04 jul
2009Sucessão com hiperinflação
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 04-07-2009
Tags : Adicionar nova tag

A sucessão do presidente Lula pode rolar em ambiente de hiperinflação global. O aparente otimismo, tanto na cena mundial, como na brasileira, esconde o essencial: a crise ainda não mostrou sua verdadeira cara, que se expressa no avanço incontrolável do excessivo endividamento hiperinflacionário dos governos em geral, a fim de tentar salvar os setores privados em bancarrota, graças à queda acentuada do consumo, cujas consequências desatam guerras comerciais. Os últimos relatórios do BIRD , Banco Mundial, e BIS, Banco de Compensações Internacionais, não deixam dúvidas: avança o fantasma hiperinflacionário. O jogo da hiper em marcha é claro: com uma mão, os governos jogam dinheiro na circulação para ativar a produção; com a outra, lançam títulos, para enxugar parte da liquidez monetária, de modo a evitar enchente inflacionária. A dívida, dialeticamente, cresce no lugar da inflação. Mas, até quanto terão fôlego para bancar o jogo keynesiano, que tende a deixar de ser solução para virar problema?
A corrida dos governos, inclusive, o do Brasil do presidente Lula, ao endividamento generalizado, como alternativa econômica anticíclica, esconderia a verdadeira natureza da grande crise, desatada pela bancarrota financeira americana em outubro do ano passado, que se espraiou, primeiro , pela Europa, derrubando o euro, em seguida , aos países asiáticos, dependentes, visceralmente, do mercado consumidor americano, onde desovavam suas mercadorias, mediante moedas desvalorizadas, e , finalmente, nos mercados emergentes.
Ou seja, o pior ainda não aconteceu. Os alertas começam a ser dados, de forma contida, mas o medo é geral na praça internacional, medo esse que procura ser expresso em forma de aparência de recuperação. No fundo, esconde-se a preocupação central quanto à verdadeira essência do que poder vir por aí. Cauteloso, o governador de São Paulo, José Serra, economista, estudioso de crises financeiras, suspendeu especulações sobre sua possível candidatura. Disse aos aliados, conforme adiantou o jornal Valor Econômico, que pode, inclusive, não sair candidato. Teme, no fundo, estouro geral. Sua posição estratégia, também, é de esconder o jogo, porque eventual descarrilhada geral da economia reservaria surpresas que ultrapassariam todas as considerações postas por enquanto na mesa dos analistas políticos.
Tio Sam está falido

O ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, começou a alertar para a possibilidade de volta da inflação, por conta da generalizada corrida governamental, tanto nos Estados Unidos, como Europa e Japão, ao endividamento incontrolável. Deixou visível seu assombro quanto a um possível descontrole das dívidas governamentais. As taxas de juros nos países desenvolvidos, em face dessa perspectiva sombria, estão sendo mantidas no patamar negativo, justamente, para não forçar ampliação do endividamento, que avança, incontrolavelmente, apesar disso.
Na prática, o governo Barack Obama, já, excessivamente, endividado, por força dos deficits americanos acumulados, ao longo das últimas décadas de expansões monetárias, que fragilizaram o dólar, sequer poderia imaginar aumentar os juros, como seus antecessores fizeram, nos anos de 1980, quando a moeda americana se viu diante de ameaças inflacionárias perigosas. Caso partisse para essa opção, simplesmente, teria que enfrentar a desconfiança generalizada do mercado na saúde do dólar, contra o qual poderia gerar corridas especulativas irresistíveis.
Por enquanto, a China, que está abarrotada de dólares – mais de 2 triblhões – , tenta desovar moeda americana na praça internacional, sobrevalorizando as moedas dos países emergentes em geral, para que os produtos chineses , cotados mais baratos, destruam a concorrência. Para o economista Carlos Lessa, a agressivida comercial chinesa, ancorada no excesso de moeda americana em franca desvalorização, transformou-se no maior perigo para a economia brasileira.
Os conflitos que se aprofundaram , na última semana , entre a Argentina e o Brasil, tendendo a intensificar, ainda mais, nos próximas semanas e meses, têm por trás a onda chinesa, impulsionada pela desova dos dólares desvalorizados. O ambiente de terror contido é claro: a moeda americana sofreu, nos últimos quatro meses, segundo a Bovespa, desvalorização recorde, proxima de 18%.
China divide Argentina e Brasil

Os produtos da China deslocam os concorrentes brasileiros , fabricados pelas indústrias paulistas e gaúchas, na praça portenha, onde o protecionismo praticado pelo governo Kirchner, não os deixam mais entrar. Os chineses, com a força dos dólares desvalorizados, conseguem vencer a onda protecionista kirchenista, mas o real sobrevalorizado pela onda chinesa, não dá consegue competir. Bingo.
Desesperados, os empresários correm ao governo Lula pedindo desoneração fiscal, para tentar evitar o pior, ou seja, a queda da taxa de lucro e, consequentemente, o aumento do desemprego, por conta da diminuição de mais de 40% das exportações brasileiras para o maior mercado brasileiro no Mercosul, amplamente dominado pelas mercadorias chinesas. O mesmo ocorre nos demais países sul-americanos, bloqueando, na prática, a tão sonhada integração econômica continental.
Resultado: a desoneração fiscal lulista, aumenta, por sua vez, o endividamento do governo, que deixa de arrecadar tributos, cuja receita teria que ser distribuída, constitucionalmente, para os governos estaduais. Cobre-se, temporariamente, a cabeça dos empresários, mas descobre-se o traseiro dos governadores e prefeitos.
Graças às renúncias fiscais, para tentar salvar grandes fabricantes de bens duráveis, o tesouro nacional, segundo as contas preliminares anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na quarta, 01, deverá arcar com deficits superior a R$ 3,5 bilhões. Pode ser muito mais.
Por outro lado, o governo vê-se obrigado , também, a tentar salvar, igualmente, com mais déficits, ou seja, mais pressão inflacionária, os pequenos e médios empresários, da mesma forma, financeiramente, sufocados.
Cerca de R$ 1,2 bilhão foram anunciados por Mantega para sustentar dois fundos garantidores de crédito para as empresas de pequeno porte. O tesouro – leia-se deficit inflacionário expresso em expansão monetária em marcha batida incontrolável – colocará dinheiro no Banco do Brasil e no BNDES , para apoiar empréstimos a micro, pequenas e médias empresas, bem como a microempreendedores, que não estão tendo acesso aos bancos privados, fechados e temerosos quanto a estouros de inadimplência generalizadas.
Vomitador de dólares desvalorizados
Inicialmente, seriam jogados nos fundos garantidores, R$ 4 bilhões, com poder de alavancar 12 vezes esse valor, vale dizer, R$ 48 bilhões, talvez, a fundo perdido. A capitalitação inicial ocorreria por meio de ações de sete empresas: Banco do Brasil, Eletrobrás, Petrobrás, Tractebel, Gerdau, Coelce e Usiminas, todas com aval do tesouro nacional. O objetivo dos dois fundos é subsidiar risco de inadimplências.
O ceticismo é geral no governo quanto à possibilidade de os bancos privados virem a participar desse empreendimento arriscado. Trata-se de dinheiro jogado no escuro da grande crise. Os empréstimos para capital de giro terão limite de R$ 150 mil e para investimento, R$ 500 mil. O Planalto partiu para o tudo ou nada.
Some-se a essa sangria a violenta queda de arrecadação tributária – 6% em média nos últimos seis meses – , sinalizando perdas de R$ 100 bilhões, até final do ano, e tem-se quadro que colocaria o governo em situação crítica, caso os prognósticos desencontrados dos analistas não confirmem recuperação das atividades produtivas, dadas as incertezas mencionadas , durante a semana, pelos relatores do Banco Mundial e do BIS.
Nesse ambiente de alta incerteza, marcado por turbulências políticas que desestabilizam a base política da coalizão governamental, com a Crise Sarney, o presidente Lula voltou do exterior vendendo otimismo, ao destacar que o pior já passou. Repete a onda da marolinha, em vez de falar claro, para a sociedade sobre a complexidade do quadro internacional e, consequentemente, nacional.
Tal situação, evidentemente, obriga o governo a aumentar, ainda mais, o deficit público, para evitar falência das empresas. A ampliação do déficit ganharia nova característica. A declaração presidencial de que é melhor, de agora, em diante, jogar dinheiro público, não mais nas empresas, reduzindo seus impostos, mas no bolso dos consumidores , para que se dirijam às compras, a fim de que o governo possa estimular a arrecadação, em vez de renunciar a ela, como está fazendo, demonstra tentativa desesperada. Haveria aposta no consumo e não mais na produção, que já se encontra com elevada capacidade ociosa.
Papel de parede à vista

Certamente, mais dinheiro no bolso do consumidor, resultando em mais arrecadação, diminuiria o défecit que se amplia com as desonerações fiscais, mas a resposta a essa ação desataria antagonismo cada vez mais intenso entre capital, que está levando a parte do leão, e trabalho, que padece com elevação do desemprego, decorrente da sobrevalorização cambial, que desarticula a economia, com a violenta ação chinesa, ampliada com os dólares desvalorizados, cujo remédio se expressa na corrida aos deficits.
O bode expiatório que tentam, no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, exorcizar é a secretária da Receita Federal, Lina Vieira, acusada, na última semana, de culpada pela queda dos ingressos tributários do tesouro por falta de eficiente fiscalização. Piada.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, nesse contexto, se continuar mantendo tímida a redução da taxa de juro básica, selic(9,25%, nominal, 5%, real, excluída inflação), que remunera os títulos públicos, estaria contribuindo, efetivamente, para acelerar a hiperinflação governamental, escondida na dívida pública crescente. As autoridades monetárias entraram em sinuca de bico.
O Conselho Monetário Nacional(CNM) fixou meta de inflação de 4,5% para 2010, em ambiente de superinflação disfaçarda de dívida pública, porque se fixasse abaixo desse percentual, por exemplo, 3,5%, como defendem os grandes bancos, sinalizaria necessidade de subida dos juros, para alcançar tal patamar. Mas, se subir os juros, mata Lula e sua candidata Dilma e elege, por antecipação, José Serra.