13 jun
2009Nacionalismo petroleiro sul-americano
Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 13-06-2009

Enquanto a CPI da Petrobrás tirou apetite político da oposição, porque poderia se enrolar nela, o presidente Lula deu passos decisivos, durante a semana, acompanhando políticas adotadas por seus colegas presidentes da Venezuela , Hugo Chavez, e Evo Morales, da Bolívia, de tomarem, rapidamente, posse das riquezas sul-americanas do petróleo, nacionalizando 100% das reservas petrolíferas do pré-sal. Acelerou, à moda de Getúlio Vargas, a intervenção do Estado na economia, abalada pela grande crise mundial, que colocou o setor privado de joelhos, sem condições de bancar o discurso da supremacia do livre mercado e do Estado mínimo, submersos em bancarrota, tornando-se meras fantasias ideológicas. O titular do Planalto permitiu ao ministro das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), divulgar informação sobre decisão soberana nacional de criar nova empresa estatal, possivelmente, Petrosal. Com ela, administrará a totalidade da riqueza trilhonária, estimada em mais de 80 bilhões de barris de petróleo, estendendo-se em faixa unitária que iria de Santa Catarina ao Espírito Santo, bombando, agora, no litoral do Rio de Janeiro. Criará fundo de responsabilidade social que canalizará bilhões de dólares para a educação, saúde e infra-estrutura, antecipando receita, na medida do possível, para entregas futuras de óleo aos compradores. Combinando tal movimento nacionalista com redução mais acelerada da taxa de juros, a fim de baixar o custo da dívida e salvar a indústria encalacrada no real sobrevalorizado, Lula, vestido de Vargas, torna-se foco internacional, enquanto a Petrobrás, dividida entre sócios privados(60%), BNDESPAR(10%) e governo(30%) perde poder relativo. Os acionistas da Estatal não seriam mais os beneficiários principais da riqueza do subsolo, mas o povo, constitucionalmente, proprietário dela. Tremendo tapa na cara das elites anti-nacionais.
Potencia mundial. País emergente que mais rapidamente sairá da crise, cuja duração ninguém garante nada. Porto mais seguro para os investidores internacionais que se encalacraram na grande crise financeira que paralisou as economias americanas e européias etc. Esses são adjetivos bombásticos com os quais a imprensa internacional passou a considerar o Brasil, que, no auge da crise, tomou medidas nacionalistas no crédito para sustentar produção e consumo, fortalecendo o sistema financeiro estatal e empurrando contra a parede o sistema financeiro privado, resistente à queda da taxa de juro, embora em situação qualitativamente superior aos bancos europeus e americanos, sem balas na agulha.
O resultado da onda nacionalista, por enquanto, registrou queda – 1,8% – do PIB inferior à que os analistas previram – 2,5%, 3% até 4% – para o primeiro trimestre. Não foi dada continuidade ao desastre do quarto trimeste de 2008, queda próxima de 5%. Não rolou catastrofismo. Os tucanos estão desesperados. A economia vergou-se, mas não quebrou, segurou toalha encharcada.
Por isso, em plena crise, o Ibope apura que o titular do Planalto está com a popularidade acima de 90%, ao mesmo tempo em que a candidata que escolheu para sucedê-lo, em 2010, ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, alcança os 20%, reduzindo distância relativamente ao favorecido pela opinião pública para suceder o presidente, isto é, o governador tucano de São Paulo, José Serra. A CPI da Petrobrás, em meio ao nacionalismo econômico, esvazia-se.
Ameaçado de degola

O fato é claro: está dando ibope a onda nacionalista, que embala Dilma e fortalece o senador Lobão, politicamente, no contexto da coalizão governamental, na qual o PMDB é mais forte. Todos os políticos correm para ela.
Os empresários, pré-falidos, idem, desejam proteção contra a China, que está espalhando dólar no mundo para desvalorizar moedas nacionais a fim de que os produtos chineses penetrem com mais facilidade competitiva com seus dólares. São amplamente favorecidos com os juros positivos brasileiros, que atraem dólares desvalorizados para comprar ativos valorizados nas terras tupiniquins, graças ao monetarismo entreguista ainda vigente no Banco Central, sob comando do banqueiro internacional , Henrique Meirelles.
Quebram os chineses o setor produtivo, tomam o mercado e ganham no juro real de 4% ao ano, que pode levar o governo à moratória. Vigora no Brasil situação inversa à enfrentada pelos países outrora mais ricos que, precisando gastar para puxar a demanda privada, jogaram os juros no chão, tornando-os negativos. Se fossem mantidos positivos os juros no capitalismo cêntrico, entrariam, como os bancos privados, em bancarrotas irremediáveis, sinalizando hiperinflação mundial, neo-repúblicas de Weimar, cujos efeitos foram nazismo e fascismo.
Se nas próximas reuniões do Copom, a redução dos juros não for maior ainda do que 1 ponto percentual, que colocou a selic na casa dos 9,25%, mantendo taxa real de 5%, exagerada, excluída a inflação de 4,5%, o presidente Meirelles estará com a cabeça colocada a prêmio, em meio à onda política nacionalista em marcha.
Os juros meirellianos continuariam atraindo fortemente os dólares, principalmente, chineses que estão sobrevalorizando as moedas nacionais e levantando a ira dos industriais. Como as materias primas, em meio à desvalorização da moeda americana, valorizam-se, relativamente, em comparação aos produtos manufaturados, que se desvalorizam no ambiente da competição internacional acirrada, tem-se motivo adicional para depreciar o real e jogar as exportações brasileiras no chão, configurando desastre, como destacou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.
Desesperados, os empresários , nesse ambiente, estarão desempregando por não poderem exportar, enquanto são enganados pela ideologia neoliberal nas falsas benesses representadas pelo câmbio flutuante, puro fetiche em meio às intervenções seguidas do BC. Estas não seriam suficientes, se os juros não continuarem caindo em meio à resistência do monetarismo meireliano, acrescido do potencial brasileiro que se tornou irresistível para os investidores internacionais. Sem a especulação, não poderão mais continuar a reprodução ampliada do capital sobreacumulado. Enfim, nada mais contrário ao nacionalismo econômico em marcha, responsável, não apenas para tornar a economia aparentemente mais resistente e favorecer Dilma, mas, também, dar sobrevida aos defensores do terceiro mandato lulista.
Dia do Fica

A onda está tão favorável ao presidente Lula, em ímpeto nacionalista, que quanto mais ele fala que já está com saudade do poder, repetindo Getúlio Vargas, a fim de descartar, sem maiores energias, o movimento político favorável ao terceiro mandato, mais espalha desconfiança no oposto, isto é, que ele poderia ficar para o que der e vier, se o povo mobilizasse para eventual repeteco não do Dia do Fico, mas do Dia do Fica.
Sua aparente prematura saudade do poder, se for verdade a assertiva de Freud, copiada de Talleyrand, de que as palavras servem para esconder o pensamento, representaria , ao contrário, sua vontade de continuar no poder. Vontade, porém, nem sempre, é poder.
Os que lutam pelo terceiro mandato, contudo, fortalecem , por sua vez, a onda nacionalista que Lula comanda, conferindo-lhe prestígio nacional e internacional e, consequentemente, engrossam o movimento fiquista.
As alternativas para Lula, no comando de política econômica nacionalista - à qual Henrique Meirelles deve , ao reduzir os juros mais rapidamente, que aderir, para não cair, abrem vastas possibilidades políticas.
Pode pintar movimento popular em favor de terceiro mandato, principalmente, se o PIB reagir mais positivamente nos próximos meses, mediante aceleração de investimentos em políticas sociais, abertos pela possibilidade de antecipar recursos mediante lançamento da estatal Petrosal.
Bolsa Família Mundial
Mas, também, se não der certo o terceiro mandato, pode pintar a garantia dele, não em 2010, mas em 2014. Já rola, inclusive, que Barack Obama teria convidado o titular do Planalto para ser o presidente do Banco Mundial, quando deixar o cargo.
Claro, Lula faria o Bolsa Família mundial e teria garantida sua volta em 2014, pelas mãos de Obama, esteja na presidência forças governistas ou oposicionistas. Por sua vez, o titular da Casa Branca estaria, com Lula no BIRD, dando novo rumo à política externa americana, exportando política social, a fim de melhor o prestígio americano no mundo, que está mais por baixo que calcinha de madame, como diria Stanislaw Ponte Preta. Teria grandes chances de conseguir segundo mandato nos Estados Unidos.
Os dilmistas torcem por essa opção. Temem efeitos políticos transversais produzidos pela onda nacionalista, como é o caso do deputado José Geonoíno(PT-SP). Escolhido para relatar a emenda constitucional do terceiro mandato, apresentada pelo deputado Jackson Barreto(PMDB-SE) e rejeitada por não atingir quorum, mas não engavetada pelo presidente da Cãmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), que a encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça, José Genoíno promete derrubá-la por inconstitucionalidade. Sério?
Com as barbas de molho

O processo político interage totalmente com a onda econômica nacionalista lulista em marcha em meio à inversão do discurso econômico para o discurso social, a ser assegurado , provavelmente, pelo dinheiro do petróleo, como prometeu o ministro Lobão, ao adiantar a criação de fundo de investimento em educação , saúde , com recursos carimbados, na ordem de até 5 bilhões de reais.
A onda nacionalista em cima do crédito e do petróleo, em plena crise, como resultado natural decorrente da bancarrota privada, vai abrindo novas expectativas e perpectivas para a economia e para a política, tornando o presidente Lula mais forte em sua queda de braço com as forças resistentes.
Os grandes bancos privados e os acionistas priv ados da Petrobrás, que terão redução dos seus rendimentos, em meio à redução da taxa de juros básica, redutora, por sua vez , do tamanho da dívida pública interna, colocam suas barbas de molho.
Configura-se maior força financeira e política ao governo para confrontar o oligopólio financeiro dos bancos privados, cuja contribuição à política anticíclica governamental, no primeiro momento da eclosão da grande crise, foi um zero à esquerda.
Não só recusaram os grandes bancos a contribuirem com a solicitação governamental para ajudar os bancos menores encalacrados na crise, com dinheiro dos depósitos compulsórios, como fizeram pior, ou seja, jogaram os compulsórios na especulação, comprando papéis do governo, para ganhar nos juros selic, na especulação.
A resposta lulista, de fortalecer o sistema financeiro estatal – B anco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES – , inviabilizou queda mais forte do PIB. Consequentemente, baixou o facho da banca. Ela não deu um pio com a redução de 1 ponto percentual na taxa selic. Se cair mais 2 pontos percentuais, em vez de chiar, a banca pode ler sinal de que enfrentar o nacionalismo financeiro estatal poderia ser uma fria.
Na prática, ao intervir no crédito à produção e ao consumo, ao mesmo tempo em que jogou o orçamento da Petrobrás para assegurar continuidade às obras do PAC, afetado pela diminuição da arrecadação tributária, Lula fez com relativo sucesso, até agora, o que os governos americanos e europeus não conseguiram fazer, porque o sistema financeiro privado na Europa e nos Estados Unidos faliu e os bancos estatais , atuando no varejo, inexistem, como arma alternativa à suspensão do crédito em meio ao maremoto dos derivativos imobiliários dolarizados. O exemplo do BNDES pode transformar-se em modelo mundial, como prevêem os argentinos.









