08 mai
2009Real desbanca dólar sob ataque especulativo
Categoria: (Economia) por Cesar Fonseca em 08-05-2009

A valorização do real frente ao dólar, durante a semana, no momento em que os poupadores das cadernetas sacam R$ 1,5 bilhão no caixa, com medo de ataque a eles pelo governo ou porque precisam deles para cobrir suas dívidas afetadas pelo desemprego, colocou em cena a expectativa e desconfiança globais relativamente ao resultado que seria obtido pela tentativa do presidente Barack Obama de salvar da falência, sem estatização bancária, os bancos privados, outrora mais fortes dos Estados Unidos, agora, garroteados pela bancarrota financeira internacional. Indiscutivelmente, é o assunto mais palpitante do mundo na debacle da financeirização econômica neoliberal global.
Como o mercado, com as barbas de molho, especula sobre a verdadeira capacidade de os bancos passarem no teste de estresse aplicado pelo Banco Central dos Estados Unidos, os detentores de dólares continuam altamente desconfiados, predispondo-se a buscarem ativos mais seguros, embora 10 dos 19 testados, mediante apoio financeiro governamental, tenham se saído mais ou menos, deixando dúvidas generalizadas. Temem os americanos que a banca privada, se sair do colo estatal, onde se encontra baleada, não poderia andar sozinha. Vigora firme o dirigismo estatal americano que ganha colorido chinês no modo de conduzir o capitalismo.
Há, por isso, tendência à fuga do dólar, especialmente, para os emergentes, que, dessa forma, vêem suas moedas valorizadas frente à moeda americana, como está sendo o caso brasileiro. Suficiente em abundância de matérias primas para as manufaturas em geral, terras que asseguram até três safras anuais , petróleo e etanol, biodiversidade infinita, além de base industrial competitiva e mercado interno amplo, o Brasil vai chamando a atenção em plena crise. Por duas vezes, durante a semana, o Banco Central teve que jogar água na fervura, sacando reais para comprar verdinhas encardidas , a fim de reanimá-las.
Os exportadores brasileiros já seguem as tendências maiores do mercado em franca especulação contra o dólar, que pode sofrer novos abalos, se intensificar a desconfiança nos bancos privados, semi-estatizados, como forma de manterem vivos. Ao contrário de antes de outubro do ano passado, quando começou a crise, os exportadores deixaram de acumular dólares ou manter os créditos junto aos importadores. De repente, começaram a correr do dólar para o real, diante da sensação de perda psicológica.
O inconsciente instintivo do empresário deu alerta sobre o perigo de os bancos americanos sucumbirem, jogando o dólar no chão, caso retarde demais a estatização bancária, para aliviar as tensões do mercado. Como este deixou de acreditar em si mesmo, passando a torcer e a clamar pelo socorro estatal, busca desovar seus dólares, quanto mais o teste de estresse aos bancos, aplicado pelo governo, sinaliza desconfianças na capacidade deles voltarem a ser saudáveis sem o colo do Estado americano dirigista à moda da China. É como se o sistema vivesse a expectativa de um pré-dilúvio, tendo Barack Obama comandando nova Arca de Noé.
Além dos exportadores, os fundos de investimentos estão recebendo ordens dos aplicadores para sairem dos dólares e comprarem ativos nos países emergentes. O movimento levou o FMI a divulgar relatório de que a novidade econômica de 2009 poderá ser a resistência dos países emergentes sul-americanos, diante da paralisia econômica européia e americana. Motivos para os dólares e derivativos empoçados se dirigirem para as praças emergentes, valorizando as moedas nacionais.O movimento até tem jeito de calote.
Corrida aos emergentes

O medo de reter dólares em meio ao teste de estresse dos bancos americanos valorizam as demais moedas , quanto mais os que acumulam a moeda americana buscam dela se safar para adquirir outros ativos. As informações de que investidores , em larga escala, estão comprando terras no oeste da Bahia, maior espaço mundial para plantio de leguminosas exportáveis, colocam os fundos de investimentos na linha da especulação com ativos nos países emergentes, como fator de reprodução do capital que está sem onde aplicar depois do estouro financeiro nas praças americana e européia. Nelas, ele está ocioso e sucumbindo-se à eutanásia do rentista sob juros negativos em nome da reanimação do consumo e da produção.
Não haveria, para esse capital sobreacumulado, possibilidade de reproduzir-se na construção da infra-estrutura européia e americana, onde ela está bem edificada ao longo dos últimos cinquenta anos, destacam analistas internacionais. Do mesmo modo, os gestores dos fundos perceberam que com o ímpeto anti-consumista que toma conta da Europa e dos Estados Unidos, no auge da bancarrota financeira que paralisou o crédito, os rendimentos das ações dificilmente voltariam a ser o que eram na escala altamente consumista, como destacou aos seus acionistas o empresário mais rico dos Estados Unidos, Warren Buffett, no final da semana passada.
Restariam outras alternativas ao capital especulativo, que está se desvalorizando rapidamente, depois da bancarrota, na qual, calcula-se perdas de mais de 8 trilhões de dólares pelas famílias. A mais importante delas, segundo Buffett, seria a oportunidade dos investimentos em infra-estrutura nos países emergentes, onde quase tudo ainda está por fazer. Do contrário, seus acionistas tenderiam a entrar em perdas maiores, porque não haveria lucratividade nem na especulação bursátil diante de empresas cujos produtos perdem mercado diante na onda anti-consumista em marcha nem na mera formação das bolhas especulativas, animando setores econômicos, para gerar riqueza fictícia, como predominou até à implosão especulativa global.
No novo cenário, os fundos buscam transferir, agora, os dólares e derivativos tóxicos que perderam valor na praça capitalista rica, para a praça dos emergentes. Comprariam nessa praça próspera os ativos reais que os seus ativos fictícios não compram mais na praça do primeiro mundo em bancarrota.
A valorização das moedas dos emergentes começa a ser construída pelo novo movimento dos fundos de investidores que atuam em escala global , bombando possibilidades para sustentar a reprodução do capital acumulado na especulação. Na prática, vê-se uma corrida contra o dólar.
Nova bolha especulativa



Configura-se, claramente, que o governo Barack Obama , como destacou o premio nobel de economia Edmund Phelps, não conseguirá sair sozinho da crise. As informações generalizadas nesse sentido, concorda ele, criam o ambiente de desconfiança que condena os bancos à danação, salvo se o governo ajudar.
O sarcasmo dos americanos demonstra o estado de espírito nacional. Antes de deixar o poder, W. Bush, em desabafo perante os banqueiros, disse que o mercado financeiro passara a viver tremenda ressaca. Era a consagração da verdade do fracasso da união do estado americano com a banca privada, que comanda o Banco Central dos Estados Unidos, desde sua criação, em 1913, pautada pelo pensamento neoliberal avesso a qualquer regulamentação.
No plano das finanças, Washington tornou-se totalmente neoliberal, para livrar o capital de qualquer freio à sua própria acumulação, enquanto no plano econômico, continuou mantendo posição protecionista para sustentar setores que perderam a competitividade global.
O requiém final da era neoliberal republicana americana sob W. Bush é o requiém do sistema financeiro que Barack Obama herdou. Sua tentativa de transformar o funeral da bancocracia privada em festa de ressurreição dela coloca o mercado mundial, mergulhado no excesso de moeda americana e seus derivativos tóxicos empoçados, como quem possui brasa no bolso.
No Brasil, a fuga do dólar poderia afetar a política monetária do Banco Central no sentido de tornar desnecessária sustentação do juro elevado, para valorizar o real, atraindo especuladores para os títulos públicos, a fim de bancar investimentos anticíclicos estatais, porque, simplesmente, essa valorização começa a ser dada por outros meios, essencialmente, pela desconfiança dos fundos de investimentos no próprio dólar.
O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, notório especulador internacional, deu o sinal da nova onda que se forma no rastro da fuga do dólar e da consequente valorização do real ao destacar que as ações na bolsa passaram a ser os alvos dos fundos internacionais.
Se ocorrer corrida dos fundos, trazendo dólares ao país, ao mesmo tempo em que o BC sustenta juro favorável ao especulador nos títulos do tesouro, pintaria supervalorização cambial. Seria o claro sinal de que o Brasil – entre os emergentes – poderia se transformar em nova bolha global.












O Banco Global seria o irrigador e o enxugador da circulação monetária global em nome de uma nova orientação à qual os americanos teriam que subordinar, porque, simplesmente, o governo Barack Obama não teria condições de, sozinho, sem a cooperação internacional, enxugar os créditos tóxicos que o sistema financeiro americano falido jogou na praça global, afetando toda a circulação e interrompendo o fluxo de comércio.
O multilateralismo, no novo contexto estabelecido pelo G-20, para tirar o capitalismo da asfixia financeira, seria ideologicamente útil para os Estados Unidos, como demonstra a política externa de Barack Obama, de sinalizar distensões, ampliar cooperações , para tentar encurralar as forças unidas do sistema financeiro internacional com a indústria da guerra bancada pela expansão dos gastos públicos. A contabilidade americana expressa em deficit de mais de 4 trilhões de dólares esgotou.
O estresse deficitario financeiro americano dificilmente suportaria pressões para priorizar a guerra quando a prioridade nacional, do ponto de vista da população, seria tirar a economia que, desde o pós segunda guerra mundial, depende da expansão dos gastos com guerra, para formação e solidificação do Estado Industrial Militar Americano, conforme caracterizado por Eisenhouwer, em 1962. A economia de guerra que dependeu fundamentalmente do poder americano de emitir moeda sem lastro ao longo de todo o século passado encontrou seus limites na grande crise financeira internacional.
O jogo especulativo de valorização da moeda determinado pelo juro altamente positivo praticado pelo Banco Central, cujos efeitos são redobradas incertezas que garantem juros extorsivos ao consumo e à produção, aprofunda as contradições nas relações politicamente explosivas do orçamento financeiro e do orçamento não-financeiro no contexto do orçamento da União. Tal divisão foi realizada pelo Consenso de Washington, depois da crise monetária dos anos de 1980, para estabelecer prioridades explícitas da política econômica.
O presidente Lula busca reduzir os pagamentos dos juros, diminuindo economia para fazer superavit primário, mas o excessivo endividamento, na casa de R$ 1,3 trilhão, produz, em seu movimento vegetativo, uma despesa crônica, cujas consequências são as resistências dos grandes bancos em embarcarem na redução dos juros. A sucessão, em decorrência disso, já fixa hora e lugar do confronto entre o governo e o sistema financeiro.