15 ago
2009Sucessão deflacionária no primeiro turno sobrevaloriza meio ambiente
Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 15-08-2009

Com mais mercadorias – candidaturas – no mercado eleitoral, o preço relativo delas tende a cair. A entrada da senadora Marina Silva, ex- ministra do Meio Ambiente, que está deixando o PT para filiar-se ao PV, a fim de disputar a eleição presidencial 2010, reduziu o preço da candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, preferida do presidente Lula, como , também, das dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Tal fato, o mais impactante da sucessão, até o momento, abre espaço para que, no primeiro turno, surjam novas candidaturas. Ou seja, quanto mais mercadorias , menores os preços. Deflação.
Eleitores e eleitoras – a demanda - teriam oportunidade de maiores e, quem sabe, melhores escolhas. Os candidatos – as mercadorias - teriam, consequentemente, seu preço diferenciado do seu valor. Valor e preço tendem a ficar proporcionais na medida em que cai a taxa de lucro. E a queda da lucratividade da mercadoria, da candidatura, do capital político ocorre, segundo Marx, quando a taxa de lucro vai a zero. Não se poderia dizer que as candidaturas postas, até a candidatura de Marina emergir, tendam a zero, justamente, porque a da ex-ministra do Meio Ambiente surgiu, valorizando-se perante às existentes. Sua valorização é proporcional à desvalorização das que já se encontravam na raia eleitoral.
Ao mesmo tempo, a valorização relativa de Marina e a desvalorização relativa de Dilma , José Serra e Aécio, em função do aumento da oferta em relação à demanda, criam novos preços para novas mercadorias que se credenciarão, no primeiro turno, no mercado eleitoral em formação para disputa do primeiro turno. Haveria , dessa forma, tendência deflacionária, na etapa inicial da eleição, colocada pelas próprias circunstâncias. Pintaria pressuposto básico decorrente da necessidade de que, para surgirem competitivamente no segundo turno, a fim de formarem blocos na disputa final, as candidaturas, os partidos que se apresentarem, precisarão dispor de valor relativo, cujo preço, evidentemente, dependerá da participação deles no primeiro turno, aferida nas urnas.
Somente dessa forma haveria como medir corretamente o tamanho, o valor e o preço de cada um, para as negociações finais, na avaliação dos eleitores e eleitoras. Tal apreciação popular representaria o aval capaz de permitir a cada partido conhecer o seu quinhão com o qual negociarão sua participação no poder, ao lado daquele que sair vencedor no segundo turno. Nesse sentido, a candidatura de Marina Silva, ao deflacionar valores eleitorais colocados à disposição dos eleitores/eleitoras, no primeiro turno, amplia a taxa de democracia, para que, no segundo turno, se forme processo inverso ao da deflação, ou seja, inflação, a ser expressa nas apostas finais entre os dois postulantes definitivos e decisivos. Ficaria, finalmente, caracterizado o caleidoscópio apresentável no perfil democrático nacional.
Que caleidoscópio seria esse forjado no primeiro turno?
Seria possível divisar mercadorias, candidaturas e partidos em disputa. Não seriam, certamente, apenas Dilma, representando, hoje, o governo, a coalizão governamental, de um lado, nem Aécio Neves ou José Serra, de outro, configurando uma bipolaridade eleitoral, mas, possivelmente, uma pluripolaridade da qual participariam outros partidos, inclusive com disseminação de candidatos que, atualmente, estão alinhados às forças governistas, como é o caso do deputado Ciro Gomes(PSB-CE), cotado, tanto para disputar a presidência da República como, também, o governo de São Paulo, sendo ele paulista, de nascimento, e cearense, de base eleitoral.
No novo contexto sucessório, com surgimento de Marina Silva, contém, igualmente, outra novidade: as prévias eleitorais. Elas poderão surgir na disputa entre tucanos e influenciar todas as demais escolhas que vierem a aparecer. Emergiria feito demonstração. A coalizão governamental explodira no primeiro turno. O PSB, com Ciro, poderia estimular o processo. Até o PMDB seria obrigado a entrar na dança. O governador peemedebista do Paraná, Roberto Requião, por exemplo, defende prévias, para que o maior partido brasileiro saia com candidatura própria. Ele, Pedro Simon e outros. A oxigenação ética seria pressuposto a ser superado, depois dos escândalos presentes que destroem a reputação dos senadores. Para tanto, Requião afia discurso nacionalista-socialista, à moda do presidente da Venezuela, Hugo Chavez. Quem não entrasse no jogo das prévias, estaria fugindo do teste democrático inicial.
Não ficaria fora de cogitação que outra fonte nacionalista, dentro da força governista, se manifestasse, como é o caso do PDT, cujo candidato potencial seria o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, brizolista-getulista-lulista de carteirinha. Sua ação política mais recente de deslocar do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador(Codefat) as representações empresariais, para fazer prevalecer as lideranças laborais, de modo a influir na destinação dos recursos do FAT, administrados pelo BNDES, de acordo com o ponto de vista dos trabalhadores, indica força político-eleitoral emergente.
Até agora, os empresários, que participavam do Codefat, davam as cartas no direcionamento dos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social(BNDES). O E de Econômico, dentro do BNDES, predominou, amplamente, desde a criação do banco por Getúlio Vargas, nos anos de 1950, enquanto o S de Social ficou, sempre, em segundo plano, dada a preponderância do discurso empresarial sobre o laboral. Com a jogada varguista-brizolista de Lupi, a influência dos empresários se torna menor, enquanto amplia a força dos trabalhadores. Sob pressão dos grandes industriais e banqueiros, o presidente Lula deu uma de Pilatos, lavou as mãos. Lupi predominou. Por isso, cogita-se, dentro do PDT, que ele saia candidato no primeiro turno, com discurso de Getúlio Vargas etc.
As forças oposicionistas, igualmente, tenderiam a abrir espaço à experimentação deflacionária eleitoral do primeiro turno. O DEM, que, na eleição municipal de 2006, brilhou em São Paulo, com a vitória de Cassab, apoiado pelo governador oposicionista José Serra, não deixaria, certamente, de cacifar-se, para fortalecer o nome da legenda no espaço nacional. Nesse caso, teria como candidato, como destacam os democratas, o secretário de Trabalho do governo paulita, Guilherme Afif Domingos, pregador histórico do fortalecimento das micro e pequenas empresas. Estas, falando nisso, se transformaram em prioridade para o governo Lula. O Fundo Garantidor de Investimento(FGI), que está sendo criado dentro do BNDES visa, sobretudo, o fomento às empresas de pequeno porte, graças ao discurso em defesa delas que lideranças como Afif promovem há anos, agora, finalmente, recompensadas. Da mesma forma, visa ao fortalecimento das micro e pequenas empresas a decisão lulista de estimular os governos estaduais a criarem agências de desenvolvimento regional, avalizadas pelo tesouro nacional. Tais agências desempenhariam o papel de bancos estaduais, com a ressalva de não poderem captar depósitos, mas poderiam realizá-los, correndo todos os riscos, pois se tiverem que enfrentar inadimplências, estas seriam cobertas pelo aval governamental. Os bancos privados que se cuidem.
Nesse cenário, em que as empresas de pequeno porte ganham sonoridade política, não seria descartada possibilidade de que elas tivessem representação em forma de candidatura eleitoral. E o personagem histórico que se destaca na defesa delas é o secretário Afif Domingos, ex-candidato à presidência da República em 1989, com o mesmo discurso.
Ou seja, a teoria que o presidente Lula pretendia que predominasse, a do plebiscito no primeiro turno – para configurar uma disputa imaginária entre a Era FHC, com Serra, e a Era Lula, com Dilma – , pode ir para os ares, diversificando o panorama eleitoral, conferindo a ele representação mais democrática. Se os partidos se dispõem a lançar candidaturas no primeiro turno, como obrigação de possuirem discurso, para se credenciarem ao segundo turno, é possível antever o inverso do que imaginou o titular do Planalto. Não apenas o PV, o PT, o PMDB, o PSDB, o PDT , o PSB e o DEM poderiam lançar candidatos, mas, da mesma forma, o PL, o PR, o PPS e , naturalmente, os partidos mais radicais como o PSOL, cuja candidata ex-senadora Heloísa Helena , socialista, poderia pontificar.
A boca do funil ficaria suficientemente larga para abarcar muitos pretendentes, a fim de que na saída estreita do segundo turno sobrassem os contendores finais com todos os seus arcos de alianças, devidamente , apurados no primeiro turno, demonstrando maior autenticidade ao processo eleitoral, divisados pelas prévias. Claro, a nova temática a pautar o discurso predominante seria o meio ambiente, a estrela Marina, no jogo, destacando e pontuando no assunto que tende a mobilizar , cada vez mais, a consciência social, econômica e política nacional.
Meio ambiente entra em cena

O fato novo representado pela emergência de Marina Silva no cenário sucessório possivelmente deflacionário no primeiro turno coloca em cena, com força, a questão ambiental. Marina foi defenestrada do poder, no Ministério do Meio Ambiente, porque não abraçou o discurso desenvolvimentista do presidente Lula e da ministra Dilma Rousseff, para a Amazônia. No estilo trator, Lula-Roussef removeram Marina, para poder predominar o discurso do investimento agroindustrial que tem projetos na Amazônia com foco na exportação, da mesma forma que ocorre em toda a fronteira agrícola, impulsionada pelo crédito mais barato para a agroindústria, como alternativa presidencial para evitar o aprofundamento da crise. As indústrias que trabalham para o agronegócio, máquinas, equipamentos, produção de insumos em geral , estão sendo decisivas no instante em que no cenário internacional o preço das matérias primas – alimentação, minerais, combustíveis etc – , amplamente, disponíveis em território nacional, valoriza-se relativamente à moeda equivalente geral de trocas , o dólar, em processo de desvalorização contínua.
Qual seria a preferência popular: o discurso ambientalmente sustentável de Marina Silva ou o desenvolvimento ambientalmente considerado pelos ambientalistas insustentável de Lula e de Dilma?
A posição do governo brasileiro, em relação ao meio ambiente, tornou-se, completamente, ambígua aos olhos dos ambientalistas, que se reunirão em Copenhague, para discutirem nova ordem ambiental global, de modo a criar bases para o crescimento econômico sustentável ao longo do século 21. A contribuição brasileira ao meio ambiente reclamada pelos ambientalistas não está sendo praticada pelo governo que discorda dela, enxergando-a como armadilha no momento em que a importância econômica brasileira no cenário econômico capitalista global tende a ser abrangente quanto mais economicamente se torna atrativo aos investidores internacionais, interessados em ocupar as fontes de energia e de matérias primas que se sobrevalorizam no ambiente em que o dólar se sobredesvaloriza.
A questão do emprego entra em cena, com a crise deflacionária global em marcha. Ela levou o governo Lula a discordar dos limites expansionistas dos ambientalistas em forma de limitação do desenvolvimento ambientalmente considerado insustentável. Nesse sentido, a poluição ambiental que haveria de ser combatida , com redução do fogo na floresta, para abrir espaço à soja, ao gado, ao algodão e à cana, seria aquela que enriquece economicamente o país, embora destrua o meio ambiente. O ambientalmente incorreto entraria em choque com o ambientalmente correto. A quem os desempregados pela grande crise apoiariam? Pintaria polarização entre desenvolvimentismo a qualquer custo versus desenvolvimento sustentável, tendência que leva os governos a novas posições, por força das pressões sociais. Lula, no cenário global, em que o peso relativo do Brasil valoriza, abraça a posição não do presidente Barack Obama, mas a do seu antecessão W. Bush, de não abrir mão do crescimento econômico concentrador em nome do poder econômico sob estrutura concentradora de capital em processo de oligopolização geral. Se as expectativas dos investidores é a de transformarem o Brasil na bola da vez da preferência do capital internacional, dado seu potencial econômico, o discurso ambientalmente correto teria que fazer grandes adaptações e adotar grandes flexibilidades para não ser taxado de promotor do desemprego. Num cenário em que a preocupação central da sociedade brasileira é o emprego, ao contrário de prioridades ambientais que se desenvolvem na consciência européia, por exemplo, se os ambientalisas adotarem visão de mundo da Suissa, país onde morou o ambietalista deputado verde Fernando Gabeira, poderão perder a parada. A visão socialista que o pleno desenvolvimento ambientalmente sustentável confere poderia ser percebido pela massa como coisa de desocupados, quando o capital reclama destruição ambiental para gerar empregos sob o sistema capitalista em crise.
O titular do Planalto atua ambiguamente no cenário ambiental. Se, por um lado, favorece os investidores do agronegócio, por outro contraria as multinacionais do setor. Isso começa a ficar patente no plano de nova consciência social relativamente à oferta de alimentos. O titular do Planalto acaba de enfrentar as multinacionais do agronegócio poluidoras do meio ambiente com os adubos químicos que aceleram pragas e desertificam as terras, visto que são misturados com areia. Para tanto, está lançando campanha organizada pelos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente favorável ao consumo de alimentos produzidos com adubos orgânicos, zero de química. Uma pancada violenta nos grandes grupos que dominam o mercado. O humorista e artista plástico Ziraldo elaborou cartilha sobre a alimentação orgânica, compatível com a visão da economia ambientalmente sustentável, distribuída nos supermercados.
Lula dá uma no cravo, outra na ferradura.









