Deficit segura desemprego, populariza Lula e inferniza oposição na sucessão presidencial

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 29-07-2009

Na Argentina, o pau está quebrando nas ruas, com as massas desempregadas exigindo mais participação do dinheiro estatal na produção e no consumo, para ev itar bancarrota geral

Os números do desemprego, divulgados pelo IBGE, sinalizando estabilização e ligeira queda, em decorrência das medidas anticíclicas adotadas pelo governo, cujos resultados práticos são deficits crescentes,  para evitar bancarrota geral do setor privado, no colapso global, ajudam a bombar a popularidade do presidente Lula. Consequentemente, tenderiam a favorecer, também, a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a preferida do titular do Planalto para sucedê-lo, se ela desenvolver suficiente empatia com eleitores e eleitoras.

Se estivesse ocorrendo o contrário, ou seja, se a taxa de desemprego, nas sete regiões metropolitanas, registrasse, em vez de redução dos 15,3% em maio para os 14,3% em junho, aumento dos desempregados, com a taxa expandindo, por exemplo, para 20%, o clima político no país estaria mais quente, bem mais agitado.

No lugar de estar com a popularidade beirando os 90%, como têm atestado os institutos de pesquisa, o presidente  poderia estar com ela na casa dos 40%, acossado pelos desempregados, como acontece com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que perde prestígio de forma ascendente, no plano interno, por conta do avanço dos demitidos.

Tudo estaria pior no meio da bagunça política, com a desmoralização total do Legislativo e das lideranças que perderam toda credibilidade. Tal desarticulação de um dos poderes da República, poderia, em meio ao desemprego, gerar motivações revolucionárias bolivarianas, para aprovar legislação trabalhista protecionista.

Pintaria, com grandes chances, movimentação em favor do plebiscito por democracia direta, participativa, rompendo com o jogo democrativo meramente representativo, dominado por lideranças corrompidas.

Lula joga todas as suas fichas no deficit para continuar tentando estabilizar a taxa de desemprego e diminui-la, para não ter que enfrentar as pressões dos desempregados que já começam a acontecer nos Estados Unidos e EuropaA crise do Senado, em contexto de desemprego asc endente e não relativamente cadente, embora no Brasil a situação esteja melhor do que nos países desenvolvidos, financeiramente em bancarrota, poderia se transformar em estopim para radicais acenderem o fósforo.

A política anticíclica anti-deflacionista, inflacionária, expressa no aumento crescente do endividamento governamental, para salvar as empresas, enquanto concede a elas desoração fiscal, de modo a manter relativamente constante sua taxa de lucro, representa o principal sustentáculo do país contra a crise.

Lula está com pé no acelerador. Prega outro PAC, para início do próximo ano e destaca que depois de conceder subsídios à produção, fará o mesmo relativamente ao consumo.

Adiantou que é  melhor colocar dinheiro no bolso do contribuinte consumidor do que no das empresas. Com dinheiro , o consumidor vai lojas e consequentemente ajuda a aumentar a arrecadação, com a qual se faz dinheiro para incrementar investimentos públicos etc.

O aumento dos recursos para o Bolsa Família, no segundo semestre, igualmente, é bombeamento estatal para sustentar a demanda efetiva, jogando mais dinheiro no bolso do pobre, como se faze relativamente ao rico, via desoneração. Se a Bolsa Família, para os miseráveis, de um lado; há o Bolsa-IPI, para os industriais, de outro. O conceito é o mesmo. Deficit e mais deficit contra a desaceleração.

O deficit público, o aumento da quantidade de oferta de dinheiro estatal na economia, mobilizando a produção e o consumo, fazendo o papel que o setor privado, sozinho, não teria condições de fazer, no cenário em que o crédito à produção e o consumo está desacelerado, em escala global, transformou-se na variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, sem a qual o sistema político poderia ir para o brejo.

 

Opção comum de todos governantes

 

Nos Estados Unidos e Europa, berço da crise especulativa, o sistema financeiro, sem dinheiro para irrigar o crédito, mas, ao contrário, sem ele, porque está falido, coloca em risco a estabilidade da democracia

O fenômeno não é brasileiro, é global. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bem como seus colegas da Europa, que mais sofrem pressões pela avalanche do desemprego, fazem a mesma coisa.

A opção pelos investimentos estatais apressou aprovação na assembléia de Paris de projeto de lei que visa construir uma nova Paris, por cima da velha capital da França. Avenidas flutuantes à vista.

Movimentaria, diz a justificativa do projeto, toda a infra-estrutura nacional, como aconteceu na segunda metade dos anos de 1850. Naquela ocasião, a capital francesa foi inteiramente repaginada, com abertura de largas avenidas, mediante projeto do arquiteto Haussemam. Dinamizou a demanda efetiva global francesa e européia no momento em que havia desaceleração capitalista dada por emergência da deflação. Os economistas do velho continente são escolados.

Presidente Sarkozy , da França, se prepara para renovar e embelezar Paris futurista para sair da crise do desemprego por meio da ampliação do deficit públicoO investimento francês , trocado em miúdos, é o mesmo realizado pelos demais governos, em todo o mundo, voltado para elevar a demanda efetiva que ficou paralisada pela bancarrota financeira, que deixou de promover a acumulação ampliada capitalista.

A impossibilidade de tal acumulação, na escala necessária, para dar rendimento ao capital já excessivamente sobreacumulado, especulativo no ritmo em que o capitalismo financeiro alcançou, girando, segundo o BIS, 580 trilhões de derivativos, voltados ao incremento do varejo mundial, nos últimos 20 anos, colocou ponto final na capacidade do setor privado sobreviver mediante economia de mercado.

Os intrumentos básicos da economia de mercado nos países capitalistas desenvolvidos, que sempre foram o crédito direto ao consumidor a juros baixos, foram para os ares. As empresas perderam a capacidade de levantar dinheiro, descontando seus papeis nos bancos, que os comerc ializavam em escala global, derivatimente ao infinito. Acabou uma era do crédito sem limites. Seria possível existir capitalismo sem o padrão de acumulação necessária capaz de continuar sustentando a acumulação ainda mais ampliada?

Com os mecanismos da reprodução do capital estourados na relação empresas-sistema financeiro, o circuito da produção teve , está tendo, que ser reativado, mais intensamente do que antes, pela demanda estatal, via elevação dos deficits públicos.

Sem déficit, a taxa de desemprego estaria em nível colossal,  explodindo e derrubando governos.

 

Oposição sem discurso

 

Desalento total dos trabalhadores, mesmo os que estão mais preparados, com capacitação profissional, escapam da desaceleração capitalista, que perde, com a especulação, o instrumento de reprodução ampliada do capital

Nesse novo contexto, a oposição fica sem discurso. Os economistas que estão alertando para o perigo de expansão do deficit, não estão vendo que sem ele, o perigo para o capitalismo seria muito maior, em face do colossal desemprego que emergiria.

Foi-se o tempo, na era do populismo cambial, que os economistas ganharam fama de fazer presidentes, como foi o caso do plano cruzado, de congelamento dos preços, e do plano real, com troca de moedas, a ruim, inflacionária, por outra, sem inflação, enquanto se abria espaço , via sobrevalorização da moeda nacional e elevação de juros, para girar a economia atraindo capital externo especulativo.

O governo , nessa nova etapa da economia, entra em choque com os bancos, porque precisa exercitar política monetária que alaga a circulação capitalista de modo a manter juros baixos. Do contrário, a ação anticíclica estatal teria que enfrentar  juros altos, lançando desconfiança generalizada do mercado financeiro relativamente ao fôlego governamental para pagar dívidas.

A crise argentina já levou Cristina Kirchner à derrota nas eleições parlamentares e prepara novas armadilhas para ela em face da desaceleração econômica que sinaliza crise cambial e fuga de capitais na Argentina, sacudindo os trabalhadores e predispondo-os à greve e às agitações políticasNessa semana, por exemplo, o presidente Barack Obama se prepara para lançar 3 trilhões de dólares na circulação. Com uma mão , ele joga moeda para irrigar a base monetária, enquanto, com a outra, joga papel para enxugar parte dela, a fim de evitar enchente hiperinflacionária.

A dívida, crescendo, dialeticamente, no lugar da inflação, alivia, temporariamente, a situação. Há uma clara fuga para frente. Os banqueiros, nesse cenário, têm que conviver com os juros baixos, porque senão emerge a crise política do desemprego, se o Estado sofrer corrida cambial.

Trata-se, enfim, de um jogo de poquer. O governo tem redobrar suas apostas no deficit, enquanto os bancos, mesmo que a cntragosto, entram no jogo, porque a alternativa seria, em meio ao desemprego sob juro alto, pressão para a estatização bancária.

A oposição, se levantar comprar a tese neoliberal, do perigo do deficit público, obrigará o governo a levantar o seu contrário,  a antítese, o perigo do desemprego, a fim de gerar uma síntese cujo perfil ainda não pode ser dado, porque a crise está em pleno curso.

Na prática, escolhe-se o mal menor, ou seja, o deficit para bancar o desemprego. Qual oposicionista guerrearia a favor do aumento do desemprego?

Se os banqueiros não acelerarem a queda dos juros ao consumidor, para que , por meio do consumo possa haver sustentação da demanda efetiva global da economia brasileira, fortalecem o argumento em fav or da intervenção estatal nos bancos privados em nome do interesse público, como já vem fazendo em relação aos bancos oficiais.