Expropriação do quintal de Tio Sam

Os Estados Unidos, na grande crise mundial, que abala o dólar , não tem mais força de ditar as regras na América do Sul como se ela fosse seu eterno quintal, dado pela lógica de arrogante perpetuação de uma situação favorável aos Estados Unidos, agora, detonada

A reintegração de Cuba à OEA é a derrota dos Estados Unidos na OEA. É,  também,  na prática , a expropriação do conceito político que ganhou forma com o imperialismo unilateralista americano estabelecido para a região depois do Acordo de Bretton Woods, em 1944, quando os americanos saíram vitoriosos na segunda guerra mundial, com o dólar ultra-fortalecido, para determinar, pela força e pelo dinheiro, a nova divisão internacional do trabalho no pós-guerra.
 
Quatro anos depois de Bretton Woods, Washingon estabeleceria  para a América Latina, via OEA – Organização dos Estados Americanos –  , a nova ordem sob domínio do dólar. Ou seja, regras econômicas adequadas à expansão da economia americana na América do Sul e em toda a perifieria capitalista e no ex-centro do capitalismo, Europa e Inglaterra, que deixariam para trás o reinado da libra esterlina.
 
As Américas teriam que estar abertas ao capital americano em troca da paz mundial garantida, contraditoriamente, pela corrida armamentista, a fim de proteger o capitalismo e a democracia liberal da ameaça do comunismo soviético. A OEA é a armação político-ideológica para ancorar a política econômica americana para o continente.
 
A América Latina, nessa conceituação geoestratégica global de Tio Sam, mediante dólar poderoso, ajoelhou-se. Os sul-americanos, até então, desde os descobrimentos à segunda guerrra mundial, tinham rendido tributo à Inglaterra, à libra, ao padrão ouro do século 19 inglês. A bancarrota da libra, depois da primeira guerra mundial, intensificando sua fragilidade  no entre guerras, 1919-1939, abriu espaço ao dólar, depois da guerra.
 
As elites sulamericanas, no novo contexto, viraram seus interesses para Washington, esquecendo Londres. Cumpriram e continuaram a cumprir o seu papel: promover o desenvolvimento interno sob coordenação dos empréstimos externos e suas determinações pelos credores. Seguiram o mandamento de Ruy Barbosa – cabeçudo entreguista, segundo Glauber Rocha, em Myzérya do lyberalysmo”. Passaram a ancorar o conceito de liberdade não por intermédio da revolução francesa, mas por meio da revolução americana. A Constituição republicana brasileira copia as lições de Washington, adaptando-as às determinações dos interesses do dólar forte na América do Sul.
 
O quintal sulamericano se transformou em insignificância política e os antagonomismos foram contidos à bala. As ditaduras se repetiam como se fossem algo dado pela natureza da história. O pensamento americano, ancorado no dólar, ajustou a diplomacia regional ao comando washingtoniano, que patrocina a diplomacia de guerra, como contrasenso explícito.
 
Os ditames econômicos deixaram de ancorar-se em Londres. Transferiram-se para Chicago. A América Latina vira, nesse novo ambiente da divisão internacional do trabalho sob domiínio do dolar, américa latrina. Bebia toda a descarga de Washington.
 
A Casa Branca rejeitara Keynes e impusera sua moeda. O economista inglês, em Bretton Woods, queria driblar o poder do dólar. Em vez do dólar, pregou moeda global – o Bankor – para equilibrar o balanço de pagamento dos países nas relações de trocas internacionais por meio de um jogo de compensação geral. O equilibrismo conceitual keynesiano não vingou. Os interesses do dólar, vitorioso na guerra, falaram mais alto. A OEA sintoniza, sobretudo, com tais interesses, contra os quais Cuba se rebelou e foi expulsa do organismo.  A volta por cima de Cuba é a derrota da diplomacia do porrete.
 
 

 
Capitalismo x Comunismo
 
 
 

 

A OEA é produto da guerra fria que criou estrutura política e econômica ditatorial na América Latina para frear o avanço das forças produtivas em meio ao desenvolvimento das relações sociais da produção que excluia a maioria do consumo, fixando subconsumismo no capitalismo periférico

Os mandamentos básicos da OEA , contra os quais Cuba se rebelou, fincam-se nas determinações neoliberais anglo-saxonicos que impregnam o Acordo de Bretton Woods. Repudiam as orientações da esquerda , que tentou, desde o final do século 19, seguindo o 20 adentro, introduzir a dialética de Marx no lugar do mecanicismo econômico de Ricardo e dos economistas clássicos e neoclássicos ingleses, que criaram, no século 17, a economia política, a partir da qual dominaram o mundo com a libra esterlina.
 
Os soviéticos, que tentavam a transição entre capitalismo e socialismo, para chegar ao comunismo, conforme diz o programa básico de Lenin, fixado no XI Congresso do PCR, em 27 de março de 1922, seriam, aos olhos dos americanos, os inimigos a serem extirpados. Deveria acontecer com eles o que aconteceu com Zapata, no México. Extermínio.
 
A guerra fria é o mote diplomático guerreiro que justifica a criação da Organização dos Estados Americanos(OEA) – organização da ordem unida – , para difundir a democracia do capital norte-americano na América Latina. Cuba, em 1962, atravessara o samba de uma nota só americano neoliberal para a America do Sul via OEA. Tinha que cumprir o mandamento contra Zapata.
 
A expulsão de Cuba da OEA representou resposta americana aos que tentaram romper com as regras de Bretton Woods, para a política e para a economia, em combinações explosivas, na America Latina.
 
A expansão do capital americano na América do Sul voltou-se para orientações ditadas por Washington cujas características foram e continuam sendo a permanente concentração da renda, como estrutura básica dos modelos econômicos. As consequências das determinações de Bretton Woods foram polarizações políticas sinalizadoras de radicalismo. Este, por sua vez, emergiria como principal razão das elites conservadoras para resistirem às reformas políticas, tratando-as, apenas, no plano da abstração.
 
A criação da OEA coincide com a disposição de Washington de transplantar para a América do Sul, Africa do Sul, Ásia, Austrália e Nova Zelândia a indústria automobilística americana que entrara em crise em 1929, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”.
 
O consagrado economista conservador Eugênio Guddin, em suas memórias, chegou a chamar o presidente Juscelino Kubistchek de playboy esbanjador das reservas financeiras, porque estava pagando a mais o que poderia pagar a menos, para trazer para o Brasil as industrias automobilísticas, sucateadas pela crise de 1929, mediante vantagens fiscais e creditícias excessivas.
 
Ou seja, conforme Guddin, o governo americano, nos anos de JK,  tinha pressa para se livrar de um abacaxi podre, como, EM 2009,  quer se livrar do excesso de dólar, que apodrece em derivativos tóxicos, na grande crise mundial. Em vez de pagar barato, nos anos de 1950, JK pagou caro, como pode pagar caro o governo Lula, se a política do Banco Central continuar sendo a de acumular dólares em vez de utilizar os dólares acumulados em desenvolvimento interno, como faz a China pelo mundo afora, a fim de livrar do acúmudo que dispõe de moeda americana.
 
Se hoje o dólar vira moeda candidata a podre, em 1929, o excesso de automóveis era a expressão das mercadorias podres que deixaram de ter consumidores, depois do crash. Naquele ano, os Estados Unidos produziam 5 milhões de automóveis, com uma frota nacional de 27 milhões. Com o crash, a produção caiu para 900 mil carros produzidos. Somente 14 anos depois, em 1943, diz Lauro em “A crise completa – Economia Política do Não(Boitempo,2002), foi possível retomar os níveis de produção de 1929.
 
A partir daí, porém, a indústria automobilística e a de bens duráveis em geral, movidas pelo crediário, não eram mais o centro da dinâmica da reprodução do capitalismo, mas a guerra, bancada pela moeda estatal inconversível. Em 1944, o deficit americana alcançara de 173% do PIB, bancando a expansão econômica americana, mediante economia de guerra, produção bélica e espacial.

Materializava-se o recado que Keynes, em 1936,  deu a Roosevelt: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”.

Não deu outra. Enquanto isso, a sucata, a indústria automobilística, viria para o Brasil, Argentina, México etc, exigindo investimentos em estradas, energia, ou seja, juscelinismo sucateado, em meio a uma estrutura dependente de poupança externa, concentradora de renda e poupadora de mão de obra ,  cujo preço a  pagar representaria bancarrotas políticas que levariam o país à ditadura, financiada por Washington.

 
 
 

Decisão afeta EUA e a Cuba

 
 

Cuba e Estados Unidos estão condenados a subirem à mesa porque um negro americano não poderia deixar de negociar com os negros cubanos que sinalizam uma só especie humana que esteve marginalizada historicamente mas que os caminhos cruzam na história em contextos opostos e instigantesA OEA é, fundamentalmente, fruto dessa expansão econômica americana em nome do combate ao comunismo. O organismo expressa a arrogância americana, que, agora, 60 anos depois de Bretton Woods, rende-se aos fatos que determinam a fragilidade do dólar em meio aos déficits americanos que balançam as bolsas internacionais.
 
A cada da entrevista do presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernamke, o mundo financeiro vira de cabeça para baixo, demonstrando que o dólar deixa dúvida sobre sua capacidade de continuar sendo equivalente geral das trocas internacionais. Afetado pelos deficits americanos, que alcançam 15 trilhões de dólares, o alerta de Bernamke  traduz as limitações do poder financeiro de Tio Sam, que, outrora, determinou as regras no mundo, unilateralmente,.

Ben Bernamke, com seus alertas, é o anuncio antecipado de que novos abalos estão por vir onde os ícones do capitalismo desabam, como a GM. As bases de Bretton Woods apodreceram. Sendo filha de Bretton Woods, a OEA, igualmente, decompôs-se.

 A resistência de Cuba às políticas emanadas da OEA pelo dedo de Washington representou, sobretudo, resistência aos mandamentos do dólar nascidos em Bretton Woods, que, com a grande crise financeirra mundial em curso, 60 anos depois, deixa de ter utilidade.

Mas, a resistência cubana pode, a partir de agora, representar armadilha ao atual modelo cubano de centralização política do partido único – na clássica ditadura do proletariado leninista.
 
De um lado, a resistência de Cuba em retornar à OEA passa a ser a expressão da vitória cubana sobre os Estados Unidos. Significa passo inicial de rompimento diplomático da América Latina com o unilateralismo americano. De outro lado, porém, representa contradição para o regime de partido único a ordem multilateralista substituta da unilateralista que vigorava sob comando de Washington.
 
Ao detonarem os mandamentos da OEA, que inviabilizavam a união latino-americana, os integrantes do organismo detonaram, também, em grande parte, as razões que sustentaram em Cuba a ditadura do proletariado, onde sequer há parque industrial forte.
 
O partido único representa tese que gera a antítese, isto é, o fim da OEA. A síntese não seria, então, nem a tese, o partido único, nem a antítese, a OEA. Qual seria?
 
Se tanto a Unasul, como a Alba, como, também, a OEA passam a pregar o multilateralismo, não haveria como não discutir, dentro de Cuba, o multipartidarismo como produto dos antagonismos dentro do próprio regime.

Cuba, depois da ação da nova OEA, estará diante do seu maior desafio, tratar-se das suas próprias contradições, cuja superação emerge como energia, dialeticamente, arrebatadora.

A OEA impôs, na prática, mandamentos de mudanças tanto para os Estados Unidos como para Cuba, ao mesmo tempo em que se anula por falta de credibilidade histórica.