24 jun
2009Jornalismo não é comunicação
Aylê Salassié em 24/06/2009

Vejo, de imediato, que o jornalismo tem, como a maioria das áreas do conhecimento, competências específicas. Para aprendê-las passa-se quatro anos na Universidade; para exercê-las, com sabedoria, precisa-se de, pelo menos, mais quatro em atividade. A universalidade requerida para o seu exercício mantém, contudo, em aberto, um espaço exógeno, onde cruzam-se diversas áreas e campos do conhecimento, induzindo o entendimento de que qualquer profissional, com qualquer tipo de formação, pode exercê-la. Esse quadro tende a se agravar, ao situá-lo dentro do campo da Comunicaçao. A vulnerabilidade da profissão multiplica-se indefinidamente.
Poucos se dispõem a entender que o relacionamento do jornalismo com outras áreas constitui-se apenas numa interface, recurso de complementariedade, que sempre se buscou de, maneira diligente e zelosa: devemos estudar Filosofia? História? Sociologia? Economia? Política? Estatística? Enfim, esse enorme fardo de erudição agregado a inexperiência de vida termina por remeter à superficialidade a formação atual do jornalista. Assim a profissão está sempre submetida ao risco da descaracterização, quando reposicionada no campo da comunicação análises epistemológicas. Ignora-se que se trata de uma área de trabalho configurada e consolidada historicamente, cuja essência reflete a figura construída por Marx, quando fala da relação do homem com seu instrumento de trabalho. Segundo ele, “ é o martelo que se adapta à mao do trabalhador”, e não o contrário, ou seja a ferramenta reconhece o sujeito. Observa-se, contudo, que a profissão vem sendo tratada, de fato ao contrário, por essas centenas de cursos de Comunicaçao e, quiçá, de Jornalismo. Mercantilizados, roubam gradualmente dos vocacionados, na deficiência e nos desvios pedagógicos, parcela da essência da mais valia do trabalho .
Não podemos ser vistos como um banco de empregos para profissionais ou profissões que ainda não se encontraram no seu próprio campo de estudos e que confundem o papel complementar do conhecimento, mesmo que aceito como multidisciplinar , com a convergência profissional de uma experiência histórica globalizante. Os elementos de análise são outros, e os analistas devem ser os próprios sujeitos. Não se desconhece que a profissão de jornalista está, de fato, passando por uma grande transformação na sua concepção, nas suas práticas e nas suas ferramentas. São mudanças paradigmáticas que exigem qualificações muito mais sofisticadas e polivalentes. A mídia está a postos acompanhando essa quase ruptura – observe-se “quase”, porque há ainda muitos obstáculos a serem superados – que ocorre na área, e que, supostamente, abre espaços para outros se aproximarem dela ou para que busquemos naturalmente aportes em outros campos do conhecimento. Falta ainda muita clareza.
Erro histórico

Walter Isaacson – espero não estar enganado – ex-editor da revista Time, chamou de “{….}erro histórico envolver o Jornalismo no campo da Comunicaçao ¨{…}, porque a atividade apresenta características bastante pontuais, amarradas em técnicas, tecnologias, motivações e capacidade de compreensão e análise do comportamento humano em sociedade, que convergem para o seu perfil universalista, configurando-o na sua especificidade profissional. Essa suposta verdade induz à pergunta se devíamos separar então o Jornalismo da Comunicao? Ora, a Comunicaçao tem uma amplitude, que sobrepassa o jornalismo, e que por isso mesmo quase o defenestra ou o corrompe. O que parece faltar é uma definição mais clara do campo da Comunicaçao . Não existe este problema na área do jornalismo. As confusões sobre a profissão vem de aportes externos e alienígenas, que dentro de um curso de Comunicaçao pesam sobre a formação do jornalista. É preciso resolver essa pendência, que caminha em direção a uma pendenga, que reduz o jornalismo a um simples pilar, quando ele se posiciona social e metaforicamente como um suposto “Quarto Poder ou como instrumento de educação informal.
Nao sou corporativista, mas se todos praticam o corporativismo, e o pior , o fisiologismo profissional, então porque vamos nos abrir inconsequentemente para o mundo. Nenhuma profissão deixa livre o seu caminho para os jornalistas. Não temos o privilégio dos advogados de, ao redigir a lei, estender para si as competências de outras áreas. As mudanças nas leis do jornalismo que, em realidade, estão mal dimensionadas, são reivindicações de pessoas fora do jornalismo – porque o jornalista sabe exatamente a dimensão e as fronteiras do seu trabalho – ou de interesses corporativos estranhos, particulares e empresariais que não coincidem com o compromisso público da profissão.
Nós , professores, não devemos encerrar também a nossa preocupação com os alunos, a partir do momento em que ele recebe o seu diploma. Acompanhamos, algumas vezes de perto outras de mais longe, a sua trajetória, e deveríamos estar todo o tempo à disposição para ajudá-los dentro das nossas competências específicas e apoiá-los a se instalar profissionalmente para que ele, inspirado na filosofia da Comunicaçao – se é que existe – não desvirtue a sua própria formação e os cursos visualizem o cumprimento do seu compromisso social e público. Portanto, temos também uma responsabilidade inesgotável, com aqueles que, como dizia Saint Exupèry,“Tu te tornas eternamente responsável por aquele que cativas”, ou diria ainda, por aqueles que nos cativam também. Nossos estudantes de jornalismo e colegas profissionais demandam por seu espaço , por um posicionamento enquanto sujeito, no mercado, ou na sociedade. Cabe a nós orientá-los e protegê-los de maneira solidária.
Luta contra corporativismo

Portanto, neste momento, sou contra, a abertura da profissão. Ignorar isso, seria repetir a omissão dos sacerdotes em Jerusalém diante do comércio que se instalou na entrada do templo. Não sou contrário às conveniências, que transformamos em estratégias.Mas, o jornalismo em si precisa ter uma formação mais compatível com a sua própria e estrita – que é grande – responsabilidade dentro da divisão social do trabalho e participar da vida comunitária. Só assim sobreviverá. Temos de nos preparar , entretanto, para o fim do corporativismo , mas devemos fazê-lo, se de fato todos seguirem pelo mesmo caminho. As demandas sociais , as tecnologias disponíveis indicarão as competências intrínsecas ou para uma nova inserção social, ainda não amadurecida. Dos reformadores exige-se, por isso, bom senso. É delicado e perigoso ver a sociedade a partir dos “ghetos” que habitamos, às vezes fechados em nós mesmos. Espero que o nosso seja apenas um espaço físico dimensionado abstratamente, e não nos envolva congnitiva e etnocentricamente.
Devemos ser ainda realistas ante as ameaças ao jornalismo convencional a partir das bases da sociedade do conhecimento. O jornalismo se apropriou privadamente do “fato” (que ele chama ou não de “jornalístico”, segundo visões individualizadas muitas vezes também estereotipadas), transformando-o numa agenda social (Agenda setting), que contempla a conservaçao das estruturas dadas. Longe dessa possibilidade de fazer história, os cidadãos vão, entretanto, se apropriando aos poucos da vida social, por meio das novas tecnologias, e começa a tomar a iniciativa de registrar , de forma ampliada, multimídia (smartfone), o “fato” que protagoniza. Não podemos ter eternamente o monopólio da realidade, e não somos os únicos a produzir sentidos. Para produzi-los profissionalmente, necessitamos competência, que não se manifesta apenas no escrever, no falar ou no ornamentar – às vezes de expressão muito particular – a mensagem. Precisa-se de criatividade, competência, conhecimento e consciência clara para não repetir os erros do passado ou saber usar a plataforma da História, da Arte ou da Tecnologia para construir o futuro.
Temos ainda de nos mostrar cuidadosos diante das rupturas paradigmáticas, porque, somos humanos e o papel que nos cabe na produção social de sentidos é preservar a humanidade do homem, cujo individualismo e o narcisismo pós-modernizante pode tornar a convivência difícil, fazendo–nos retornar as “hordas” originais ou ao mundo hobbesiano do homem como “lobo do próprio homem”. Os paradigmas estimulam soluções novas, mas também podem funcionar como armadilhas. Seu mérito, é nos empurrar para o desconhecido. Não precisamos de garantias para promover mudanças, mas também não podemos esquecer que temos uma missão a cumprir; somos parte do interesse público, que nem sempre reflete o dominante.
Se observarmos com atenção, no site da Federaçao dos Jornalistas (Fenaj) existem muitas propostas de alterações e ajustes na profissão, conduzidas por projetos de Lei, em tramitação no Congresso Nacional: alguns encerram-nos dentro do campo da comunicação, outras nos redefinem dentro do nosso próprio espaço, e a mais polêmica, no momento, é a que estende a possibilidade do exercício das atividades jornalísticas a outras áreas profissionais. Devíamos ter um canal de acompanhamento dessas mudanças, para não deixar a responsabilidade apenas para as organizações sindicais, que passaram a pensar a profissão ideologicamente. Cabe a nós participar dessas discussões externas, juntos ou não com as representações corporativas, para que possamos, internamente, também nos posicionar como sujeitos nas mudanças previstas, e não apenas embarcarmos nas visões individuais ou correntes politizadas de significação, conduzidas por um ou outro eventual. Reflitamos parafrasticamente: se pensamos, e produzimos responsavelmente sentidos, logo existimos como jornalistas ou como educadores.
Visões de classes conflitantes
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O diploma formal apenas nos institucionaliza dentro da divisão social do trabalho, não significando obrigatoriamente, pelas características que envolvem hoje nossos cursos de graduação, que estamos, portanto, totalmente prontos para assumir qualquer responsabilidade em nossa área de formação. Várias profissões exigem formações complementares.
Entretanto , faz diferença sermos ou não vocacionados ou identificados com as propostas do jornalismo (ou da publicidade). De uma perspectiva segura como essa, não há porque temer a ingerência de “leigos” na área. Receosos devemos ficar sim com as interpretações falaciosas sobre a profissão no enorme campo onde se localizam aqueles que desconhecem as competências necessárias do jornalista para que essas pessoas possam ter acesso aos chamados produtos da mídia, e assim formar opinião sobre a vida social.
Pior ainda é quando essas mesmas pessoas tentam julgar a competência e o papel dos jornalistas. Não é tão óbvio , com pensam os ministros dos tribunais superiores , ter em mãos diariamente os produtos de mídia. Importante ou não acessá-los – é problema de cada um -, a mídia proporciona, contudo, aos intérpretes da lei aquela postura cobrada do presidente do STF, Gilmar Mendes, pelo ministro Joaquim Barbosa: É preciso sair às ruas, sr. Presidente. Ora, os jornais trazem as ruas para dentro das instituições. O problema é que, ciente e vaidosos da sua autonomia, dentro das instituições ninguém lê jornal.. Lê, no máximo, clipings(resumos especializados), somente o que interessa: o resto tem cheiro de povo, ou como dizia o ex-presidente Figueredo, … cheiro de cavalo. Na relação do Judiciário, especificamente, como o povo, perde o sentido a paráfrase de que “…se os ministros não vão ao povo, o povo vai aos ministros”. Por isso, para os ministros do Judiciário, cercados de liturgia, salários e mordomias que cegam e os distanciam muito do cidadão médio, recomendaria: Srs. Ministros, é preciso ler os jornais.
Mas, também , é preciso lembrar que, ao banalizar a profissão de jornalista, cuja função, exercida com responsabilidade e competência técnica específica – tem sido a de aproximar a populaçao do Estado e manter coesos os laços sociais - v. excias demonstram uma elevada insensibilidade com o processo e a divisão social do trabalho, que se resolvem por si, e não com a interferências de v. excias, que, sem contato com o povo nas ruas pouco ou nada têm para ensinar não apenas para a sociedade em transformação, mas sobretudo para os jornalistas que a ajudam a se transformar. Para a Ordem dos Advogados, o Supremo errou, ao suspender a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Errando ou não, está dito. Cabe a nós reescrever a profissão pelo não dito, que, na realidade, só nós profissionais do ramos conhecemos.









