Economia de guerra e guerra econômica ameaçam desintegrar América do Sul

China e EUA promovem economia de guerra na América do Sul

A dupla Estados Unidos-China(G-2), que tenta construir, em plena grande crise,  novo bilateralismo, para ficar equidistante do unilateralismo fracassado neoliberal  e do multilateralismo utópico socialista e, assim, dar as cartas no cenário da globalização pós-crise, começou a impingir fortes derrotas à estratégia de integração sul-americana. Pode desintegrar totalmente a América do Sul, ao patrocinar, de um lado, corrida armamentista; de outro, guerra comercial.

Chineses e americanos bombardeiam os sul-americanas com economia de guerra e guerra comercial no momento em que a União das Nações Sul-Americanas(Unasul) intensifica o processo de criação do Banco do Sul e da moeda sul-americana. Trata-se de tentativa histórica de integração econômica, política e social.

Ou seja, tudo o que Estados Unidos e China,  abarrotados de trilhões de dólares e títulos americanos em franca desvalorização, não desejariam que acontecesse. Fatos econômicos e políticos, por isso, se conjugam na escalada chinesa-americana, voltados ao enfraquecimento integracionista sul-americano.

Politicamente, a posição ambígua do governo Barack Obama em meio ao golpe de direita fascista em Honduras, desencadeou instabilidades que  acabaram se transformando em maiores pressões de Washington para instalar, agora, sem ambiguidades, novas bases militares na Colômbia.

O capitalismo guerreiro em crise, que está saindo desmoralizado do Iraque, depois de gastar lá mais de 1 trilhão de dólares, segundo o prêmio nobel de economista Josef Stiglitz, precisa dispor de novas argumentações guerreiras, para deslocar suas tropas às fronteiras de quem prega o socialismo, como é o caso do presidente da Venezuela, Hugo Chavez, influenciando meio mundo na América do Sul, com o discurso bolivariano.

Chavez, segundo denúncia do governo sueco, estaria deslocando armas que comprou dos fabricantes da Suécia para os guerrilheiros das FARCs colombianas. A motivação estaria aí para deslocar a economia de guerra para solo sul-americano. Pequenas guerras e tensões guerreiras, já disse o FMI, são necessárias para ativar a demanda efetiva global capitalista.

Economica e simultaneamente, por outro lado, os dólares americanos, disponíveis pela China, candidatos à desvalorização acelerada, entram na América do Sul, destruindo as políticas cambiais dos países sul-americanos,  ao valorizarem , excessivamente, suas moedas. Compram ativos e ações. Consequentemente, abrem espaços para às manufaturas chinesas.

De 2003 a 2008, o total importado pela América do Sul da China subiu 700%, de 6,5 bilhões de dólares para 54,6 bilhões de dólares, segundo reportagem de Eliane Oliveira e Gustavo Paul(Globo, 02.08).

Antes , a produção de manufaturas chinesas, fabricadas em grande parte por multinacionais americanas instaladas na China, mediante moeda desvalorizada, incentivos fiscais e juros baixos, realizava-se, amplamente, no consumo americano. Depois de outubro de 2008, os chineses tiveram que buscar outros mercados , para desovar estoques, porque, como disse o presidente americano Barack Obama, os Estados Unidos não têm mais condições de puxar a demanda efetiva global, graças aos elevados déficits.

A enxurrada de dólares desvalorizados faz o serviço da destruição, desarticulando as relações de troca na América do Sul, como demonstram as tensões entre Brasil e Argentina, sinalizando protecionismos anti-integracionistas.

A América do Sul, no plano político e econômico, assusta e empolga o G-2. Empolga, porque os chineses e americanos vêm os sul-americanos como oportunidade para desovarem dólares desvalorizados  acumulados na China e nos Estados Unidos; assusta, porque os Estados Unidos, baleados pelos deficits, que sinalizam hiperinflação, reagem, conservadoramente, ao avanço do discurso favorável à democracia participativa, impulsionada pela organização crescente dos movimentos sociais. Estes viraram demônio para os ouvidos da Casa Branca,  semelhante ao demônio dos produtores de petróleo árabes e russos que desejam negociar vendas do óleo com outras moedas que não o dólar.

Saddam Hussein foi defenestrado do poder no Iraque pelo governo W. Bush porque disse que venderia petróleo cotado não mais em dólar, mas em euro. Argumentava que estava importando inflação com as importações européias, cotadas em euro,em meio à desvalorização do dólar, que cota o preço do óleo.  Dançou.

O mesmo discurso toma conta da América do Sul, para alarme de Tio Sam.

A Unasul, que se reúne em 10.02, pretende priorizar a discussão da integração. Mas, a queda de Zelaya, a pressão sobre o presidente Álvaro Uribe, para liberar espaços para instalação de novas bases americanas no continente sul-americano, e a agressividade comercial chinesa, destinada a promover enxurrada de moeda americana na praça sul-americana, trocando-a por ativos mais valorizados, detonam tal possibilidade unionista na América do Sul.

Os americanos e chineses estão alcançando seu objetivo. Ponto para Washington e Pequim ou haverá redobramento de esforços sul-americanos para a união?

 

Independencia que incomoda

 

A economia de guerra americana e a guerra comercial chinesa ameaça a unidade sulamericana na construção dos instrumentos básicos para a construção da integração da América do Sul

Os governos americanos e chinês, em sua ação bilateral, não têm nenhum interesse na discussão da moeda sul-americana e do Banco do Sul, como coordenador geral das relações econômico-financeira das economias sul-americanas.

O fundamental , para ambos, é utilizar a massa de dólares cotada para ser desvalorizada. Com ela compra ativos candidatos à valorização, como são o potencial de matérias primas na América do Sul. Tal riqueza, com base industrial desenvolvida, como é o caso brasileiro, confere vantagem comparativa à moeda sul-americana relativamente ao dólar.

Que vantagem haveria em trocar moeda, que tem garantia, por moeda sem garantia?

Troca entre a moeda sul-americana, que tem lastro real, e o dólar, que não tem lastro nenhum, tenderia a inverter as relações de troca no cenário da crise global.

As manufaturas, tocadas por avanços científicos e tecnológicos, dependentes da oferta de matérias primas, são candidatas a perder valor, caindo de preço, no ambiente deflacionário, no contexto da grande crise.

Há, nesse cenário, clara valorização relativa do ativo real frente ao ativo irreal, fictício, que anima o capitalismo desde a segunda guerra mundial sob acordos de Bretton Woods, agora detonados na grande crise.

Em clima de integração, o assunto Banco do Sul e moeda sul-americana  teria grandes chances de avançar. Mas, com a derrubada ditatorial de Zelaya, contra a qual os Estados Unidos se comportam ambiguamente; com as instalações de novas bases militares americanas em território colombiano, onde os americanos descartam qualquer mal-entendido, para se mostrarem por  inteiro, como país imperialista;  e com a agressividade comercial guerreira da China, maior parceira dos Estados Unidos, o clima azeda completamente.

A corrida armamentista americana e a guerra comercial chinesa na América do Sul, tendo como âncora a desova de dólares bichados pelos derivativos dolarizados que, segundo o BIS – Banco de Compensações Internacionais – somam mais de 550 trilhões de dólares, totalmente, empoçados, bloqueando o crédito global, na escala necessária para promover a acumulação capitalista ampliada, provocam, irremediavelmente, divisão sul-americana, pelo menos por enquanto. 

Divididos(Álvaro Uribe cancelou sua presença na Unasul), os governantes sul-americanos, como tem, historicamente, acontecido, deixarão de priorizar o prioritário, a integração, para se perderem no acessório, estimulado por forças externas, contrarias à união.

O clima armamentista de guerra econômica se intensifica diante do avanço do debate , levado adiante pelos movimentos sociais, sobre a democracia participativa para superar a democracia meramente representativa cujos representantes, tipo Sarney, desmoralizado pela falta de ética, e tipo Michelete, de Honduras, igualmente, desmoralizado como lacaio da CIA, perderam utilidade, do ponto de vista social.

 

Pavor da democracia direta

 

A democracia participativa, direta, que avança na América do Sul, pela pregação socialista do presidente Hugo Chavez, que atraiu Manuel Zelaya, de Hondutras, representa estopim de fogo que leva os golpistas a tentarem voltar ao passado das ditaduras, para evitar a integração econômica, social e política americana, em construção com a c riação da Unasul

O presidente deposto Manuel Zelaya ensaiou democracia direta, por cima da democracia representativa, totalmente, controlada por Washington, há mais de cinquenta anos. Caiu. A instabilidade que o governo americano enxerga na democracia participativa, impulsionada pelos movimentos sociais, está por trás da derrubada do ex-presidente hondurenho e da decisão da Casa Branca de intensificar a corrida armamentista americana no continente sul-americano, no rastro da qual as mercadorias chineses provocam guerra comercial.

Seria essa a essência do G-2, no novo bilateralismo , para tentar barrar o avanço do G-14, G-20 etc, sinalizadores do multilateralismo, para substituir o fracassado unilateralismo neoliberal, que se sucumbiu na bancarrota financeira dos Estados Unidos e da Europa, espalhando destruição geral?

O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, faz o jogo de conveniência da Casa Branca. Os militares americanos teriam que ter seus orçamentos diminuidos com a volta para casa  das tropas do Iraque e de outras bases. Deslocando elas para a América do Sul, dispõem de argumentos capazes de evitar cortes no orçamento militar americano , indispensável à economia de guerra.

Nunca é demais repetir o recado de Keynes, em 1936, ao presidente americano Franklin Delano Roosevelt, como alternativa para tirar os Estados Unidos da crise de 1929:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”.

A economia de guerra americana e a guerra comercial chinesa criam ambiente que detona a discussão sobre os intrumentos práticos em construção, para a integração sul-americana, o Banco do Sul e a moeda sul-americana, ao mesmo tempo em que fortalece a pregação do presidente Barack Obama de que a integração EUA-China é base sobre a qual se deve reconstruir o mundo capitalista em pedaços.