China-EUA aplicam golpe do dólar podre para apossarem do petróleo sul-americano

O general americano não escondeu os propósitos maiores dos Estados Unidos em sua escalada armamentista na América Latina, ampliar as relações capazes de assegurar aos Estados Unidos acesso ao petróleo, o que implica em indispor-se com quem não entender as razões maiores americanas, como aconteceu com Saddam Hussein, no Iraque

Dois meses depois de o governo da China abrir negociações com o presidente Lula para que o capital chinês participe da exploração do petróleo na bacia do pré-sal, o governo americano entra em cena, com o mesmo objetivo, por intermédio do general James Jones, assessor de segurança nacional do presidente Barack Obama. Ele declarou ao repórter  William Waack , no Jornal da Globo, que o governo americano está interessado em realizar parceria estratégica com o Brasil para preservar os interesses dos Estados Unidos relativamente ao abastecimento de energia. Considerou a possibilidade de modernização das forças armadas brasileiras pela indústria bélica e espacial americana em troca do petróleo, tal a necessidade dos Estados Unidos em assegurar oferta de óleo futura, de modo a tentar continuar bancando a dinâmica da acumulação capitalista, pelo maior PIB do mundo, locomotiva global, no momento abalada pela crise financeira. Na semana passada, empresários americanos chegaram ao Brasil, declarando que o governo americano se dispõe a financiá-los para participarem da exploração do pré-sal. O jogo é claro. É o petróleo, estúpido. Os ingênuos que fiquem com o argumento de que o essencial é o combate às Farcs narcotraficantes, já derrotadas militarmente, como motivação para instalação de sete novas bases militares norte-americanas no território sul-americano, riquíssimo em petróleo, usando a Colômbia como cabeça de ponte, posicionando-se estrategicamente entre os dois países maiores produtores, Venezuela, de um lado, e Brasil, de outro. É  ou deveria ser o papo principal da Unasul, nessa segunda feira, em Quito, Equador.

China e Estados Unidos, portanto, entraram em disputa pelo petróleo brasileiro. A geopolítica petrolífera global coloca o Brasil como palco de novo embate internacional, com tendências à militarização, pelo domínio das fontes de energia.  O óleo brasileiro representaria , para os Estados Unidos, dispondo dele, a garantia que deixou de ter no Oriente Médio, depois que saiu do Iraque, com suas tropas, deslocando-as, uma parte para o Afeganistão, outra para os Estados Unidos. Pode ser que os soldados se destinem à  América do Sul, onde as disputas pelo petróleo tendem a se acirrarem.  As sete bases colombianas em instalação na Colômbia não seriam apenas destinadas a combater o narcotráfico, mas, igualmente, a marcar a presença dos Estados Unidos em região petroloífera.

Nem China nem Estados Unidos dispõem de petróleo na escala necessária capaz de garantir suas demandas internas. Assegurar o abastecimento do produto, no momento em que a China se transforma em esperança do mundo, vanguarda científica e tecnológica, com farto mercado interno, dólares sobrando e preços competitivos, para sustentar a acumulação capitalista, que deixou de se realizar na especulação, virou questão crucial para os chineses. Da mesm a forma, para os Estados Unidos, afetados pela instabilidade da oferta de petróleo no Irã e no Iraque, dominados politicamente pelos xiitas mulçulmanos, o assunto é de vital importância.

O que, curiosamente, une Estados Unidos e China, no cenário global, embora estejam disputando as fontes de matérias primas, que são sempre as razões maiores das guerras, no território da América do Sul, é o fato de que são detentores de trilhões de dólares candidatos à desvalorização.

China e Estados Unidos, abarrotados de dólares, não interessam em conversar com outros atores da cena global sobre o destino do sistema monetário apodrecido pela crescente desvalorização da moeda americana, empoçada na crise financeira. Por isso, tanto os chineses, como os americanos, correm para a América do Sul, onde os ativos, as matérias primas, se transformaram em lastro seguro, diante do dólar que não tem garantia nenhuma. Evidencia-se novo cenário nas relações de troca em que matérias primas valorizam-se mais que os produtos manufaturados, que caem de preço na crise deflacionária. Apossar das fontes de matérias primas, portanto, é assegurar a taxa de lucro constante para acumulação do capital.

O dólar virou moeda quente que foge para o Brasil, valorizando o real e destruindo o parque industrial, enquanto amplia o mercado para importações, destruindo empregos e gerando tensões sociais. Avança, com a sobrevalorização do real, o golpe do dólar podre.

 A disputa entre Estados Unidos e China pelo pré-sal brasileiro sinalizaria antagonismos instransponíveis ou ensaio geral de bilateralismo das duas maioes potências econômicas atuais? Com os dólares em profusão entrando no Brasil e na América do Sul, continuariam dominando o fluxo  do dinheiro e das mercadorias por meio de arranjos cambiais articulados na escala Washington-Pequim?

O dólar exercitou senhoriagem depois da segunda guerra até agora, quando a crise de 2008 o desbancou. Rompeu-se o status quo do pós-guerra que determinou divisão internacional do trabalho sob comando da moeda americana. A bancarrota financeira , transformando o dólar em moeda quente, ameaça as demais moedas. Os chineses, que ficaram poderosos, estão cheios de dólares em processo de desvalorização. Não lhes interessaria a bancarrota dolarizada, antes que desfizessem do abacaxi.

Compram com esse ativo bichado ativos valorizados na América do Sul, antes que perca valor.  Tentam fugir do insolúvel impasse representado pelos derivativos referenciados em dólar em torno de 600 trilhões, segundo o BIS, responsáveis por interromper o crédito global e, sobretudo, acelerar a desvalorização da moeda americana. Trocar essa moeda podre por petróleo do pré-sal, no Brasil, e da bacia do Orinoco, na Venezuela, vira objetivo central para China e Estados Unidos.

 

Novo Saddam na América do Sul

 

A invenção das armas nucleares e atômicas em mão de Saddam pode estimular criação de nova história nesse sentido para transformar Chavez em demônio para justificar sua defenestração

A agressiva disputa China-Estados Unidos pela bacia do pré-sal, configurando novo status quo do Brasil e da América do Sul na geopolítica do poder mundial implica em divisão sul-americana, especialmente, no momento em que sete novas bases militares americanas são instaladas na Colômbia, a pretexto de combater o narcotráfico. Simultaneamente , as investidas militaristas no continente são executadas pelas manobras da Quarta Frota Naval norte-americana, que monitora os  mares do Atlântico Sul. Trata-se de algo que ocorre pela primeira vez depois da segunda guerra mundial. A pressão do general James Jones em favor da troca de modernização da indústria bélica e espacial brasileira por petróleo insere-se no novo contexto mundial. Na prática, é troca de mercadoria que se desvaloriza, armas, por mercadoria que se valoriza, petróleo.

Tal intensificação guerreira teria como causa uma aparência, o combate ao narcotráfico, ou uma essência, o petróleo?

Poderia falar mais alto a   preocupação americana em garantir o abastecimento de energia, ameaçado pela derrota dos Estados Unidos no Iraque e a crescente resistência do Irã à política americana no Oriente Médio, contestada com ato prático expresso na aproximação iraniana com a Rússia e a China, aqui em dissenso com os americanos. A semelhança do que ocorre na América do Sul com o que rola na Georgia, cheia de petróleo, armada pelos Estados Unidos, ameaçando o leste europeu, não seria mera coincidência, sabendo que o que está por trás é o mesmo problema, ou seja, o petróleo.

Saddam Hussein pode encarnar-se na América do Sul. Para defenestrar Saddam, executado na forca pelo governo iraquiano obediente às ordens da Casa Branca, o governo W. Bush inventou a história da produção de armas nucleares. W. Bush, no final do governo, às vésperas da violenta crise mundial, completamente, desmoralizado, reconheceu que participou de uma farsa. A armação mentirosa serviu para justificar a guerra pelo interesse maior americano, no Oriente Médio, o petróleo.

Mutatis mutantis, descobre-se, agora, que a queda do presidente Manuel Zelaya, de Honduras, foi ocasionada pelas descobertas de petróleo em território hondurenho e pela disposição do presidente deposto de inserir na Constituição garantia nacionalista contra investidas das multinacionais contra o ouro negro.

Zelaya se dispôs a participar da aliança dos países do Caribe, em torno da Petrocaribe, favorável à defesa nacionalista das reservas petrolíferas na poderosa Bacia do Orinoco, na Venezuela. No interior do bloco, a voz do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, responsável pelo abastecimento de 15% do petróleo consumido pelos americanos, predomina em favor das teses nacionalistas bolivarianas.

A irritação contida do general James Jones relativamente a Hugo Chavez se expressou ao declarar ser o titular da Venezuela fonte de preocupação ao processo democrático, quando a fonte da instabilidade democrática ocorre, na América Latina, justamente, por conta da posição ambígua dos próprios Estados Unidos no golpe de Estado em Honduras, tendo por trás o petróleo como justificava oculta e latente. As palavras, como disse Freud, servem para esconder o pensamento. Tentam criar novo Saddam para defenestrá-lo, para facilitar o abastecimento de petróleo.

As bases americanas na Colômbia podem, sim, ter o petróleo por motivação, como ocorreu no Iraque. O petróleo iraquiano representou a causa principal da invasão por meio de mentira forjada e reconhecida. Se o general James Jones , enviado por Obama propõe trocar petróleo por armas, evidencia o inconsciente de Tio Sam relativamente à necessidade de que prevaleça prevenção militar quanto o assunto é petróleo.

As forças armadas brasileiras, que têm sofrido escassez continuada de recursos, para se modernizar, poderiam, conforme evidenciaram os argumentos do general americano, superar as carências financeiras, de vez, trocando, por exemplo, petróleo brasileiro por navios, tanques de guerras, metralhadores, aviões de caça etc etc fabricados nos Estados Unidos. Canto de sereia.

Não haveria mais, para as forças armadas brasileiras,  problema de dinheiro. Representaria saída do sufoco financeiro no instante em que  47% do orçamento delas  estão contingenciados para fazer superavit primário   afim de pagar juros da dívida pública interna. As restrições financeiras seriam superadas, caso seguissem a sereia Jones.