15 jul
2009Resgate de um herói sul-americano no Congresso
Cesar Fonseca em 15/07/2009

(Sete anos depois da morte do cacique xavante, Mario Juruna, primeiro Ãndio brasileiro a chegar ao parlamento, como deputado federal, pelo PDT-RJ, a Câmara dos Deputados homenageia nessa quinta feira, a partir das 9 horas, no auditório Freitas Nobre, o grande lÃder, exibindo o filme “Jururã, o espÃrito da floresta”, do documentarista Armando Lacerda. No sábado, repeteco, no Cine Vila Rica, Ouro Preto, no Festival de Inverno, será a vez dos mineiros assistirem a pelÃcula, com 80 minutos de duração, ganhadora dois prêmios internacionais, em Portugal e Itália.)
É muito difÃcil entender as razões dos outros, se permanecemos no ponto de vista individual. O individualismo, não raro, coloca o indÃviduo, com seu narcisismo, no exterior da realidade. Os outros são o inferno dele, como disse Sartre. O ser humano detesta o sucesso do outro. Não se perdoa um grande favor etc e tal. No individualismo, no egoÃsmo, próprio do sistema capitalista, egocentrista, o outro é um estorvo. Faz sombra. Dessa visão unilateral, culturalmente desenvolvida, para dispersar o homem de seu próprio ambiente, seu próprio eu, constroi-se consciência derrotada pela impossibilidade de ver o todo, pois o que lhe interessa não é o todo, mas o seu. Assim, querer entender a vida do outro, somente se for possÃvel penetrar na consciência do outro.
Esse é um dos méritos mais importantes do filme do jornalista, fotógrafo e documentarista, Armando Lacerda, autor de “Jururã, o espÃrito da floresta”, com competente montagem de Liloye Boubli, que faturou nesse final de semana o Festival Latino Americano de Trieste, Itália, organizado pela União Latina, com sede em Paris, depois de ter sido elogiado no festival de Veneza e no do Rio de Janeiro, enquanto foi olimpicamente desdenhado pelo Festival de BrasÃlia, mesmo sendo um filme financiado pelo Pólo de Cinema do Distrito Federal. IncrÃvel a incompetência da Secretaria de Cultura e da organização do festival. Agora, certamente, terão que correr atrás do prejuÃzo.
O olhar do Ãndio é o comandante do ponto de vista indÃgena sobre sua própria experiência diante do massacre sofrido pela civilização em busca da expansão dos seus negócios em escala crescente no contexto da globalização dos mercados. Essa é sÃntese fÃlmica de um trabalho cultural que insere BrasÃlia no cenário da cultura internacional.
É um jogo que massacra o Ãndio desde os descobrimentos. Uma alma massacrada, atemorizada, aterrorizada, sob constante perigo de morte a cada passo. A voz deles é a voz dos outros sobre eles. Os Ãndios vivem tão atormentados, ou mais, que os judeus, assassinados por Hitler.
O ódio hitlerista à competência judaica de acumular riqueza e dominar polÃticamente o meio ambiente social-democrata ganhou ares de rascismo. Como os judeus, os Ãndios são vÃtimas do mais cruel racismo, pois sua proposta de vida, a solidariedade, choca, frontalmente, com o seu oposto, a ganância. Pior do que os judeus: são tutelados. Não possuem sequer identidade como categoria social, para se disporem do direito positivo nascido dos romanos e aperfeiçoado pelo código napoleônico, erigindo o poder burguês, no século 18.
Os personagens do documentário de Armando Lacerda são heróis permanentes, que lutam, bravamente, contra o perigo, constanre, de extinção da raça, patrocinada pela civilização que alcançou os mais altos graus de aperfeiçoamento civilizatório dado pela superestrutura jurÃdica do estado capitalista. Diante dos Ãndios, tal superestrutura simplesmente é colocada a serviço do lucro como deus da salvação.
O resultado, para o lado oposto dessa extroversão do poder legal, é uma tragédia exposta aos interesses que manipulam a legalidade constituÃda. Os alimentos faltam, a água está sendo contaminada, as reservas invadidas, saqueadas, as mandiocas comidas pelo gado dos invasores, a fome ronda… O suÃcido indÃgena aumenta diante da sua própria impotência. O Estado nacional, a propósito de tutelar o Ãndio, confere autotutela aos que invadem as terras indÃgenas, destruindo-as, brutalmente.
O Estado nacional visto pelo olhar do Ãndio é o Estado anti-nacional que não garante a sobrevivência indÃgena de maneira dÃgna. É como o jurista especulador que esfola o lombo do povo com os juros compostos. Uma farsa de civilização escravocrata como proposta de modelo de vida, totalmente, inviável, para a saúde da natureza.
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História de destruição e morte
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O panorama é tétrico, para as comunidades indÃgenas, principalmente, depois dos anos de 1940, quando o Estado nacional getulista amplia as fronteiras nacionais, para interiorizar o capitalismo nacionalista , que alcançaria sua gloria com JK, em BrasÃlia. O espirito nacionalista fascista-getulista, diante da guerra, ganha dimensão polÃtica extraordinária no sentido de fortalecer o estado, para preservar o território nacional de interesses externos que se digladiavam no conflito bélico e ideológico.
Com JK, a expansão continuou eufórica, à custa de endividamento externo, que traria desenvolvimentismo, mas, também, colonialismo financeiro via juros altos. O paÃs foi cortado de norte a sul e de leste a oeste pelas rodovias , a fim de criar o mercado consumidor para os automóveis de luxo fabricados pelas indústrias importadas que haviam entrado em decadência na crise de 1929.
Enquanto nos Estados Unidos, os gastos do governo em guerra, produtos bélicos e espaciais, puxavam o capitalismo, com a moeda estatal inconversÃvel, na periferia capitalista era imposta a proposta industrial baseada na indústria de bens duráveis, que já haviam entrado em crise desde inÃcio dos anos de 1930.
Essa indústria impunha uma exigência: precisa de estradas em todo o território nacional. O modelo de desenvolvimento, baseado na fabricação de produtos de luxo, que requeria concentração de renda numa classe média capaz de consumi-los, seria, historicamente, o inferno astral para a vida das comunidades indÃgenas brasileiras.
Aonde chegou o consumismo dos bens duráveis, dinamizadores do capitalismo concentrador de renda, chegou a destruição dos Ãndios. Sucumbiram-se à violência civilizatória, pois a civilização não tinha a proposta de negociação polÃtica com os Ãndios, que já estavam há séculos em suas propriedades. A propriedade é dada pelo trabalho, suor do rosto, de acordo com a visão indÃgena. Confronto total, pois a visão do branco é oposto, ou seja, a propriedade é um roubo.
O discurso do branco foi a bala dos armados com armas de fogo contra os armados com armas da floresta, arco e flexa. Massacre.
A febre juscelinista de interiorização do paÃs ampliou as fronteiras e mexeu com o estômago nacional. Os militares, como destaca Alisson Paulinelli, ministro da Agricultura do presidente Geisel, perceberam que era preciso aumentar a oferta de alimentos para garantir a base alimentar nacional ampliada pelo espÃrito investidor de JK que se espalhou pelo Brasil afora.
Consciência se rende ao lÃder xavante

A temática do filme de Armando Lacerda situa esse momento histórico no qual nascerá o cacique Mario Juruna, que terá vida de resistência à invasão do branco sobre as terras do Ãndio, até se transformar em celebridade polÃtica nacional e internacional, depois que é descoberto pela grande mÃdia, em reportagens de Memélia Moreira, Eliane Lucena, Chico Dias e Marcio Braga, repórteres, respectivamente, da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.
 A história do branco é a epopéia da conquista do território dos Ãndios, cuja alma se expõe no filme com uma dor amarga, mas, igualmente, expressando uma tenacidade incrÃvel de uma civilização que se mostra não apenas disposta a resistir, bravamente, mas, também, negociar, porque sua Ãndole não é a guerra, mas a paz.
Mas será possÃvel a paz com as palavras do branco? Como diz o sábio Aniceto Suzavera, “o branco conta histórias, usa as palavras, que não têm ‘práticas’ nenhuma”. Por trás da representação, do aparente, está o latente, isto é, a destruição, a voz da destruição.
E a voz dos destruÃdos, quem contará? Qual a sua versão?
“Jururã, o espÃrito da floresta” abre espaço para o universo mental dos Ãndios, a sua cabeça, a sua inteligência – sua bordina – , a sua racionalidade, sua paciência e sua explosão calculada enquanto busca socorro no próprio humanismo desenvolvido pela civilização que causa a destruição.
Teria sido inevitável a destruição dos indÃos , como se dá na história brasileira, ainda, agora, quando as tensões guerreiras se apresentam no contexto das demarcações das terras indÃgenas?
O raciocÃnio do branco é unilateral. Jamais cogitou de negociar com o Ãndio, de forma diplomática, respeitando o outro, sua civilização, seus costumes, sua lógica, sua visão prática. Primeiro, as balas, depois da escravidão.
O governo brasileiro, dos anos de 1950 em diante, incentivou a ampliação das fronteiras nacionais, no rastro das rodovias que rasgaram as terras indÃgenas, mas não cuidou de apreciar, valorizar e intercambiar com o pensamento polÃtico indÃgena, que obedece, racionalmente, a leis naturais. Precisaria ter ocorrido a destruição violenta de seres humanos indefesos?
Disse: “Por que brigar. Tem terra para todos. Tem terra para Ãndio, para posseiro, para fazendeiro, para agricultor, até para multinacional. Falta organizar e planejar, para que todos possam trabalhar”.
Lamentou não participar da Assembléia Nacional Constituinte. Não fora reeleito para novo mandato depois do perÃodo que frequentou a tribuna como o primeiro Ãndio brasieleiro a chegar pelo voto ao parlamento, entre 1983 e 1987. Sua missão disse, seria levar adiante os trabalhos da comissão do Ãndio. Seria a base da conscientização polÃtica sobre a nessidade de consolidar partidariamente o pensamento indÃgena nacional.
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Verdadeiro estadista
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A voz polÃtica indÃgena é ancestral e nos Andes é forte, tanto que está no poder, na BolÃvia, chegou, agora, ao poder no Paraguai e tem participação forte, igualmente, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. Juruna via longe, pois sua meta era a supressão da tutela constitucional sobre o Ãndio. Sua cabeça não cabia nesse molde escravocrata,nem a dos seus parentes, pois têm consciencia de que constituem uma nacionalidade.
Os depoimentos de  cacique Salvador, de Vitória Pedzerone, Aniceto Suzavera, Diogo Amho, José Maria Paratsé, cacique Damião , Juliano Xavante entre outros são o olhar e o ponto de vista polÃtico do Ãndio, em um documentário que expõe plasticamente com vigor a beleza da vida natural e singeleza de um pensamento simples, sábio e consciente.
A passagem de Juruna pelo Congresso é a passagem de um grande estadista, que impressiona pela sua exuberante racionalidade dada pela vivência prática de um povo sofrido pela desvastação capitalista especulativa que domina a história nacional.
Darci Ribeiro sacou a genialidade de Juruna e abriu espaço para ele na polÃtica, idéia acatada por Brizola, que, merecidamente, representou primeira consciência polÃtico partidária nacional a reconhecer direitos polÃticos dos Ãndios.
O Congresso devia alto tributo ao cacique Mário Juruna – Jururã entre seus pares – , porque traiu a causa indÃgena. Não respeitou a vontade nacional que levou o Ãndio ao parlamento cuja missão, a de criar espaço polÃtico para os Ãndios, nos partidos, como representatividade efetiva, merece o desprezo das cúpulas partidárias nacionais, adversárias arrogantes do pensamento indÃgena que reivindica maioridade polÃtica.
Juruna mostrou inteligência poderosa que incomodou os poderosos. Falou como representante de uma nacionalidade para outra nacionalidade. Comportamento altivo, dado pela consciência dessa nacionalidade e da necessidade de preservá-la.
Naturalmente, em defesa da sua nacionalidade, incomodou. Peitou de frente os militares, abrindo discussão internacional da causa maior indigena, isto é, a defesa da demarcação das terras.
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Elites traem causa indÃgenaÂ
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No Tribunal Bertran Russel, na Holanda, em 1983, chegou como Ãdolo de povo resistente à ditadura militar. O governo não conseguiu evitar sua viagem, dadas as pressões de organismos polÃticos europeus e americanos, dispostos e ouvir do lÃder discurso autêntico, socialista, humanista, espiritualista.
O filme de Armando Lacerda mostra, sobretudo, o humanismo indÃgena e a contribuição polÃtica que ele pode dar ao progresso do pensamento polÃtico humanista nacional. Da extrema exploração, da extrema pobreza, nascem os pensamentos mais nobres e gerais que abrem luz à humanidade.
A voz experiente e lúcida de Aniceto Suzavera, que veio, com Juruna, à pé da sua aldeia, São Marcos, até Goiânia, para chegar a BrasÃlia, a fim de iniciar, nos anos de 1970,  a epopéia de Juruna, no cenário polÃtico nacional, a partir das denúncias dos massacres contra os Ãndios,  é um caminho seguro para construção de diálogo polÃtico capaz de construir sociedade mais solidária.
O filme impõe uma necessidade, a de que haja reativação e fortalecimento do pensamento indÃgena no cenário polÃtico nacional, especialmente, no momento em que a humanidade vive os estertores de um modelo de vida ocidental que está falindo, por destruir a natureza, graças ao predomÃnio do egoÃsmo e do individualismo exacerbado.
A vida de luta, nobre e dura, dos Ãndios, que os leva, no cotidiano, a um comportamento social solidário, oposto ao individualismo incontrolávelmente egoista, coloca em cena uma proposta racional que deve ser mesclada à irracionalidade civilizatória, para dar uma demão na razão e no bom senso.
A visão indÃgena, pelos personagens do filme, apresentando em cores vivas por uma comidade confiante na conquista da sua felicidade, é contribuição cultural indispensável à construção da própria nacionalidade.
Como disse, orgulhosamente, Juruna em discurso antológico: “Se o Brasil tivesse mais de 50 Juruna, já teria mudado há muito tempo”. O documentário é o resgate para a história de um lÃder polÃtico nacional de primeira linha a ser cultuado como herói.









