Volta por cima: renúncia à guerra, opção à paz

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No momento em que Israel aceita discutir a instalação do Estado Palestino , revertendo situação antes inimaginável, sob influxo das pressões do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que, politicamente,  desarma, tanto os israelenses, como  os palestinos, abrindo possibilidade para era da paz, pela primeira vez, depois da segunda guerra e da guerra fria; depois que a grande crise capitalista revela a falência do unilateralismo com que os Estados Unidos, como potencial mundial, conduziram o mundo , após a queda do Muro de Berlim, em 1989, adotando posição arrogante frente aos parceiros; depois que Tio Sam esgotou as energias da União Soviética, levando-a a gastar o que tinha e o que não tinha em armamentismo, como se a ideologia capitalista, que necessita da economia de guerra, se indentificasse com a ideologia socialista, para a qual a economia de guerra é a sua negação, vale a pena voltar ao posicionamento político adotado por Gorbachov, resistente aos pregadores do conflito bélico, de disseminar a perestroika, abertura dentro do sistema comunista corrupto soviético, herdado do stalinismo, chamando o capitalismo ao entendimento, tendo o papa João Paulo II como intermediário. Num primeiro momento, foi considerado rendição, com consequente emergência incontrastável dos Estados Unidos. Passados os anos, implodido o modelo neoliberal, que emergiu, no rastro da queda do Muro, mas, que, agora, demonstra fadiga de material, em face da bancarrota financeira americana e européia, ambas, igualmente, implodidas, no plano econômico, o gesto de Gorba ganha dimensão histórica. A emergência dos Brics demonstra a virada da história e vinga a abertura – perestroika – ao multilateralismo que o ex-líder russo, como socialista, prognosticou. Saravá.

Em minhas reflexões, focando no objetivo maior de Rotary, esta formidável instituição com cerca de 33000 clubes em 208 países, a busca constante da paz no mundo, questionei a mim mesmo, qual personalidade merece o  reconhecimento de minha geração?

Cerca de 3 décadas atrás, este mundo vivia uma competição absurda – a imbecilidade humana havia criado condições de auto destruição de toda forma de vida humana na terra – a corrida armamentista onde as duas superpotências com orçamentos crescentes buscavam a dominação através da força. Foi quando o líder soviético – Mikhail Gorbachev – desistiu da disputa. Para os idólatras da competição, ele perdeu a batalha, mas para nós, rotarianos e humanistas, este líder deu um passo gigantesco em prol da distensão mundial. Cada cidadão neste planeta deve muito a ele e entendo que Rotary como instituição planetária e consciência da humanidade deveria promover – tal como o premio Nobel já outorgado a Mikhail – um reconhecimento pelos relevantes serviços prestados a causa humanitária mundial. Merecem destaque também as expressivas e atuantes lideranças da época que estimularam a queda do muro de Berlim em 1989: papa Joao Paulo II que teve reunião privada com Gorbachev pouco antes da queda do muro – queria ser uma mosca para ouvir os conselhos deste polonês rude, curtido em sua juventude pelas atrocidades do comunismo na Polônia e sensível a vasta exclusão social como subproduto do capitalismo. Ronald Reagan, líder da outra potencia mundial que, no inicio de seu  primeiro mandato, cunhou a frase, “governo não pode nos ajudar a resolver os problemas, governo é o problema” 
Refleti também sobre as menções presidenciais de RI – nutrição, saúde e educação – e os fecundos e conseqüentes pensadores que moldaram o mundo em que vivemos – qual deles poderiam ser convidados para ingressar em algum clube rotário? E quais seriam repelidos pelos valores rotários.

 

Atração dos opostos

 

karl-marx-adam-smithTeria justificado orgulho de ter em meu clube rotário, Adam Smith, o professor escocês de ética e moral que viveu na segunda metade do século 18 – não apenas pelo sua obra prima – Riqueza das Nações, mas sobretudo pelo seu livro pouco conhecido e que deu embasamento filosófico ético e moral para seu pensamento – “A teoria dos sentimentos morais” de 1759 .
O polemico e fecundo pensador humanista Karl Marx – ícone do socialismo e talvez o mais pouco compreendido dos pensadores – ele morreu em 1883 e a revolução soviética ocorreu em 1917. Nunca tantos especularam sobre suas intenções – em seu nome foram cometidas aberrações dignas de fanáticos alucinados pelo poder – é preciso dessacralizar sua obra – muitos tiveram a sensibilidade de reconhecer erros no capitalismo porem agiram como sacerdotes marxistas queimando incenso a seu deus – Marx focou muito na analise critica do capitalismo e pouco explicou o funcionamento do socialismo!! Podemos dividir o pensamento de Marx em 2 grandes fases: do jovem Marx e do velho Marx. Teria muito prazer em ter o jovem Marx em meu clube rotário, sua crítica conceitual sobre o trabalho humano no capitalismo, ate hoje não teve contestação – “Ao vender sua força de trabalho – e o operário é obrigado a fazê-lo no regime atual – ele cede ao capitalista o direito de empregar essa força, porém dentro de certos limites racionais. Vende a sua força de trabalho para conservá-la ilesa, salvo o natural desgaste, porém não para destruí-la.” Em outro trecho, Marx destaca: “O homem que não dispõe de nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrupções puramente físicas do sono, das refeições, etc., está toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e espiritualmente animalizada para produzir riqueza alheia.”

 

Luteranismo econômico

 

luterokeynes-2Após estes dois ícones do pensamento filosófico com profundas repercussões nas formas de convívio da humanidade,  surgiu em 1936 a Teoria Geral de John Maynard Keynes, – é bem verdade que as propostas monetaristas foram gestadas numa conjuntura pós crise de 1929 e discutidas em Bretton Woods em 1944  num mundo com a Europa destruída pela segunda guerra mundial – embora tenha recebido o reconhecimento em sua época, a médio e longo prazo sua teoria mostrou-se um desastre –  os 64 anos de exercício prático desta teoria mostrou que a estagflação foi seu melhor resultado –  solução de compromisso entre o desemprego e inflação – uma ofensa a inteligência humana.

Ao oficializar o governo na economia, vale dizer, substituir a inexorável e impessoal lei da oferta e procura pela questionável e personalista égide da vontade humana,  Adam Smith e todos os pensadores conseqüentes devem ter se mexido no tumulo, tentando entender tamanha obscenidade e inconseqüência!! Responsabilizo a teoria monetarista pela vasta exclusão social disseminada em todo o mundo e todos os conflitos armados – muitos recursos nas mãos de poucos para decidirem conforme vontade humana – anti democrático por excelência!!!  E pouca comida na boca das crianças!! Keynes foi para a economia o que Martinho Lutero foi para o cristianismo do século XVI – viabilizou uma heresia!! Ela não resiste a prova quádrupla dos valores rotários. Não me sentiria confortável num clube rotário na presença destes senhores – seus seguidores foram mais irresponsáveis e inconseqüentes ainda – descobriram o moto continuo do processo econômico – geração de capital sem trabalho produtivo – construíram castelos no ar que estão desmoronando na mais terrível e profunda crise que o mundo está  assistindo.

 

Ronaldo Campos – Presidente do Rotary