Chavez acelera acordo Brasil-Paraguai

Lula correu para fechar novo acordo com Lugo para não ser ultrapassado pelas propostas mais radicais dos movimentos sociais ligados à onda democrática socialista bolivariana pregada por Hugo Chavez, que levou ao golpe militar em Honduras, desestabilizando o governo constitucional de Zelaya, sinalizando lacerdismo golpista sul-americana de resistência ao avanço da democracia direta, pregada, agora, no Brasil pelo senador Cristovam, para desestabilizar Sarney

As tensões políticas no Paraguai, que estão levando os movimentos sociais a ganharem dimensão extraordinária por conta da pregação mudancista acelerada do presidente Fernando Lugo, colocando-o em confronto direto com as elites tradicionais do país, responsáveis por conduzirem o poder paraguaio nos últimos cinquenta anos, até a chegada da nova ordem popular, levaram o presidente Lula a apressar as negociações em torno da principal bandeira econômica e política paraguaia, a renovação do contrato da destinação da energia de Itaipu. Tal aceleração decorre da necessidade de evitar perda de espaço político para o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, sintonizado com a demanda paraguaia, impulsionada pelos movimentos sociais, que têm queda favorável pelo avanço do socialismo bolivariano na América do Sul por ele comandado, envolvendo parceiros como os presidentes da Bolívia, Evo Morales, do Equador, Rafael Correa, e o presidente deposto de Honduras, Manoel Zelaya.

Maiores demoras por parte do governo brasileiro em atender as demandas do governo Fernando Lugo, sob pressão das oligarquias, que desejam derrubá-lo, em razão dos escândalos políticos que enfrenta, gerando desgastes consideráveis, intensificariam as pressões dos movimentos sociais de esquerda rumo ao bolivarianismo socialista, cujo desfecho poderia resultar em novo golpe de Estado, semelhante ao que derrubou Zelaya. As chancelarias latino-americanas se alarmam com essa possibilidade. Estaria criada zona politicamente conflagrada na América do Sul, somando-se à que se espalha na América Central, levando o status quo sul-americano, que passa por desajustes econômicos consideráveis, em decorrência da crise econômica global, a uma total instabilidade.

Há alguns meses, a elite política do Paraguai vem produzindo tensões na relação com o Brasil, exigindo revisão do acordo de Itaipu, assinado entre os governos Geisel, brasileiro, e Stroessner, paraguaio, no tempo da ditadura, sob supervisão do governo americano. O aumento da temperatura interna no Paraguai entre as correntes políticas divergentes fugiu, porém, do controle institucional precário interno, levando os movimentos sociais, que colocaram Fernando Lugo no poder, a atuarem coordenadamente com  as demandas políticas bolivarianas. Estas, taticamente, não apenas se somam às demandas da própria elite paraguaia, interessada em novo acordo financeiro Brasil-Paraguai, mas, igualmente, ultrapassam tais demandas, intensificando defesas no plano da mudança política, a fim de levar à superação da democracia representativa para a democracia direta, compatível com o processo socialista bolivariano.

Nesse contexto, como estão sendo comprovadas as ações políticas práticas decorrentes das palavras de ordem bolivarianas, as elites tradicionais correm o risco de serem amplamente ultrapassadas. Não foi outra coisa o que aconteceu em Honduras, no momento em que Manoel Zelaya, ancorado no discurso da democracia direta, avançou sobre as elites tradicionais hondurenhas, cujo caráter e motivação históricos é semelhante, ideologicamente, ao das elites paraguaias, com o discurso de aprofundamento institucional, a fim de mudar de mão o poder, tirando-o dessas elites conservadoras, para tentar colocá-lo, revolucionariamente, sob democracia direta, em mãos dos movimentos sociais.

Jogo geoestratégico itamaratiano

O chanceler Celso Amorim jogou politica e geoestrategicamente para minimizar a influência em ascensão do presidente Chavez, no Paraguai, no rastro do avanço dos movimentos sociais, que colocariam as relações Brasil-Paraguai em novo patamar de eletricidade diplomática, capaz de dificultar os acertos em torno de uma diplomacia convergente não totalmente aderente ao bolivarianismo socialista chavista

O Itamarati , diante da movimentação política contraditória paraguaia e consciente da relativa semelhança dela com o movimento que detonou a crise de Honduras, costurou, rapidamente, novo acordo Brasil-Paraguai, para fortalecer a posição fragilizada de Fernando Lugo, internamente, em razão da sua fama de padre mulherengo, que escandalizou a classe média conservadora, ligada às elites políticas tradicionais.

A renovação do acordo em novas bases, que permitirá aos paraguaios disporem de maior volume de capital proveniente das receitas energéticas de Itaipu, fortalece Lugo, mas, também, os seus opositores, enquanto relativiza a força que a pressão dos movimentos sociais produzia em favor do avanço do discurso chavista no Paraguai.

Pelo acordo inicial, o Paraguai e o Brasil dispõem, cada qual, de 50% do total da energia produzida pela maior hidrelétrica do mundo. Como o Paraguai utiliza somente 5% do total de energia a que tem direito, comprometeu-se, quando o país era dominado pela ditadura do general Stroessner, a vender, obrigatoriamente, os 45% restantes para o Brasil, descontado o pagamento da dívida e dos juros.

Pelo novo acordo, que deverá ser assinado nesse sábado, 25, em Assunção, depois da reunião dos países do Mercosul, na capital paraguaia, as regras mudam substancialmente. O Paraguai poderá vender no mercado livre a sua parte, tanto para as empresas privadas, no Brasil, como para a Eletrobrás, empresa estatal. Os acertos continuariam comprometidos com as duas partes negociando entre si. Não haveria possibilidade de o Paraguai vender sua parte para a Argentina ou Chile, por exemplo, exceto a produção de outras usinas que dispõem no país.

A previsão é a de que o governo paraguaio venderá pelo triplo do preço, segundo as informações dos bastidores. Atualmente, a Eletrobrás compra por 120 milhões de dólares os 45% do direito paraguaio. Deverá essa quantia pular para 360 milhões, uma despesa que será debitada ao contribuinte brasileiro.

Tal débito virá não, certamente, em forma direta, de assalto ao bolso, via aumento da tarifa de energia, mas em forma indireta, de imposto, cobrado mais à frente, porque o governo assumirá  custo em forma de aumento de déficit público – inflação de sub-solo – , elevando-o em escala ainda mais intensa do que a que ocorre, nesse momento, em que  concede vantagens fiscais e creditícias aos diversos setores produtivos, financeiramente, encalacrados na bancarrota produzida pela grande crise global.

Dólar pode ser descartado

As reservas em dólar da China e do Japão que estão sendo jogadas maciçamente na América do Sul estimulam discussões para acelerar trocas comerciais em moedas locais, para evitar colapsos cambiais

Não estaria fora de cogitação, no novo acordo, uma mudança da referência monetária a  nortear o contrato entre as duas partes. Como avança , na América do Sul, proposta de trocas comerciais por moedas locais, inicialmente, colocadas em prática entre Brasil e Argentina, com tendência a generalizar-se na relação dos demais países sul-americanos entre si, no compasso da desvalorização acelerada do dólar, poderia constar do novo acordo, novidades surpreendentes.

Os termos do novo acordo , que não vieram, inteiramente, à luz, considerariam , em cláusulas específicas, como se admite nos bastidores petistas, cláusula de pagamento por meio de moedas locais, brasileira e paraguaia, conforme interesse soberano dos dois países. Tal inovação, se ocorrer, criaria fato político extraordinário. Pode ser que não venha num primeiro momento, para não levantar controvérsias explosivas, mas estaria aberta porta para que, num segundo instante, houvesse consideração nesse sentido, no ambiente em que a moeda americana sofre contestação internacional como pressuposto para continuar como equivalente mundial nas relações de trocas globais.

Pelo lado brasileiro, os empresários, que já estão enfrentando redução geral do nível de atividade econômica, temem consequências a serem produzidas pelo aumento do déficit público brasileiro, principalmente, no instante em que a taxa de juro cai e leva os banqueiros a resistirem, de agora em diante, a financiar, em escala acelerada, a dívida pública interna. A selic recuou, na última reunião do Copom, nessa semana, de 9,25%, para 8,75%, embora as taxas de juros , para o comércio e a indústrias continuem escorchantes, criando fato inquietante para os bancos continuarem bancando compra de títulos da dívida pública interna de forma permanente.

Por outro lado, no entanto, os empresários paraguaios, com o aumento da renda interna, proveniente dos recursos de Itaipu, em escala bem mais ampla, terão novas oportunidades de investimentos. Como a base industrial paraguaia é insuficiente, para atender uma demanda crescente de consumo, caso ocorra, seriam, naturalmente, os empresários brasileiros os que disporiam de chances para atender as demandas paraguaias, salvo se não conseguirem competir com a concorrência chinesa.

Favorecidos pelo excesso de reservas em dólares, os chineses e, também, os japoneses, intensificam a desova de moeda americana, em processo de ampla desvalorização, adquirindo ativos seguros na América do Sul, para fugirem dos prejuízos, ao mesmo tempo que a entrada de cambiais dolarizadas no continente sul-americano valoriza as moedas dos países, detonando a indústria brasileira e argentina, principalmente, levando os investidores dos dois países ao confronto, expresso, de ambos os lados, na defesa do protecionismo. Nada melhor para os chineses e japoneses. O Japão, por exemplo, durante a semana, fechou contrato para importar etanol brasileiro, pagando, naturalmente, a mercadoria com as reservas em dólares desvalorizados que dispõem. Assustadas, as autoridades japonesas tentam, de todas as formas, desovarem moeda americana disponível em seu caixa. Estão completamente temerosos quanto ao futuro incerto do poder monetário de Tio Sam, atolado em déficits que impedem a capacidade dos Estados Unidos continuarem a ser o carro-chefe da demanda global, como alertou o próprio presidente Barack Obama, na recente reunião do G-14, na Itália.

Moeda sul-americana em marcha

O acordo Brasil-Paraguai pode acelerar moeda sulamericana e consequentemente fortalecimento das trocas sulamericanas, ancoradas em banco sulamericano e parlamento sulamericano, que se deslancham no compasso da crise global, mesmo diante das resistências gerais dos que ganham com a dependencia sulamericana dos capitais externos que, referenciados em dólares, desvalorizam-se aceleradamente

Os paraguaios, nesse contexto, continuarão preferindo, logicamente, os produtos manufaturados chineses, muito mais baratos do que os produtos brasileiros e argentinos, cujas exportações estão sendo limitadas pela valorização do real e do peso. A busca de trocas comerciais na América do Sul por meio de moedas locais tenderia a ganhar adeptos, não somente para nortear a realização do novo contrato de Itaipu, mas, principalmente, para evitar que os asiáticos, cheios de dólares em caixa, destruam as moedas dos países sul-americanos, no compasso da crise global.

A não resolução do impasse monetário – que coloca o dólar em escala acelerada de desvalorização como ameaça à estabilidade sul-americana, nesse momento – cria ambiente, tanto para intensificação de trocas comerciais por meio das moedas locais, como, da mesma forma, para emergência da moeda sul-americana.

O Banco do Sul, que já está pronto para ser lançado, e o Parlasul, parlamento sul-americano, igualmente, articulado, para começara a funcionar,  tenderiam a acelerar sintonias sul-americanas capazes de coordenar ações econômicas, sociais e , sobretudo, políticas integracionistas como resposta às ameaças que o vendaval monetário dolarizado-desvalorizado produz em escala incontrolável.

A não superação desse risco, que coloca em xeque as atividades produtivas na América do Sul e a própria integração econômica sul-americana, vai se transformando, quanto mais ameaçadora se torna, em combustível para o fortalecimento e ampliação dos movimentos sociais que desfraldam a bandeira chavista socialista bolivariana.

Seu arco de influência, acaba, inclusive, de chegar ao Brasil por meio do senador Cristovam Buarque(PDT-DF), ao pregar plebiscito bolivariano contra o presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP). O parlamentar brasiliense, descrente da democracia representativa, que elege para conselho de ética, para julgar  o presidente do Senado, a própria anti-ética em pessoa, o senador Paulo Duque(PMDB-RJ), que desdenhou, vergonhosamente, a opinião pública, considerando-a descartável e volátil. Escândalo que apenas fortalece o jogo político chavista.

A onda socialista bolivariana pegou carona na crise política do Senado, que se desenrola em plena crise econômica, detonando desempregos, queda de arrecadação e fragilização do PAC, com o qual o presidente Lula pretende fazer da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora na eleição presidencial de 2010.