavam aos países pobres, mas que para si mesmos não valiam, visto que não as cumpriam. Os Estados Unidos aceitarão o FMI, sob coordenação do G-8, ditar a eles políticas fiscais contracionistas, como recomendavam ao Brasil e emergentes, em geral, nos anos de 1980, sob coordenação do Consenso de Washington?
A ONU, nesse sentido, passa a ser o alvo de todos, para, no âmbito dela, ser possível alcançar o consenso. A realização consensual de novas estratégias, por sua vez, representaria sinalização de que o unilateralismo dos ricos dá lugar ao multilateralismo, que antes era rechaçado.
O século 21 vai adquirindo seu perfil característico, decorrente da inevitável integração global multilateral, que se configura intermédio de ensaio geral de governo mundial, especialmente, se a moeda americana continuar se desvalorizando, colocando os países predispostos a uma política protecionista suicida.











Faces do golpismo
Há duas atitudes aparentemente distintas perante o golpe de Estado hondurenho.
Uma destila o tradicional veneno antidemocrático, de retórica agressiva e valores distorcidos. Encontramo-la no udenismo renovado que aflorou no vácuo moral das classes médias urbanas. Para a vertente, Zelaya caiu porque mereceu, porque o “chavismo” deve ser combatido a porrete.
A outra face, enganadoramente inofensiva, escuda-se na apatia manhosa do pior provincianismo. Prefere a omissão do colonizado jeca, escancarando a banguela, tirando o chapéu para o painho estadunidense. Tem vergonha de ser brasileiro e defende que o país ocupe seu lugar na latrina do mundo subalterno. Convenientemente ignóbil, não “consegue” perceber que as próximas eleições hondurenhas vão justamente sacramentar o golpe, tornando-o irreversível e impune.
Ambas as posturas são complementares e indissociáveis. Mescladas nas diversas gradações combinatórias possíveis, constituem o estofo ideológico de todo movimento golpista: sempre há uma vanguarda atuante, apoiada na massa de manobra servil, que lhe garante a ilusão da legitimidade.
É importante entender esse mecanismo em funcionamento durante episódios externos e distantes, para reconhecê-lo quando operar em nosso próprio ambiente.