15 jun
2009Onda gay na crise capitalista
Categoria: (Cultura) por Cesar Fonseca em 15-06-2009
Em tempo de passeata gay, explosão de narcisismo etc - como a de domingo em São Paulo, reunindo mais de 3 milhões de pessoas, mobilizando economicamente a capital paulista e deixando atentos os políticos que desejam se dar bem com os homossexuais, para obter votos – nada melhor que atentar-se ao sentido psicológico daquela estória sensacional do coronel mineiro do velho PSD – pode ser também nordestino, gaúcho, paulista etc – que só conseguia defecar quando abria o cofre alojado na parede em frente ao vaso sanitário em que se sentava. Quando via o dinheiro, ali, seguro, soltava os esfincteres. Baaaaaaaa. Livrava-se da prisão de ventre. Curtia o prazer anal. Fechava o cofre, emergia a prisão de ventre. Repressão. O reservatório de merda tinha relação direta com a prisão do dinheiro no cofre. Bem disse Marx que merda não é dinheiro, mas dinheiro pode virar merda.
Ou seja, pinta a repressão anal, decorrente e dependente da insegurança psicológica relativamente ao dinheiro guardado a sete chaves. Tal dependência é expressão repressora do prazer. Livre dos aprisionamentos econômicos, o ser humano se soltaria da prisão de ventre permanente que o sistema capitalista, com suas relações sociais polarizadas, violentas, egocêntricas, impõe em forma de desprazer do trabalho, destituindo-o de sua criatividade, para transformá-lo em mero gerador de salário não pago, mais valia.
A repressão sexual seria, evidentemente, necessária para mascarar as anomalias impostas ao processo de trabalho marcado pelas divisões sociais da produção. Reprime-se, por meio da repressão sexual, as forças energéticas humanas que poderiam ser canalizadas para romper outras repressões impostas pelo capital ao trabalho. Restringir à sexualidade reprimida a universalidade das repressões desatadas pelas relações polarizadas capital-trabalho, que alienam o trabalhador de si mesmo, transformando-o em seu oposto, de objeto em sujeito, é o jogo pansexual freudiano de centrar-se no individuo apartado do seu contexto social para analisar sua esquizofrenia.
As crises econômico-financeiras, muitos anos depois de Freud e de supressão das repressões sexuais, evidenciam, como ocorre em plena bancarrota global, a extroversão humana diante dos seus fantasmas e dão razão a Keynes.
O grande economista, filósofo e artista inglês, John Maynards Keynes(1883-1946), autor da “Teoria geral do juro, do emprego e da moeda”, que se notabilizou como contestador dos costumes conservadores vitorianos ingleses, criando e associando-se aos grupos de jovens sexualmente despojados e desreprimidos – o “Grupo de Bloomsbury”, do qual faziam parte Wirginia Woolf, E. M. Forster, Lytton Strachey etc – , previu que no final do século 20, a liberação sexual combinaria com uma humanidade cujo desenvolvimento científico e tecnológico das forças produtivas produziria condições que livrariam a sociedade das relações sociais da produção e das suas necessidades econômicas, permitindo-a dedicar-se a outras características fundamentais da vida. Ainda não se chegou lá, pelo visto.
Dentre tais características, destacava a que considerava fundamental, a arte da convivência, abrindo-se às essências, em vez da predominância das aparências e das resistências, dadas pelo processo econômico marcado por guerras, divisões e repressões, como necessárias e indispensáveis à reprodução ampliada do capital.
Homossexual assumido, Keynes profetizou ser o raiar do século 21 o tempo da bissexualidade total. Extroversão decorrente do espírito oposto ao que prevalecia no tempo de juventude do genial inglês, sob vitorianismo sexualmente conservador, que havia matado Oscar Wilde.
Sofisticado, disse que a abundância de riqueza auferida pelos burgueses na Europa e especialmente na Inglaterra, onde a revolução industrial chegou primeiro, contrastou com um espírito de poupança cultural, repressor.
Os muito ricos construiram como templo de sua própria adoração a poupança, a riqueza, que, nos Estados Unidos, no século 20, seria considerada sinal da salvação em vida na terra como benefício do céu. Não estava nos planos da burguesia do século 19 a gastança, mas a poupança.
Escravo da utilidade
“A sociedade” – diz – “era moldada no sentido de transferir uma grande parte da renda ampliada ao controle da classe com menor probabilidade de consumi-la. Os novos ricos do século 19 não tinham sido educados para grandes gastos, e preferiam o poder que o investimento lhes dava aos prazes do consumo imediato. Na realidade foi precisamente a desigualdade da distribuição dos bens que possibilitou as enormes acumulações de riqueza física e a expansão dos capitais, que diferenciavam aquela época de todas as demais”(Keynes, “A Europa antes da guerra”, 1919).
A poupança, por sua vez ,trazia em si a cultura repressora dos excessos, das transgressões, dado que a acumulação de capital decorre de uma organização sistemática imposta pelo lucro que tem no trabalho não pago, na mais valia, o seu motor. Uma consciência infeliz toma conta do pensamento burguês, que se traduz em fatores psicológicos que são restritos à individualidade isolada do seu contexto histórico social. Freud, como descreve, genialmente, Lauro Campos, em “Economia, represssão sexual e o espírito do capitalismo: nem Freud, nem Max Weber”, cometeu o mesmo erro.
A psicologia capitalista cultora da poupança reprime a sexualidade tornando-a alvo da agressividade psicológica que poderia ser dirigida para outros alvos, se, por exemplo, o espírito poupador do coronel mineiro sexualmente reprimido pelo dinheiro inexistisse. As relações sociais sob cultura poupadora promove repressão sexual como cortina de fumaça, desvio para esconder as verdadeiras causas da infelicidade social.
A decadência econômica da Inglaterra, no tempo de Keynes – como a dos Estados Unidos, sob Barack Obama, em meio à bancarrota do dólar -, proporcionou-lhe visão ampliada da debacle da moral vitoriana sob falência da libra esterlinha como equivalente geral das trocas globais, cujo destino estaria comprometido, principalmente, depois da primeira guerra mundial.
As crises financeiras, decorrentes das concorrências entre as grandes potências em busca de ampliação na periferia pelo dominio colonial, acabariam detonando a guerra e as fontes de renda financeira dos ingleses multiplicadas pelos juros compostos. O fim da bonança trouxe, ao lado da decadência da libra, afetada pelo fim da senhoriagem que garantia superavit permanente nos balanços de pagamentos ingleses, o fim das represssões vitorianas.
A liberação sexual na Inglaterra amplia-se com a derrocada da libra, sob padrão-ouro, que implode na crise de 1929, como ampliou, também - com a derrocada do dólar-ouro, que se abre ao dólar-papel simbólico deslastreado, nos anos de 1960-70 – , os valores carcomidos da cultura ocidental.
Detonaram-se os maios de 1968 mundo afora, tanto nos países capitalistas desenvolvidos como nas periferias economicamente dependentes dominadas pelas ditaduras militares políticas e sexualmente repressoras.
Os esteios econômicos e culturais rígidos, vitorianos, burgueses, represssores, falsamente moralistas, renderam-se à falta de justificativas históricas para sustentá-los.
A turma de Keynes é totalmente liberal. Ela se reproduziria planetariamente. Sua rebeldia sugere ao brilhante pensador matemático e filósofo, amante das artes e das probabilidades infinitas - que encantavam Bertrand Russell, para quem Keynes era a maior cabeça que conheceu – previsões ousadas. Estas assustavam e escandalizavam. Ao final do século 20, destacava, o ser humano estaria caminhando celeremente para libertar-se da escravidão da mera utilidade monetária. Emergiria a extroversão em forma de pensamento e comportamento sexual, liberação do sacrifício de viver somente por motivos econômicos. Utopias.
A parada gay, em São Paulo, não pode deixar de ser considerada à luz do pensamento keynesiano sexualmente livre, de sua cintilante inteligência para contextualizar situações históricas. Embora, as liberações mentais de Keynes tenham ido longe, teve a cautela de ressaltar que enquanto não fosse ultrapassado pelo menos cem anos o tempo em que vivia, “seria conveniente fingirmos para nós mesmos e para os outros que o justo é mau e o mau é justo, pois o mau é útil e o justo, não. Ainda por algum tempo, nossos deuses continuarão sendo a avareza, a usura e a precaução. Pois, somente eles poderão conduzir-nos de dentro do túnel da necessidade econômica para a luz”.
Poesia presente
Aimê
(Kaoê Fonseca Lopes)
Na memória boas lembranças e aprendizado
No dia a dia, família presente para qualquer coisa, qualquer
A gente vai crescendo meio sem querer, mas o futuro bate à porta
Pode entrar










O debate ambiental, que esquentou, extraordinariamente, nas últimas semanas, em torno de MP 458 , aprovada no Senado, flexível em excesso quanto à ocupação da Amazônia, coloca em cena, fundamentalmente, a necessidade de condução política desse debate. Afinal, o tema envolve a sociedade em sua composição por classes sociais politicamente antagônicas no contexto dos interesses conflitantes em foco na agenda do meio ambiente, bem como do desenvolvimento sustentável geral. Trata-se de evoluir a discussão crítica às regras de representação política que implicará, por sua vez, em outra urgente necessidade, isto é, a remoção dessas mesmas regras. A razão é cristalina: elas criam, no ambiente de governabilidade eternamente provisória, falsas representações populares, no Congresso. Impedem, consequentemente, evolução democrática da consciência política social.
Tremenda incoerencia demonstra o governo Lula quanto ao assunto pela ausência de rumo político no trato para a questão, no momento em que o novo paradigma ambiental emerge a partir do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, despreendendo-se da inflexibilidade política unilateral do Partido Republicano, que, sob W. Bush, aterrorizou a questão do meio ambiente do ponto de vista ideológico.
O debate está afastado da comunidade, porque o poder comunitário é, insuficientemente, organizado. Melhor, programadamente desorganizado para facilitar a desorganização, que descarta posicionamentos políticos claros.
As lideranças políticas são umas durante as eleições e outras no período de suas administrações, em meio a um nepotismo historicamente construído que a Constituição de 1988 ainda não removeu inteiramente. Na prática, a falta de transparência é a norma e os jogos de interesses combinados prevalecem à margem da lei que fica no plano abstrato.
A mudança climática, que será debatida em Compenhague, em dezembro próximo, a fim de fixar Convenção do Clima, capaz de promover evolução relativamente ao Protocolo de Kioto, especialmente, quanto à fixação de limites para emissão de gases de estufa, leva posição brasileira tirada dos debates de cúpula e não da essência do pensamento democrático comunitário. Caso houvesse no país legislação eleitoral que envolvesse a comunidade no traçado do seu próprio destino, o papo seria outro.
Enquanto a CPI da Petrobrás tirou apetite político da oposição, porque poderia se enrolar nela, o presidente Lula deu passos decisivos, durante a semana, acompanhando políticas adotadas por seus colegas presidentes da Venezuela , Hugo Chavez, e Evo Morales, da Bolívia, de tomarem, rapidamente, posse das riquezas sul-americanas do petróleo, nacionalizando 100% das reservas petrolíferas do pré-sal. Acelerou, à moda de Getúlio Vargas, a intervenção do Estado na economia, abalada pela grande crise mundial, que colocou o setor privado de joelhos, sem condições de bancar o discurso da supremacia do livre mercado e do Estado mínimo, submersos em bancarrota, tornando-se meras fantasias ideológicas. O titular do Planalto permitiu ao ministro das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), divulgar informação sobre decisão soberana nacional de criar nova empresa estatal, possivelmente, Petrosal. Com ela, administrará a totalidade da riqueza trilhonária, estimada em mais de 80 bilhões de barris de petróleo, estendendo-se em faixa unitária que iria de Santa Catarina ao Espírito Santo, bombando, agora, no litoral do Rio de Janeiro. Criará fundo de responsabilidade social que canalizará bilhões de dólares para a educação, saúde e infra-estrutura, antecipando receita, na medida do possível, para entregas futuras de óleo aos compradores. Combinando tal movimento nacionalista com redução mais acelerada da taxa de juros, a fim de baixar o custo da dívida e salvar a indústria encalacrada no real sobrevalorizado, Lula, vestido de Vargas, torna-se foco internacional, enquanto a Petrobrás, dividida entre sócios privados(60%), BNDESPAR(10%) e governo(30%) perde poder relativo. Os acionistas da Estatal não seriam mais os beneficiários principais da riqueza do subsolo, mas o povo, constitucionalmente, proprietário dela. Tremendo tapa na cara das elites anti-nacionais.

Mas, também, se não der certo o terceiro mandato, pode pintar a garantia dele, não em 2010, mas em 2014. Já rola, inclusive, que Barack Obama teria convidado o titular do Planalto para ser o presidente do Banco Mundial, quando deixar o cargo.
Os dilmistas torcem por essa opção. Temem efeitos políticos transversais produzidos pela onda nacionalista, como é o caso do deputado José Geonoíno(PT-SP). Escolhido para relatar a emenda constitucional do terceiro mandato, apresentada pelo deputado Jackson Barreto(PMDB-SE) e rejeitada por não atingir quorum, mas não engavetada pelo presidente da Cãmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), que a encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça, José Genoíno promete derrubá-la por inconstitucionalidade. Sério?




Os petistas ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e a senadora e ex-ministra acreana Marina Silva, dançaram politicamente diante da charmosa liberal-conservadora senadora Kátia Abreu(DEM-TO), que aproveitou a divisão dentro da coalizão governamental para conquistar decisivamente a categoria dos ruralistas ao conseguir aprovar a MP 548 que flexibiliza a ocupação territorial na Amazônia, conferindo, paulatinamente, as bases do capitalismo amazônico. Se o poder do capital estiver atrás de uma mulher para representá-lo nas urnas em 2010, pela oposição, ela pode ser uma opção. O PSDB, depois disso, corre atrás dos ruralistas, ou seja, dela.
Se tivesse prevalecido, no Senado, o acordo que a colização governamental(PT-PMDB) armou na Câmara, a tarefa do presidente Lula, agora diante do problema, ao qual tem que dar resposta em menos de três semanas, seria menos espinhosa. Ficou politicamente mais complicada depois que Carlos Minc embarcou no discurso incendiário de Marina Silva. Na prática, o governo não tem discurso formado. Pragmatismo é o nome do negócio.
Se o presidente Lula foi obrigado a tirar Marina e colocar em seu lugar Minc, ao verificar que Minc é a representação exata de Marina à frente do Ministério do Meio Ambiente, cai na real de que Minc eterniza os problemas agudos que pensou ter removido quando colocou ele no lugar da senadora.