29 set
2009Lula vira heroi latino-americano
Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 29-09-2009


A partidarização da grande mídia que está batendo a cabeça na parede ao insistir que o Brasil deixou Zelaya transformar a embaixada brasileira em Tegucigalpa em palanque dele, para atacar Micheletti, como se estivesse fazendo algo estrategicamente construído, não deixa ela ver o óbvio: o presidente Lula, pela primeira vez na história, se transforma em um presidente brasileiro popular em lingua espanhola. O povo de Honduras transformou o titular do Planalto em seu novo libertador, num José Marti, num Bolívar. Vão às ruas para saldar o herói, que, de fora para dentro, abriu guerra contra o governo golpista de Micheletti. Lula está como em seus grandes dias de opositor ao regime militar brasileiro. Ataca sem dó. Prega, sem dizer, o seu exemplo, ou seja, o de quem liderou a criação de um partido dos trabalhadores contra os ditadores. Micheletti não suportou a carga. Pediu água, na noite de segunda. Chamou Lula de irmão. Garantiu que jamais permitiria invasão do território brasileiro sagrado em território hondurenho. Mandou um abraço ao companheiro. Tentou , dessa forma, desesperadamente, evitar o que já está em marcha, a palavra de Lula, somada à de Zelaya, para pedir democracia em Honduras, mediante desobediência civil. Receita de revolução popular.
Contradição em Eldorado

Caso único na história das Américas, eis o que configura a ação de Lula, isto é, um presidente de país democrático que toma a peito a causa da democracia violada em país outro, assumindo as circunstâncias históricas, construídas ou consumadas, em que a neutralidade seria considerada covardia. Tipo Napoleão. Segue, indiscutivelmente, a desconfiança de que o governo brasileiro não estaria de todo inocente com a chegada de Zelaya, que teve o apoio incondicional de Chavez. Fica para a história essa controvérsia. A dinâmica dos fatos, o que é importante, ganhou velocidade que deixa para trás a questão de se saber como foi arranjada ou consumada a situação. Fica menor esse aspecto da questão, a partir de onde – Venezuela? Brasil? Argentina? – teria sido construída a saída de Zelaya da Venezuela(ou da Colômbia?) e a chegada dele na embaixada brasileira, em Tegucigalpa. Se fosse nos tempos da Atlântida, Oscarito e Grande Otelo protagonizariam chanchada latino-americana. Os fatos se rendem às versões e as versões protagonizam fatos que transformam o presidente brasileiro ídolo popular em Honduras e em toda a América Central e do Sul, dada sua resistência, pelo discurso radical, contra o presidente interino ditatorial Michelleti. Aplica Lula o método do discurso metalúrgico, de mobilização popular, não para conquistar maiores salários, mas para derrubar governo. Tremenda saraivada de socos que estão sobrando para a oposição brasileira que entrou numa, como sempre, de louvar o acessório e esquecer o principal. A democracia, para a oposição, estaria em segundo plano, ou sob suspeita. Primeiro, Zelaya, para a oposição, não é democrata. Tentou terceiro mandato, alcançado, democraticamente, na Venezuela, Colômbia, Equador e Bolívia, porque iria colocar o assunto para consulta popular em referendo.
Falsidade democrática

A oposição joga contra a história. Na segunda, o consagrado jurista brasileiro, Fábio Konder Comparato, comprovou isso. Deu uma aula magna, curta e grossa, de direito popular na Comissão de Constituição e Justiça, no Senado, enfocando a democracia direta, participativa, democrática, que Zelaya tenta implementar em Honduras. Demonstrou, claramente, a inexistência da democracia efetiva no Legislativo brasileiro, que atrasa, consideravelmente, a regulamentação da disposição constitucional favorável ao plebiscito e referendo no Brasil, atribuindo tal posição reacionária à resistência das carcomidas elites brasileiras à participação do povo nas grandes decisões. Talvez por isso os Michelettis brasileiros, nesse instante, reagem como o companheiro golpista de Honduras. Comparato relatou os fatos que começam desde o descobrimento em 1500. Evidenciou panorama, mais claramente, depois da Independência, em 1822, seguindo a República, 1889, o golpe getulista de 1930, a “revolução” de 1964 etc, para chegar ao Congresso de hoje prisioneiro do pensamento colonialista. Segue este ancorado na subordinação ao capitalismo cêntrico, comportando-se como periferias capitalistas depe ndentes da poupança externa, vigiada por essas elites em forma de política econômica super-consevadora, comandadas pelos enviados dos banqueiros internacionais, como é o caso de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. Zelaya tentou, em Honduras , romper o cerco das elites. Lula jogou todas as suas fichas com ele, na resistência. Desestabilizou Micheletti, que parecia invulnerável. Fará o mesmo no Brasil, de agora em diante, como novo libertador sul-americano?
Desmoralização da OEA

O titular do Planalto pesou muito mais do que a OEA na consideração política da turma golpista de Micheletti. Desmoralizada, historicamente, a OEA não conseguiu nem entrar no país, pelo menos por enquanto. Sempre alinhada às posições dos Estados Unidos, que tratam a América do Sul e a América Central como quintais norte-americanos, cuja receita política é o porrete e a corrupção, a OEA desmoralizou-se perante todos os países das Américas, excluindo os Estados Unidos, desde que apoiou o bloqueio a Cuba, em 1962. De lá para cá é só vergonha, jogando com as ditaduras. O papel de Obama está em teste. Se não romper o bloqueio a Cuba não terá crebilidade entre os latino-americanos. Perderá espaço para o novo libertador de Honduras, Lula, se é que as coisas se aprofundem em buraqueira revolucionária sem fim. Esse é o lance. Lula tentou , inicialmente, a ONU, pedindo intervenção. Os casos políticos resolvidos pela ONU são controversos, pois o peso dos votos para que sua decisão aconteça depende, majoritamente, dos Estados Unidos e da Europa. Agem juntos nas questões estratégicas. Haja visto o bombardeio aéreo de um avião militar inglês sobre um barco colombiano de traficantes, nessa segunda feira, a pedido da base militar americana na Colômbia. Ou seja, os irmãos do norte agem conjugamente no plano militar. Assim foi, também, na guerra das Malvinhas. E será da mesma forma relativamente a outros conflitos que pintarem. Ou não? Lula detonou o espaço politicamente apodrecido da OEA, expondo, demasiadamente, a perda de poder dos Estados Unidos, no organismo. A embaixadora dos Estados Unidos, Rice, na ONU, boicotou a proposta política de Lula de interferência do organismo em nome da paz em Honduras. Não se sabe até quando, certamente, até tudo ir para os ares. Diante da impossibilidade de alcançar uma força independente politicamente para equacionar o aprofundamento das contradições, Lula não foi na conversa da ONU contemporizadora sob voz americana e da seguidora dela, isto é, a oposição brasileira, acompanhada, agora, de Sarney-Serra, críticos da presença de Zelaya na embaixada. Ao contrário, meteu o pé no acelerador contra os ditadores hondurenhos. Micheletti arriou, e, com ele, a diplomacia americana, na qual sequer o próprio Micheletti aceitou ao não deixar ninguém da OEA entrar até a semana passada.
Guerra diplomática

E o povo saudou Lula nas ruas de Tegucigalpa. Lula deu o troco à embaixadora dos EUA na ONU. Com seu discurso radicalizado, passou por cima dela. Evidentemente, levantou a ira americana, na medida em que criou nova correlação de forças dentro de Honduras que prejudica os interesses americanos no país, expressos no apoio que Washington dá às elites locais, cujo perfil é Micheletti. Engrandeceu-se Lula como líder político sul-americano. Virou mais um problema ou uma solução para Obama, na sua relação com a América do Sul, cheia de petróleo e riquezas a atrair os investidores do mundo rico em escala empobrecedora na crise mundial? Chavez deve estar vibrando, por ver Lula mais radical, mais bolivariano, mas, igualmente, pode estar com ciúmes. Lula ultrapassa ele como líder latino-americano. A diplomacia americana está dividida. Hilary Clinton, a secretária de Estado, inicialmente, aplaudiu o jogo brasileiro e fechou com Lula. Ontem, porém, o embaixador americano, na falida OEA, Lewis Ameselen, distribuiu insinuações fortes. Atacou os que teriam organizado a entrada de Zelaya, de forma irresponsável, na embaixada brasileira. Abriu guerra diplomática. O chanceler Celso Amorim desconheceu o embaixador e falou direto com Clinton, sem que se saiba, até o momento, o teor desse papo diplomático super-quente, mas teria dito que o Brasil não aceita insinuações, já que a posição brasileira é a de que age diante de fato consumado e não de fato arranjado. Enquanto isso, Lula mostrou não estar nem aí. Contratacou. Micheletti percebeu que Lula se transformou no maior inimigo político não de Honduras mas dele, ditador, do seu partido, o PL, que disputará o poder, se as eleições não forem suspensas sob estado de sítio em 29 de novembro. Como deseja que o PL, ao qual pertence, também, Zelaya, chegue forte nas eleições, como polarizaria o ditador com chances de vitória com o adversário mais poderoso dentro de Honduras, na atualiade, ou seja, o presidente Lula? Está nas cordas. Lula fortalece o discurso fidelista de Zelaya de botar para quebrar, convocando o povo à desobediên cia civil. Cria ambiente ambiente revolucionário em Honduras, ao levantar bandeira libertadora, vestindo representação de José Marti, de Bolívar, de Tiradentes etc.



Eike Batista, de grande visão empresarial, não deixa a peteca cair. Está de braços dados com os chineses, como acontece com outros grandes empresários sul-americanos, na Argentina, Chile, Venezuela, México, Bolivia etc. Trata-se de onda irresistível de atração de capitais. Estes pegarão o Banco do Sul como veículo a ser o pioneiro na configuração e operação de grandes aplicações financeiras no continente, voltando-se para a sua concretização econômica no território sul-americano, onde tudo está por fazer. Os aplicadores internacionais já estão de olho no Banco do Sul. Os 20 bilhões de dólares iniciais poderão alavancar empréstimos de 200 bilhões, numa primeira etapa.





Dedico este artigo ao arguto jornalista Marco Antônio Pontes que disse, no Jornal da Comunidade, coluna Comunicação & Problemas, não haver saída outra para Zelaya senão rasgar a fantasia e ir em busca da verdadeira essencia social, o povo, como aconteceu com Fidel, Ortega etc. Nada como um grande pauteiro para conduzir os repórteres em busca de ângulos novos por conta dos desdobramentos dos fatos. É a arte dos mestres de acompanhar, criticamente, a expansão dos acontecimentos, enfim, do universo, como destacam os físicos visionários.






