História: primeiro operário, primeira mulher

A história registraria com destaque a Era Lula e a Era Dilma , se ela for candidata vitoriosa, como o primeiro e a primeira a chegar lá, operário e mulher, simbolos dos oprimidos sob o modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obraPesquisas, pesquisas, pesquisas. Caso Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, chegue à presidência da República pelo PT e aliados, sob coalizão governamental, a história registraria que o Partido dos Trabalhadores conseguira  proeza de colocar no poder o primeiro presidente operário e a primeira presidente mulher do Brasil na primeira década do século 21. As duas últimas pesquisas, Data Folha e Sensus, sinalizam, claramente, essa possibilidade, detonando, para valer, a campanha eleitoral. Por elas, a ministra avança sobre o campo do governador tucano de São Paulo, José Serra, e deixa para trás o também tucano mineiro, governador Aécio Neves, ambos, aparentemente, acertados, mas, essencialmente, separados, dada a falta de democracia partidária para escolha do candidato, algo que, também, ocorre no PT, pois Dilma é uma imposição imperial lulista. O avanço dilmista dá, ao mesmo tempo, chega prá lá no ambíguo PMDB, partido mais forte da aliança governista, mas que mais parece gigante com pés de barro, como demonstra sua situação delicada frente à CPI da Petrobrás. Pode, na aparência, tudo, mas, também,  pode, na essência, perder tudo, porque tem rabo de palha, passível de pegar fogo no episódio da investigação sobre a estatal do petróleo.

Configuram-se reais as chances de mudança qualitativa no processo político e histórico nacional. Justificaria o PT sua existência renovadora , ao deslocar, paulatinamente, do centro de decisões a carcomida elite tradicional escravocrata-conservadora, aliada do capital externo desde o descobrimento. Abriria e ampliaria espaço para a mão de obra operária masculina e feminina, politicamente organizada, mais valia que sustenta o capitalismo brasileiro em perigo diante da China na concorrência global  oligopólica e oligopsônica em marcha inexorável em meio à bancarrota financeira internac ional.

Para além das idiossincrasias circunstanciais , que evoluem no cotidiano da política ao sabor da inveja, da ganância, da esperteza, do oportunismo, da vaidade, da corrupção e do roubo deslavado em meio a uma estrutura político partidária em que os partidos são ficção – semelhantes à moeda fictícia especulativa global que implodiu na crise do subprime imobiliário nos Estados Unidos , espalhando destruição econômico-financeira geral – os estudantes de história, no ano 3.000, se Dilma Rousseff  faturar em 2010, conheceriam o princípio da renovação do poder político brasileiro.

Nesse princípio, o PT , evidentemente, não estaria livre das acusações piores possíveis no campo da anti-ética – dado que se desmoralizou completamente no episódio do mensalão – , mas teria, de forma incontestável, impulsionado mudanças nas correlações de forças políticas na sociedade brasileira sob bastão de uma Constituição que elevou o grau da conquista dos direitos humanos e da cidadania, embora, contraditoriamente, o próprio PT tenha negado a assiná-la em 1988.

O talento político de Lula pode estar aí. Ser o primeiro presidente operário deu-lhe o sabor dessa primazia. Sua insistência em Dilma talvez represente sua grande sensibilidade política de que a ministra está condenada pela história a experimentar tal sabor como missão do seu partido, como produto da força dos novos tempos, caso ela chegue lá.  As pesquisas Data Folha e Sensus sinalizam esse objetivo estratégico presidencial ao qual os petistas se alinham, sob a orientação tática do ex-deputado José Dirceu, de garantir o poder central e o controle do Congresso em troca dos poderes estaduais e municipais para os aliados. Combinaria  ação política realmente transformadora das instituições brasileiras , capazes de assegurar justa distribuição da renda nacional?

 

Voz majoritária

 

A força feminina ganha espaço em meio à crise global porque elas também estão sendo demitidas no calor da crise financeira global, engrossando críticas ao capitalismo financeiro neoliberal que dá seus últimos suspiros

Conta Dilma Rousseff, indiscutivelmente, com a vantagem de que o eleitorado feminino brasileiro corresponde a 51% do total. A consciência política feminina, em meio à crise global, que lança as mulheres no desemprego, como antes acontecia com os homens, tenderia a avançar mais rapidamente em busca de organização política para defender melhor distribuição da renda em termos sociais e espaciais no cenário político e territorial nacional.

Sensibiliza o eleitorado, ainda, a situação atual da ministra, em luta contra o câncer, como sensibiliza, também, o vice presidente canceroso José Alencar Gomes da Silva. Sua condição de cancerígena não apenas sensibiliza, mas, também, atrai solidariedade, algo que envolve a figura do vice em sua grande batalha pela vida. Na primeira declaração que fez depois dos exames das dores nas pernas como produto do efeito colateral da quimioterapia agradeceu a solidariedade nacional. Emocionou.

Somando o útil – a condição de ser feminina e de poder ser a primeira mulher presidente do B rasil – ao desagradável – o câncer linfático – , mas que gera atração emocional, que dá força espiritual e energética incomuns, em meio a uma sociedade altamente mística , Dilma Rousseff, caso as notícias positivas do seu tratamento evoluam – uma torcida de todos – , tenderia a empolgar um eleitorado tocado pela emoção da garra feminina. O negócio poderia ganhar tons de partida de futebol ou de uma maratona, com torcidas empolgantes na reta final, como aconteceu com a brasiliense Marizete dos Santos. Menina pobre da Ceilândia que brilhou na pista da sexta maior cidade do mundo, levantando a massa num belo domingo de sol e chuva.

O fecho das c ircunstâncias positivas, caso sejam formadas em torno da ministra, nos próximos meses, ganharia ainda mais importância pelo fato de que Dilma Rousseff comanda com energia de ferro e determinação o principal programa de investimentos do governo, que tem muita propaganda mas pouca realização até agora. Antes mesmo da crise, as previsões dos investimentos já contrastavam com os parcos resultados, como destacam os políticos, tanto da base aliada govenista, como os da oposição. A situação piorou consideravelmente depois de outubro de 2008, quando a bancarrota financeira emergiu para valer nos Estados Unidos.

O rítmo de banho maria do PAC – concluídas, apenas, 3% das 10.914 obras previstas -, comandado pela ministra, seria o grande teste dela para as urnas, vindo a ser a candidata da aliança governista. A CPI da Petrobrás, empresa responsável por mais de 40% dos investimentos contidos no PAC, responsável por puxar o grosso da demanda industrial brasilera, surge como empecilho. O falatório internacional contra a empresa começou semana passada depois de matéria publicada sobre o assunto no New York Times. Os negócios podres dentro da estatal pipocarão nos próximos dias. Diretores dela colocados por injunções políticas petistas e peemedebistas estão na corda bamba por conta de indícios de corrupção. A imagem da coalizão pode balançar negativamente.  Restaria a guerra entre as duas forças em conflito. Os podres da Era FHC, dentro da empresa, viriam, igualmente, à tona.

 

CPI anula governo e oposição

 

Ciro correu para os Estados Unidos para estudar melhor a situação mundial, a fim de afinar seu discurso para 2010. O discurso radical anti-capitalista teria chegado a sua hora com Heloísa Helena em 2010, na onda das mudanças internacionais em meio a crise global?Minas, o símbolo da síntese mineira, na figura de Aécio, fora do PSDB, seria o chamamento da unidade esgarçada pela crise, em meio à eventual bancarrota política do PSDB e PT-PMDB no cenário de implosão na CPI da Petrobrás?governador de São Paulo e a ministra da casa civil podem sofrer revezes na CPI da Petrobrás

 

 

 

 

Tanto o governo como a oposição, ou seja, tanto Dilma Rousseff como José Serra, se candidato tucano, afastando Aécio, poderiam sair chamuscados, abrindo espaço a um a discurso político radical. Este, na prática, está sendo germinado pelas categorias sociais altamente preocupadas com os efeitos da crise em forma de desemprego e desestabilização geral, especialmente, em meio ao real sobrevalorizado. Ou seja, instabilidade geral que detona as empresas exportadoras ao mesmo tempo em que abre as portas para o oligopólio e oligopsônio econômico e financeiro chinês movido pelos trilhões de dólares desvalorizados na carteira de portfólio da China que está chegando na América do Sul sobrevalorizando as moedas e sucateando as indústrias afetadas pela estratégia chinesa de trabalhar com moeda sobredesvalorizada.

Quem seria uma terceira voz, com discurso  diferenciado, a emergir na cena nacional, como síntese dos antagonismos em cena, expressos por situação e oposição sujas em uma mesma causa, a CPI da Petrobrás? Uma pregação mais radical, tipo Heloísa Helena, do P Sol, ou um Aécio Neves, como voz conciliadora mineira, desde que saia do ninho tucano? Ou ainda Ciro Gomes, do PS?

Na prática, excluídas abstrações, os candidatos se movimentam num contexto econômico nacional e internacional em que as chances brasileiras são reconhecidamente razoáveis, dado o potencial econômico nacional, de dispor de base industrial competente e matérias primas abundantes para abastecê-la. As vantagens comparativas brasileiras no ambiente em que mudou as relações e as deteriorações nos termos de trocas internacionais, evidenciam, cada vez mais, em favor do Brasil. Ou seja, condição requerida pelos capitais nacional e internacional, que se movimentam por meio de fundos de investimentos rumo à economia brasileira, gerando especulações esquizofrências, contra a qual alerta, inclusive, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles.

Se em meio a essa conjuntura, o governo Lula manobrar com inflação baixa e possível retomada do desenvolvimento que sinalize PIB, pelo menos positivo, esse ano, e promissor, no próximo, ano eleitoral, as chances de Dilma, se vencer o câncer, tenderiam a crescer. A estratégia de Lula e a tática de José Dirceu, que pensa o governo , embora esteja fora dele, teriam chances de emplacar, vindo a CPI da Petrobrás transformar-se em elemento neutro. Seria um dado necessário como condição adequada aos interesses tanto do governo como da oposição, no sentido de anulá-la. A ordem governista e oposicionista desembocaria na marchina carnavalesta: “Não faz marola, prá canoa não virar”.

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