Real em crise pode provocar Dilmécio: Dilma+Aécio

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 08-07-2009

 

A disputa entre Serra e Aécio dentro do PSDB pode implodir para levar o titular de Minas a aliar-se com Lula , compondo com Dilma, em 2010, criando fato totalmente novo no cenário da sucessão presidencial

A  grande crise mundial tende a reservar surpresas ainda não admitidas pela racionalidade política, mas que podem pintar, principalmente,  se  a instabilidade econômica aprofundar-se por força do tsunami hiperinflacionário que vai se formando no ambiente de elevado endividamento governamental decorrente da necessidade de o Estado entrar em cena para salvar da bancarrota os setores produtivos em geral, elevando o endividamento público, mediante déficits incontroláveis. Aparentemente, a inflação está cadente, mas, seu conteúdo oculto, real  e latente, a dívida pública interna em expansão sem controle, crescendo, dialeticamente, no lugar da própria inflação, demonstra estar em andamento outra essência, muito mais perigosa. Não apenas para o governo Lula, mas, para todos os governos capitalistas atuais, sufocados pelas contradições que pegaram o capitalismo pelo pé e o viraram de ponta cabeça. O décimo quinto aniversário do Plano Real, que uniu, para comemorações, fragilizadas lideranças governistas e oposicionistas, sacos vazios que, isoladamente, não se sustentam, deixou claro que os enigmas e perigos estão no ar. Evidentemente, o governo Lula não suportará, por muito tempo, a combinação demoníaca de drástica redução da carga tributária, gerada pela desaceleração da economia, com a sustentação do Programa de Ac eleração do Crescimento(PAC), que, para ser materializado, exige ingressos tributários crescentes, no rítmo em que vinha ocorrendo antes da falência financeira americana que contaminou a praça mundial, paralisando tudo. Se , no tempo da bonança, o ritmo do PAC já era criticado, por conta de sufocante burocracia, no tempo oposto, instalado pela grande cirse, nem se fala. Por falta de recursos, o programa governamental vive de encenação midiática, pura mentira. Mais alguns meses de previsível queda de arrecadação, a situação tenderia a ficar dramática, evidenciando a incapacidade do Planalto, no ambiente de desaceleração ou lentíssima recuperação, de evitar desajuste cujas consequências sugeririam, no plano político, soluções cesaristas , tipo terceiro mandado, se a política, em clara deterioração ético-moral, não der conta do recado, fazendo valer a democracia. Nesse contexto, em que o governador tucano de São Paulo, José Serra, admitiu, segundo o Valor Econômico, não disputar a eleição de 2010, talvez por perceber, intuitivamente, que seu objetivo não seria alcançado, salvo via quimérica união política nacional, dadas as circunstâncias, nacionais e internacionais, cujos desdobramentos não podem, racionalmente, ser percebidos a priori, não estaria afastada a possibilidade de, no vácuo aberto por ele, surgir o que sugeriu o senador Aluísio Mercadante(PT-SP), em seu discurso de síntese sobre o décimo quinto aniversário do real, ou seja, a imperiosa necessidade da união. Abriu chances ao até agora inimaginável, à convergência entre governistas e oposicionistas.

 

De Gerson para Pelé

 

Com visão extraordinária de futuro, Mercadante pregou a união governo-oposição para manter a sobrevida do plano real ameaçado pela grande crise global

Roubando a cena, que estava montada pelos tucanos, para endeusar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Mercadante, sem dúvida, a melhor cabeça do Senado, na atualidade, demonstrou extraordinário descortínio, ao destacar acertos e erros do Plano Real. Ressaltou, equilibradamente, acertos e erros da oposição petista ao real, quando foi lançado, primeiro, pelo presidente Itamar Franco(1993), em seguida, pelo presidente FHC(1994), e, igualmente, destacou  acertos e erros da oposição tucana, na sequência do real, na Era Lula. Num rasgo de premonição, o senador paulista previu que a estabilidade, no embalo da crise mundial, dependeria de  acerto e combinação das duas partes , na sequência histórica do Plano. Abriram-se, consequentemente, amplas possibilidades para eventual materialização da pregação seguinte do governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, de que o interesse nacional impõe a sabedoria política da união para a preservação da obra econômica e política maior da Nova República, herdeira da ditadura militar. Subitamente, um manto de concórdia se espraiou durante a valsa juvenil do real em um plenário lotado do Senado em simbólica sessão histórica, na terça, 07. Um quadro inverso ao que se tem verificado nas últimas semanas, em que oposição e governo estão totalmente rachados por conta da crise administrativa da casa senatorial, manchada de corrupção por todos os lados, sem que se possa dizer quem tem ou não razão, senão os 81 senadores que, juntos, são os responsáveis pela obra final.  As palavras de Mercadante, segundo as quais se fazem necessários encontros mais assíduos entre o ex-presidente FHC e o presidente Lula, para acertos de rumos e traçados de futuros, retumbaram forte. Em sua fala final, FHC, rendendo-se à tal proposta, sensibilizou-se e destacou que sugestão nesse sentido deve ser feita à autoridade maior. O passe genial  de longa distância lançado por Mercadante, qual Gerson para Pelé matar no peito e bombar as redes da Tchecoslováquia, em 1970, consagrando o tri-campeonato mundial, foi dado para Lula na boca do gol. José Prates, prefeito de Salinas, Minas Gerais é a síntese que levará à formação de correlação de forças que unirá o país para vencer as forças conservadoras que impedem o verdadeiro desenvolvimento de uma agenda nacional com enfase no mercado interno, para romper as articulações históricas que construiram uma elite que atua com a cabeça alienada dominada de fora para dentro a serviço dos interesses que marginalizam a população em favor de uma minoria que eterniza privilégiosNo compasso da grande crise, em que nem oposição nem situação tem a chave para, isoladamente, resolver os impasses emergentes, o titular do Planalto desperdiçará ou emplacará? Se Lula está com a bola toda, traduzida em 80% de popularidade, que o credenciam  a bancar a candidatura da sua preferida, ministra Dilma Rousseff, que vai vencendo, galhardamente o câncar linfático; se Serra, que cometeu pecado político capital por estar ausente em Brasília em dia histórico, parece jogar a toalha em face dos problemas que requerem despreendimentos totais da individualidade política, para serem ultrapassados; e se Aécio, num rasgo de sabedoria e esperteza mineiras, viu o clarão, que foi percebido como escuridão pelo governador de São Paulo, estaria aberta a possibilidade da pregação em marcha do prefeito de Salina, José Antônio Prates(PTB-MG), para 2010, favorável à chapa DILMÉCIO = DILMA + AÉCIO? Ou seria ADIL? O capital de Aécio para formação da unidade nacional já foi dado. O de Serra ainda não. Basta perceber a ação dos dois nas últimas eleições municipais. Aécio, em Minas, costurou com o PT a vitória do prefeito Márcio Lacerda(PS-MG); em São Paulo, Serra, opostamente,  partiu para o pau, rachando seu próprio partido, na disputa com o candidato petista, para dar vitória ao prefeito Gilberto Kassab(DEM-SP). Ambos, Aécio e Serra, foram vencedores, mas, enquanto o titular do Palácio da Liberdade, deixou rastro de concórdia, o titular do Palácio dos Bandeirantes salpicou o chão paulista de discórdia. Por que a estratégia mineira não poderia ser repetida no plano nacional?

 

Plano traçado por Washington

 

FHC se disse pronto a estender as mãos ao acordo político capaz de garantir a estabilidade econômica sob o real ameaçada pela crise internacional, como solução adequada ao interesse nacional

Os inumeráveis discursos de loas ao Plano Real não focaram o principal: o olho do capital. O capitalismo, em sua evolução contraditória, somente pode ser entendido, segundo Marx, se acompanhado pelo olhar do próprio capital. Os adoradores do real olharam-no com o olhar dos subordinados ao capital.  O Plano Real foi concebido em pleno domíno das determinações do Consenso de Washington pelos países credores. Os ajustes macroeconômicos adotados pela periferia capitalista obedeceram estritamente as ordens da Casa Branca nas linhas principais da política monetária, fiscal e cambial. O câmbio flutuante, o superavit primário e as metas inflacionárias são imposições dadas de fora para dentro, que ajustaram, de acordo com o interesse do capital externo, a bagunça hiperinflacionária decorrente , não dos erros da política econômica interna, mas do ajuste brutal da economia americana, adotado no final dos anos de 1980, mediante aumento exorbitante da taxa de juro americana em nome do combate à inflação. O excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, que inundavam a praça mundial desde o final da segunda guerra mundial – primeiro para salvar a Europa dos braços do comunismo e, segundo, para sustentar a guerra fria, a fim de derrotar os comunistas – , ameaçava a credibilidade do dólar e levava o sistema financeiro internacional a desconfiar da saúde da moeda americana já no início dos anos de 1970. Os pacoteiros brasileiros não entenderam a lição de Marx: leram o movimento do capital pelo olhar dos dominados e não dos dominantes. Só poderiam inverter a realidade, fetichistamente.Em 1974, Washington, sob ameaça da social democracia alemã, que queria resgatar seu ouro nos cofres do tesouro americano,  rompeu a paridade ouro-dólar, deixando a moeda americana flutuar. Beiço geral de Tio Sam na praça global. Em seguida, em 1979, a Casa Branca aumentou a taxa de juros de 5% para 17%. Na ocasião, o ministro do Planejamento do governo Figueiredo, Delfim Netto, sob pressão para justificar o desarranjo geral da economia brasileira e mundial, justificou que Tio Sam tinha a missão de salvar o ocidente do comunismo. A questão política essencial não foi discutida, como sempre, pela grande mídia, dependente do capital externo, que mandava no jogo, de forma imperial. A subida dos juros americanos, evidentemente, quebrou os países devedores em dólares, caso do Brasil. O governo brasileiro lançou mão das empresas estatais para levantar empréstimos, a fim de fechar balanços de pagamentos. A dívida, que já era alta, ficou insuportável. Os preços especulativos fugiram do controle. Os planos de ajustes, como o Plano Brady, emergiram imperialmente, para enquadrar a periferia capitalista. Os embaixadores americanos eram, na ocasião, os verdadeiros governantes na América Latina. Os militares brasileiros tentaram maxidesvalorizações, para levantar dinheiro via exportações. Como o mercado interno não era levado em conta, dada a insuficiência crônica de consumo decorrente de modelo de desenvolvimento econômico, essencialmente, exportador, o resultado foi hiperinflação. Os economistas que subiram ao poder com a queda de Delfim e dos militares, em vez de buscarem a raiz do problema, correram para a Casa Branca, culpando Delfim por tudo, de modo a receber as novas ordens ditadas pelos planos salvacionistas, que configuraram a essência do Consenso de Washington. Os pacoteiros da Nova República tentaram sacrificar Delfim Netto em vez de mergulharem nas verdadeiras causas da inflação que a abalou a periferia capitalista depois da crise monetária dos anos de 1980No ambiente de restrição de empréstimos externos e de pressões inflacionáridas, decorrentes das maxidesvalorizações cambiais, o resultado não poderia ser outro senão hiperinflação. Os governos neorepublicanos , a começar pelo do presidente José Sarney, foram engolfados, totalmente. Os planos antiinflacionários surgiam ao sabor das pressões do FMI, que determinavam as premissas básicas das políticas monetárias, fiscais e creditícias. O salário mínimo era anuncia por Ana Maria Juhl, a célebre chefe da missão do Fundo. Os demais que a substituiram fizeram o mesmo. O Palácio do Planalto apenas cumpria a ordem externa e ponto final. O Plano Real, depois dos fracassados planos cruzado, collor, cruzeiro novo, bresser, feijão com arroz etc, mudou a aparência hiperinflacionária expressa no descontrole geral dos preços, para traduzir a essência hiperinflacionária oculta e latente na dívida pública interna, mediante sobrevalorização cambial, ou seja, o famoso populismo cambial. Os preços, com a mudança de moeda, cairam, graças ao novo real sobrevalorizado, que passou a importar barato. A inflação desabou. FHC faturou seus dois mandatos, mole. Contudo, o seu oposto, em movimento dialético, se realizou na expansão incontrolável da dívida pública interna, que passou a crescer no lugar da inflação, como destacou Lauro Campos, em “Capitalismo e barbárie”(2000, Senado). O desajuste fiscal, para não se aprofundar, em meio a um contexto em que os empréstimos externos diminuiram, dado o risco que o próprio FMI viu na emergência do real, obrigou o governo a subir a carga tributária de forma irracional. O poder se centralizou absolutamente em Brasília sob comando das forças financeiras paulistas. A Federação virou caricatura. Ao mesmo tempo, o Congresso, prisioneiro das ordens dos credores, já havia, em 1988, segundo o autor da “Crise da ideologia keynesiana(1980, Campus), inserido na Constituição o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, para proibir contingenciamento de recursos orçamentários destinados ao pagamento dos serviços da dívida. Ajoelhou-se à governabilidade eternamente provisória, abrindo espaço ao avanço da corrupção. A prioridade total da Nova República, portanto, passara a ser não o desenvolvimento , mas o pagamento dos juros compostos aos banqueiros. Escravidão jurista. O maior crítico da Era FHC, totalmente, ignorado pela grande mídia, viu o Plano Real, como Marx, pelo olhar do capital externo, que mantém domínio sobre a economia brasileira, desde o tempo da independencia, impondo seu jogo e exigindo recompensas altas em forma de juros compostos, que desarticulma a economia e garentem governos subordinados a ele, para o bem e para o mal, sempreAs crises externas que os tucanos dizem que a Era FHC enfrentou – a mexicana, a russa, a argentina, a asiática e, claro, a brasileira – foram, evidentemente, produzidas pelos Estados Unidos em nome da salvação do dólar. Inexistia soberania nacional para falar mais alto do que as pressões de Tio Sam. Lula substitui FHC , prometendo seguir o figurino. Deu sorte, porque no seu período, houve bonança mundial especulativa. A grande crise, agora, jogou tudo para os ares, e as premissas sobre as quais o Plano Real se sustenta, a partir das ordens de Washington, implodiram. No ambiente em que o Estado entra na economia para salvar o setor privado da bancarrota, não dá mais para bancar o câmbio flutuante, nem metas inflacíonárias e muito menos superavit primário. Até a Igreja Católica entrou em campo para afirmar que o mercado, pregado pelo Consenso de Washington, que escravizou governos neorepublicanos, acabou. O futuro do real , portanto, está nas mãos da política, e não mais da economia. O senador Aluísio Mercadante, ao pregar união da oposição e da situação, para enfrentar o que vem por aí, demonstrou grande lucidez. Certamente, para não sentar ao lado do senador José Sarney, como fez Aécio Neves, o governador Serra, que ficou calado, talvez não acreditando nessa pregação mercadantina, imaginando, quem sabe, que a implosão pudesse favorecê-lo, perdeu grande oportunidade ao não vir a Brasília, nessa terça, para engrossar a corrente político-unionista traçada pelo senador paulista. O governador mineiro não deixou a oportunidade passar. Montou no cavalo arriado, possivelmente, na garupa de Dilma. Se vai dar certo a proposta de José Prates, só a história dirá, mas ela se sintoniza com a lógica, no compasso da derrocada do real, cuja salvação depende da união nacional.