Obama feminina na América do Sul

Marina Silva, popular, no Brasil e no exterior, voz autorizada em favor do desenvolvimento econômico sustentável, reivindicação geral da humanidade sob capitalismo ambientalmente suicida, coloca pimenta na sucessão e vira tudo de cabeça para baixo, dificultando os planos do presidente Lula para eleger Dilma Rousseff

A desmoralização ética do governo,  da coalizão governamental e, igualmente, da oposição, no Congresso, pode viabilizar fatos políticos  novos no cenário nacional, com projeção decisiva na sucessão presidencial,  que ofuscariam as candidaturas tanto oposicionista como governista, caso seja lançada candidata à presidência da República a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, de malas em arumação para  transferir-se ao Partido Verde.

A candidata do PT, escolhida, imperialmente, pelo presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, teria tudo a perder. Igualmente, os candidatos da oposição, por enquanto cotados, os governadores tucanos, Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra, de São Paulo, da mesma forma, sofreriam duros revezes. Uma revoada de geral de expectativas jogou farinha no ventilador suc essório, exatamente, no instante, em que os políticos conservadores , do governo e da oposição, se mesclam no pior ambiente antiético da história política brasileira, demonstrando total fadiga de material.

O primeiro negro presidente dos Estados Unidos abriu as portas para que o fenômeno político ocorra em outros quadrantes do globo, com variações de gênero, podendo, portanto, muito bem, repetir-se no Brasil na figura da mulher brasileira de origem humilde, negra e potenteNesse ambiente, uma versão de Barack Obama, na América do Sul, como seria o caso de Marina Silva, mulher e negra, de origens humildes, com prestígio popular, nacional e internacional, rivalizando, nesse aspecto, com o presidente Lula, mexeria com os nervos gerais no processo eleitoral.

No mínimo, o PT, com a disposição marinista de sair nas cabeças , levantando a bandeira do meio ambiente, do desenvolvimento econômico sustentável, que lhe deu prestígio popular mundial,  sendo agraciada pelos principais fóruns do mundo, terá , de agora em diante, de até, mesmo, pensar em pregar prévias partidárias. Por que não?

O presidente Lula lançou Dilma sem consultar ninguém, autoritariamente, como se o partido tivesse que obedecer a sua ordem unida, como ocorre nos quartéis. Dilma, nesse sentido, é um repeteco de Figueiredo escolhido por Geisel, em plena ditadura militar. Sem jamais ter disputado uma eleição, sem empatia popular, ergueu-se pela mão do chefe e se sustenta numa hipótese em construção – o PAC, que, na crise de desaceleração econômica, vive mais de propaganda do que de realidade, conforme destacam os números apresentados pelo próprio governo.

Marina Silva, indicutivelmente, é o maior nome popular petista da atualidade, mulher e negra, com grandes chances  de renovar o ambiente político, como aconteceu com Obama, nos Estados Unidos, traduzindo-se em novidade surpreendente e irresistível. A diferença seria o fato de que Obama foi candidato pelo Partido Democrata e não por uma dissidência dele, fincado, pois, em sólida base político-partidária-história, nos Estados Unidos, onde o conservadorismo, em relação aos partidos, é amplamente dominante. Já no Brasil, onde os partidos são meros cabides, nos quais os políticos dependuram seus paletós, saindo ou entrando neles, de acordo com suas conveniências, por serem destituídos de organicidade e autenticidade popular, o fenômeno teria outro coloridado.

Ganharia dimensão extraordinária a candidatura de Marina, sobretudo, se ela condicionar sua continuidade no PT, sob pressão intensa dos líderes, à realização de prévias eleitorais dentro do partido, como alternativa para escolher entre os petistas e os ambientalistas do PV. Tenderia a virar a mesa no status quo petista.

 

Canto do Uirapuru ameaça Dilma

 

Imperialmente, Lula tenta emplacar candidata Dilma Rousseff sem carisma popular e considerada pessoa de dificil trato fora das luzes dos refletores, para estabelecer ampla ligação com o povo. Marina joga ela no chão, no confronto dentro do partido, se este partir para as previas

Marina poderia repetir o gesto do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que cresceu, dentro do PSDB, ao exigir a realização de prévias entre os tucanos, para a escolha do candidato partidário. Depois que agiu nesse sentido, criou fato político relevante no tucanato e já se pode perceber, pela sua ação política proativa, as tendências dentro do partido, demonstrando que a escolha do governador de São Paulo, José Serra, não é favas contadas dentro do PSDB. Serra, que, inicialmente, resistia à consulta, rendeu-se.

O mesmo, evidentemente, poderia ocorrer dentro do PT, caso Marina coloque as mangas de fora, sendo potencial candidata. O seu cacife é o andar das pesquisas, como revelou no jornal Valor Econômico, Mauro Zanata e Rosângela Bittar, dando conta de que a ex-ministra, de acordo com consulta realizada pelo sociólogo e cientista político Antônio Lavareda, do Ipespe, tenderia a ser páreo duríssimo para qualquer adversário.

Em cenário com três candidatos/as – Marina Silva, Dilma Rousseff e José Serra -, a primeira teria 24%, a segunda, 16% e o terceiro 37%. Iriam para o segundo turno, se a eleição fosse hoje, não a candidata do presidente, mas aquela que ele fez tudo para que pedisse demissão do ministério no qual angariou prestígio global sob sua direção, Marina Silva. Teria sido arrancada do seu posto, sob pressão da própria ministra Dilma Rousseff, para que não lhe fizesse sombra, algum dia. Mas, os fatos mudam.

Lauro Campos, em discurso no plenário do Senado, destacou que Marina, como defensora do meio ambiente, angariando prestigio mundial, representa o Canto do Uirapuru da Amazônia contra a força dos poderosos interessados em destruir as matas em nome da lucratividade do capital a qualquer custoO “Canto do Uirapuru”, pássaro conhecido da Amazônia,  apelido de Marina dado pelo falecido senador Lauro Campos, pode empolgar, especialmente, em meio à lama antiética que percorre as bases políticas da coalizão governamental no episódio do Senado.

Uma prévia, entre os petistas, que custaram a engolir a escolha ditatorial de Lula, poderia levantar surpresas. Caso ocorresse resistência deles à consulta democrática, para não contrariar o ditador do PT, ficaria explícita para a opinião pública a característica anti-democrática partidária, da qual os tucanos, depois de pressões de Aécio Neves, buscam se livrar.

Se os tucanos forem às prévias e se Marina Silva, para não sair do PT, exigir que sejam escolhidos os candidatos-candidatas petistas dentro da ordem democrático-partidária, como ocorre, por exemplo, na eleição liberal americana, haveria novo avanço político-eleitoral no país, eletrizando o ambiente.

O presidente Lula, naturalmente, nesse contexto, caso haja reação marinista nas urnas petistas, sob impulso popular, já que as prévias mobilizariam os eleitores em todo o território nacional, tenderia, para não ser taxado de anti-democrata, que rever sua postura.

A posição de Dilma Rousseff estaria sob contestação como candidata única, a não ser que as próximas pesquisas apontem avanço espetacular dela que ascendesse à casa dos 30%. Caso as forças petistas enfrentem a onda favorável às prévias dentro do PT, mediante discurso em favor dessa tese eventualmente defendida por Marina Silva, a ex-ministra teria carradas de razão para abandonar o barco petista e ir para o PV, com grandes chances de chegar ao segundo turno, seja contra candidato da oposição, seja contra do presidente escolhida, até agora, de forma imperial.

 

Golias contra David

 

Aécio brigou pelas prévias e subiu no conceito popular. O fenomeno poderá ocorrer dentro do PT, conferindo novo conteúdo político no cenário de desmoralização ética nacional

Marina Silva ganharia conteúdo político-popular em sua cruzada e tenderia a construir, sem dúvida, o perfil que ganhou, durante a campanha, nos Estados Unidos, o presidente eleito Barack Obama, configurando candidata forte a ser expressão, como mulher e negra, das categorias sociais marginalizadas. Tem mais chances de ser identificada nessa condição do que a ministra Dilma, que jamais enfrentou eleição. Sacudiria o país em todas as suas entranhas.

A posição da candidata eventual do PV, no cenário de deterioração moral do PT e dos seus aliados, no Congresso – os novos reis do Senado em meio à lama , os senadores Sarney, Collor e Renan – poderia ganhar corpo em face do nojo que a corrupção no Congresso está produzindo, a ponto de o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, destacar que a casa dos senadores virou uma Bolívia.

Trata-se, indiscutivelmente, de uma agressão inusitada de Mendes ao país de Evo Morales, que adotou o nacionalismo contra os ataques externos às riquezas bolivianas, que se valorizam, extraordinariamente, em meio à deflação mundial das manufaturas, sinalizando nova correlação global nos termos de troca, favoráveis aos países detentores de matérias primas.

Collor saiu de um partido minúsculo munido de um discurso marketeiro para detonar as lideranças políticas tradicionais, demonstrando que o inusitado pode acontecer, especialmente, no momento de desgaste político das lideranças políticas tradicionais, como ocorre atualmente no paísFavoreceria Marina Silva, indo para o PV , sua situação de dissidente petista , para manter equidistância entre os governistas e oposicionistas, mergulhados na crise ética do Senado, colocando-se, assim, em posição singular, como ocorreu relativamente a Fernando Collor, em 1989, quando, com discurso moralista ergueu-se , sozinho, na base do marketing, para deslocar as forças políticas tradicionais. Da pequena Alagoas, escalou até o Planalto.

Nem PMDB, nem PFL, hoje Democratas, nem PSDB, que , ainda , não existia conseguiram segurar o candidato collorido surgido no lombo do desconhecido PRN. Com a bandeira marqueteira do “Caçador de Marajás” venceu Golias sendo um pequeno Davi.

Visava Collor, na ocasião, com seu ataque aos marajás o então presidente José Sarney, que, hoje, virou aliado do ex-presidente collorido, defenestrado por corrupção, depois de pressão popular das ruas.

Para um bom marketeiro, a rememoração, em campanha eleitoral pela televisão, das trajetórias dos atuais aliados do presidente Lula, em meio ao descrédito do Legislativo, sob lideranças nepotistas suspeitas de corrupção, causaria grandes estragos, especialmente, no mundo da informação impactante em tempo real. Marina estaria livre para falar o que Dilma não pode: ressaltar os desvios éticos dos seus próprios aliados. O canto do Uirapuru entraria em cena com muita força.