Corrida contra dólar, negócio da China

Os dólares chineses chegam ao Brasil para sobrevalorizar a moeda nacional e comprar ativos brasileiros enquanto o cambio chinês desvalorizada deslocam as mercadorias industrias brasileiras no mercado internacional, especialmente, no Mercosul. Grande negócio...para os chinesesQuem está correto: o governo chinês, que procura se livrar dos dólares que tem acumulados em carteira, comprando ativos pelo mundo econômico emergente, no caso o Brasil, ou o governo brasileiro, que insiste em acumular a moeda americana que os chineses tentam vender como ouro em meio ao mercado que vê o dólar como ativo a ser descartado no ambiente da bancarrota financeira global?

O movimento dos dólares, cuja confiança é nula, caminhando para intensificar-se, no cenário de volatilidade geral dominado pelo excesso de moeda americana em circulação, demonstra a fuga dos investidores para outros ativos. Ocorre, claramente, uma corrida contra o dólar.

Assim como nos anos de 1980 as moedas dos países da periferia capitalista entravam em colapso quando os  especuladores saiam delas para o dólar, deixando os governos  periféricos em colapso financeiro, agora, emerge o oposto. É o dólar que assusta  os que dispõem dele em grandes reservas, como é o exemplo chinês.

Durante a reunião do G-20, em Londres, as autoridades monetárias chinesas começaram a reivindicar nova moeda mundial. Seria um neo-Bankor, a moeda imaginada por Keynes, em 1944, para ser a conversora monetária global capaz de promover equilibrio homogêneo no balanço de pagamentos internacional. 

Os americanos, com o dólar forte, descartaram a imaginação criativa keynesiana. Agora, 60 anos depois, com o dólar podre em marcha batida, os chineses ressuscitam o grande economista britânico. Estão convencidos de que a fragilidade da moeda de Tio Sam, afetada pelos deficits  acumulados desde a segunda guerra mundial, para sustentar a Era Americana sob o dólar sem lastro real – apenas ancorado nas bombas atômicas –  está indo para o brejo.

Nesse contexto de total incerteza em face dos quase 3 trilhões de dólares acumulados em portfólio, os chineses saem às compras. Devastação. Temem a desvalorização. Promovem transferência maciça de dólares da praça chinesa para outras praças, deslocando as moedas locais, valorizando-as. Agridem o mercado de tais praças mediante câmbio chinês desvalorizado, para bombar exportações chineses aos países cujas moedas são valorizadas pelas compras chinesas.

O presidente da CNI , deputado Armando Monteiro Neto, que prega saída da crise pela produção industrial, sem focalizar o consumo, como se esse fosse alheio àquele, está desesperado com a agressividade chinesaA Argentina é o exemplo. Lá , os produtos brasileiros, valorizados pelas compras chinesas, perdem competividade para os produtos da China. Na Venezuela, idem, os chineses deslocaram os fabricantes de celulares de São Paulo. A Confederação Nacional da Indústria desespera-se em face do fenômeno chinês.

Estariam errados os chineses, que fogem dos dólares e estimulam suas exportações mediante política monetária intervencionista, desconhecendo, totalmente, o predicado neoliberal favorável ao câmbio flutuante, ou estariam certos os brasileiros que caminham pelo lado oposto, ou seja, correm para os dólares, que desestimulam as exportações, enquanto acreditam na ficção do câmbio flutuante?

O Banco Central brasileiro acumula dólares, enquanto as obras de infra-estruturas estão , praticamente, paradas, contribuindo para o desemprego crescente; já o Banco Central chinês joga os juros no chão e desova dólares para faturar no juro alto brasileiro e nas reservas do pré-sal. Se os chineses não estão acreditando no dólar, por que seriam os brasileiros os bobos a acreditarem? Irritante.

 

Descrença de si mesmo

 

Os chineses, cheios de dólares, estão tentando livrar-se deles no compasso da desvalorização da moeda americana que sinaliza hiperinflação mundialO governo brasileiro, ao contrário, do governo chinês, acredita menos no real, moeda que tem garantia, do que no dólar, que não tem garantia alguma. O que é o pre-sal , senão esse lastro real, que deu musculatura ao Brasil em plena crise global? E a biodiversidade infinita, a extensão territória para a produção agrícola com regime de chuvas regular que assegura até três safras anuais, a base industrial satisfatória, os minérios abundantes necessários à manufatura global, os biocombustíveis, tudo que o mundo rico, empobrecido pela especulação , não tem?

Os chineses, tentando desovar seus dólares em processo de desvalorização, comprando ativos brasileiros, mostram acreditar mais no real do que no dólar, enquanto o governo brasileiro vai na direção contrária, isto é, aposta no dólar, em vez de fortalecer o real, investindo o dólar disponível na infra-estrutura nacional, como faza China, antes que a moeda de Tio Sam possa desvalorizar ainda mais aceleradamente.

Não são os 200 bilhões de dólares de reservas a garantia real brasileira contra a crise. Essa moeda está bichada, como demonstra a ação chinesa. Segredo de polichinelo. 

A verdadeira garantia são as reservas petrolíferas da Petrobrás, as reservas minerais do empresário Eike Batista, do qual os chineses passaram a ser sócios.  Em entrevista ao programa de Maria Gabriela, Eike destacou que o Brasil é a maior garantia do mundo para o capitalismo em plena crise. Parece que só o Banco Central não acredita. Ou está fazendo o jogo do dólar desvalorizado para vender o Brasil mais barato? A jogada meirelliana é um negócio da China para os chineses.

Predomina ainda a crença, difundida à larga pela grande imprensa, no conceito de investimento difundido especulativamente até o estouro da crise em outubro de 2008. De lá para cá, o conceito envelheceu. O capital externo estava reticente em deslocar-se para os países emergentes, porque as oportunidades de ganhos na especulação sobre a moeda fictícia nas praças globais eram melhor negócio.

Eike, com Gabi, mereceu apoio dos dólares chineses, mas não dos dólares das reservas brasileiras. Quem foi mais esperto?Com o estouro do mercado imobiliário, bombado pelos derivativos dolarizados, reverteu o quadro mundial, incendiando o mercado financeiro. A qualidade do conceito de investimento mudou. Mas, todos fazem de conta que tudo continua numa boa, como antes no quartel de abrantes.

O movimento especulativo das últimas semanas, em que os detentores de dólares, que se desvalorizam, se transferem em massa para os emergentes, visto que as possibilidades de ganhos fáceis acabaram no capitalismo cêntrico, é saudado como retomada dos investimentos, quando na verdade é pura fuga do dólar.

A temporada de caça contra a moeda americana acelerou-se.  Os chineses estão na frente dessa corrida, pois estão cheios de dólares que se candidatam à desvalorização. Só o governo Lula acredita que é bom negócio acumular as verdinhas, enquanto falta infra-estrutura no país para sustentar desenvolvimento equilibrado. Show de incompetência da elite nacional aliada ao capital externo estourado pela grande crise internacional.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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