09 ago
2009China-EUA aplicam golpe do dólar podre para apossarem do petróleo sul-americano
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca. Sebastiao Gomes em 09-08-2009
Dois meses depois de o governo da China abrir negociações com o presidente Lula para que o capital chinês participe da exploração do petróleo na bacia do pré-sal, o governo americano entra em cena, com o mesmo objetivo, por intermédio do general James Jones, assessor de segurança nacional do presidente Barack Obama. Ele declarou ao repórter William Waack , no Jornal da Globo, que o governo americano está interessado em realizar parceria estratégica com o Brasil para preservar os interesses dos Estados Unidos relativamente ao abastecimento de energia. Considerou a possibilidade de modernização das forças armadas brasileiras pela indústria bélica e espacial americana em troca do petróleo, tal a necessidade dos Estados Unidos em assegurar oferta de óleo futura, de modo a tentar continuar bancando a dinâmica da acumulação capitalista, pelo maior PIB do mundo, locomotiva global, no momento abalada pela crise financeira. Na semana passada, empresários americanos chegaram ao Brasil, declarando que o governo americano se dispõe a financiá-los para participarem da exploração do pré-sal. O jogo é claro. É o petróleo, estúpido. Os ingênuos que fiquem com o argumento de que o essencial é o combate às Farcs narcotraficantes, já derrotadas militarmente, como motivação para instalação de sete novas bases militares norte-americanas no território sul-americano, riquíssimo em petróleo, usando a Colômbia como cabeça de ponte, posicionando-se estrategicamente entre os dois países maiores produtores, Venezuela, de um lado, e Brasil, de outro. É ou deveria ser o papo principal da Unasul, nessa segunda feira, em Quito, Equador.
China e Estados Unidos, portanto, entraram em disputa pelo petróleo brasileiro. A geopolítica petrolífera global coloca o Brasil como palco de novo embate internacional, com tendências à militarização, pelo domínio das fontes de energia. O óleo brasileiro representaria , para os Estados Unidos, dispondo dele, a garantia que deixou de ter no Oriente Médio, depois que saiu do Iraque, com suas tropas, deslocando-as, uma parte para o Afeganistão, outra para os Estados Unidos. Pode ser que os soldados se destinem à América do Sul, onde as disputas pelo petróleo tendem a se acirrarem. As sete bases colombianas em instalação na Colômbia não seriam apenas destinadas a combater o narcotráfico, mas, igualmente, a marcar a presença dos Estados Unidos em região petroloífera.
Nem China nem Estados Unidos dispõem de petróleo na escala necessária capaz de garantir suas demandas internas. Assegurar o abastecimento do produto, no momento em que a China se transforma em esperança do mundo, vanguarda científica e tecnológica, com farto mercado interno, dólares sobrando e preços competitivos, para sustentar a acumulação capitalista, que deixou de se realizar na especulação, virou questão crucial para os chineses. Da mesm a forma, para os Estados Unidos, afetados pela instabilidade da oferta de petróleo no Irã e no Iraque, dominados politicamente pelos xiitas mulçulmanos, o assunto é de vital importância.
O que, curiosamente, une Estados Unidos e China, no cenário global, embora estejam disputando as fontes de matérias primas, que são sempre as razões maiores das guerras, no território da América do Sul, é o fato de que são detentores de trilhões de dólares candidatos à desvalorização.
China e Estados Unidos, abarrotados de dólares, não interessam em conversar com outros atores da cena global sobre o destino do sistema monetário apodrecido pela crescente desvalorização da moeda americana, empoçada na crise financeira. Por isso, tanto os chineses, como os americanos, correm para a América do Sul, onde os ativos, as matérias primas, se transformaram em lastro seguro, diante do dólar que não tem garantia nenhuma. Evidencia-se novo cenário nas relações de troca em que matérias primas valorizam-se mais que os produtos manufaturados, que caem de preço na crise deflacionária. Apossar das fontes de matérias primas, portanto, é assegurar a taxa de lucro constante para acumulação do capital.
O dólar virou moeda quente que foge para o Brasil, valorizando o real e destruindo o parque industrial, enquanto amplia o mercado para importações, destruindo empregos e gerando tensões sociais. Avança, com a sobrevalorização do real, o golpe do dólar podre.
A disputa entre Estados Unidos e China pelo pré-sal brasileiro sinalizaria antagonismos instransponíveis ou ensaio geral de bilateralismo das duas maioes potências econômicas atuais? Com os dólares em profusão entrando no Brasil e na América do Sul, continuariam dominando o fluxo do dinheiro e das mercadorias por meio de arranjos cambiais articulados na escala Washington-Pequim?
O dólar exercitou senhoriagem depois da segunda guerra até agora, quando a crise de 2008 o desbancou. Rompeu-se o status quo do pós-guerra que determinou divisão internacional do trabalho sob comando da moeda americana. A bancarrota financeira , transformando o dólar em moeda quente, ameaça as demais moedas. Os chineses, que ficaram poderosos, estão cheios de dólares em processo de desvalorização. Não lhes interessaria a bancarrota dolarizada, antes que desfizessem do abacaxi.
Compram com esse ativo bichado ativos valorizados na América do Sul, antes que perca valor. Tentam fugir do insolúvel impasse representado pelos derivativos referenciados em dólar em torno de 600 trilhões, segundo o BIS, responsáveis por interromper o crédito global e, sobretudo, acelerar a desvalorização da moeda americana. Trocar essa moeda podre por petróleo do pré-sal, no Brasil, e da bacia do Orinoco, na Venezuela, vira objetivo central para China e Estados Unidos.
Novo Saddam na América do Sul

A agressiva disputa China-Estados Unidos pela bacia do pré-sal, configurando novo status quo do Brasil e da América do Sul na geopolítica do poder mundial implica em divisão sul-americana, especialmente, no momento em que sete novas bases militares americanas são instaladas na Colômbia, a pretexto de combater o narcotráfico. Simultaneamente , as investidas militaristas no continente são executadas pelas manobras da Quarta Frota Naval norte-americana, que monitora os mares do Atlântico Sul. Trata-se de algo que ocorre pela primeira vez depois da segunda guerra mundial. A pressão do general James Jones em favor da troca de modernização da indústria bélica e espacial brasileira por petróleo insere-se no novo contexto mundial. Na prática, é troca de mercadoria que se desvaloriza, armas, por mercadoria que se valoriza, petróleo.
Tal intensificação guerreira teria como causa uma aparência, o combate ao narcotráfico, ou uma essência, o petróleo?
Poderia falar mais alto a preocupação americana em garantir o abastecimento de energia, ameaçado pela derrota dos Estados Unidos no Iraque e a crescente resistência do Irã à política americana no Oriente Médio, contestada com ato prático expresso na aproximação iraniana com a Rússia e a China, aqui em dissenso com os americanos. A semelhança do que ocorre na América do Sul com o que rola na Georgia, cheia de petróleo, armada pelos Estados Unidos, ameaçando o leste europeu, não seria mera coincidência, sabendo que o que está por trás é o mesmo problema, ou seja, o petróleo.
Saddam Hussein pode encarnar-se na América do Sul. Para defenestrar Saddam, executado na forca pelo governo iraquiano obediente às ordens da Casa Branca, o governo W. Bush inventou a história da produção de armas nucleares. W. Bush, no final do governo, às vésperas da violenta crise mundial, completamente, desmoralizado, reconheceu que participou de uma farsa. A armação mentirosa serviu para justificar a guerra pelo interesse maior americano, no Oriente Médio, o petróleo.
Mutatis mutantis, descobre-se, agora, que a queda do presidente Manuel Zelaya, de Honduras, foi ocasionada pelas descobertas de petróleo em território hondurenho e pela disposição do presidente deposto de inserir na Constituição garantia nacionalista contra investidas das multinacionais contra o ouro negro.
Zelaya se dispôs a participar da aliança dos países do Caribe, em torno da Petrocaribe, favorável à defesa nacionalista das reservas petrolíferas na poderosa Bacia do Orinoco, na Venezuela. No interior do bloco, a voz do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, responsável pelo abastecimento de 15% do petróleo consumido pelos americanos, predomina em favor das teses nacionalistas bolivarianas.
A irritação contida do general James Jones relativamente a Hugo Chavez se expressou ao declarar ser o titular da Venezuela fonte de preocupação ao processo democrático, quando a fonte da instabilidade democrática ocorre, na América Latina, justamente, por conta da posição ambígua dos próprios Estados Unidos no golpe de Estado em Honduras, tendo por trás o petróleo como justificava oculta e latente. As palavras, como disse Freud, servem para esconder o pensamento. Tentam criar novo Saddam para defenestrá-lo, para facilitar o abastecimento de petróleo.
As bases americanas na Colômbia podem, sim, ter o petróleo por motivação, como ocorreu no Iraque. O petróleo iraquiano representou a causa principal da invasão por meio de mentira forjada e reconhecida. Se o general James Jones , enviado por Obama propõe trocar petróleo por armas, evidencia o inconsciente de Tio Sam relativamente à necessidade de que prevaleça prevenção militar quanto o assunto é petróleo.
As forças armadas brasileiras, que têm sofrido escassez continuada de recursos, para se modernizar, poderiam, conforme evidenciaram os argumentos do general americano, superar as carências financeiras, de vez, trocando, por exemplo, petróleo brasileiro por navios, tanques de guerras, metralhadores, aviões de caça etc etc fabricados nos Estados Unidos. Canto de sereia.
Não haveria mais, para as forças armadas brasileiras, problema de dinheiro. Representaria saída do sufoco financeiro no instante em que 47% do orçamento delas estão contingenciados para fazer superavit primário afim de pagar juros da dívida pública interna. As restrições financeiras seriam superadas, caso seguissem a sereia Jones.












Nesse ambiente, uma versão de Barack Obama, na América do Sul, como seria o caso de Marina Silva, mulher e negra, de origens humildes, com prestígio popular, nacional e internacional, rivalizando, nesse aspecto, com o presidente Lula, mexeria com os nervos gerais no processo eleitoral.
O “Canto do Uirapuru”, pássaro conhecido da Amazônia, apelido de Marina dado pelo falecido senador Lauro Campos, pode empolgar, especialmente, em meio à lama antiética que percorre as bases políticas da coalizão governamental no episódio do Senado.
Favoreceria Marina Silva, indo para o PV , sua situação de dissidente petista , para manter equidistância entre os governistas e oposicionistas, mergulhados na crise ética do Senado, colocando-se, assim, em posição singular, como ocorreu relativamente a Fernando Collor, em 1989, quando, com discurso moralista ergueu-se , sozinho, na base do marketing, para deslocar as forças políticas tradicionais. Da pequena Alagoas, escalou até o Planalto.





Um passo concreto para começar a inverter este desequilíbrio que tem como efeito submeter a sociedade brasileira a uma comunicação embrutecedora, sensacionalista e deseducativa, foi a criação da TV Brasil, por meio da constituição da Empresa Brasil de Comunicação, de posse do estado brasileiro. Sabemos como é complexa a constituição de uma emissora de televisão, a superação de sua herança de jornalismo oficialista-bajulativo - o que já vinha sendo processado pelas gestões recentes da ex-Radiobrás – mas também a resistência às pressões de fato e de direito para realizar outra concepção de comunicação. Tão complexo é isto que a própria Folha se vê às voltas com queda vertiginosa de suas tiragens, jornais como a Gazeta Mercantil e a Tribuna da Imprensa fecharam as portas, fenômeno que também ocorre nos Eua e na Europa hoje, tendo o legendário jornal “Le Monde” também confessado recentemente estar em meio à vigorosa crise.
Neste contexto, vai ficando sempre mais claro o papel desempenhado pela Folha. A TV Brasil deveria tomar-se em brios, aproveitando esta estapafúrdia recomendação do concorrente para não apenas seguir avançando naquilo que tem acertado com uma grade de programação humanista, educativa, respeitadora da diversidade cultural e histórica brasileira, sem concessões à imposição da ditadura publicitária cervejeira ou medicamentosa que domina a mídia privada. Deve também perceber o complexo quadro que está sendo formado, de hostilidades declaradas, ainda mais porque a mídia privada tem o eterno e petulante sonho de não ter que dividir recursos públicos com uma empresa de comunicação do campo público. A mídia privada fala nos benefícios da concorrência, mas quer mesmo é monopolizar as verbas públicas para a comunicação social. Não quer concorrência, nem da TV Brasil. Esta também foi a razão da campanha da mídia comercial quando do surgimento da TV Senado , da TV Câmara: a mídia privada não admite a idéia da comunicação pública escapando ao seu controle e quer o monopólio sobre a cobertura dos assuntos do Congresso, agora dificultado pela transparência e pela diversidade editorial que a comunicação legislativa oferece ao público, com uma possibilidade de audiência crescente, enquanto a tiragem da Folha vai em direção oposta. Se tivéssemos dado ouvidos à mídia privada na época hoje não existiriam as tvs legislativas. Se tivéssemos dado ouvidos ao Estadão em 1953, hoje também a Petrobrás nem existiria…..
A TV Brasil tem sim uma função a cumprir, tem cumprido parcialmente o papel previsto na Constituição para a tv e está superando vários obstáculos que a impedem fazer isto com plenitude. É, por exemplo, a única emissora que tem programas que discutem a própria mídia como o “Ver TV” e o “Observatório da Imprensa”. Tem espaço cativo só para o samba, este gênero peregrino da alma brasileira, escasseado na tv privada. Tem um correspondente na África. Há pontos positivos, mas falta ainda falta caminhar.
Enquanto Lula defende publicamente as posições de Zelaya e telefona ao presidente legítimo no momento em que ele tentava transpor a pé a fronteira, o jornalismo da TV Brasil ainda afirmava editorialmente, sem citar fontes, que Zelaya foi deposto por pretendia perpetuar-se no poder por meio de reeleição indefinida - item que não do texto da constava da Consulta Popular que seria submetida aos hondurenhos - exatamente o argumento usado pelos golpistas para tentar dar um caráter “jurídico” ao golpe militar que já ceifou várias vidas e tem isolamento internacional.
Para a Folha, autora do editorial, fica a recomendação para indagar-se por que depois de tantas décadas de existência, quando teve apoio e apoiou os governos da ditadura e as campanhas que tanto prejudicaram os interesses nacionais, fundamentalmente as da privatização do patrimônio público, estaria agora perdendo leitores?

